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Full text of "Censura das Lusiadas"

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Fbor j 



Presented to the 

LIBRAR Y of lhe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Sianton 



x 



Digitized by the Internet Archive 

in 2010 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/censuradaslusiadOOmace 



' 



CENSURA 

D A_S 

U S I A D A S 

POR 

JOSÉ' AGOSTINHO DE MACEDO 




, Tolluntur in altura , 

Ut lapsu graviore ruant. 

Claud. 



TOMO L 





LISBOA: 

Na Impressão Regia. Anno 1820 



Com Liccn$a> 



■ 
• - 



INTRODUCCAO. 



D 



es de o momento em que na Repu- 
blica das letras appareceo o Poema Ori- 
ente , de hum lado a outro lado da Ter- 
ra não se escutou mais do que hum gri- 
to uniforme , e universal que annunci- 
ava injurias, e ultrages feitos ao Gran- 
de Poeta Luiz de Camões ; porque ( di- 
zia este clamor) o Autor do Oriente 
quiz emendar as Divinas Lusiadas. is- 
to se disse , e se imprimio em Portu- 
gal , isto se publicou em Inglaterra , is- 
to se declarou em Jornaes impressos em 
França com estas bem notáveis frases , 
que eu fielmente traslado : " A Poesia 
' y Épica não renasceo com o Poema 
9 \ Oriente, cujo Autor em vão intentou 
" emendar Camões \ e desapossallo do 
;j eminente lugar , que por Nacionaes 9 
- e Estrangeiros lhe foi justa , e uni- 
7? versalmente assignado no Parnaso. " 
A voz destes Jornalistas he a voz ge- 
ral de todos aquelles que buscarão hum 
pretexto para responder a ataques , que 

a 2 



4 I N T R O D U C Ç Ã O. 

não tinhão nem terão resposta. Parece 
que pedia a boa razão que se produ- 
zissem as provas desta livre , e absolu- 
ta assersão ; ellas só podiâo ser tira- 
das ou dos meus escritos , ou das mi- 
nhas intenções manifestadas com algum 
sinal sensível. Em nenhum de meus es- 
critos se descobre hum só vestígio des- 
ta resolução ; encontrâo-se , sim , a ca- 
da passo , louvores de Camões , como se 
pode ver a cada pagina da Dedicató- 
ria , e do Discurso Preliminar do Ori- 
ente. Nunca foi a minha intenção emen- 
dar Camões , fique isto para o Tradu- 
ctor ínglez Mickle , que nos deo as Lu- 
síadas invertidas , ou vestidas , como el- 
le diz , á moda íngleza ; nesta traduc- 
ção , não só estão alterados os factos 
históricos , e os Episódios do Poema, 
mas a mesma marcha , e ordem que no 
original lhe dá Luiz de Camões ; e não 
se emenda senão aquillo que se julga 
defeituoso , e imperfeito. A acção das 
Lusíadas, que he tanto de Luiz de Ca- 
mões , como he de outro qualquer que 
se julgue provido do cabedal bastante 
para a tratar , pôde ser tratada por mui- 



I X T R O D V C Ç X O. 5 

t os Poetas , sem que huns se dem por 
injuriados pelos outros , e sem que se 
possa affirmar, que o Poema que ago- 
ra apparece vem emendar o que o pre- 
cedeo. A acção dos Argonautas hehu- 
ma : Apollonio de Rhodes a tratou . e 
depois a tratou também Valério Flac- 
co ; e ainda se não disse ; nem pode di- 
zer que Valério Flacco quizera emendar 
Apollonio. O Descobrimento da Ameri- 
ca tem sido tratado por muitos . sem 
que se diga que os últimos quizerão 
emendar os primeiros. Nem Francisco 
Botelho de Moraes e Vasconcellos quiz 
emendar Ubertino de Garrara , nem a 
mulher Bocage estes dois , que a pre- 
cederão. Eu podia produzir hum cata- 
logo immenso destes exemplos , mas el- 
les não são precisos para justificar o 
meu procedimento na composição do 
Poema Oriente. Tratar a mesma acção 
não he emendar o que está feito. Duas 
coizas se notão , ou se collieem desta 
livre assersão que tantos brados tem 
dado no Mundo ; a primeira he , que 
foi hum attentado a composição do 
Oriente ? depois que Luiz de Gamões . 



6 I N T R O D U C C 1 O. 

tratara a mesma acção ; a segunda he , 
que o Poema das Lusíadas he perfei- 
tíssimo , irreprehensivel , e tão comple- 
tamente acabado , que nelle nada ha 
que emendar , porque em todo elle se 
não encontra hum só defeito. Isto pois 
que tantas vezes se tem dito , e a to- 
das as horas se repete , me obrigou a 
hum serio exame destas Lusíadas , que 
a julgarmos pelo que agora, e ha pou- 
cos annos se publica, pelas edições que 
teimosamente se fazem , pelos monu- 
mentos , obeliscos , estatuas , túmulos , 
e memorias que se lhe destinão , pare- 
cem mais a obra de hum Espirito An- 
gélico , que a producção de hum fra- 
co , e imperfeito humano. 

Os Nacionaes , e os estranhos o col- 
locão no mais alto do Parnaso , e pare- 
ce que em cada pedra , em cada esqui- 
na se pretendem gravar os dois últimos 
versos do seu Epitáfio : 

,, Vertere fas, aequare nefas , sequabilis uni 
,, Est sibi , par nemo , ntmo secundus erit. 

Mas se eu olho para os Críticos Por- 



I N T R O D V c ç ; Ã O. 7 

tuguezes, não vejo mais do que amar- 
gas censuras das Lusiadas. lenacio Gar- 
cez Ferreira , Luiz António Verney , 
Francisco da Silva Coelho , Pedro José 
da Fonceca ? Jeronymo Soares Barbo- 
sa, entre os Portuguezes : entre os In- 
glezes Blair, entre os Francezes Raci- 
ne , Castres , La Harpe \ todos censu- 
rão j e todos descobrem defeitos , e er- 
ros crassissimos nas Lusiadas. Eu não 
quero guiar o meu juizo pelo juizo dos 
mais ; destinei pela minha própria obser- 
vação . e bem firmado nos princípios da 
Arte , examinar estas tão cíívinisadas 
Lusiadas, com aquella imparcialidade, 
clareza , e ordem que me caracterisão , 
e me justificão ; e esperarei sempre pe- 
la resposta. Entendão todos , que a cen- 
sura das Lusiadas na o he a indirecta 
apologia do Oriente ; não ha convenção , 
não ha reciprocidade, não ha relação 
alguma entre estas duas obras em tudo 
diversas, e só idênticas em a natureza 
da acção , porque he a mesma. Houve 
quem intentasse fazer hum parallelo de 
ambos os Poemas ; mas este parallelo 
ainda não appareceo : o oue o público 



8 Introducção. 

vio foi a ignorância desmascarada, e a 
malignidade combatida , e victoriosa- 
mente confutada. Eia pois , sem auto- 
ridades , sem citações estranhas , sem 
juizos alheios , considerarei as Lusiadas 
nas Lusiadas , e sem decidir pelo fio da 
obra, esperarei que no fim da mesma 
obra decida a justiça, a verdade, e a 
imparcialidade , se ha , ou se não ha de- 
feitos que emendar nas Lusiadas , e se 
acaso se pôde confessar que ha erros 
hereditários , que ha preoccupações suc- 
cessivas , e se os homens se podem ce- 
gar a ponto de julgarem huma belleza 
divina o que he huma extravagância 
manifesta. Por muitos séculos se julga- 
rão oráculos da infallibilidade os prin- 
cípios absurdas da Filosofia Peripateti- 
ca , mal entendida nas Escolas. A' pre- 
occupação succedeo a verdade , e o ído- 
lo até alli incensado , não foi mais que 
o objecto do ludibrio , e do desprezo, 
ficando os homens admirados de ver 
que até aquelle instante tinhão abraça- 
do hum Fantasma , que se desfez como 
sombra ao toque dos luminosos raios 
da verdade. A colossal Estatua de Na- 



I N T R O D TJ C Ç Ã O. 

buco julgou-se preciosa , estável , e du- 
radoura em quanto senão advertio que 
tinha os pés de barro , e que bastava o 
leve toque de huma pequena pedra pa- 
ra reduzir a cinzas toda aquelia espan- 
tosa , e idolatrada maquina. 

Eu seguiria voluntariameute a mar- 
cha da preoccupacão hereditária sobre 
a absoluta , e irreprehensivel perfeição 
das Lusiadas . augmentando com o 
meu silencio a publica adoração des- 
te Poema , se me não estimulasse a 
honra a romper este silencio , para 
mostrar á presente , e á futura gera- 
ção , que he preciso examinar antes 
de julgar ; porque estou persuadido , 
que pode mui bem não estar a razão 
da parte do commum consenso. Po- 
serão-me em estado de indagar , e in- 
vestigar se esta voz que divinisa as 
Lusiadas tinha a sua base na justiça, 
e na verdade. Quiz distin^uir-se o co- 
meçado Século 19.° em afírontar, e in- 
juriar hum homem , que nem em pu- 
blico , nem em particular offendeo a 
sociedade. Este homem sou eu. Estas 
affrontas presuppunhão hum motivo ; 



IO Introducção. 

porque não ha nada sem huma razão 
suficiente. A este motivo sedeo o no- 
me de hum attentado , e este atten- 
tado he a composição do Poema Ori- 
ente. Huma Conspiração poderosa em 
recursos me fez olhar como o horror 
do Mundo , e pelos golpes que contra 
mim se tem descarregado , me tenho 
chegado a persuadir que commetti hum 
grande crime , e que o Poema Orien- 
te me constituía no catálogo dos mais 
insignes facinorosos j porque offen- 
di Camões : Porque em vão o inten- 
tei emendar e desapossallo do eminen- 
te lugar , que por Nacionaes , e Es- 
trangeiros lhe foi justa , e universalmen- 
te assignalado no Parnaso. Este livre 
dito , ou assersão gratuita , tem sido o 
vehiculo de todos os vilipêndios, e im- 
propérios de que me tem coberto . por- 
que na opinião destes homens , e dos 
seus Eccôs , ou Apóstolos \ he o maior 
delicto que se pode commetter na terra 
emendar Camões , porque Camões nãó 
tem erros , e he hum sacrilégio tocar 
profanamente huma matéria tocada pe- 
las mãos desta Poética Divindade. Ora 



IntroducçÃo. 11 

ainda que esta emenda não fora por 
mim nem intentada > nem imaginada, 
nem annunciada , nem posta em obra , 
para me defender a mim , e para me 
justificar no Tribunal do Mundo \ será 
tentada , e executada agora , e o farei 
de maneira . que faça ( se for possível ) 
chegar o arrependimento á alma des- 
ta Seita de Idólatras , que , tomando por 
pretexto huma quimérica offensa , tan- 
to me tem perseguido , e vilipendiado , 
quando virem que acabou de ser suc- 
cessiva sem advertência e sem exa- 
me a gloria de Camões. Nesta Censu- 
ra não procurarei examinar o Poema 
á luz das leis arbitrarias dos Pedan- 
tes , nem das theorias que se não iize- 
rão senão depois de apparecerem os 
Poemas que o Génio concebera , e 
executara. Não ha outra regra mais 
do que a Razão , e a Natureza ; na- 
da pode esta dictar que aquella con- 
tradiga. Tudo o que he opposto á 
Razão 5 e á Natureza , he contrario 
também ás primitivas , innatas , e inva- 
riáveis Leis do Bom , e do Bello ideal ; 
e tudo o que não he isto , he mons 



12 Introducçao, 

truoso , e imperfeito ; tudo o que não 
he verosimil , he absurdo ; e o verosi- 
mil em Poesia deve ser tal > que em 
certas relações tenha não só a tintura , 
mas a essência da verdade. Eu redu- 
zo toda a arte da Poesia a estes úni- 
cos , e invariáveis princípios de Horá- 
cio : 

Meum (jui pectus inaniter angit , 
Irritai , mulcet , falsis íerroribus implef. 

Se o Poeta consegue isto por meios 
dignos da Razão , e da Natureza , tem 
conseguido tudo : mas se o Poeta a 
cada passo tropeça e cahe, falta a es- 
ta suprema Lei; nem he bom Poeta, nem 
o que produz he perfeito , e irrepre- 
liensivel. A tudo isto se falta em as 
Lusiadas ; logo as Lusiadas são im- 
perfeitas. Quem provará o menor des- 
te Syllogismo? 

— O Livro que se vai ler. — 



13 



CENSURA 

DAS 

LUSÍADAS 



PRIMEIRO CAXTO. 



Uiz a Razão . e a Natureza , que a 

Acção Épica , para ser perfeita . deve 
ser huma . e que huma acção para ser 
única . e completa deve ter hum prin- 
cipio . hum meio , e hum hm : que o 
Heroe que a executa seja hum , e 
que esta única acção , e este único 
Heróe sejão propostos pelo Poeta no 
intróito de seus Cantos , para se saber 
desde logo o fim da acção que se an- 
nuncia. Poucos Poemas ha em que se 
veja desempenhada esta regra , ou se 
veja cumprido este dictame da Ra- 



14 Censura das Lusíadas. 

zâo ; e hum Filosofo Francez ( Le- 
mercier ) em suas Prelecções de Lit- 
teratura , impressas em 1817, só a 
encontra em Valério Flacco , e Tas- 
so , mostrando até á ultima raia da 
evidencia a duplicidade da acção em 
Virgílio , em Voltaire , e muito mais 
em Ariosto. Porém estes mesmos, que 
faltarão em suas proposições ao di- 
ctame natural da unidade da acção , 
sempre disserão alguma coiza que seus 
Heroes devessem fazer, pois delles he 
a acção , e elles a devem executar : á 
vista deste dictame da Razão , e da ex- 
periência , se a acção das Lusiadas lie 
descobrir a índia pelo caminho do 
Oceano , e se este descobrimento , ou 
esta acção deve ser executada por 
Vasco da Gama, as Lusiadas não tem 
proposição ; porque além de se não dar 
a conhecer o Heroe que a executa , na- 
da do que se diz na proposição com- 
pete ao mesmo Heroe, pois nada da- 
quillo fez , e nenhuma das circunstan- 
cias alli annunciadas o acompanhou. 
Promette cantar tudo quanto íizerão 
os Portuguezes na Ásia na fundação , 



Primeiro Canto. 15 

e dilatação de seu Império , mas não 
dá a mais ligeira idéa do Descobrimen- 
to do Indostão . que era o objecto 
único da viagem de Vasco da Gama ; 
nem desta viagem , nem deste Heroe 
se faz memoria na proposição do Poe- 
ma. Apenas começa , falta logo á pri- 
meira regra, ou primeiro principio da 
recta razão , ou , para salvarmos Ca- 
mões fia infracção desta Lei , he preci- 
so então dizer que elle não composera 
huma Epopéa , mas hum Romance . 
como o de Ariosto , que cantava 

)9 Armas , Amores , Campióes , Mulheres. ,, 

Consideremos pois á Luz da razão a 
primeira Oitava das Lusíadas , como 
serão consideradas , expendidas , e co- 
nhecidas todas as outras até ao fim do 
Poema. 

., As armas, e os Varões assignalados . 
j, Que da Occidental praia Lusitana , 
3) Por mares nunca dantes navegados , 
j, Passarão ainda além da Taprobana : 
3 , Que em perigos, e guerras esforçados 
„ Mais do que prometia a força humana; 



16 Censura das Lusíadas. 

>f Entre gente remota edificarão 

,, Novo Reino que tanto sublimarão : etc. s> 

Muita coiza se annuncia nesta propo- 
sição , e nenhuma delias foi executada 
pelo Heroe do Poema. A regra da ra- 
zão , que manda que a acção seja hu- 
ma , também manda que o Heroe se- 
ja hum só. Aqui temos muitos , pois se 
nos declara que são os Varões, e que 
estes conduzirão Armas ao Oriente ; 
não foi por certo Vasco da Gama , nem 
foi Pedro Alvares Cabral ; o primeiro 
que foi como Guerreiro , e Conquista- 
dor , foi D. Francisco de Almeida. Nem 
estes , nem o mesmo Vasco da Gama 
fora o 

3> Por mares nunca cTantes navegados. „ 

Até ao Ilheo de S. Filippe, e Padrão 
da Cruz na costa da Cafraria Oriental 
tinha chegado Bartholomeu Dias ; que 
primeiro dobrou o Cabo da Boa Espe- 
rança , nome que já tinha nos últimos 
annos do Reinado d'ElRei D. João 2.° 
Do Ilheo de S. Filippe para cima até 



Primeiro Canto. 17 

Mombaça encontrou Vasco da Gama 
embarcações , e vio , como diz a Histo- 
ria , homens que navegavâo ao nosso 
modo , e que conhecião a arte de nave- 
gar : logo até áquellas paragens erão e 
tinhào sido navegados os mares ; em 
Mombaça achou Vasco da Gama Mou- 
ros que navegavâo . e lhe offerecião Pi- 
lotos para Melinde ; em Melinde achou 
o Árabe Moalern Cana , visto na car- 
reira da índia , e que atravessou com 
Vasco da Gama o immenso golfão que 
está entre a Africa Oriental , e o In- 
dostão. Logo Camões annuncia o que 
não era , nem o que fez Vasco da Ga- 
ma. 

,, Passarão ainda além da Taprobana. fi 

Isto não se pode dizer de Vasco da Ga- 
ma j nem he acção deste Heroe . porque 
muitos annos depois de estabelecidos os 
Portuguezes no Indostão . dobrarão o 
Cabo Comori , e passarão állha de Cei- 
lão para as suas ulteriores conquistas 
do Continente até Malaca , e Macáo , 
e muitas Ilhas do Oceano Pacifico de 
Tom, I. b 



Jb Censura das Lusíadas. 

que fora o senhores , com tanto esforço „ 
e valentia , que parece superior ao po- 
der humano. 

„ Entre gente remota edificarão 

_,, Novo Reino que tanto sublimarão. „ 

isto he verdade como vemos pela nos- 
sa Historia da Ásia, superior em pro- 
dígios , e façanhas á Gre^a , e á Roma- 
na ; e se houvesse hum Plutarco que 
dignamente fizesse hum parallelo entre 
huns , e outros Heroes , entre humas , 
e outras acções , ficaria a superioridade 
da parte dos Portuguezes ; porque com 
eífeito edificarão , e sublimarão hum 
grande Império no Oriente, estabele- 
cendo em Goa huma Corte, onde resi- 
dia hum Viso-Rei com mais extensos 
dominios ; maior poder , e maior gloria , 
que muitos Monarcas ; mas isto não 
começou senão depois do anno de 1505, 
e nada tem com o descobrimento da 
índia pelo Oceano, que executou Vas- 
co da Gama. Logo o que se diz na 
proposição não he a acção das Lusía- 
das, e nada compete ao Heroe Vasco 



Primeiro Canto. 19 

da Gama. e podemos dizer que Camões 
não intentara compor hum Poema Épi- 
co . mas Encyclico . que abrangesse 
muitos objectos , e muitas acções , dan- 
do principio á Historia maravilhosa da 
índia com a Viagem de Vasco da Ga- 
ma j pois o não devemos suppõr tão 
hospede na leitura da Poética de Aris- 
tóteles . e de Horácio, já conhecidos 
em Portugal no tempo do Poeta pe- 
las exposições de Nicoláo Clenard. e 
Jorge Buchanan . ambos Professores de 
Humanidades em Coimbra , que não 
soubesse qual era a rigorosa Lei das 
três Unidades na Epopéa , e na Tra- 
gedia. Isto mesmo se collige da 2 • Oi- 
tava em que elle continua a vasta pro- 
posição do seu Poema. 

_,, E tamlem as memorias gloriosas 
J5 Daquelles Reis", que íbrão dilatando 
3) A Fé , e o Império, e as terras viciosas 
,, D' Africa , e d' Ásia andarão devastando. ,, 

Basta a primeira intuição pira se co- 
nhecer que isto he fora da acção prin- 
cipal , e que se não pode incluir no 
simples descobrimento da índia pelo 

b 2 



20 Censura das Lusíadas. 

Oceano ainda que fosse depois hu~ 
ma derivação ou consequência do mes- 
mo descobrimento. Com elle não tem 
relação alguma as conquistas feitas na 
Africa. Se quizerem dizer que são os 
Episódios da acção , estes para serem 
próprios devem nascer da mesma ac- 
ção em quanto ella se executa , o que 
foi antes , o que será depois não he 
hum Episodio da acção. Episodio he 
o que acontece ao Heroe, o que elle 
faz 5 e ainda mesmo o que elle diz , 
e não tem alliança alguma com Vas- 
co da Gama na viagem da índia o que 
os Reis de Portugal fizerâo na Afri- 
ca ? e na Ásia , e que o Poeta pro- 
mette cantar. Não ha exemplo de Poe- 
ta algum que quando propõe a acção 
proponha também cantar os Episódios. 
O termo — devastando - — não só he 
impróprio, mas injurioso, porque os 
Reis Portuguezes não forão devasta- 
dores. 



J? Cantando espalharei por toda a parte, 
,, Se a tanto me ajudar o engenho , e arte. 



Primeiro Canto. 21 

Se o Poeta tanto se affiança nas for- 
cas do seu natural engenho . e estu- 
do , ou conhecimento da arte na com- 
posição de huma Epopéa , que neces- 
sidade tinha do auxilio das Nynfas do 
Tejo , isto he das mulheres de Lis- 
boa , como entendem com Faria os 
outros commentadores ? Coiza ridícula ! 
Para todo o Poema invoca o auxilio 
das mulheres de Lisboa , e no Canto 
3.° Oit. l. a invoca com muito fervor 
Calliope ! 

Todas as leis da boa razão se achão 
offendidas na Oit. 3.% e para desculpar 
Camões no que diz , he preciso que 
digamos que o inflammava hum cego 
amor da gloria nacional. He hum gran- 
de arrojo a viagem de Vasco da Ga- 
ma até ao Ilheo da Cruz , ainda que 
já estava descoberto por Bartholomeu 
Dias ; mas devemos dizer que o de- 
nodo deste Heroe se divide com o Pi- 
loto de Melinde , que o levou a Ca- 
lecut , e de Melinde a Calecut não he 
huma grande coiza seguir huma der- 
rota conhecida com hum Piloto pra- 
tico ; se esta he a acção das Lusia- 



22 Censura das Lusíadas. 

das parece que pede a boa razão que 
se não anteponha a tudo quanto can- 
tarão as Musas antigas , e com tão 
empolados termos como o 

j, Cessem do sábio Grego , e do Troiano , 

_,, As navegações grandes que íizerão ; 

J} Calle-se de Alexandro , e de Trajano 

j, A fama das victorias que tiverão 5 

3 , Que eu canto o peito illustre Lusitano , 

_,, Aquém Neptuno, e Marte obedecerão: 

j, Cesse tudo o que a Musa antiga canta , 

9i Que outro valor mais alto se levanta. ,, 

Esta excessiva hypérbole destróe to- 
dos os princípios da verdade históri- 
ca , e se oppõe aos naturaes dictames 
da modéstia , e torna ridiculo o nosso 
orgulho nacional. Manda emmudecer a 
fama de Alexandre Magno , as espan- 
tosas conquistas dos Romanos no Im- 
pério de Trajano , manda cessar , e 
esquecer tudo quanto a Antiguidade 
teve grande , e cantou grande , porque 

j, Eu canto o peito illustre Lusitano, 

P , A quem Neptuno , e Marte obedecerão. )y 

Outra proya nesta immodes^issima exa- 



Primeiro Canto. 23 

geração de que não era a navegação 
de Vasco da Gama a única accâo dó 
Poema. Pelo peito illustre não se pode 
entender individualmente o Heroe ; es- 
te termo he collectivo , e designa a 
Nação inteira ; porque só deste mo- 
do se pode entender a obediência de 
Neptuno , e Marte , porque os Portu- 
guezes na fundação de seu Império 
no Oriente subjugarão os mares em 
mui longas , e repetidas navegações , e 
forão geralmente vencedores em todas 
as guerras que intentarão contra os 
Povos da Ásia naquella parte que se 
chama índia ; e ainda que se possa 
também afíirmar de Vasco da Gama 
que subjugara Neptuno como navega- 
dor ; não se pode dizer nesta navega- 
ção que lhe obedecera Marte corno 
Guerreiro , porque o não foi ? e elle 
mesmo o assegura ( pela boca do Poe- 
ta) quando disse que não era mais 
que hum mero explorador daquelles 
paizes da Asia ? cujo caminho pelo 
Oceano era até alli ignorado. 

Segue-se na Oit. 6.* o principio da 
Dedicatória do Poema a EIRei D. Se- 



24 Censura das Lusíadas. 

bastião , e como eu não intento nesta 
Censura mais que fazer ver os enor- 
mes erros contra a natural Razão , que 
se encontrão em todo o Poema , não 
me demoro em minúcias grammaticaes. 
Seja muito embora imperiosa a neces- 
sidade da rima , esta nunca deve obri- 
gar a infringir as leis da boa Gram- 
matica para se não authorisar, e ex- 
emplificar o uso de vergonhosos sol- 
lecismos em que os semidoutos tantas 
vezes peccão. 

„ Dada ao Mundo por Deos que tudo o mande } , 

Este verbo devia estar no indicativo , 
e não no conjunctivo , e deve-se dar 
outro torneio ao verso quando tão cras- 
samente se erra a Grammatica. 

Na Oit. 12.* se vê que he vaga ? 
e indeterminada a proposição do Poe- 
ma, e que o descobrimento da índia 
não he mais do que hum ponto fixo 
donde o Poeta devia partir para can- 
tar o que tinha determinado , que vi- 
nha a ser, a inteira Historia do Im- 
pério Portuguez na Ásia , na qual que- 



Primeiro Canto. 25 

ria introduzir também tudo quanto os 
Portuguezes tinha o feito até alli na 
Europa, e na Africa. Depois da enu- 
meração de muitos Heroes Portugue- 
zes , em que introduz os doze Paladi- 
nos, que forão ( se he verdade) a In- 
glaterra , e o seu Magriço , lembra-se 
por fim de Vasco da Gama como hum 
accessorio , ou como huma unidade 
junta á somma dos outros Heroes , 
porque o termo — também — mostra 
que lhe ajuntava este para augmentar 
o numero dos que destinava cantar. 
Se elle dissesse 

Mas por todos vos dou o Illustre Gama , 

tinha salvado a unidade de Heroe , e 
tinha dado a conhecer que era unica- 
mente o Gama cujas façanhas como 
navegador elle queria cantar. O sen- 
tido 5 que o termo — também — nos 
dá , forma o mais indesculpável erro 
das Lusiadas. 

Continua na Oit. 13.' a augmen- 
tar o catalogo dos Heroes que devia 
cantar, lembrando-se ? depois dos Su- 



26 Censura das Lusíadas. 

baltemos , dos maiores Monarcas Por- 
tuguezes. Ainda na Oit. 14. a não está 
satisfeito o vasto projecto do Poema , 
quer o Poeta abranger ? e encerrar tu- 
do quanto até ao seu tempo lhe offe- 
recia o grande quadro da Historia Por- 
tugueza : 

)t Nem deixarão meus versos esquecidos 
„ Aquelles que nos Reinos lá da Aurora 
}i Se fizerão por armas tão subidos. }J 

Nesta Oit. 14. a começa o vergonhoso 
bordão do — lá — que se repete com 
enjoo a cada pagina até ao fim do 
Poema , coiza para que os da seita 
Camoniana não tem sabido olhar . ou 
o dissimulão para que o pretexto da 
oífensa tenha voga , presuppondo sem 
exame a impeccabilidade em hum ho- 
mem. A Dedicatória pecca contra a 
boa razão i porque he demasiadamen- 
te prolixa , e excede as duas reprehen- 
siveis Dedicatórias , a de Lucano a 
Nero , e a de Estacio a Domician- 
bo. Na Oit. 15.* ainda continua a De- 
dicatória , e sendo a propriedade dos 
termos , ou dos epithetos que são ver- 



Primeiro Canto. 2 ; 

dadeiramente os sensíveis attributos das 
coizas . hum dos deveres do bom Poe~ 
ta , começa Camões a infringir esta lei 
na presente Oitava : 



■cr 



_,, Comecem a sentir o pezo grosso. ., 

A pezo nunca se pode attribuir a 
gTOssura \ porque não he huma proprie- 
dade de pezo. De mil coizas se pode 
annunciar a propriedade da grossura , 
até das ondas . e dos mares . mas nun- 
ca do pezo especifico de qualquer coi- 
za na ordem fysica , e muito menos na 
ordem moral. Vamos contemplar a Oit. 
16.* onde comecào as deslocadas idéas 
Mithologicas ; e para entrarmos ne^- 
ta exposição . transcreverei o parecer 
de hum Filosofo Francez ainda exis- 
tente . hum dos Theoretieos mais fun- 
damentados que tem apparecido em 
Litteratura. 

O Jasão do Tejo. menos bri- 
*' lhante que o de Colcos . conta mais 
do que obra. e he coiza pasmo- 
sa . que nascendo este Heroe his- 
tórico e contador no centro do 



28 Censura das Lusíadas. 

Christianismo J marche sempre fa- 
vorecido pela fabulosa Vénus , que 
Cupido , e as Nereidas o sedu- 
zão , e que Baccho irritado contra 
elle , e cioso da gloria que lhe 
hia usurpar na Ásia , se conjure 
em sua ruina, e perdição na ín- 
dia Oriental. Este estranho con- 
ceito dá a conhecer o perigo da 
servil imitação dos melhores mo- 
delos antigos quando se vão tra- 
tar assumptos modernos , e faz 
ver que a Litteratura Portugue- 
za estava ainda no berço em tem- 
po de Camões ; accusa o gosto 
imperfeito deste Poeta , que sem 
poder igualar as bellezas Virgilia- 
nas , e a feliz regularidade do pla- 
no ou disposição , e ficções que 
sustentão a Argonautica de Valé- 
rio Flacco , se deixa levar e ar- 
rastrar dos meios antigos fora de 
propósito em huma acção recen- 
te. Não caracterisa os hábitos de 
seus navegadores , nem determina 
com clareza suas aventuras pelas 
regiões que vão correndo, " 



Primeiro Canto. 29 

Chama-se a isto ajuizar filosoficamen- 
te do defeituoso edifício das Lusíadas. 
Falia pois o Poeta com EIRei D. Se- 
bastião . e lhe diz : 

)} Thetis todo o cerúleo senhorio 
,, Tem para vós por dote apparelhado; 
,, Que affeiçoada ao gesto beJlo , e tenro , 
)} Deseja de comprar-vos para genro. } , 

Que queria Camões fazer entender nis- 
to ao Catholico Rei D. Sebastião ? Em 
1570 ainda a Deosa Thetis era hum a 
Divindade que se acreditasse existen- 
te . no seio do Christianismo ! Podia di- 
zer-se a EIRei que Thetis tinha desti- 
nado casallo com huma filha , obrigan- 
do-o a este casamento com huma com- 
pra que fazia da sua Real pessoa no 
senhorio dos mares , de que verdadei- 
ramente EIRei D. Sebastião era se- 
nhor pelo poder das suas armadas , e 
dilatadíssimas conquistas ? Isto he o 
ultimo apuro, e manifesto excesso de 
extravagância , porque depois de ha- 
ver dito a EIRei que estava destina- 
do por Deos para dar ao mesmo Deos 
huma grande parte do Mundo em quan- 



30 Censura das Lusíadas. 

to com as suas victorias dilatava o 
império da Fé, e propagava a luz do 
Evangelho , vir-lhe com liuraa filha da 
Deosa Thetis para sua mulher, com- 
prando-o para Genro com o dote que 
lhe dava , como quem casa com o que 
a mulher traz , e não com ella , que 
pôde ser senão loucura ? No fim da 
Oit. 17. a penúltima da Dedicatória vem 
outro lá em tão pouca distancia do 
primeiro : 

,, E lá vos tem lugar no fim da idade. s , 

Na Oit. 19. a temos hum pleonasmo de 
idéas reproduzindo a mesma imagem : 

„ As inquietas ondas apartando . . . 

„ Cobertos onde as proas vào cortando , . . 

., As marítimas agoas consagradas 

,, Que do gado de Próteo são cortados 

Nós não dizemos senão Prothêo , e co- 
meção os erros de Metro que são não 
só frequentes , mas innumeraveis. 

Na Oit. 20. a começa o decantado, 
porém absurdo Maquinismo das Lu- 
síadas : coiza perfeitamente monstruo- 



Primeiro Canto. 31 

sa ; além das nossas reflexões particu- 
lares pelo longo decurso desta Censu- 
ra , daremos no rim huma erudita , e 
filosófica Dissertação que sobre este 
objecto nos foi communicada ; ella aca- 
bará de lançar por terra este fantas- 
ma da opinião . e preliminarmente eu 
vou dar hum extracto das opiniões de 
dois Filósofos deste século. O primei- 
ro he Lemercier no Curso analytico 
de Litteratura . vol. 3.° pag. 162 ; — co- 
meça com estes versos de Boileau : 



jVhum assumpto Christão jamais approvo 
Hum louco autor Idólatra , e Gentio. 



5J 



99 Boileau sabia muito bem . que 
o maravilhoso na Epopea he ne- 
cessário , nem soffria que se mis- 
turasse com ornamentos mytholo- 
gicos. Subscrevo a esta opinião , e 
as minhas razoes servirão de ex- 
por que qualidades deva ter o 
maravilhoso. Não pode o maravi- 
lhoso ter poder aíg-um em nossa 
alma se não trouxer comsigo aquel- 
la probabilidade que a boa Ra- 



32 Censura das Lusíadas. 

zão approva , e que lhe dá os 
precisos quilates de crença. Ora 
esta indispensável verosimilhança 
não pode resultar senão de huma 
completa analogia com a época , 
costumes, e acções das Persona- 
gens. Supponde hum instante que 
a Virgem Maria em lugar de The- 
tis pedia a Vulcano hum Escudo 
para Achilles. Eisaqui a boa Ra- 
zão escandalizada : mas esta fic- 
ção não he tão monstruosa ? bizar- 
ra , e extravagante , como a fic- 
ção em que Camões representa a 
Baccho em o 16.° Século , isto he 
em 1497 , conjurando com o Olym- 
po contra a expedição do Catho- 
lico Vasco da Gama ; e Vénus , 
e as Nynfas do mar , que aco- 
lhem os navegantes Christãos em 
huma Ilha encantada. Esta Ma- 
quina não he maravilhosa , he ab- 
surda , ridicula , e escandalosa. " 
He verdade que Voltaire não enten- 
dia Portuguez para ajuizar das belle- 
zas , e perfeição do estylo das Lusia- 
das 9 mas Voltaire entendia mui bem 



Primeiro Canto. 33 

Francez para ler as traducçôes ; onde , 
se nào passão as palavras , passão as 
coizas , e o maquinismo das Lusíadas 
em qualquer língua não se pode cha- 
mar huma inlidelidade de traducção , 
porque a substancia existe, ainda que 
desapparecesse o accidente das palavras. 
A Fabula das Lusíadas he a mesma 
em todas as línguas. Oiça-se pois o 
Voltaire sobre o maquinismo das Lu- 
síadas , ou elle as lesse na traducção de 
Fanshaw , ou na de Du Perron de Cas~ 
terá : — 

" Vénus illustrada com os con- 
selhos do Padre Eterno . e ao mes- 
mo tempo soccorrida com as settas 
de Cupido , faz as Nereidas apai- 
xonadas dos Portuguezes. Pinta 
sem ceremonia nenhuma os mais 
lascivos prazeres . cabe a cada 
Portuguez huma Nereida , e The- 
tis he para Vasco da Gama. Por 
ella he levado a huma alta mon- 
tanha , o mais delicioso sitio da 
Ilha, e desta altura lhe mostra os 
Reinos da Terra , e lhe vaticina 
os destinos de Portugal. Ora he 
Tom. L c 



34 Censura das Lusíadas. 

" preciso confessar que huma Ilha 
99 encantada , cujo Numen he Ve- 
99 nus , e onde as Nynfas se prosti- 
99 tuem aos marinheiros, 

( ,, O que passarão na manhã , e sesta 

„ Melhor he experimentallo que julgallo , 

„ Mas julgue-o quem não pôde experimentallo.) 

99 parece-se mais com hum alcoice 
" de Amsterdam ; que com outra 
" qualquer coiza decente, e hones- 
" ta. " 
Hugo Blair em suas lições de Rhe- 
torica se explica desta maneira : 

" O maravilhoso das Lusiadas he 
" huma perfeita extravagância ; não 
97 somente se compõe de huma mui- 
to extraordinária mistura de idéas 
Christãs , e da Mythologia Pagã , 
mas vai de tal arte disposto , que 
os Deoses do Paganismo represen- 
tão o papel de verdadeiras Divin- 
" dades , a quem J. C. e a Virgem 
?? Maria estão como agentes subor- 
'"' dinados. Hum dos objectos prin- 
cipaes da navegação dos Portu- 
guezes \ era , segundo Camões , 









Primeiro Canto • 35 

propagar a Fé de Christo . e ex- 
tirpar, e abolir na índia a Reli- 
gião de Mafoma. Venns he a pro- 
fectora desta piedosa empresa, e 
o grande inimigo dos Portugue- 
zes he Baccho. Õ motivo do ódio, 
e rancor desta Divindade , he a 
lembrança de que Vasco da Ga- 
ma será hum rival da sua gloria» 
Fazem os Deoses hum conselho ? 
e Júpiter da Fabula he quem de- 
creta a queda do Mahometismo 3 
e a propagação do Evangelho. — - 
Hum maravilhoso tão estranho \ e 
tão completamente absurdo , pro- 
va bem quanto se engana o cer- 
tos Autores com o falso princi- 
pio de que a Epopéa exige a in- 
tervenção da Mythologia de Ho*- 



mero. " 



Isto basta para noção preliminar , e 
vamos ás Lusíadas nas mesmas Lu* 
siadas. São os Deoses convocados por 
Mercúrio da parte do Tonante . e vem 
todos pela Via láctea ; mas não nos 
diz o Poeta para onde fora o. Oit. 21. a : 

C 2 



3ò Censura das Lusíadas. 

9> Deixão dos sete Ceos o regimento. „ 

Se todos deixão o regimento ( o go- 
verno ) dos sete Ceos , segue-se que 
também o Tonante deixou o seu Ceo ? 
pois também tem o regimento de hum 
dos sete. Senta o Padre sublime , e 
digno ( Padre digno he expressão de 
Claustro ) em huma cadeira de estrel- 
3as , quando na Oit. 23, a o introduz a 
fallar : 

,, Quando Júpiter alto, assi dizendo , 

„ Chum tom de voz começa grave , e horrendo, 

Epitheto verdadeiramente desgraçado. O 
tom da voz de hum Numen superior 
vserá magestoso , grave . compassado , 
divino , mas nunca horrendo. Se faí- 
lasse do ecco da voz de Plutão teria 
desculpa esta propriedade de horren- 
do , mas de J upiter ! ! Será sempre mui- 
to defeituoso , e máo Poeta $ quem sa- 
crifica a razão , e a natureza , ou pro- 
priedade das coizas , a huma rima , que 
com mais algum trabalho pode , e de- 
ve ser escrava da mesma razão. Veja- 



Primeiro Canto. 37 

mos o que com tom horrendo nos an- 
nuncia este Júpiter; — Oit 24: 

>, Deveis de ter sabido , claramente , 

H Como he dos Fados grandes certo intento , 

_,, Que por ella se esqueção os humanos 

3 , De Assírios , Persas , Gregos , e Romanos. „ 

Fados grandes he huma espécie de ter- 
mo comparativo que denota , que os 
ha maiores , e menores. A idéa que a 
Mvthologia nos dá de Fado he a de 
huma eterna , e suprema Lei , a quem 
o mesmo Júpiter em suas acções es- 
tava irremissivelmente sujeito, e a cu- 
jos decretos , ou determinações não po- 
dião resistir os mesmos Deoses de or- 
dem superior ou primaria ; em huma 
palavra o mesmo Poeta nos dá a jus- 
ta idéa do Fado mythologico quando 
diz logo, em termos expressivos, na 
Oit. 28 : 

í9 Cuja alta lei nõo pode ser quebrada, ,, 

Por este Fado . que não he grande nem 
pequeno , (he o Fado ) se tinha dado 
aos Portuguezes , diz Júpiter , que ven- 



38 Censura das Lusíadas. 

cessem os Mouros , expulsando-os de 
todos os limites da Lusitânia, assim 
como se lhes tinha dado . que com Vi- 
riato , e Sertório vencessem os Roma- 
nos ; agora também se lhes concede 
por este mesmo Fado eterno , e im- 
mudável , 

99 Cuja alta lei não pode ser quelrada , 
9i Que tenháo longos tempos o governo 
,, Do mar que vê do Sol a roxa entrada. ,» 

Isto he o que o Fado tem determina- 
do , e o que Júpiter como seu orgàa 
subordinado , e subalterno anrumcia , 
intima, e declara aos outros Deoses. 
Ora se Júpiter declara em pleno-Con- 
sistorio , e com todas as formalidades 
de hum Capitulo geral dos Deoses > 
que o Descobrimento da índia era hu- 
ma lei , ou disposição do immobil F a- 
do , que não pode ser quebrada , viola- 
da, suspensa, ou interpretada, e que 
infalliveimente se deve cumprir ; e se es- 
te conhecimento da immutabilidade do 
Fado Grande era patente , e conheci- 
da; a todos os Deoses , e ainda que o 
não soubessem todos , agora o fie a vã o 



Primeiro Canto. 39 

conhecendo porque Júpiter assim o de- 
clarava ; porque razão intenta Baccho o 
contrario . e resolve oppor-se áquillo 
mesmo a mie o mesmo Tonante nào 
pxiia resistir? Ou lie fazer de Baccho 
lum me]iteca;)to , pois busca aquillo 
mesmo que sabia nào poderia exeeu- 
tir. ou mostra entào , no que daqui a 
rada vai executar, que Júpiter mentia, 
cu não sabia o que dizia quando lhes 
declarava que a lei do Eterno Fado 
tra inviolável . e que necessariamente 
m devia cumpir , reaiizando-se o inten=- 
auo Descobrimento da índia. Se Júpi- 
ter , que he o primeiro dos Deoses \ co- 
no mostra na convocação dos Estados 
Geraes de todos os outros Deoses obri- 
íraido-os a comparecer « e a deixarem 
o regimento dos sete Ceos . nào pode 
contrastar este Fado : como poderia 
ojpòr-se afina eterna lei Baccho J que he 
hun subalterno ? Júpiter , obrigado por 
esa immudavel vontade do Fado . que 
lie he superior . determina na Oit. 29, 



,, Que sejão , determino , cgazalhados 
,, Nesta Costa Africana como amigos : 



40 Censura das Lusíadas. 

„ E tendo guarnecida a lassa frota , 
j, Começarão a seguir sua longa rota. 

Antes que expendamos o essencial , 
ponderemos o accessorio. Nesta costc; 
parece que alli mesmo se celebrada 
a sessão primeira das Cortes extraordi- 
nárias dos Deoses : e o 

,, Começarão a seguir sua longa rota „ 

he hum erro de metro indisculpave 
em tâo grande Poeta, que consumin 
do tantos annos no polimento do sei 
Poema não advertia que muitas vezes 
errava os versos ; seja qual for o mod) 
porque se queira ler para lhe fazer fi- 
vor, falta a sua rigorosa accentuaçãD. 
A esta declaração de Júpiter, an- 
da que se procedesse a votos secretcs, 
correndo-se depois o escrutinio se ce- 
vião achar uniformes , porque nenhun 
dos Deoses podia discordar naquilo 
que hum Fado declarado immudavel 
por Júpiter tinha huma vez deterni- 
nado. Não diz o Poeta qual fora o pa- 
recer dos outros Deoses , só diz que — » 



Primeiro Canto. 41 

j, O Padre Baccho alli não consentia 
s, No que Júpiter disse , conhecendo , 
,, Que esquecerão seus feitos no Oriente 
„ Se lá passar a Lusitana gente. ,, 

Creio que estes feitos estarão de todo 
esquecidos em 149 7. Os Mouros na ín- 
dia não fallavão em Baccho \ porque o 
nào conhecem , e se o conhecem , sâo 
seus declarados inimigos , pois no Al- 
corão se lhes prohibe o uso de vinho . 
e o mesmo Alcorão he opposto á Ido- 
latria . e ao Polvtheismo , pois nào co- 
nhece mais que a Unidade , e a pessoa 
do Profeta. Em todas as Theogonias 
Gentilicas da Ásia , escritas como 
existem ? não se falia hum a palavra em 
Baccho. Se nos tempos fabulosos foi lá 
conhecido, então em 1497 o não era 
por certo , e sem que os Portuguezes a 
oíTuscassem , já ha muito que estava 
obscurecida , e anniquilada a sua glo- 
ria, e ignorado seu nome. Eu não sei 
o que Camões , que escreve para os Por- 
tuguezes , quer que os Portuguezes 
entendão quando lem isto ! Ora nes- 
ta pueril razão do quimérico Baccho se 
estriba toda a maquina do Poema. Fa- 



42 Censura das Lusíadas. 

ça-nos Idolatras Camões 5 queira que 
acreditemos a existência . e poder do 
Deos Baccho ; ainda nesíe caso absur- 
do 5 he pueril a razão para o se a ódio , 
e irrisório o motivo das suas perse- 
guições, enganos, e tramóias. Leva- 
rão suas conquistas e victorias até á 
mesma índia Sesostris , Alexandre Ma- 
gno 5 e Trajano : assolarão povos, e le- 
vantarão suas bandeiras nas mesmas 
margens do indo , e com o estrondo 
de suas armas canharão aquella im- 
mortalidade de nome que ainda hoje 
permanece : forão estas victorias e con- 
quistas muito posteriores ás de Baccho , 
e nunca esta Divindade teve ciúmes , 
ou receou que a sua gloria , e fama fi- 
cassem ofFuscadas ; só tem estes medos 
e estes receios com a navegação traba- 
lhosa , e incerta de Vasco da Gama ! 
Porque será isto ? He Vasco da Gama, 
mero explorador , mais guerreiro , e 
seva mais triunfador que Sesostris ? ou 
Alexandre? Depois disso as acções de 
hum homem , por grandes que sejão , 
e estrondosas que pareção , nunca 
podem ser iguaes , nem similhantes 



Primeiro Caxto. 43 

as aceres de hum Deos. Tsào vai hu- 
ma iníiiiita distancia da natureza hu- 
ipana a natureza divina ! Que re- 
ceio . ou que ciúme pode ter hum 
Deos de ser vencido por hum homem ? 
ísio he degradar muito a Divindade , 
equiparalla i e assimilkalla a hum sim- 
ples moriai. Se o mesmo Eaccho . como 
diz o Poeta . tinha ouvido aos Fados 
cue viria da Hespanha huma gente 
iorussima . como quer elle contrastar 
os Fados . sabendo que nada consegui- 
ria ô.o que internasse contra a sua dis- 
posição i 

„ Altamente lhe dóe perder a gloria 

„ De que Niza conserva inda a memoria. „ 

Torna enfadonhamente a reproduzir 
esta idéa na Oit 32 : 

,, Teme agora que seja sepultado 

„ Seu tão celebre nome em negro raso. „ 

Náo se pode imaginar maior erro con- 
tra a boa razão que suppor medo em 
huma Divindade s tratando-se de hum 



44 Censura das Lusíadas. 

mortal. Onde está aqui sustentado o 
verdadeiro caracter de hum Deos ? Bac- 
cho he hum Numen na quimérica suppo- 
sição mythologica, Camões o faz obrar 
como hum Deos j que verdadeiramen- 
men te existe, porque a acção presuppõe 
hum agente ; e que medo pode ter 
hum Numen , ou que temor pode ca- 
hir na Divindade quando se trata de 
hum homem ? Isto não só he falta de 
gosto , mas falta de sizo. Os Poetas 
antigos não se imitâo nos seus agen- 
tes sobrenaturaes , imitão-se nas for- 
mulas Poéticas , na disposição da fa- 
bula , na transportação dos factos his- 
tóricos para o maravilhoso verosímil 
relativamente á Religião , e crença do 
Povo para quem se escreve. Porque 
Juno se oppõe a navegação dos Troian- 
nos , e a seu estabelecimento no Lacio , 
segue-se que Baccho se ha de oppor á 
navegação dos Portuguezes , e ao seu 
estabelecimento na índia , porque tem 
medo que os Portuguezes com suas fu- 
turas cavallarias facão esquecer seu no- 
me , como Juno se vinga da antiga in- 
juria do juízo ou sentença de Paris 9 



Primeiro Canto. 45 

que adjudicou a maçã a Vénus ? O Po- 
vo para quem Virgílio escrevia cria em 
Juno ; e os Portuguezes crem a exis- 
tência de Baccho ? Virgílio usava do 
maravilhoso da sua Religião como Idó- 
latra ; e os Christãos devem usar do 
mesmo que não acreditão ? 

Na Oit. 33 começa o arrezoado de 
Vénus , que se decide a favor dos Por- 
tuguezs , por quem se devia decidir Bac- 
cho , visto que o primeiro povoador da 
Lusitânia foi Luso seu companheiro , 
e visto ter favorecido tão largamente 
com os seus dons o fértil clima da mes- 
ma Lusitânia. Ora eu não sei decidir 
qual dos motivos seja mais frívolo , pue- 
ril , e irrisório , se o motivo da perse- 
guição . se o motivo da protecção. Bac- 
cho persegue porque tem meclo de al- 
guma quebra na sua antiga gloria , Vé- 
nus defende , e protege os Portugue- 
zes , porque acha na Língua Latina a 
etymologia da Poriugueza, que não dif- 
íere da Latina senão na pequena, ou 
pouca corrupção de alguns vocábulos. 
Em Baccho o motivo he hum temor 
impróprio da Divindade , em Vénus o 



46 Censura das Lusíadas. 

motivo he hum gostinho grammatícaL 
Que própria era Vénus para huma 
Grammatica Filosófica ! Imaginar a 
Deosa dos prazeres sensuaes na Índo- 
le [ e analogia de ambas as Línguas , 
e decidir-se pelo bom êxito da nave- 
gação de Vasco da Gama , pelos vi- 
sos da Língua Latina , que acha na 
Portuguezaí Á imaginação esquenta- 
da do Arioslo inventou muita patra- 
nha j mas simiihante absurdo não po- 
dia vir senão á cabeça de Camòes 
desorientada com a servil imitação de 
VLgilio. 

Não se pode saber da Oit. 34 quem 
seja a clara Dea . cujo culto os Por- 
luguezes devião dilatar , e engrande- 
cer na índia. Querem alguns Commen- 
1 adores , que seja Maria Santíssima ; 
se assim se devesse entender , ainda 
he mais absurdo , mais ímpio , n ais 
sacrílego o pensamento de Ca es. 
(orno he possível que este santo mo- 
tivo decidisse Vénus? Se he a m smâ 
Vénus, onde consta que hum dos fins 
do descobrimento da índia era a pro- 
pagação do Culto desta Divindade pro~ 



Primeiro Canto. 47 

fana ? Nenhuma allegoria pode salvar 
similhante absurdo. Segue-se na Git 
35 huma comparação que não he de 
Camões , mas trasladada de Virgílio 
Líy. 2 o da En. v. 216 , e com esta 
emprestada comparação nos pretende 
representar o tumulto que andava no 
Olympo com os discordantes parece- 
res dos Numes , que em oppostos par- 
tidos se combatia o em seus Estados 
Geraes : coiza tão imprópria dos Deo- 
ses , depois de terem ouvido a Júpi- 
ter quaes erão os immudaveis Decre- 
tos dos Fados grandes ; e Júpiter tão 
indolente , que lhes não impõe silen- 
cio , e os reprehende. Â' vista destas 
escandalosas incoherenclas , quem dei- 
í de exclamar com o judicioso Ho- 
rácio : 

Quodacmçue ostendis mlhi sic , incrodnlus odi. 
O que assim oiço , incrédulo aborreço. 

Temos na Git. 36 . e 37 a pintu- 
ra de Marte . que se resolve a favor 
dos Portuguezes por hum motivo que 
se não sabe qual seja , pois o Poeta 



48 Censura das Lusíadas. 

o não determina , deixando-nos em dú- 
vida sobre esta matéria : 

, 3 Ou porque amor antigo o obrigava , 
}) Ou porque a gente forte o merecia. „ 

Fosse lá pelo que fosse ? he certo que 
Marte se pòz em pé : 

„ Dentre os Deoses em pé se .levantava. „ 

Circunstancia bem escusada , porque 
podia dar o seu voto assentado; mas 

,, Por dar o seu parecer se pôz diante 
>3 De Júpiter armado íbrte s e duro. ,, 

A sua primeira acção he huma des- 
cortezia. Seja embora Marte hum guer- 
reiro , está em casa de seu pai , e na 
sua presença , não devia bater o pé na 
casa , e para dar o seu voto , sem que 
Júpiter o pedisse a nenhum dos Deo- 
ses ; porque elle não os consultava, 
juntou-os unicamente para lhes decla- 
rar qual era a lei dos Fados grandes , 
que não podia ser quebrada ; neste 



Primeiro Canto. 49 

caso não tinhão os Deoses que deli- 
berar , a sua uniea funcção era obe- 
decer, e Júpiter devia reprehender, e 
até castigar a desattenção de Marte ; 
porém o Poeta assentou que neste ri- 
dículo Consistório não devia Júpiter 
dar mais huma palavra , como com ef- 
íeito não deo. Depois da grande pan- 
cada que Marte deo no ethereo so- 
brado , que fez tremer tudo , disse que 
se não devia estar pelas razões de 
Baccho , 

,, Porque em fim vem de estômago danado, „ 

Baccho j arguido de indigestão . não re- 
plicou, nem rebateo a invectiva. Jú- 
piter não decide coiza alguma ; fez na 
Oit. 41 inclinação de cabeça, e toman- 
do o hyssope na mão . fez sobre todos 
huma aspersão de néctar , e os man- 
dou para sua casa : 

„ E néctar sobre todos esparzio . . . 

„ Logo cada bum dos Deoses se partio , 

,, Fazendo seus reaes acatamentos, 

„ Para os determinados aposentos. 

Tom. I. d 



50 Censura das Lusíadas» 

Com esta prosa baixa e trivial se aca- 
ba nas Divinas Lusíadas o Concilio 
dos Deoses . sem que para rebater as 
razoes de Baccho , e approvar as inve- 
ctivas de Marte, quizesse Júpiter pro- 
ferir hum a palavra sobre o cumprimen- 
to da lei dos Fados grandes ; nem mes- 
mo a hida de Mercúrio proposta por 
Marte aqui se determina, pois nem a 
minuta deste Decreto sahio do Con- 
selho de Estado. 

Na Oit. 42 lembra-se o Poeta dos 
Portuguezes navegantes , e diz : 

Si Cortava o mar a gente beljicosa , 

3> Já lá da banda do Ausíro , e do Oriente, ,„ 

E porque era tempo de se saber quem 
era o Heroe do Poema , que devia exe- 
cutar a grande acção do Descobrimen- 
to da Imita , sem nos haver prepara- 
do para isto , nos diz repentinamente 
na Oit. 44 : 

9y Vasco da Gama , o forte Capitão , 
Jt Que a tamanhas emprezas se ofterece , 
„ De soberbo , e altivo coração 
39 A quem fortuna sempre favorece ? 



Primeiro Canto. 51 

,, Para se aqui deter não vè razão , 
,, Que inhabitada a terra lhe parece ; 
)y Por diante passar determinava , 
,j Mas não ihe succedeo como cuidara. ,, 

Nesta arrastrada prosa se nos dá a idéa 9 
se nos pinta o caracter, e se nos fa- 
zem conhecer as qualidades do Heròe 
que deve levar ao íim tâo grande fei- 
to. As qualidades que o distinguem no 
coração vem a ser a soberba , e alti- 
vez : 

„ De soberbo, e de altivo corarão. ,, 

Quem poderá constituir na classe de 
virtudes heróicas a soberba , e a alti- 
vez ? Sào dois vicios , e mui reprehen- 
siveis ; he a soberba a raiz de todos os 
males , e a altivez , ou o orgulho he hu- 
ma verdadeira cegueira . que quasisem- 
per faz despenhar o homem. A magna- 
nimidade , a fortaleza , a clemência ; o 
valor , a prudência , estes são os pre- 
dicados do verdadeiro heroísmo. Mui- 
tas destas virtudes se descobrem em 
Enéas , todas em Gofredo . e o cara- 
cter de Henrique 4 o he muito apro- 

D 2 



52 Censura das Luòiadas. 

ximado a esta perfeição. A soberba e 
altivez dégrádãò o verdadeiro Heroe, 
Para nos dar a conhecer as qualida- 
des , ou tempera do espirito de Vasco 
da Gama, Camões o destituo daqueí- 
la prevista intelligencia que se an- 
tecipa aos casos duvidosos , e que con- 
cluo das circunstancias presentes o que 
pode acontecer futuro. Vasco da Gama . 
na primeira situação em que se a; 

ita nas Lusiadas , he de hum es- 
pirito limitado, que se engana no que 
ajuíza : 

3, Tvl2s nao ihe succedeo corou cuidava. i} 

Se acinte o quizesse degradar, e aba- 
fei- j nao podia fazer de hum homem 
de máo coração , e de curto entendi - 
mento . huma pintura mais ao natural. 
E oóâe interessai:, ou respeitar-se huni 
h o i n em de s íe carac i e r ? H e âss im o He- 
roe de huma Epopéa ? Deixemo-nos 
de regras de Poéticas , regras arbitra- 
rias , e de mera convenção : bastaria 
que o Poeta consultasse a razão, ea 
isalureza , para lhe dizerem .-ambas, 



Primeiro Caxto. 53 

que nao devia assim representar o seu 
Heroe. Na parte dos caracteres . he 
miserável Luiz de Camões. Nem hinri 
só nos representa como o devia re- 
bentar. D .45 até á Oil 
50 nos pinta . com miudeza indigna da 
■péa, q encontro das embarcações 3 
ou almadias de I i entre a Ilha 
de Màdas . e a Costa da Ethyo- 
pia Oriental; para iallar a esta gente 
der ao fundo as Nãos : 

,, Tomão velas , araaina-se a 'verga alta. „ 

Não se pode achar torneio algum poé- 
tico em ta o rasteiras expressões, emal 
accentuado verso. 

Na Oit. óô, e 51 dão os navegan- 
tes a saber aos Mouros quem sejào, 
donde vmhao , e a que viniiào : 

„ Os Portuguezes somos do Occidente, 
}J Imos baseando as terras do Oriente. ,, 

Até alli nao sei que houvessem ou- 
tros Portuguezes que não fossem os 
do Occidente. Na Oit. 51 ha numa 



54 Censura das Lusíadas. 

grande impropriedade , e huma gran- 
de mentira, expressas ambas em mui- 
to bons versos : — 

*, Do mar temos corrido , e navegado , 
9i Toda a parte do Antárctico, e Callisto , 
9} Toda a costa Africana rodeado, 
99 Diversos Ceos, e terras temos visto.,, 

Ha primeiro huma impropriedade no- 
tável ? porque não he verosimil que 
huns bárbaros pescadores Mouros da 
costa da Cafraria soubessem que coi- 
za era Antárctico , e muito menos co- 
nhecessem as Metamorfoses de Oví- 
dio , para saberem que Callisto foi 
mudada em Ursa , e depois em Estrel- 
la ou constellação do Hemisfério Bo- 
real. A linguagem deve-se adaptar aos 
tempos , aos lugares , e aos sugeitos ; 
não he Poeta o que não guarda este 
dictame 3 ou esta lei da boa razão. Ha 
huma grande mentira , porque Vasco 
da Gama ? e seus companheiros não 
havião navegado toda a parte do Sul , 
e do Norte do Oceano , nem havião 
rigorosamente rodeado toda a costa Afri- 
cana. Quanto lhes faltava desde alli 



Primeiro Canto. £5 

*té ao Cabo Guarda Ai , e bocas do 
Mar roxor Nos dois últimos versos des- 
ta Oit. ha a mesma impropriedade de 
expressões, porque tanío sabiáo aquel- 
barbaros Mouros quem era C ali is- 
to , como o que era o Laao de Ache- 
ronte . para dizer que os Portugueses 
são tao obedientes ao seu Rei que não 
só emprehenderáo longas navegações , 
se elle os mandar , mas até hirão ao 
Inferno : exageração \ ou hyperbole 
monstruosa. Na Oit. 53 respondem os 
Mouros quem sejão . desta maneira : — 

,, Somos ( hum dos das Ilhas lhe tornou ) 
j, Estrangeiros na terra , lei , e Nação ; 
., Que o» próprios são aqueues que criou 
}) A Natura sem lei , e sem razão. „ 

O primeiro verso não tem tintura de 
Poesia , e o segundo pecca contra as 
íeis do metro . pois nao dirá o mais 
cego Idolatra da nova seita Camonia- 
na que seja isto hum verso regular : 

}S Estrangeiros na terra , lei , e Nação. „ 

Nos outros dois versos ha hum a. ma- 



56 Censura das Lusíadas. 

jíiifesta falta de conhecimentos filosó- 
ficos. Nenhum Ente humano , ainda 
que saia immediatamente das mãos da 
Natureza para o estado selvagem e in- 
culto . sendo , como he , hum individuo 
da espécie humana , he creado sem lei , 
e sem razão. O homem , qualquer que 
seja o seu estado primitivo , he hum 
animal racional ; nem se pode dizer que 
he da classe dos brutos porque não es- 
tá policiado ; ao bruto falta a nature- 
za , ao homem selvagem a educação, 
Pelo que pertence á lei , todos trazem 
gravados no coração os princípios da 
lei natural . desenvolvem-se com a cul- 
tura, e aperfeiçoão-se com a Revela- 
ção. Na Oit. 54 se declara o nome da 
pequena Ilha defronte da qual as Náos 
havião ancorado - 9 e não só se diz 
em hum prosaico y mas notavelmente 
errado verso : 

si Chama-se a pequena Ilha , Moçambique. J9 

São estes defeitos tão sensíveis, e es- 
tranhos , que a titulo nenhum se podem 
ou disculpar \ ou dissimular. Na Oit. 60 



Primeiro Caxto. 57 

se nos declara que o Regedor de Mo- 
cambique se determinara a ir a bor- 
do de Náo de Vasco da Gama, e que 
era Mouro; e nesta Oitava encontro 
hum dos mais notáveis erros ou extra- 
ancias de Gamões, Deseobre-nos o 
Poeta quaes fossem os interiores pen- 
samentos de que hia occupado este 
Regedor na visita que fazia á Arreada 
Portugueza. Pela deposição dos seus ? 
que lhe derao a primeira noticia , já 
sabia que erào os Portugaezes do Oc- 
cidcníe : 

,, Em si cuidando 

_>, Qne são nquellas gentes inhumanas T 
„ Que , os aposentos Ca^pios habitando , 
,, A conquistar as terras Asianns , 
,, Vieráo , e por ordem cio Defino 
Jf O Império tomarão a Constantino. ,, 

Temos hum Mouro de Moçambique 
com hum pleno conhecimento da His- 
toria da Europa : suppõe-se que os 
Turcos sejào huma Nação vinda das 
margens do mar Caspio , e já lá sabia 
esíe nome hum Mouro de Mocambi- 
que ; sabia mais que esta Nação inva- 
sora , depois das suas conquistas na Ásia, 



58 Censura das Lusíadas. 

passara o Hellesponto , e tomara Cons- 
tantinopla ; que isto queria entender o 
sábio , e entendido Mouro , quando em 
sua alma dizia que os Turcos toma- 
rão o Império a Constantino: porque 
Constantino transferio a sede do im- 
pério Romano de Roma para Cons- 
tantinopla. Chama-se a isto guardar 
bem os costumes , pintando os homens 
como elles sâo , e attribuindo a hum 
Momo de Moçambique em 1497 coi- 
2as que , ditas no Poema , precisão de 
commentario para se entenderem í A 
regra em que se encerra este delicado 
conceito do Império de Constantino he 
hum dos mais errados versos das Lu- 
síadas : 

3 , O Império tomarão a Constantino. }s 

Quiz pôr o verbo — tomar — no pre- 
térito phusquam perfeito do indicativo , 
e deitou o verso a perder. A Oit. 61 
he igual a prosa , e a prosa em verso 
he igual a zero : 

„ Recebe o Capitão alegremente 



Primeiro Canto. 59 

„ O Mouro , e toda a sua companhia ; 

„ Dá-lhe de ricas peças hum presente , 

,, Que só para este eífeito já trazia. 

}i Dá-lhe conserva doce , e dá-lhe o ardente 

;, .Víío usado licor que dá alegria : 

,, Tudo o Mouro contente bem recebe , 

3 , E muito mais contente come e bebe. }) 



Declara o Poeta que o Gama dá hum 
presente áqnelie Regedor — " Que só 
para este etjeito já trazia. " Como he 
possível que fosse só para esít erieito , 
se este encontro era fortuito , e nào es- 
perado , nem no roteiro da viagem do 
Gama hia esta chegada a Mocambi- 
que? Dá-lhe. dá-lhe. dá-lhe trez vezes 
em huma só Oit. ! Na Oit. 62 pergunta 
o Mouro ao Gama, 

,, E perguntando tudo, lhe dizia , 

,, Se por ventura vinhão da Turquia ? „ 

Em primeiro lugar, o Gama já lhe ti- 
nha dito que erão os Portuguezes do 
Occidente , e era escusada simiíhante 
pergunta depois de saber quem erão , 
e o que queriâo. Se o Mouro mostra 
ter idéa da Turquia , também devia ter 



60 Censura o as Lusíadas. 

idéa da gente Turca, pois esta gente 
Turca deo seu nome ao paiz que con- 
quistara , chamando-lhe Turquia, e se 
conhecia a gente Turca para que per- 
gunta se erâo de Turquia; quando no 
trage, e figura via que na o era o Tur- 
cos? E se tinha idéa dos Turcos por 
terem hido já Turcos a Moçambique 
em 1497, como pregunta se erâo Tur- 
cos ? Respônde-lbe o Gama que não 
era — 

5 , Das gentes enojosas da Turquia. „ 

Isto nao se devia dizer a hum Mouro 
que tinha a mesma lei dos Turcos , e 
venerava como Profeta aquelle mesmo 
que por tal conhecião , e conhecem os 
Turcos. Chama-se lambem isto a infrac- 
ção da lei suprema da boa razão na 
pintura dos Caracteres , ou costumes. 
Depois disto em duas únicas Oit. 65 e 
66 dá tâo succinla idéa da Religião 
Christã , que lie impossível que o Mou- 
ro a comprehendesse. Seja o que for, 
o que eu noto de contrario á boa ra- 
zão he a miudeza com que em huma 



Primeiro Canto. 61 

Epopéa se conlào circunstancias tào 

pequenas, que hum Historiador judi- 
cioso regeitaria , ou omittiria como 
fastidiosas eu; sua mesura prosa. Nas 
Oit. Gd, 70, 71. 72 pinta com prolixa, 
e demasiada paríicularisaçâo os senti- 
mefttos d aro á vista do que se 

ihe tinha dito, e mostrado; nisto nada 
ha de sobrenatural , e maravilhoso ; 
porque nada to próprio dos Mu- 

lanos • uno Lerem ódio aos Chris- 
làos : huma vez que por íaes os conhe- 
e raaq iii contra elies iodo o 

; se lho podem fazer. Vai-se o Alou- 
ro 'para terra, com aquella má tenção 
propri inda hoje dos bar- 
os . quando vem aportar em 
.rente. acidas. Ma* 

abo e a mor;-::; assim tem 
aooi :■ navegantes , e 

• os depois a 
uando de Magalhães em huma das 
; is do Ma: te momento co- 

meça o grande maravilhoso das Lusia- 
noí A_'ir .-obrenaturaes. Baccho 
se api o\ eita das disposições do animo do 
Mouro para empecer os Portuguezeí ; 



62 Censura das Lusíadas. 

,, E recebido 
3> Na terra do ol se quente ajuntamento 
}) Sc foi o Mouro ao cognito aposento. ,, 

Que coiza seja o obsequeníe ajuntamen- 
to nem o Poeta o diz , nem nós o sa- 
bemos , talvez que este ajuntamento 
seja , na accepçâo Castelhana , a Came- 
ra de J.íoçambiqae. Baceho apparece pe- 
la primeira vez a obrar contra os Por- 
tuguezes na Oit. 73. 

„ No pensamento cuida hum falso engano , 
9} Com que seja de todo destruído. ,, 

Se he engano he huma falsidade, e is- 
to he hum pleonasmo ■ embora. Baceho 
he huma Divindade , e quando o Poe- 
ta o põe em acção nas Lusiadas nun- 
ca jamais deixou de fazer o papel de 
hum vil intrigante. Tem o poder que 
he próprio de hum jNumen: mas tra- 
tando-se de homens , nunca obra senão 
com enganos, e traições, e não com 
força descoberta, Os Deoses de Home- 
ro tem mais dignidade, e Baceho em 
Gamões he hum bêbado cobarde, sem 
honra, e sem valor. 



Primeiro Canto. 63 

Deus intetml , nisi di^nus vvidice nodus. 
; , Se o caso o núo pedir, não venha humNumen. „ 

Isto he hum dictame da boa razão de 
Horácio , e de lodos os homens. O que 
Baccho faz pela intervenção dos Mou- 
ros , podião muito bem os Mouros fa- 
zer sem a intervenção de Baccho, e era 
escusado hum Deos , onde as circuns- 
tancias o não pedião. intenta Baccho 
perder alli os Portuguezés ; isso farião 
os Mouros sem Baccho , porque , ou 
para queimar as Náos . ou para os 
accomiiíeiier em terra á traição , e 
ou pela cilada , ou peia superioridade 
do numero dar cabo dos Portuguezés ? 
aâo era coiza que exigisse forças sobre- 
naíuraes , bastavão as nahiraes paixões 
do3 homens . a cobiça , a avareza, o ódio, 
e a antipathia natural entre Ivíouros , 
e C Vamos liudo ver os 

des temperos de Baccho . ou os do roei a. 
— Oit. 74: 

„ Está de Fado já determinado , 
}) Que tamanhas victorias , tão famosas, 
3 , Hajão os Portugíiezcs alcançado 
„ Das Indiannas gentes belncosas : 



64 Censura das Lusíadas. 



s , E eu filho cio Padre sublimado , 

3i Com tantas qualidades generosas , 

J} Heide sorTrer que o Fado favoreça 

„ Outrem por quem meu nome se escureça ? 

Oit. 75. 
}i Já quizerão os Deoses que tivesse 
„ O filho de Filippo nesta parte 
,, Tanto p >der , que tudo submettesse 
5 , Debaixil de seu jugo o fero Marte : 
3 , Mas ha se de sorrVer que o Fado desse 
„ A tão poucos tamanho esforço , e arte , 
s , Que eu oo'o grão Macedónio , e co'o Romano 
„ Demos lugar' ao nome Lusitano ? s) 

Tudo isto não he mais que huma ti- 
rada de contradicções ? absurdos , e pue- 
rilidades. Em primeiro lugar, se o mes- 
mo Baceho tinha ouvido da própria bo-^ 
ea do irresistível Fado , que os Por- 
tuguezes deviào ser victoriosos na In- 
( até os deitarem de lá fora ) , he 
tolo duas vezes ; a primeira porque 
mostra ignorar que a lei do Fado nâo 
torna atraz , e se deve cumprir , a se- 
gunda por não conhecer que contra o 
Fado erão baldados seus esforços , e 
que por força devia sahir mal de tudo 
aquillo em quesemeltesse, e ficarcomo 
envergonhado. He huma Divindade , e 



Primeiro Canto. 65 

ignora tudo isto ? Que mais razão ti- 
nha Alexandre para se lhe conceder a 
conquista da índia , do que tinhão os 
Portuguezes para fazerem o mesmo ? 
Baccho dá a razão , que he porque os 
Macedonios erão muitos , e os Portu- 
tuguezs erão poucos. Ainda se nos não 
deo o mappa exacto das forças dispo- 
níveis de Alexandre. Se a gloria de Bac- 
cho fica com estas victorias alcançadas 
ofFuscada , e deprimida , que importa o 
maior ou o menor numero dos com- 
batentes P Tudo isto he pueril , e pò- 
de-se chamar em boa frase Portugue- 
za , huma razão de Cabo de esquadra. 
Demais . por maior que seja hum He- 
roe. nunca deixa de ser hum individuo 
da espécie humana . e não pode em suas 
acções , por illustres que sejâo , entrar 
em concorrência com hum Deos ; Bac- 
cho se declara tal quando diz : 

„ E eu só filho do Padre Sublimado. „ 

Isto he faltar á lei dos costumes dicta- 
da pela boa razão. Baccho se abate a 
si mesmo , e se faz menos que Alexan- 
Tom. L e 



06 Censura das Lusíadas. 

dre 9 pois sendo hum Deos recorre a 
enganos , e falsidades > a dolos , e malí- 
cias para perder hum mortal. Oiçamo- 
lo a elle; Oit. 76.: 

„ Antes que chegado 
9> Seja este Capitão, astutamente 
3J Lhe será tanto engano fabricado , 
}) Que nunca veja as partes do Oriente. 3 , 

Tem Baccho resolvido i e vai executar 
a primeira parvoice; Oit. 77: 

j, Isto dizendo , irado , e quasi insano 

9i Sobre a terra Africana descenieo , 

3 , Onde vestindo a forma , e gesto humauo 

}) Para o Prasso sabido se moveo : 

>y E por melhor tecer o astuto engano 

)9 No gesto natural se converteo 

_,, De hum Mouro em Moçambique conhecido , 

S) Velho sábio } e com o Xeque mui valido. „ 

E onde estava mettido este Mouro ? Era 
precizo que estivesse mui longe de Mo- 
çambique; porque se alli estivesse co- 
mo se mostra estar, .tínhamos a scena 
dos Anfitriões no caso de ir naquelle 
comenos ao Palácio do Xeque. Bac- 
cho he desobediente ao Pai > que tinha 
annunciado a lei dos Fados grandes-, 



Primeiro Canto. 67 

Baccho he hum Deos . e sabe que lhe 
está mal fazer-se Mouro por amor de 
hum homem. Baccho não ignora que 
tudo fazia em vào pelo que estava de- 
cretado ; e Baccho ateima r Baccho 
mostra que não he hum Deos . pois 
não antevê o futuro . e se o antevê não 
deve obrar , porque sabe que nada apro- 
veitaria. Oit. 78 : 

,, E entraudo a fallar-lhe a tempo , e horas 
„ A sua falsidade accommodauas. „ 

Isto he o ultimo excesso de ridículas 
extravagâncias ! Talvez esperasse para 
depois de jantar, porque, apanha-ndo-o 
esquentado . mais facilmente lhe mei- 
tia em cabeça as mentiras , e aleives 
que levantava aos Portuguezes , que 
tão seus devotos são \ eosMourcs nâo. 
As Oit. 30, 81 ; 82 são de baixíssima 
prosa, e o tracto mais tedioso que tem 
o Poema : — 

,, E também sei que tem determinado 
>t De vir por agua d terra muito cedo ; 
„ Tu deves hir também com os teus armado 
s> Esperallo em cilada occulto , e quedo 5 

E 2 



£8 Censura das Lusíadas. 

s -, Porque sahindo a gente descuidada 
„ Cahiráõ facilmente na cilada. „ 



Na Oit 82 ha estes sublimes versos : 

_,, Os braços pelo collo lhe lançou 
}i Agradecendo muito o tal conselho. 

Que ridícula contradicção , ou que pue- 
ril extravagância ! Baccho como hum 
Deos sabe os futuros contingentes . 
pois conhece, e declara as futuras in- 
tenções dos Portuguezes , que erão no 
dia seguinte fazer aguada ; pois se el- 
le sabe isto que ainda não tinha acon- 
tecido , porque não sabe também que 
os Mouros se havião de sahir mal da 
cilada ? e que os Portuguezes os de- 
vião esbandalhar , ferir , matar ? tam- 
bém no dia seguinte , e que por isto 
ficaria frustrado o seu estratagema ; 
he Deos para saber da aguada futu- 
ra , nao he Deos para saber da derro- 
ta , e pancadaria imminente ? Devemos 
dizer que ou Baccho he velhaco \ por- 
que os Mouros forão os que cahirão 
na cilada } e não os Portuguezes 3 ou 
i 



Primeiro Caxto. 6 9 

que Luiz de Camões nào tem juizo em 
suas ficções . e no irrisório maquinis- 
mo ou maravilhoso do tão teimosamen- 
te decantado Poema. De propósito 
quer Baccho dar cabo dos Mouros , 
e não dos Portuguezes . porque além 
do conselho da cilada onde os Mou- 
ros forão escalavrados . também lhemet- 
te em cabeça que dem aos Portugue- 
zes hum Piloto que os desencaminhe : 
então sabia Baccho que a função da 
cilada não devia aproveitar. E para que 
a fez ? 

,, Diz-lhe que acompanhando o Lusitano , 
_,, Por taes costas , e mares com elle ande ; 
,, Que se daqui escapar , que Lá adiante 
}) Vá cahir onde nunca se levante ! 

E se o Piloto fosse com esta instruc- 
cão . e a quizesse pôr por obra . quem 
lhe dava a certeza de que só elle de- 
via escapar ? 

Oit 84. Aqui ha huma vergonho- 
sa degradação do Heroe , e huma in- 
fracção daquelle Regimento que EIRei 
D. Manoel lhe dera . segundo elle dis- 
se depois a EIRei de Meiinde , no qual 



70 Censura das Lusíadas. 

se lhe mandava que não saltasse em 
terra ate não acabar o descobrimento ; 
oiçamo-lo : 



, Quando o Gama com os seus determinava, 
, De vir por agua á terra apercebido. 9> 



Reduzir hum Heroé a hir fazer agua- 
da a terra mettido na lancha com a 
turba dos marinheiros peões . he hu- 
ma íuncção em que até agora não en- 
trou nem o mais ignoto Commandan- 
te de huma Sumaca. E se temia hmna 
cilada , como o coração presago lhe an- 
nunciava ; menos o devia fazer desem- 
barcar; porque era pôr em risco a sua 
pessoa ? coiza tão necessária , e indis- 
pensável para o bom êxito da expedi- 
ção ; que esta era a mente do Rei 
guando lhe ordenou que não saltasse 
em terra senão na índia. Na Oit. 
Sô nada temos de notável ou muito 
contraditório : o tom prosaico , ainda 
que seja ordinário em quasi todo o 
Poema , com mui poucas excepções y 
nesta oitava salta mais aos olhos , ou 
aos ouvidos ; 



Primeiro Canto. 71 

„ E mais também mandado tinha á terra 
„ De antes pelo Piloto necessário .... 
., Apercebido vai como podia _, 
,, Em três batéis somente que trazia. „ 



Temos pois o Gama a fazer acuada 
com os marinheiros hindo á terra em 
hum dos três batéis ; nestes batéis de- 
viào hir também os toneis , ou as pi- 
pas em que a agua viesse para bordo , 
parece que nos batéis nada mais ca- 
beria , porque além do vazilhame . hia 
a marinhagem e soldadesca aventurei- 
ra , que isso quer dizer — hir aperce- 
bido . — E como he possivel , ou ve- 
rosímil que nos mesmos batéis assim 
empachados fosse artilharia ? O Poeta 
o diz . porque depois que na Oit. 87 
com a mais vulgar e baixa expressão > 
indigna da Epopéa \ disse — 

j, Não sofTre muito a g§ntfe generosa 

,_, Andar-lhe os cães os dentes amostrando ; 

Porcue em fim , nós não estamos nos 
tempos Homéricos , e depois da Oit. 
88 .onde está a comparação do Tou- 



¥2 Censura das Lusíadas. 

ro , que lhe emprestou Bernado Tas- 
so ? diz na Oit. 89 : 

„ Eis nos batéis o fogo se levanta 
j, Na furiosa , e dura artilharia : „ 

Por certo o Gama não levava comsi- 
go lanchas canhoeiras , e isto , que pa- 
rece huma miudeza inattendivel , são 
erros , e imperfeições indesculpáveis 9 
e accusão tanto a mingoa do Poeta, 
como a cega pertinácia dos que nes- 
te século derâo na inania não só de 
o levantarem acima de todos , mas de 
o julgarem absolutamente irreprehen- 
sivel ; louvo o zelo da gloria nacional , 
ninguém a deseja tanto como eu; mas 
não posso approvar a parcialidade, e 
a contumácia contra os brados da ra- 
2ão . e depoimentos da experiência. Nes- 
ta mesma Oit. , e na Oit. 90 , e 91 
continua o Poeta a contar o desbara- 
to que a artilharia dos bateis fizera 
nos Mouros : 



5 , Não se contenta a gente Portugueza , 
3> Mas seguindo a victorÍ3 , estrue , e mata. 



Primeiro Canto. 73 

E onde está Baccho autor da cilada , 
e do engano ? Não acode aos Mou- 
ros ? Parece que este Numen conser- 
vando a forma que tinha assumido do 
Mouro velho , e combatendo como hum 
Deos que conquistara a índia , e que 
tão illesa , e intacta queria manter a 
gloria de seus triunfos , e a fama de 
seu nome , devia nesta occasião com- 
bater á frente da Bridada Mourisca de 
Moçambique, e não deixar Portuguez 
vivo. Nada disto succede . e parece 
pelo resultado de todas as acções , que 
Baccho he mais amigo dos Portugue- 
zes j que dos Mouros , pois sempre fi- 
cão mal os seus protegidos em quan- 
tas acções intentão . levados , e insti- 
gados , como o Poeta nos diz , do mes- 
mo Baccho , que se transforma em Mou- 
ro para persuadir o Xeque que dê ca- 
bo dos navegantes. Se o auxilio de 
hum Deos aqui não aproveita , e se 
deixa tudo aos meios , e forças natu- 
raes dos homens , para que ha inter- 
venção de hum Deos que de nada ser- 
ve, e de nada aproveita ? Nem Bac- 
cho he Deos para soccorrer^ nem he 



74 Censura das Lusíadas. 

Deos para prever. Se elle combate pe- 
los Mouros , combata outro Deos pe- 
los Portuguezes ? venha Vénus , venha 
Marte , que no Consistório do Olym- 
po tanta bulha íizerâo para defender 
os Portuguezes ; neste caso ? seria me- 
nor desdouro para Baccho íicar ven- 
cido por outro Deos , como diante das 
muralhas de Tróia acontecia aos Deo- 
ses de Homero. Em Camões os pro- 
jectos de hum filho do Padre subli- 
mado , são contrastados pelos homens ; 
mas este Baccho de Camões nem tem 
poder ? nem tem previsão : não tem 
poder , pois fica vencido , não tem pre- 
visão pois não conhece que hade ficar 
mal ; e se o conhece , porque não evi- 
ta o seu vilipendio não se mettendo 
em acções cujo êxito sempre se lhe 
torna desfavorável ? 

Na Oit. 92 se declara a victoria 
dos Portuguezes : 

,, Desta arte o Portnguez em fim castiga 
,, A vil malícia pérfida, e inimiga. 

Não se faz menção de Baccho , que 



Primeiro Canto. 75 

não serve senão para instigar os Mou- 
ros , e deitar-se de tora. Continua na 
Oit. 95 a manifestar a vileza , e co- 
bardia deste Numen , que sendo o Con- 
quistador de tantas ÍSacões da Ásia, 
o fundador de tantas Cidades , e de 
tantos Impérios não tem força para 
atacar á cara descoberta hum punha- 
do de Portucruezes ? e tudo isto para 
justificar a sentença de Racine filho , 
que em o Prefacio da Traducçâo de 
Milton . diz : O Poema das Lusíadas 
he a relação de huma viayem em que 
as Divindades do Paganismo fazem pei- 
sonayens ridículas. 

„ E vendo sem vingança tanto damno , 
3 , Somente estriba no segundo engano. „ 

As armas do conquistador da índia r 
filho do Padre sublimado , sâo a intri- 
ga , e o engano , meios sempre infru- 
ctuosos, e nos quaes elle he tão per- 
tinaz , que nem a mesma experiência o 
desengana. Na Oit. 95 conduz Ca- 
mões o seu Heroe ao ultimo ponto de 
degradação , pois até o deixa ver , e o 



76 Censura das Lusíadas. 

representa desprovido daquelles dieta- 
mes da natural prudência , que he co- 
mo o resultado do sizo commum de 
todos os homens. Sem se lembrar do 
ressentimento dos Mouros na derrota 
que padecerão , e que lhes devia ac- 
cender os desejos da vingança . acceita 
hum presente das mãos dos mesmos 
Mouros \ que devia suspeitar funesto , 
e dizer comsigo o que disserão os 
Troyanos : 

Timeo Danaos , et dona ferentes • 
Temo nas mesmas dadivas os Gregos. 

Acceita hum Piloto , sem se lembrar , 
que os que buscarão a sua ruina na 
terra , também a buscarião no mar : 

„ O Capitão , que já lhe então convinha 
,, Tornar a seu caminho acostumado , 
,, Que tempo concertado , e ventos tinha , 
,, Para hir buscar o Indo desejado ; 
,, Recebendo o Piloto que lhe vinha, 
,, Foi delle alegremente agazalhado. „ 

O Gama devia ter huma prudente cau- 
tella, ainda que a situação em que es- 



Primeiro Canto. 77 

tava o obrigasse a aproveitar, e lan- 
çar mão de todos os meios que as cir- 
cunstancias lhe offerecião para ultimar 
a expedição já tão adiantada ; devia 
desconliar do Piloto, e muito mais dos 
Mouros que devia suppôr tão ressen- 
tidos como maltratados. Nada disto 
acontece , e o Camões , que he abso- 
lutamente nullo na sustentação dos ca- 
racteres , nos representa o Gama em 
tal estado de demência i que ninguém 
o pode dizer melhor que o mesmo Ca- 
mões na Oit. 96 , Verso 5° 

5 , O Capitão , que não cahia em naola. „ 

Não se pode mais vivamente represen- 
tar hum mentecapto. He o Descobri- 
dor da índia, que nada comprehende, 
em nada cahe do que lhe fazem : 

„ Do enganoso ardil que o Mouro urdia. ,, 

Nem ao menos os dois Pilotos da ex- 
pedição Pêro de Alemquer, e João de 
Coimbra , poderião conhecer , por huma 
estimativa de aproximação , que o per- 



78 Censura das Lusíadas. 

ro do Mouro os desviava do ramo? E 
tão pouco poderião dizer os roteiros 
de Bartholomeo Dias , que tanto avan- 
te tinha chegada pela costa Oriental 
d' Africa ? Ternos pois hum Heroe sem 
conhecimentos ? cahindo em todos os 
enganos ; de tâo bom natural , que nem 
nos mesmos inimigos suspeita desejos 
de vingança , continuando na Oit. 9 7 : 

,, Mas o Mouro , instruído nos enganos 

3 , Que o malévolo Baccho lhe ensinara , 

,, De morte, e cativeiro, novos damnos, 

>, Antes que á índia chegue , lhe prepara, „ 

Temos outra vez , e ridiculamente 9 
Baccho em scena. Se este Baccho sabe 
com clareza que Vasco da Gama deve 
chegar á índia — antes que á índia 
chegue , para que são estas infructuo- 
sas tramóias ? Parece que está Bac- 
cho dizendo comsigo : He verdade que 
eu não posso evitar (já que os Fa- 
dos grandes assim o querem ) que es- 
te Vasco da Gama chegue á índia , 
mas ao menos — Antes que á índia 
cheque , o heide fazer rabiar para traz , 
e para diante ? hei de azoinallo ? ator- 



Primeiro Canto. 79 

mentallo , e causar-ihe mil amargores 
de boca ! Parece isto teima , e vingan- 
ça de mulheres . que ainda que saibãe 
que nada aproveitâo , ou conseguem , 
satisfazem a raiva em hir com a sua 
por diante. E pode ser este o cara- 
cter de hum Deos ? Sempre se serve 
do engano vil , e baixo ? e tão infru- 
ctuosamente , oue o resultado destas 
tramas pueris , he o seu vilipendio , e 
vergonha. Parece que pedia a boa ra- 
zão que se tivesse já realizado a lem- 
brança do Consistório do Olympo , que 
Mercúrio tivesse apparecido a Vasco 
da Gama , não só para o acautelar con- 
tra os enganos do malévolo filho do 
Padre sublimado , mas para lhe mos- 
trar a carreira da Índia , ou encami- 
nhallo desde aqueilas aguas e para- 
gens para Melinde , onde no Consis- 
tório se havia disposto que elle fosse 
agazalhado ; porém Mercúrio não ap- 
parece , e anda Vasco da Gama como 
apatetado daqui para alli «, segundo o 
capricho , ou arbitrio dos Pilotos Ma- 
hometanos, enganado sempre com a es- 
perança que estes lhe davão de achar 



80 Censura das Lusíadas. 

também , ora aqui , ora alli , gente que 
em Christo cria. E devia Vasco da 
Gama esperar de hum Mouro que o 
levasse seguramente a terras de Chris- 
tãos? Assim se diz na Oit. 98: 

y, Que perto está huma Ilha , cujo assento 
í9 Povo antigo Christão sempre habitou. „ 

Esta Ilha habitada de hum povo an- 
tigo Christão , chama-se — Quilóa — 
Oit. 99 : 



s , Quilóa, mui conhecida pela fama. „ 

Este erradissimo verso , que se não 
pôde accentuar por mais tratos que se 
dê á lingua quando se intenta pro- 
nunciar, encerra em si huma contra- 
dicção manifesta. Se esta Quilóa era 
tão conhecida pela fama , e se era pu- 
blica a fama do estado > população ? e 
Religião dos habitantes desta Ilha i 
quaes erão os limites desta publicida- 
de ? Parece que só se circunscrevia aos 
Mouros, porque Vasco da Gama ne- 
nhuma noticia tinha delia : e se a igno- 



Primeiro Canto. 81 

rava , como era tão conhecida pela Fa- 
ma? Apparece finalmente na Oit. loo 
a bella Vénus , que até alli não tinha 
apparecido, nem dado mostras ou si- 
naes alguns da sua paixão pelos Por- 
tuguezes , e o grande motivo da simi- 
lhança da etymologia , e sintaxe das 
Linguas Latina , e Portugueza , ainda 
a não tinha obrigado a mostrar o que 
podia , e quanto se interessava na pros- 
peridade , e ventura da navegação dos 
seus Portuguezes. E para que appare- 
ce a Deosa em Cythéra celebrada ? Is- 
to he , não a Vénus celeste , mas a 
Vénus impura , a Cytheréa ? Para li- 
vrar os Portuguezes dos perigos , e ci- 
ladas que os espera vão em Quilóa , ur- 
didos , e inspirados por Baccho , e exe- 
cutados pelos Mouros , agentes subal- 
ternos dos destemperos , e parvoíces 
de Baccho. Parece que em casos idên- 
ticos se necessitava do mesmo auxi- 
lio , e se hum Deos tinha formado o 
nó , ou a laçada , outro Deos a devia 
desatar. Assim o mostra a boa razão ; 
porque pelas mesmas causas porque as 
coizas se fazem , por essas se dissol- 
Tom, L f 



82 Censura das Lusíadas. 

vem. Pois se Baccho tinha urdido os 
enganos em Moçambique, se alli es- 
tiverão os Portuguezes a ponto de se 
perder , e mallograr-se a expedição ? 
na passagem da, aguada, porque não 
veio alli Vénus Cytheréa acudir-lhe , 
e livrallos daquelle ião perigoso tran- 
se em que se virão , como agora vem 
acudir-lhes no que se lhes prepara em 
Quilóa ? Tem menos poder a Lingua 
Portugueza pela sua similhança com 
a Latina em Moçambique , do que tem 
em Quilóa ? Não he o sitio , he a Lin- 
gua quem faz a amizade de Vénus ! 
Talvez que tivessem já chegado asTra- 
ducções modernas de Francez a Moçam- 
bique , e que Vénus alli se enfadasse 
pela ver tão adulterada, que nem se 
parece com a Portugueza , nem com 
a Latina. Tão necessária no maqui- 
nismo do Poema era Vénus em Qui- 
lóa, como o tinha sido em Moçambi- 
que , e não ha outra razão para tão 
grande diíFerença , senão a falta de si- 
zo , ou de a attenção do Poeta , que 
perdendo o tempo em miudezas, pro- 
saicamente expostas , nem se lembra 



Primeiro Canto.' 83 

do que disse , nem sabe o que hade 
dizer. Hum Deos estava por Troya, 
outro contra Troya , em Homero ; pois 
se isto acontece na Iliada , veja-se 
também nas Lusíadas. Juno em a Enei- 
da persegue os Troyanos por amor da 
maça de Paris , pois persiga Baccho 
os Portuguezes porque teme , que o 
seu nome fique esquecido na índia en- 
tre o estrépito das façanhas dos Por- 
tuguezes. Nos Originaes Grego , e La- 
tino obrão estes mesmos contrários 
Deoses com dignidade ; nas Lusiadas ? 
ou com indecencia, ou com parvoice. 
Em a Oit. 100. Vénus sem appa- 
recer ao Heroe , sem se dar a conhe- 
cer , obra de mao coberta \ e de tal 
geito faz os ventos ponteiros , que as 
Náos de Vasco da Gama não podem 
abicar á barra de Quilóa. Pdde-se di- 
zer que Vénus tinha particular tenta- 
taçao contra Quilóa , porque não des- 
viando as Náos de Moçambique, tam- 
bém as . não desviará de Momba- 
ça , sabendo , como Deosa , que os 
riscos que correra em Moçambique , 
e se lhes preparavão em Quilóa \ erão 

F 2 



84 Censura das Lusíadas. 

os mesmos que os esperavão em Mom- 
baça. Os Ventos nas Lusíadas são ho- 
mens de duas caras ; huma vez obe- 
decem a Vénus contra Baccho , ou- 
tra vez obedecem a Baccho contra Vé- 
nus. Quando o Rei do vinho for ao 
Reino da agua , ver-se-ha como os ven- 
tos lhe obedecem em huma furiosa tem- 
pestade ; agora que Baccho quer le- 
var os Portuguezes a Quilóa, não lhe 
obedecem os ventos , e fazem unica- 
mente a vontade a Vénus : 

3 , Mas não querendo a Deosa guardadora , 
„ Não entra pela barra , e surge fora. „ 

Temos pois na Oit. 104 a Vasco da 
Gama em Mombaça, sem que Vénus 
o queira desviar desta inimiga Cida- 
de , como o tinha desviado da inimi- 
ga Quilóa. 

> , E sendo a ella o Capitão chegado 

„ Estranhamente ledo , porque espera 

„ De poder ver o povo baptizado 

8 , Corno o falso Piloto lhe dissera ; 

„ Eis vem batéis da terra com recado 

„ Do Rei que já sabia a gente que era ; 



«» 



Primeiro Canto. 85 

Que Baccho muito d'antes o avisara 

Na forma de outro Mouro que tomara. „ 



Não nos lembremos da baixeza , e hu- 
mildade desta prosa , admiremos a os- 
citancia do Poeta , e a parvoíce de 
Baccho. Desceo do Ceo para se andar 
mascarando de Mouro pela costa de 
Africa sem fazer coiza nenhuma. Es- 
ta mascarada , ou esta transformação 
foi repentina , não estávamos prepa- 
rados para ella. Baccho vai continu- 
ando a representar seu papel de in- 
trigante, e enredador, com tanta inu- 
tilidade, e tão infructuosamente como 
até agora temos visto. São tão ordi- 
nários , e tão naturaes estes transes 
em que o Gama se vê , tão natu- 
raes , e ordinários os meios porque del- 
les sahe, que tornão ao juizo desapai- 
xonado , cada vez mais ridiculo , e 
monstruoso o maquinismo das Lusía- 
das. Para lhes podermos dar alguma 
força , e valor , seria precizo , que nos 
transportássemos ao seio do Paganis- 
mo , que nos fizéssemos Idólatras , que 
intimamente nos persuadíssemos da 



86 Censura das Lusíadas. 

real existência destas Divindades Pagfãs , 
então he que nos poderião interessar 
os seus ódios , e os seus favores. Co- 
mo he possivel, que o que he quimé- 
rico , esteja em contacto com o que 
he real, e existente? Isto está tantas 
vezes dito, e repetido, que já enfada 
e aborrece! Suppormos que em 1497 
Baccho , e Vénus iníluissem em huma 
navegação de Christãos Catholicos Ro- 
manos , lie renunciar todos os princí- 
pios da humana razão. Que interesse 
nos podem causar as acções de Entes , 
cuja existência he para nós huma ver- 
dadeira Comedia fantástica , e irrisó- 
ria ? Déoses que nada podem , que não 
conseguem o que querem , que obrão , 
contra o que entendem , e que por fim 
3ião existem ; nenhum delles se mos- 
tra ao Heroe , o mesmo Heroe os não 
acredita : eis-aqui o grande maravilho- 
so das Lusidas , que se começa a de- 
senvolver , e obrar no primeiro Canto. 
Hum Conselho de Deoses , que não he 
Conselho , pois o Júpiter alto nada pro- 
põe para deliberar nem pede os pare- 
ceres dos convocados ? apenas lhes de- 



Primeiro Canto. 87 

clara o que se vai a executar por or- 
dem dos Fados grandes com quem os 
Conselheiros nada tinha© ■ e a quem 
o mesmo Jupiter alto se nâo podia op- 
por. 

Depois disto , todas as manobras de 
Baccho , sempre escondido , sempre 
disfarçado , são inúteis , tudo o que os 
Mouros fazem com Baccho podiào fa- 
zer sem Baccho , assim como o Ga- 
ma no encontro da aguada se livra do 
que lhe fazem os Mouros sem ser aju- 
dado por Vénus , que, se vem huma 
vez soccorrer Vasco da Gama, não he 
a ella a quem Vasco da Gama pedia 
soccorro , mas a Deos Omnipotente ; 
porque Vasco da Gama só a este co- 
nhecia , e não os Deoses do Paganis- 
mo ; que , se na frase da Escriptura são 
verdadeiros Demónios, quando Vasco 
da Gama pede a Deos que o ajude . 
o Diabo he quem lhe acode. Os Mou- 
ros podião fazer muito bem sem au- 
xilio ; instigação , e intervenção de 
Baccho o que íizerão com elle. Que 
fizerao os Mouros a Vasco da Gama? 
Esperarão-no armados , e postos em 



88 Censura das Lusíadas. 

cilada para cahirem sobre elle quando 
mais descuidado estivesse enchendo as 
pipas na fonte. Para esta acção de 
•cobardia, e barbaridade, não he pre- 
ciso hum Deos , basta hum homem. Os 
Mouros de Moçambique, não fizerão 
mais a Vasco da Gama do que fize- 
rão os Negros da Angra de Santa Hele- 
na ; apparecêrão de repente de trás de 
hum oiteiro; fizerão descer este oitei- 
xo mais depressa do que o subira o 
valentão Velloso, fazem cahir sobre 
©s Portvjguezes huma nuvem de settas , 
e pedradas, o mesmo Heroe que aco- 
de á briga , traz dalli huma perna mal 
ferida com huma frechada; e tudo is- 
to fizerão os Negros sem o auxilio de 
Baccho; tudo isto, e muito mais po- 
dião fazer sem Baccho os Mouros de 
Moçambique , e ainda mais á sua von- 
tade 3 pois apanhavão os Portuguezes 
em cilada , depois da negaça que al- 
guns daquelles cães lhes fizerão , andan- 
do como diz o Poeta a amostrar-lhe 
os dentes pela praia ; e para isto que 
hum homem faz , e de que outro ho- 
mem se livra, vai Luiz de Camões 



Primeiro Canto, 8& 

transformar Baceho em Mouro , para 
o fazer depois Clérigo no 2. a Canto ! 
Tenho mostrado . sem outras ar- 
mas mais que as da Dialéctica , e sem 
os inúteis soccorros dos preceitos dos 
Pedantes , que não he mais que huma 
puerilidade indecente 5 o que a estú- 
pida admiração tem até agora julga- 
do sobrehumano , e divino. Não me 
misturo , nem me confronto como Poe- 
ta Épico , porque os defeitos dos ou- 
tios não são, nem podem ser 3 a mi- 
nha justificação. 



90 



CENSURA 

DAS 

LUSÍADAS 



SEGUNDO CANTO. 



V^omeça este segundo Canto com hu- 
ma escuríssima descripção do Sol pos- 
to , tempo em que o Gama se fez com 
a barra de Mombaça , dizendo do Sol 
na l. a Oit. : 



3 , E cfa casa marítima secreta 

,, Lhe estava o Deos nocturno a porta abrindo. si 

São dois termos bem equívocos. Hum 
Poeta Pagão diria , e diz que o Sol en- 
tra no Oceano a repouzar nos braços 
de Thetis. Na casa marítima secreta só 



Seglwdo Canto. 91 

até agora o fez entrar Luiz de Camões ; 
ehe hum Deos nocturno quem lhe abre 
aporta. Acho a~Neite comoDeosa sen- 
tada em hum carro cTEbano , e moven- 
do-se lentamente entre as sombras ; 
acho Morfeo , Deos do somno ; mas nào 
sei quem seja o Deos nocturno. Oit. 2. a 
Chegão os Mouros de noute a bor- 
do da Náo Almiranta : 

,, D'entre elles hum que traz encommendado 

3 , O mortífero engano, assi dizia: 

,, Capitão valoroso, que cortado, 

,, Tens de Neptuno o Reino, e salsa via, 

,, O Rei que manda esta Ilha , alvoroçado 

9 , Da vinda tua tem tanta alegria , 

_,, Que não deseja mais cju' agazalhar-te , 

5 , Vêr-te , e do necessário reformar-te. ,, 

Em primeiro lugar Reino de Neptuno , 
e salsa via he o mesmo que mar , e he 
hum reprehensivel pleonasmo. Depois 
he li um a impropriedade , ou hum pec- 
cado contra os caracteres ( costumes ) 
introduzir hum bárbaro Mouro da cos- 
ta da Caíraria tào instruido na Mytho- 
logia que conheça ( o que os Mouros 
ignorão ) que Neptuno he o Deos do 
mar ? e que o nome deste Deos se to- 



92 Censura das Lusíadas. 

ma pela congerie das aguas que se cha- 
mão o Oceano. O qví agazalhar-te he 
huma das ordinárias cacofonias de que 
formiga o Poema ; e o — 



tt 



Vêr-te , e do necessário reformar-te ,, 



he verdadeira , mas baixíssima prosa ; 
mas este he o tom ordinário , que domi- 
na , como se irá vendo , em quasi todas 
as Lusiadas. Oit. 3. a 

,, E porque está em extremo desejoso 
9f De te vêr como coiza nomeada, „ 

Como podia ser o Gama coiza nomea- 
da, se até áquelle momento era incó- 
gnita a sua ida áquellas paragens ? Ne- 
nhuma noticia podia lá ter chegado ain- 
da. He verdade queBaccho vendo frus- 
trados seus intentos, e desejos em Mo- 
çambique , e Quilóa , tinha corrido a di- 
ante a transformar-se n'outro Mouro em 
Mombaça , para dizer ao Rei de Mom- 
baça o mesmo que tinha dito ao Xeque 
de Moçambique : mas além de Baccho 
dever saber que os mesmos meios pro- 



Segundo Canto. 93 

duzirião os mesmos resultados, e que 
assim como nada tinha feito em Mo- 
çambique, o mesmo faria em Momba- 
ça, não nos diz o Principe dos Poetas 
como isto foi , nem nos prepara para a 
scena de Mombaça, e faz repentina- 
mente apparecer Mouros em a frota le- 
da Portugueza, que lhe offerecem tu- 
do quanto o Gama podia desejar , e 
quanto lhe podia escusar a ida ao Ma- 
labar. Oit. 4. a : 



,, E se buscando vás mercadoria , 

„ Que produz o aurífero Levante , 

9 , Canella , cravo „ - ■' ^ 

A' vista dos offerecimentos tâo gene- 
rosos dos Mouros , e Mouros como os 
de Moçambique e Quilóa , parece que 
o Gama devia desconfiar alguma coiza : 
mas nada, o Poeta assentou de fazer 
do seu Heroe o homem mais crédulo. 
e simples do Mundo, de todos se fia- 
va, e em nada cahia. Oit. 6. 



„ Por onde o Capitão seguramente 
?, Se fia da infiel , e falsa gente. ,, 



94 Censura das Lusíadas. 

E isto ainda em cima de lhe haver 
feito na Oit. 5. a hum cumprimento di- 
gno da singelleza daquelles bons tempos; 
mas muito indigno da magestade da Epo- 
péa , e grande eloquência de seu estylo : 

ti Cumprirá sem receio seu maadado , 

,, Que á mais por tal Senhor está obrigado. 

He assim que Gofredo responde a Is- 
meno, e Argante ? E são desta sorte 
duras as Orelhas dos fanáticos da sei- 
ta Camoniana? 

}i O mensageiro astuto que não erra , 

„ Lhe diz que a mais da gente em Christo cria. fS 

Esta resposta vaga 9 e indeterminada 
devia fazer conhecer a Vasco da Ga- 
ma, que o procura vão illudir; o Prín- 
cipe dos Poetas muito bem conhecia 
isto , mas quiz desta maneira prepa- 
rar os seus Leitores , para a mais ri- 
dícula, monstruosa, irrisória, e ímpia 
scena que até agora se tem apresen- 
tado aos olhos dos homens, desde que 
na terra que habitamos ha isto que se 



Seguxdo Canto. 95 

chama Poesia. Os Hypogrifos , a subi- 
da de Astolfo ao concavo da Lua . as 
fúrias do Paladino Orlando , que arran- 
ca arvores . derroca muralhas . leva 
diante de si montanhas que despega 
de suas bases . em o fantasioso Ariosto , 
não tem tanta extravagância , nem 
repugnão tanto aos dictames da boa 
razão como a ridicula Cavalcata que 
o Príncipe dos Poetas vai armar nes- 
te segundo Canto de seu immortal Po- 
ema. Vem Baccho a scena . porém com 
que tramóia , para dar cabo dos Portu- 
guezes ? Este Numen impotentissimo , 
podia ter mais summariamente levado 
ao rim seu gratuito ódio contra os Por- 
tuguezes . que lho não mereciao ? por- 
que ao menos são mais devotos dos 
seus dons , que òs seus tão favoreci- 
dos Mouros , a quem hum artigo de 
Fé de seu Alcorão prohibe o uso delles ; 
podia Baccho tomar a forma de hum 
Alouro Piloto : e ■ como Deos que tu- 
do conhece : enganar Vasco da Gama 
com hum roteiro , ou descripção da via- 
gem , ou passagem da Africa ao Indos- 
tão 7 dar com as Nãos a través . afogar 



96 Censura das Lusíadas, 

os Portuguezes , e elle com a mesma fa- 
cilidade com que depois vai ao Palá- 
cio de vidro em que mora Neptuno , 
refugiar-se lá, ou , despindo a forma 
de Mouro , subir ao Olympo a casa do 
Padre sublimado , e deixar-se lá estar 
como estava, quando á costa Africana 
âescendeo. Nada disto. Tramóias, mo- 
mos y visagens , enganos , embustes , 
patifarias ; parece que não he Baccho 
Deos , mas Baccho bêbado , que tem 
perdido a vergonha. O Príncipe dos 
Poetas para que nos não enganásse- 
mos, e soubéssemos que era com eífei- 
to o Baccho mythologico , que formava 
o maravilhoso nesta Epopéa , o descre- 
ve ao natural desta maneira; Oit. 10: 

,, Mas aquelle que sempre a mocidade 
Jt Tem no rosto perpétua , e foi nascido 
3) De duas mais j que ordia a falsidade 
„ Por vêr o Navegante destruído j 
9i Estava em huma casa da Cidade 
,, Com rosto humano, e habito fingido 
3S Mostrando-se Christão , e fabricava 
}t Hum altar sumptuoso que adorava. ,, 

Ora façamos a primeira , e mais obvia 
reflexão ; esta casa ; este altar ; este 



Segundo Canto. 9? 

Christao que apparecia , por certo não 
era ás escondidas , e se elle se fazia vi- 
sivel aos dois Condemnados que Vasco 
da Gama tinha mandado como prévios 
exploradores á terra , também devia ser 
visivel aos Mouros , que os acompanha- 
vão , e que lhes hião mostrando o mais 
notável da Cidade ; e para se não es- 
pantarem de tão desusada vista , e no- 
va scena . era precizo que Baccho se 
tivesse ajustado com todos os morado- 
res de Mombaça . e estarem todos cer- 
tos que era huma negaça armada ; ou 
então dizermos , que , por hum milagre 
digno do poder de Baccho , só se tor- 
nava visivel o espectáculo do altar sum- 
ptuoso aos olhos dos dois Portuguezes , 
e de nenhuma maneira aos dos Mou- 
ros. Tudo isto são absurdos , que ape- 
nas podem mover o riso , e nunca pren- 
der a attencão do homem de sizo. 

Na Oit. 11 nos descreve o Principe 
dos Poetas o painel do Pentecostes , a 
vinda do Espirito Santo, pintado pri- 
morosamente pelo Thyoneo , pelo filho 
de duas mais , pelo Padre Baccho : 

Tom, I o 



98 Censura das Lusíadas. 

„ Alli tinha em retrato affigurada 

„ Do alto, e Santo Espirito a pintura. „ 

Esta Oit, 11 do 2.° Canto devia en- 
tão, e ainda hoje devera, fazer supprimir 
o Poema , pois se não devia consentir , 
que por huma extravagância de imagi- 
nação , e pelo abuso de engranzar pa- 
lavras que produzão máos versos , se 
misturasse tão sacrilegamente o Sagra- 
do com o profano , e que huma ridicu- 
la , e infame Divindade do Paganismo 
pozesse em hum Poema Christão em 
scena os mais augustos mysterios da Fé. 
E isto para que ? Para enganar dois 
miseráveis degradados , que viessem di- 
zer a Vasco da Gama : podeis entrar a 
barra de Mombaça, porque vimos em 
o oratório particular de huma casa — 

( „ Estava em huma casa da Cidade „ ) 

hum painel da vinda do Espirito San- 
to. Os Commentadores , para salvarem 
aqui o Principe dos Poetas , dizem que 
este Baccho era o Diabo : Isto ainda he 
peor. 



Segando Canto. 99 

-j, O Thyonea; e assim por derradeiro 
„ O falso Deos adora o verdadeiro, 3> 



Se he o filho de Semelle , parido da co- 
xa de Júpiter, he ridículo, que este Nu- 
men adore o Espirito Santo ; e se he o 
Diabo , então he hum absurdo ainda 
mais escandaloso na ordem da Religião ; 
o Diabo nega a sua adoração a Deos y 
« este foi o seu delicto. 

Não era este achado irrisório hum 
motivo suficiente para que Vasco da 
Gama se aventurasse a entrar huma bar- 
ra, e ancorar em hum rio desconheci- 
do ; porque dos Mouros que vinhão a 
bordo , ou por força , ou por vontade, po- 
dia elle tomar conhecimento do lugar, 
e paragens em que se achava , nem 
ignorarião os Pilotos da expedição que 
ainda estavão na costa d'Africa ; porém 
o Poeta em tudo deve degradar , e aba- 
ter o seu Heroe , pois o deixa levar de 
illusorias apparencias : 

)t Que levemente hum animo se fia 
,, De mostras que tão certas parecião, „ 

G 2 



loo Censura das Lusíadas. 

Contemplemos a Oit 17 que he no- 
tável. 

7 , Na terra cautamente apparelhavão 

„ Armas, e munições, que como vissem, 

„ Que no rio os navios ancoravão , 

3> Nelles ousadamente se sobissem j 

? , E com esta traição determinavão , 

„ Que os de Luso de todo destruíssem. „ 

Pois se isto he obra de Baccho, e in- 
tervinha hum Deos como agente so- 
brenatural nesta acção , porque não 
executa na barra o que queria execu- 
tar no rio? Tem menos poder na bar- 
ra do que tinha no rio? Não esta vão 
lambem ancorados na barra os Navios ? 
Trama-se esta inútil laçada , para 
se introduzir Vénus que a dezate , que 
sendo hum Numen como Baccho i e 
filha do mesmo pai, não se sabe por- 
que tenha maior poder , pois tudo quan- 
to Baccho faz , ella desmancha. Isto 
devia Baccho ter conhecido , e desistir 
da empreza em que sempre ficava mal , 
ou então usar de outra força, que não 
fosse o engano, e a intriga, tão im- 
próprios de huma Divindade , que pa- 



Segundo Canto. ioí 

rece que se empenha nas coizas para 
as não conseguir. Oit. 1 8 : 

,, Mas a linda Erycina , que guardando , 
„ Andava sempre a gente assignalada , 
„ Vendo a cilada grande , e tão secreta , 
,, Voa do Ceo ao mar como huma seta „ 

Oit. 19. 

„ Convoca as alvas filhas de Nereo , 

„ Com toda a mais cerúlea companhia , • . • • 

„ E propondo -lhe a causa a que desceo , 

„ Com todas juntamente se partia , 

>9 Para estorvar que a Armada não chegasse 

,, Aonde para sempre se acabasse. „ 

Baccho he hum Numen , e por si só y 
sem o socorro de outros Numes , ou 
Seminumes , faz as visagens , momos , 
e transfigurações , que temos visto ; e 
Vénus que he outro Nume , para que 
vai buscar o auxilio das alvas filhas de 
Nereo ! Não podia ella por hum sim- 
ples aviso acautelar Vasco da Gama , 
e advirtir-lhe que se desviasse daquel- 
le sitio para evitar o laço que o Padre 
Baccho lhe tinha armado? Isto assim 
parece á boa razão ? porque era oppor 



102 Censura das Lusíadas. 

a hum meio outro meio idêntico. Mas 
perdia-se assim a galhofa das Nereidas , 
que o Poeta queria descrever. Oit 20 : 

9i Salta Nise , Nerine se arremessa. -— 

E na Oit. 21. 

\y Já chegão perto donde o vento teto 
i} Enche as velas da Frota bellicosa. „ 

Não sei se o adjectivo = tezo = 
compete bem a vento ; o que sei he <, 
que o epitheto — bellicosa — não com- 
petia bem á conserva de três Navios em 
que o explorador Vasco da Gama hia 
buscando o Indostão. Transformão-se as 
Nereidas em Rémoras que impedem o 
curso dos Navios empurrando-os para 
traz , e encostando os alvos , e delicados 
peitos aos duros madeiros da proa das 
Náos ; e isto de hum modo invisivel , 
porque se o Mestre , e Contramestre de 
cada huma delias, visse as Nereidas, 
não gritarião tanto. Oit. 24. 



s> 



O Mestre astuto em ySo da popa brada. iy 



Segundo Canto. 103 

Esta gritaria dos Marujos descobre os 
enganos dos Mouros , porque , temendo 
que os ralhos não fossem com elles . ati- 
rão comsigo ao mar. Pois se hum meio 
tão natural basta para .desviar o peri- 
go que ameaçava o Gama , para que 
he a muito escusada intervenção de 
huma Divindade ? Para que estão as Ne- 
reidas tão occupadas em empurrar as 
Nãos ? Para que o Principe dos Poetas 
aproveite huma comparação tirada a 
Virgílio no 4.° Liv. da Eneida. E para 
que faz saltar ao mar tão arrebatada- 
mente os Mouros $ que mui bem co- 
nhecião que os gritos do Mestre astuto 
não erão com elles , mas com a Maruja 
que devia manobrar ? Para aproveitar 
huma comparação tomada a Ariosto da 
Oit. 62 do Canto 5.° do additamento, 
na Oit. 27 : 

3> Assim como em selvática alagoa, 

E na Oit. 28. 

9> Assi fogem os Mouros , e o Piloto , 
3i Que ao perigo grande as Náos guiara, 
9 , Crendo que seu engano estava noto , 
J3 Também, foge , saltando na agoa amara. „ 



104 Censura das Lusíadas. 

Deixemos o — noto — e o amara , por- 
que em minúcias de linguagem não per- 
co o tempo , ainda que he mui escusa- 
do o Latim puro , onde se pôde fallar 
Portuguez claro. A Oit. 29 começa: 

3, Vendo o Gama attentado a estranheza , 
„ Dos Mouros náo cuidada , e juntamente 
3 , O Piloto fogir-lhe com presteza , 
3, Entende o que ordenava a bruta gente. „ 

Sem nenhuma advertência de agente 
sobrenatural feita immediatamente ao 
Gama conhece o perigo para o evitar, 
pois era bem natural que vendo os Mou- 
ros a precipitar-se no mar , suspeitasse , 
que elles o fazião por se lhe haver des- 
coberto algum estratagema com que lhe 
pretendião fazer mal. Não era precisa 
Jiuma advertência sobrenatural. He de 
admirar que esta Vénus tão apaixona- 
da de Vasco da Gama , nunca lhe diga 
huma palavra , nunca lhe appareça ; e 
he tão generosa, que esconde sempre 
a mão com que faz o beneficio. Se Vas- 
co da Gama o soubera , por certo não 
daria os agradecimentos a quem os de- 
via dar ? que era a Peos 9 que pelo seu 



Segundo Canto. 105 

Anjo da Guarda o defendia de todos os 
perigos de huma tão longa ; incerta . e 
arriscada navegação : isto declara elle 
com bem força na Oit. 31 : 

M Bem nos mostra a Divina Providencia 
,, Destes portos a pouca segurança. . . . 



O' tu , Guarda Divina , tem cuidado , 
„ De quem sem ti não pôde ser guardado. 



>t 



Aqui invoca como Christão o Anjo da 
Guarda; e quem vai ser a sua Advo- 
gada diante do Padre Eterno he a Dee- 
sa Vénus ; porque a Deosa Vénus lhe 
ouve as palavras piedosas. Isto não só 
he o excesso da extravagância , mas o 
summo da impiedade. Trata-se da Di- 
vina Providencia , trata-se do prompto 
soccorro do Anjo da Guarda , e diz c 
Poeta na Oit. 33 : 



,, Ouvio-lhe estas palavras piedosas » 

Si A formosa Dione , e com movida , 

„ D'entre as Ninfas se vai , que saudosas 

,, Ficarão desta súbita partida : 

3 , Já penetra as estrellas luminosas , 

w Já na terceira esfera recebida , 



106 Censura das Lusíadas. 

„ Avante passa , e lá no sexto Ceo , 
9 , Para onde estava o Padre se moveo iy 



A siípplica do Gama he verdadeira- 
mente CLristã , e o soccorro he profa- 
namente pagão. Oit. 34 : 



„ E como hia affrontada do caminho. 



»» 



Que hum fraco humano se aflfronte de 
andar muito , e se estafe em huma lon- 
ga caminhada , pode ser , e muito bem 
se entende como isto aconteça ; mas 
huma Divindade cancada ? Quem ti- 
nha vindo do Ceo ao mar como huma 
setta \ não podia ir como a mesma set- 
ta do mar ao Ceo? Eu passo em silen- 
cia as Oit. 35 , 36 , e 37 porque nos 
apresentão o quadro mais lascivo , e 
voluptuoso que a imaginação lúbrica de 
hum Poeta nos pode pintar, e em ne- 
nhum dos Épicos antigos , e modernos 
se verá hum similhante exemplo, mas 
não posso ommittir os dois últimos ver- 
sos da Oit. 37 : 

„ Já se sentem no Ceo por toda a parte , 
„ Ciúmes em Vulcano , Amor em Marte. „ 



Segundo Canto. 107 

Temos pois a Vénus no Ceo Mytholo- 
gico , para trazer hum soecorro que 
hum homem Catholico linha implora- 
do. Segue-se a Oração de Vénus em 
quatro Oitavas , boas em si , e conside- 
radas fora da marcha de hum a Epopéa , 
cujo assumpto he grave , mas muito fora 
de propósito quando se considera a súp- 
plica que fez Vasco da Gama , e a 
quem a dirige ; e depois desta Oração 
a Oit. 42 , onde se nos ofierece a ima- 
gem mais torpe , que entre muitas \ por 
toda a parte espalhadas , tem em si as 
Divinas Lusiadas. O Grão Tonante fi- 
ca tâo enternecido , e commovido com 
a Oração da filha, que 

9 , Na face a beija , e abraça o collo puro , 
,, De modo , que dalli se só se achara 
„ Outro novo Cupido se gerara. » 

O Grão Tonante . incestuoso , e que 
não commette no mesmo Ceo o mais ver- 
gonhoso , e nefando delicto , porque es- 
tava alli gente de fora, que o presen- 
ciasse 
( „ De modo que dalli , se só se achara ! . ) 



108 Censura das Lusíadas. 

he quem deve soccorrer Vasco da Ga- 
ma que pede a Deos o auxilio , e assis- 
tência do Anjo da Guarda ! Huma edi- 
ção das Lusiadas em letras de Ouro , 
hum Mausoléo para as suas cinzas que 
fizesse esquecer o de Artemisia para 
seu Marido Mausolo , não salvavão as 
Lusiadas desta turpitude i e desta par- 
voíce. E será possivel , que este edifí- 
cio das Lusiadas se susíenha no con- 
ceito de nacionaes , e estrangeiros pre- 
venidos , ou pouco assizados , em o dis- 
curso deliberativo de D. Ignez de Cas- 
tro \ e nos dentes amarellos do Gigan- 
te Adamastor? Na Oit. 44 começão a 
resposta, e as promessas do Grão To- 
nante : 

„ Eu vos prometto , filha , que vejais 
„ Esquecerem-se Gregos , e Romanos 
5, Pelos illustres feitos , que esta gente 
,, Ha de fazer nas partes do Oriente ,, 

E aqui começão os enfadonhos , e re- 
petidos — Pejais , e Vereis que hire- 
mos contando. Se Júpiter , ou o Grão 
Tonante sabe , pois o diz a sua filha , 
tudo quanto os Portuguezes deyião fa- 



Segundo Canto. 109 

zer , e que tudo quanto fizessem era 
hum a consequência da feliz viagem do 
Gama , assim ordenado pelos Fados 
grandes , porque o não diz também a 
Baccho , que he seu filho ? Com esta 
declaração lhe poupava duas coizas , 
trabalho , e vergonha ; trabalho nas vi- 
ragens que andava fazendo, transfor- 
mando-se tantas vezes em Mouro ; e 
vergonha, em não aproveitar, ou tirar 
íructo de tantos projectos que empre- 
hendia. Nada disto faz , podendo com 
huma palavra desenganar o filho , e li- 
vrar Vasco da Gama das moléstias , e 
incommodos que elle lhe andava causan- 
do. Ou Júpiter não pode , ou Júpiter 
não quer ; se não pôde ter mão em Bac- 
cho, ao menos para não fazer o papei 
de tolo, então nem he o Grão Tonan- 
te , nem o Pai dos Deoses ; e se pôde s 
e não quer, he hum injusto , e hum 
malicioso, pois também concorre para 
as pueris pirraças que se fazem a Vas- 
co da Gama , que ha de chegar feliz- 
mente á índia, e ser o principio das 
futuras grandezas, que elle mesmo an- 
nuncia dos Portuguezes. 



lio Censura das Lusíadas. 

Na Oit. 46 começão os — Vereis: 
aqui tem dois. Vereis filha , e vereis o 
Rei. Na Oit. 47 , que começa com o ter- 
ceiro — vereis , se degrada Júpiter di- 
zendo que seu irmaõ Neptuno haverá 
medo de Vasco da Gama , e que não 
só seu irmaõ haverá medo de hum ho- 
mem , mas da gente Portugueza os mes- 
mos elementos : 

„ Que também delia hão medo os Elementos ? „ 

A Oit. 48 começa com o quarto — ve- 
Teis ; e lhe diz que Moçambique , que lhe 
tolhia a agua , virá a ser hum porto — 
decente — ; não sei que indecencia pos- 
sa haver n'hum porto; porque dá aqui 
a entender , que ha portos indecentes , 
e que fica mal aos navios entrarem nel- 
les. Nisto de epithetos he o Principe 
dos Poetas miserável , porque em o 
obrigando a rima, diz a primeira coiza 
que lhe lembra ; isto se vê no ultimo 
verso desta Oitava: 

„ Não poder resistir ao Luso horrendo. 

Não sei como quadre esta proprieda- 



Segundo Canto. Ill 

de de horrendo ao homem Portuguez. 
Quinto , sexto , e sétimo — vereis na 
Oit. 49 , e lhe declara que quem vai 
contra os seus. que erão os Portugue- 
zes \ contra si peleja. Logo Baccho y 
que com tão ridículas escaramuças hia 
contra os Portuguezes , contra si pele- 
java ; o que he impróprio do pai que 
o diz , e do filho que o soffre. A Oit. 
50 começa com o oitavo — vereis — ; 
e no quinto verso o nono — vereis — : 
aqui ha huma degradação sensivel , e 
jàe hum Deos que no Conselho do Olym- 
fo advogou a causa dos Portuguezes; 
verdade seja que por todo o decurso 
*las Lusiadas não deo mais hum passo 
a seu favor , nem disse mais huma pa- 
lavra : 

„ Invejoso vereis o grão Mavorte 

j, Do peito Lusitano fero , e horrendo. 3I 

Ao Grão Tonante falta a copia dos ter- 
mos para variar o estylo. Na Oit. 48 
chama horrendo ao Portuguez , logo na 
Oit. 50 lho torna a chamar , ficando o 
Portuguez horrendo , e Marte invejoso 



112 Censura das Lusíadas. 

de hum simples mortal. Se Marte lho 
ouvisse , que pancada não daria com a 
bengalla no sobrado do Olympo ! ! No 
ultimo verso desta Oit. chama o Grão 
Tonante , Pai de Vénus , falso a Mafa- 
mede. A muito obriga a verdade ! Na 
Oit. 51 apparece o decimo — vereis — ? 
e huma grande mentira , pois affirma 
o Tonante que a Cidade de Goa tomada 
pelos Portuguezes virá a ser senhora 
— De todo o Oriente. — Isto he huma 
daquellas hyperboles próprias do ordi- 
nário modo de fallar , e eu chamaria pa- 
ra aqui os antigos repetidores de — to- 
das as Lógicas — ; mas hum Deos de- 
ve ser escrupulosamente correcto quan- 
do falia. Na Oit. 52 vem o undécimo , 
duodécimo , e decimo terceiro — ve- 
reis. — A Oit. 53 não he do Principe 
dos Poetas , he de Virgilio toda intei- 
ra : 

Instructo Marte videres* 
Fervere Leucáten bello 

E como não he sua, não lhe podemos 
recommendar senão a restituição a seu 



Segundo Canto, 113 

dono legitimo , e senhor natural. Na 
Oit. 54 vera o decimo quarto — ve- 
reis — , ese mais fallasse Tonante mais 
— vereis — vierão, acabando com huma 
hyperbole , que pela sua repetição he 
indesculpável , e em hum verso muito 
estirado segundo o costume : 

,, Ser-lhe-ha todo o Oceano obediente. „ 

Quem diz todo não exclúe a mais pe* 
quena porção. A Oit. 55 he notável 
por hum enigma , e por hum destempe- 
ro. Como nos criarão com o Principe 
dos Poetas , desde a minha mais tenra 
idade que leio este verso de Camões 7 
e não o entendo e creio que succede- 
rá o mesmo a quantos o forem lendo 
até ao fim do Mundo í -*■ 



■>> 



De modo , filha minha , que de geito „ 



Não me darão hum exemplo desta fra- 
se em Autor nenhum Portuguez j sal- 
vo se acinte quizesse fallar de modo 
que o não entendessem. Ou Júpiter 
não sabe Grammatica , e toma o preteri- 
Tom. I. h 



3 14 Censura das Lusíadas. 

to pelo futuro 3 ou Júpiter mente ; ve- 
jamos como. 

„ Amostrarão esforço mais que humano , 
,, Que nunca se verá tão forte peito 
„ Do Gangetico mar ao Gaditano ; 
it Nem das Boreaes ondas ao estreito, 
fi Que mostrou o aggravado Lusitano. ,% 

Este Estreito he o de Magalhães , e 
este Lusitano aggravado he Fernando 
de Magalhães , natural de Braga , que 
se desnaturalizou deste Reino pela in- 
juria que á sua honra, nobreza, e ser- 
viços tizerão, negando-lhe hum tostão 
mais na sua moradia , augmento que o 
igualava a outra classe que se julgava 
superior a elle, classe que talvez en- 
canecesse no ócio ? e nas delicias de 
Palácio , sem fazer huma viagem ás 
regiões austraes. Com Francisco Falei- 
ro , também natural de Braga , bom 
Astrónomo daquelle tempo , se foi á 
Cidade de Saragoça , e se oílèreceo ao 
Imperador Carlos V. para lhe achar hu- 
riia passagem pelo Sul ás Ilhas do Ocea- 
no pacífico. De Fernando de Magalhães 
não se faz menção na Historia senão 



Segundo Canto. !1§ 

em a tomada de Malaca por Affonso de 
Albuquerque , e onde elle militou nos 
últimos annos do Reinado d'ElRei D. 
Manoel ; e como podia ter sido já des- 
coberto , no tempo em que Vasco da 
Gama hia no caminho da índia , o Es- 
treito de Magalhães na ultima ponta 
austral da America? 

„ Qae mostrou o aggravado Lasitano. „ 

Os Deoses das Lusiadas são muito to* 
los. Júpiter Tonante dá o Estreito de 
Magalhães anterior a Vasco da Gama 
em o 2.° Canto; e Thetis em o 10.° Can- 
to dá o Estreio de Magalhães coevo 
ao mesmo Gama: — 

,, O Estreito qne se arrea 
, Com o nome delle agora ! ! 

Errao os tempos dos verbos , e são 
Deoses que não conhecem nem o pre- 
sente , nem o passado 5 nem o futuro. 
Mais bonita ficaria a Edição rica das 
Lusiadas se lhe tirassem esta Oitava. 
Temos na Oit. 56 a missão deMer- 

H 2 



116 Censura das Lusíadas. 

ctirio por hum verso onde se encontra 
o epitheto mais ocioso: 

„ Como isto disse , manda o consagrado 
„ Filho de Maia. — 

Ora este filho de Maia , que devia avi- 
sar primeiro Vasco da Gama , e retirai- 
lo dos perigos de Mombaça, 

}y E para que em Mombaça aventurado 
9 , O forte Capitão se não detenha ,> 

dá comsigo em Melinde acompanhado 
da Fama para preparar como Viador a 
hospedagem aos navegantes : 

_,, Comsigo a fama leva porque diga ] 

„ Do Lusitano o preço grande ,- e raro ; 
_,, Que o nome. íllustre a hum certo amor obriga , 
„ E faz a quem o tem amado , e charo : „ 

Charo , e amado , querem dizer a rties- 
ma coiza \ e he huma redundância pue- 
ril , ou hum pleonasmo reprehensivel. 
Nada deslustra tanto hum Poeta desta 
magnitude j como a pobreza de rima. 
De Melinde, depois de lazer pela Fa- 



Segundo Canto. 117 

ma o que elle podia fazer por si como 
Mensageiro dos Deoses ; torna para trás 
a Mombaça , onde estava Vasco da Ga- 
ma ; e chama-se a isto fazer de hum a 
via dois mandados. A Oit. 59 começa 
com numa baixeza , e trivialidade de ex- 
pressão , que lança por terra toda a má- 
quina da grande eloquência Poética: 

„ Dalli para Mombaça logo parte 

,, Aonde as Náos estavão temerosas , 

,, Para que á gente mande que se aparte 

„ Da barra imiga , e terras suspeitosas : 

Eu lhe perdoo a Synedoche das náos 
temerosas — Continens , pro contento. 
Mas se Vasco da Gama pelo prodígio 
que vira quando invocou o Anjo da 
Guarda . e lhe acudio Vénus , já se ti- 
nha apartado daquellas aguas , e desis- 
tido da entrada da barra , que vem cá 
Mercúrio fazer a Mombaça onde já não 
está Vasco da Gama? Não sei. Só ve- 
jo que se introduz aqui o bordão do 
— lá — do costume, 

„ Se tá dos Ceos não vem celeste aviso. „ 



118 Censura das Lusíadas. 

JVa Oit. 6 dorme o Gama . que sen- 
do o General da Armada , para dar bom 
exemplo , também mettia o seu quarto 
de vigia : 

„ A. outra gente a quartos vigiava. „ 

Finalmente na Oit. 61 apparece Mer- 
cúrio em sonhos a Vasco da Gama , 
que por certo havia de estranhar o fi- 
gurão, e he preciso que transportemos 
Vasco da Gama ao seio do Paganismo 
para que nem estranhasse a figura e 
escutasse seriamente o que lhe dizia 
Mercúrio conhecido pelo Gama , tanto 
pela Vara com que as almas revocava 
( Oit. 57 ) como pelo — gallera costu- 
mado. — Isto he tão ridiculo que exce- 
de a paciência humana. Mercúrio diz 
ao Gama, em 1497, o mesmo que ti- 
nha dito a Eneas tantos mil annos an- 
tes: 

Heu ! fuge cruieles terras , fuge liius avarum 
» Fuge , fuge } Lusitano. „ 

Mercúrio ? como Deòs da Eloquência , 



Segundo Canto. 119 

enfeita o seu Discurso com passagens da 
Historia antiga , e a pressa com que o 
manda fus-ir . escusava bem estas eru- 
dições , e estes exemplos. Os Deoses não 
são tão falladores. Foge. . . e basta. E não 
lhe demorar a fugida com a memoria . 
ou relação das crueldades dos antigos 
Heroes : - — 

j, O hospício que o cru Diomedes dava 

„ Fazendo ser manjar acostumado 

„ De cavallos a gente que hospedava : 

,, As aras de Busiris infamado , 

„ Onde os hospedes tristes immolava. ,, 

Assim se perde o tempo com tão com- 
prida arenga até que na Oit. 64 o Ga- 
ma acorda : 

„ Com novo espYito ao Mestre seu mandava , 
„ Que as velas desse ao vento que assoprava. ,, 

E o motivo desta pressa elle o declara 
na Oit. 65 : 



,, Dai velas , disse , dai ao largo vento , 

„ Gue o Ceo nos favorece , e Deos o manda. ,, 



120 Censura das Lusíadas. 

Devemos crer que o Gama entende 
aqui por Deos a Deos verdadeiro , e 
então também o Gama acreditava que 
o enviado de Deos verdadeiro era Mer- 
cúrio , que lhe tinha apparecido de ga- 
lero costumado , e azas nos artelhos ? 
Ou o Gama era hum Idolatra , ou o 
Poeta hum mentecapto. Mas nem o 
Poeta era mentecapto , nem o Gama 
Idólatra. Estes absurdos nascem da ri- 
dícula mistura do Paganismo com o 
Christianismo em hum Poema Chris- 
tão. 

Na Oit. 66 ha huma trama de meios 
humanos , que também pelos mesmos 
meios se evita, e se mallogra: 

it Neste tempo , que as ancoras levavão ,, 
„ Na sombra escura os Mouros escondidos 
„ Mansamente as amarras lhe cortavão , 
„ Por serem , dando á costa , destruídos : 
s9 Elles como acordados os sentirão , 
,, Voando , e nuo remando , lhe fugirão. „ 

Para os Mouros commetterem esta 
acção , não era preciso serem instiga- 
dos por Baccho ; que coiza mais pró- 
pria de Mouros contra Christaos , que 



Segundo Canto. 121 

virem de vos:a surda picarem-lhe as 
amarras , e que coiza mais própria de 
Marujos Portuguezes , que darem fé dos 
Mouros ? Hum homem faz a laçada , 
outro homem a desata , e neste caso 
he inútil , e desnecessária a interven- 
ção de hum Numen , quando por meios 
humanos se remedeia . o que por meios 
humanos se faz. A coiza mais absur- 
da , e ociosa que se tem visto he o Ma- 
quinismo das Lusíadas. 

Temos na Oit. 68 huma acção he- 
roica. O Gama dá caca a dois Navios , 
que o Poeta faz repentinamente appa- 
recer depois do aviso de Mercúrio : 
hum varou na costa, e salvou a gente, 
mas, na Oit. 6 9 , 



,, Não he o outro que fica tão manhozo , 
„ Rias nas mãos vai cahir do Lusitano. ,, 



Não sei que manha, seja dar a costa , 
perder a embarcação , e arriscar a gen- 
te ; mas em fim o Gama fez huma pre- 
za , que se entrega sem resistência , on- 
de não se enxerga muita gloria do ven- 
cedor ; ena Oit 70 ha huma enumera- 



122 Censura das Lusíadas. 

ção de circunstancias tão miúda , que 
hum Piloto \ que fizesse o roteiro da 
viagem não seria mais escrupuloso , e 
hum Poeta não he hum Diarista minu- 
cioso , enfadonho j e proluxo em tão ras- 
teira prosa como a da Oit. 70. 

„ E como o Gama muito desejasse 

„ Piloto para a índia que buscava , 

„ Cuidou que entre ebtes Mouros o tomasse , 

„ Mas não ihe succedeo como cuidava : 

f , Que nenhum delles ha que lhe ensinasse 

> , A que parte dos Ceos a índia estava ; 

tt Porém dizem-lhc todos que tem perto 

„ Meiinde > onde achará Piloto certo. „ 



E por certo este estylo he mais que fa- 
miliar , e nelle lhe dizem os Mouros to- 
mados , que EIRei de Meiinde era hum 
grande Monarca, e Oit. 71 : 



5 > 



O Capitão o assella por verdade , 
Porque já lho dissera deste geito 
O Cyleneo em sonhos .... 



Toma o Gama por testemunho de ver- 
dade do que os Mouros lhe dizião , o 
que já lhe tinha dito Mercúrio em so- 



Segi^do Canto. 123 

nhos ; e neste caso como se tratava de 
hum facto , devemos nós acreditar o que 
nos diz Vasco da Gama, ou o Poeta 
por elle , que lhe apparecêra em sonhos 
o Deos Mercúrio : O Cyleneo em sonhos. 
Vasco da Gama, eEneas avisados pelo 
mesmo Mercúrio sno a mesma coiza ! 
JEijri sonima vana ! ! 

Na Oit. 72 depois de nos fallar em 
Febo , no roubador de Europa , em Flo- 
ra , e Âmalthéa , nos diz que era dia 
de Páscoa, ou simplesmente Domin- 
go. 

Clie^a Vasco da Gama ao Reino Me- 

linde , como lhe chama o Poeta , accres- 
centando na Oit. 7 3 qae JUelinde era 



,, Porto mui forte , e mui seguro , 
j, De todo o Oriente conhecido. tt 



Quem diria isto a Vasco da Gama ? Se 
elle ainda nao tinha hido ao Oriente , 
se ainda estava na Costa de Zangue- 
bar, como podia affirmar que aquelle 
porto era mui conhecido em todo o Ori- 
ente ? Na Oit. 76 vem a bordo hum 
presente mandado pelo Rei : 



124 Censura das Lusíadas. 

w Manda-lhe mais Janigeros Carneiros, 
„ E gallinhas domesticas cevadas. „ 



Esta circunstancia de gallinhas gordas 
he mais própria de hum vendilhão da 
Praça, que da magestade da Epopéa. 
Gallinhas , e bastava. Na Oit. 78 ha 
huma frase para mim a mais estranha. 
Vasco da Gama manda hum mensagei- 
ro a EIRei de Melinde : 



„ Como na terra ao Rei se apresentasse 
J9 Com estylo que Palias lhe ensinava , 
„ Estas palavras taes faltando orava. ,, 



Orar f aliando palavras , não se sabe o 
que seja , a não ser a frase mais impró- 
pria de todo o Poema das Lusiadas. 
Estas incorrecções indesculpáveis até 
em hum Escolar que começasse a escre- 
ver, são devoradas pela estúpida admi- 
ração , que decreta Arcos ) Pyramides , 
Mausoleos , Estatuas , monumentos ao 
Príncipe dos Poetas , que não pode ter 
igual , nem segundo : — Par nemo , 
nerno secundus erit. Na Oit. 82 reconhe- 
ceo Vasco da Gama a Divindade da 



Segundo Canto. 125 

mensagem de Mercúrio chamando-lhe 
sem ceremonia , 

J9 Conduzidos do Interprete Divino. „ 

Isto na boca de hum homem Christão 
he a mais escandalosa monstruosidade, 
o que vai sendo hum derivado da mis- 
tura das Divindades do Paganismo com 
os mysterios da Religião Christã. Na 
Oit. 83 faz o Poeta a seu Heroe hum 
grande 9 e solemne mentiroso ; vejamos 
isto por extenso : 

)9 E não cuides , ó Rei , que não sahisse 

Jt nosse Capitão esclarecido 

a A ver-te , ou a servir-te , porque visse , 

,,, Ou suspeitasse em ti peito fingido : 

.,, Mas saberás que o fez porque cumprisse 

„ O regimento em tudo obedecido 

} , Do seu Rei , que lhe manda que não saia 

j, Deixando a frota em nenhum porto , ou praia. „ 

Isto acabando de saltar em terra em 
Moçambique : A vir por aqua a terra. 
Mentira esta que o mesmo Gama fará 
mais calva , quando na Oit. 26 do Can- 
to 5.* elle mesmo disser ao Rei de 
Melinde que tinha saltado em terra na 



126 Censura das Lusíadas. 

Costa Occidental da Africa j onde os Ne- 
gros lhe escalavrarão huma perna. Cul- 
pemos mais o Poeta de pouca memoria 
em suas contradicções , que o Gama 
de mentiroso. Na Oit. 85 vem a plebéa 
frase de estômago máo \ ou bom , de 
que o Poeta nunca se esquece para dar 
a ver o caracter, e estado da pessoa 
de quem falia : 

,, Assi Oizia , e todos juntamente 

,, Huns com os outros em pratica fallando , 

,, Louvão muito o estômago da gente , 

,, Que tantos Ceos, e mares vai passando. „ 

Na Oit. 88 temos os usados Latins , 
tão escusados , quando em a Lingua 
Pcrtugueza nào falhão as palavras: 

3i Porém como a luz crastina chegada. ,, 

Aqui nào ha ao menos o — parcè de- 
torta — de que falia Horácio , quando 
era preciso alatinar alguma palavra 
Grega, quando faltava a corresponden- 
te Romana : entre os festejos da Oit. 
91 vem hum verso tão mingoado, que 
aleija tudo : 



Segundo Canto, 127 

9> Estoura o pó sulfúreo escondido. ,, 

Se houvesse mais ouvido harmónico em 
os Grandes admiradores, e Editores de 
Camões , talvez fizessem melhor uso , e 
melhor applicação de seus cabedaes . 
em dar esmola aos pobres. Na Oit, 
102 , v. l.° não ha falta de metro . po- 
rém ha manifesta falta de Sintaxe : 

3 , Mas já o Ceo inquieto revolvendo. ,, 

O que , e a quem ? Não podem ser 
— as gentes — como accnsativo . por- 
que para este ha o verbo — - excitar — 

,, As gentes excitava a seu trabalho J$ 

Na Oit. 96 apparece hum daquelles ver- 
sos para que não ha ouvidos : 

tJ N'huma alta , e dourada hastea enxerido. ,, 

Na Oit. 102 ha hum a notável falta de 
Grammatica , e tanto mais reprehensi- 
vel , quanto mais se considerão as Lu- 
síadas corno hum Livro Clássico t que 



128 Censura das Lusíadas. 

deve ensinar a pureza da linguagem á 
mocidade em as Aulas : 

3 , Que já ouvio dizer 4 que n'outra terra 
3 , Com gente de sua Lei tivesse guerra. „ 

O verbo — Ter — não devia aqui es- 
tar no pretérito plusquam perfeito do 
ccnjunctivo , e não he este o caso em 
que se deve dizer com Horácio : 

Ifon ego paucis offendar maculis ; 

porque he huma grande nódoa huma 
falta de Gramm atiça em hum autor tão 
clássico , e de tão bom século. O pri- 
meiro verso da Oit. 103, além de mal 
soante . não faz bom sentido : 



E como por toda a Africa Se sôa. 



>' 



Se dizem , se acclamão ; se annuncião 
os feitos dos Portu« uezes : este he o 
sentido , que por certo não se declara 
em o termo — se sôa. — Na Oit. 104 
a falia do Gama a EIRei de Melinde 
começa baixamente J e dá áquelle Mou- 



Segundo Canto. 129 

ro huma idéa de perfeita abjecção na 
Gente Portugueza: 

5, O' tu , que só tiveste piedade , 

,, Rei benigno , da Gente Lusitana , 

„ Que com tanta miséria , e adversidade . . . , s 

E acaba com hum — Deos lho pague 5 
seja tudo pelo amor de Deos: 

,, Aquella alta , e Divina Eternidade , 

,, Que o Ceo revolve, e rege a gente humana, 

,, Pois que de ti tae.s obras recebemos, 

,, Te pague o que nós outros não podemos. ,, 

Deos pague ao Poeta introduzir o seu 
Heroe diante de hum Rei Mouro, co- 
mo hum pobre e miserável mendigo, 
que pede a Deos pague as esmolas 
que recebe ; e isto para que ? Para os- 
tentar depois tanta grandeza e magnifi- 
cência , valor e poder na gente Portu- 
gueza. Igualdade de caracter, não sa- 
be o Camões sustentar : — Médio ne dis- 
crepei imum — : he preciso igualdade, 
e não abater o Heroe em circunstan- 
cia alguma , e em huma , e outra for- 
tuna mostralio sempre grande , e sem- 
Tom. I. i 



130 Censura das Lusíadas. 

pre igual a si mesmo. A Oit. 108 nos 
apresenta quatro agoras que fazem ar- 
ripiar os ouvidos mais benignos , e pa- 
cientes. Na Oit. 109 com a Ínfima bai- 
xeza da prosa, de que não usaria o an- 
tiquíssimo Castanheda, diz o Rei: 

J9 Mas antes , valeroso Capitão , 

„ Nos conta, lhe dizia, diligente, 

„ Da terra tua o clima , e região 

ft Do Mundo onde morais distinctamente , 

„ E assim de vossa antiga geração , 

„ Eo principio do Reino tão potente , 

3i Com o successo das guerras do começo , 

„ Que sem sahellas , sei que são de preço. ,, 

»Se elle as não sabia , como confessa , 
como sabe que são de preço ? Pois sa- 
be numa coiza que absolutamente igno- 
ra ■ ? As ires ultimas Oitavas deste 2 o 
Canto, onde temos visto tantas inco- 
herencias , erros , e imperfeições , são 
verdadeiramente três grandes parvoi- 
ces , que nascem da invencível mania 
do Poeta em ostentar vastissima erudi- 
ção quasi sempre deslocada , que sus- 
pende o fio da narração , e diverte o 
pensamento a mil objectos. 

Notarufa sunt tibi mores. 



Segundo Canto. 131 

Esta suprema Lei da boa razão, de 
quem he tão seguro interprete Horácio , 
declara aos Poetas qual seja o seu de- 
ver na igualdade , e conservação dos 
Caracteres. Quando se introduz a fal- 
lar hum homem , he preciso que xy Poe- 
ta se lembre se este homem nasceo em 
Colcos . ou em Argos : Davus ne /#- 
yuatur an Heras. Se falia hum Lacaio 
de Comedia . se hum Heroe guerreiro. 
Isto nunca soube fazer Luiz de Ca*- 
moes s e o Artifice que ignora a sua ar- 
te, não he bom Artifice. Oit. 1 i 1 ; 

,, Não tanto desviado resplandece 

3) De nós o claro So] para j algares , 

3> Que os Melindanos tem tão rude peito , 

J9 Que não estimem muito hum grande feito, „ 

A parallaxe solar , ou abertura do angu- 
lo, he mui pouco sensivel nos dois pon- 
tos da base — Portugal , e Melinde, 
para vir como causa da pouca instruc- 
cão histórica , politica , e militar em que 
se deve suppòr , e realmente existe nu- 
ma Tribu barbara , e inculta de Mou- 
ros na Costa de Zanguebar > na Costa 
da Africa Oriental. Quem lhe levou li 

i 2 



132 Censura das Lusíadas. 

noticia dos Portuguezes ? Ainda tinhão 
menos do que nós tínhamos dos Melin- 
danos depois das viagens de Affonso de 
Paiva, e Pêro da Covilhã, ambos Ju- 
deos , hum de Castello-Branco , outro 
da terra de seu nome. E se este Rei 
bárbaro não tinha noticia dos Portugue- 
ses, pois foi preciso que Mercúrio fos- 
se adiante com a Fama para lhe dar al- 
guns vislumbres desta nova gente , que 
se lhe devia apresentar, menos noticia 
tinha da recôndita Mythologia Pagã , 
para dizer ao Gama: 



Commettêrão soberbos os Gigantes 
Com guerra vã o Olympo claro , e puro , 
Tentou Peritoo y e Theseo de ignorantes, 
O Reino de Plutão horrendo , e escuro : 
Se houve feitos no Mundo tão possantes , 
Não menos he trabalho illnstre, e duro 
„ Quanto foi commetter o Inferno , e Ceo , 
?> Que outrem commetta a fúria de Nereo. , 



isto na boca de hum Mouro inculto, e 
bárbaro ! E então a navegação de Vas- 
co da Gama era o mesmo que a guer- 
ra dos Gigantes, ea descida de Theseo 
ao Inferno ? Entre coizas tão dessimi- 



Segundo Canto. 133 

lhantes pode haver comparação algu- 
ma ? 

Para a Oit. 113 ha os mesmos mo- 
tivos. Tão instruído eslava EIRei na 
Historia antiga, que sabia muito bem 
quem fora o Architecto do Templo de 
Diana em Efeso . e como se chamava 
aqueile que lhe pozera o fogo para ser 
nomeado por este insigne delicto í 

Tenho concluido a Censura do 2.° 
Canto das Lusiadas , sem acrimonia , e 
sem paixão . e sem me apartar jamais 
dos dictames do sizo com m um : o que 
tudo prova , que ha erros successivos , 
e preoccupaçòes tão arreigadas , que 
não cedem nem á voz da evidencia. De- 
vemos amar Camões , porque he Nacio- 
nal ; porém muito mais que Camões de- 
vemos amar a verdade , e não seguir- 
mos como hum rebanho de carneiros o 
primeiro passo do primeiro que o admi- 
rou. 



134 

CENSURA 



DA S 



LUSÍADAS 



TERCEÍRO CANTO. 



N, 



este terceiro Canto começa o Prín- 
cipe dos Poetas a ser Historiador, co- 
meçando , como mandão as regras da 
Historia , a fazer huma prévia descrip- 
cão Geográfica daquelles Paizes que 
são, ou forão o theatro daquelles acon- 
tecimentos , que vai a contar. Chamo 
Historiador ao Principe dos Poetas 7 
porque se esquece aqui do seu mister , 
contando as coizas como realmente fo- 
rão , e acontecerão , sem transferir os 
factos Históricos para o verosimil Poé- 
tico* e se Quintiliano em attenção ao 



Terceiro Canto. 135 

estvlo levantado constitue a Lucano na 
classe dos Oradores , porque conta as 
guerras civis entre o sogro , e genro 
da mesma sorte que as contaria Táci- 
to , se estas descrevesse , nós devemos 
classificar o Príncipe dos Poetas em o 
numero e cathegoria dos Historiadores , 
porque com a mais escrupolosa miude- 
za nos conta o succedido no Reino de 
Portugal. Se as conta como Historia- 
dor. como Poeta excede os limites do 
verosímil , porque he impossivel , que 
sentado no paneiro de hum barco de- 
baixo de hum sol ardentíssimo se pren- 
desse a attencão de hum Rei bárbaro 9 
a quem nâopodiao ser interessantes oo* 
jectos para elle absolutamente desco- 
nhecidos 5 não havendo nelles aquelie 
maravilhoso que , por exemplo , tem os 
Quadros da Religião ; porque o sobre- 
natural prende .naturalmente a atten- 
cão do Ente racional , em quanto ás 
idéas geraes . e transcendentes . o que 
não succede com a historia particular 
de hum Povo., ainda mesmo quando 
este Povo nos he conhecido , ou temos 
Leis. e costumes similhantes aos seus» 



136 Censura das Lusíadas. 

A historia que o Gama vai contar le- 
va 333 Oitavas , relação prodigiosa , 
que excede a que Eneas faz no Palá- 
cio de Carthago á Rainha Dido da des- 
truição de Tróia, e viagem até áquel- 
le porto. 

Apenas começo a contemplar este 
longo tracto da Historia Portugueza, 
vejo saltar aos olhos a primeira inco- 
herencia. No principio do Poema , in- 
voca o Poeta as Tágides : 

o 
,, E vós, Tágides rainhas , pois creado, ,, 

Por estas Tágides entende Maneei de 
Faria e Sousa , e com elle a fluz os 
Commentadores , as Damas de Lisboa , 
que tanto iníluião na alma do Poeta, 
e isto para levar ao fim hum Poema 
onde era preciso crear, e imaginar. Es- 
te he o uso dos Poetas em suas invo- 
cações , no vestíbulo de seus Cantos , 
pedir soccorro a hum Ente sobrenatu- 
ral , e Divino : o mesmo Tasso invoca 
huma Musa Celestial : 



*> 



O' Musa , tu , que de Celestes Louros. „ 



Terceiro Canto. 137 

E o Príncipe dos Poetas invoca as Tá- 
gides j ou as Damas de Lisboa ; e quan- 
do traía de contar em hum Episodio 
particular a Historia deste Reino que 
elle conta com o ri°:or histórico , onde 
não faz mais que repetir o que os His- 
toriadores disserão , para esta empreza 
de menos trabalho, e menos custo, in- 
voca então Calliope , Blusa da Epo- 
péa : 

3 , Agora , tu Calliope , n":e ensina 

„ O que contou ao Rei o illustre Gama. ,, 

Rog-ando-lhe o bem do amor de ApoJlo 
para com ella , e revelando o que tal- 
vez a casta 3íusa quizera escondido. 
ou ao menos que se lhe não deitasse 
em rosto , este defeito : 

,, De quem Orfeo pariste, ó linda Dama. ,. 

Nem com a lembrança do furtivo par- 
to, nem com o titulo de Dama creio 
oue nenhoraria muito a benevolência de 
Calliope para a inspiração que lhe sap- 
plicava, pedindo ao Ceo que a livras- 



138 Cen^jra das Lusíadas. 

se da vaga incontinência do seu aman- 
te com Dafne , Clicie , e Leucothoe. 

Na Oit. 2. a nos diz o Poeta que já 
vè a Apollo que o banha na agua sobe- 
rana , e que se elle se illude , e Apollo 
lhe não faz isto . então dirá que Callio- 
pe tem sua inveja: 

Jt Então direi que tens algum receo 

,, Que se escureça o teu querido Orfêo. „ 

Bom he não deixar o próprio credito 
em mãos aJheas, porque não está segu- 
ro ; mas dar a entender Luiz de Ca- 
mões que seus cantos farião escurecer , 
e esquecer os divinos cantos deOrfòo, 
rilho de Apollo e de Calliope > 

} , De quem Orfèo pariste , „ 

isto he muito apertar com os amigos, 
e presumir mui claramente de si , de- 
pois de se haver chamado — Engenho 
ardente. — 

Na Oit. 4 diz o Gama ao Rei , que 
lhe mandava contar 
>> Da minha gente a grão Genealogia. „ 



Terceiro Canto. 139 

Não nos consta que o Rei de Melinde 
pedisse ao Gama , que lhe apresentas- 
se a arvore da geração com seus costa- 
dos dos Grandes de Portugal, que a is- 
to se chama Genealogia. Acaba o seu 
exórdio como o de discurso de Prega- 
dor: 

yi Hirei contra o que devo , e serei breve. ,, 

Nào sei que se possa chamar breve 
hum discurso que vai levar 333 Oita- 
vas ! Porém eu estou certo que , ainda 
a risco de perder o Reino , se Vasco 

X _ ' 

da Gama dissesse ao Rei Mouro a gran- 
deza enorme do panai que lhe hia ar- 
rumar, o Bárbaro mandava aos da sua 
Almadia que remassem para a terra , 
e hia-se embora. Ke boa brevidade a 
da recitação de S33 Oit. , apezar das 
promessas que faz deomittir muitos fa- 
ctos \ 

„ Porque de feitos taes , por mais que diga , 
,, Mais me hade ricar ainda que dizer. „ 

E continua a fazer huma Oratória di- 
visão do seu discurso em duas partes : 



140 Censura das Lusíadas. 

„ Primeiro tratarei da larga terra , 

,, Depoia direi da sanguinosa guerra. „ 



A Poesia, que considera as coizas em 
grande ? ~~e que generalisa , não deve 
descer , sem deixar de ser Poesia , a es- 
tas miudezas. Aqui farei hum a. reflexão 
verdadeiramente crítica , e que des- 
trua de todo os acintosos prestígios com 
que a seita Camoniana pretende illu- 
dir, ou fascinar o Mundo. Este longo 
e minucioso quadro via Historia Portu- 
gueza inserido em três Cantos he hum 
recurso de acanhada imaginação . ou 
huma prova de natural esterilidade da 
Acção, que o Príncipe dos Poetas não 
podia fecundar. Este longo Episodio 
não tem proporção alguma com a Fa- 
bula Poética arquitectada por Luiz de 
Camões. Tirem-se as visagens , as trans- 
formações , as sugestões escusadas de 
Baccho, que para as começar deixou 
que o Gama de quem era inimigo do- 
brasse o Cabo da Boa Esperança , e 
chegasse muito avante pela costa Ori- 
ental da Africa á ilha de Momcambi- 
que, para as continuar até Mombaça, e 



Terceiro Canto. 141 

prose 2*irillas depois em Calecut . não á 
cara descoberta , mas acirrando em so- 
nhos os Mouros como costumava ; que 
fica da acção em si ? Que retarda . ou 
que apressa a sua conclusão ? Coiza ne- 
nhuma. O Heroe nas Lusíadas-, depois 
da sua chegada á índia . apenas ex- 
cita o dó , e a compaixão, pelo estado 
miserável a que o reduz prezo como sus- 
peito de corso, e piratagem em Cale- 
cut , e alcançando a ordem de soltura 
pelo soborno , e peitas ao Catual. Não 
tinha outro recurso para estender a têa 
da fabula , senão o da Historia de Por- 
tugal: mas eng*anou-se neste recurso, 
porque esta Historia não devia ser con- 
tada ao Rei de Melinde , que era hum 
accessorio, e não o objecto , ou termo 
principal a quem o Gama como explo- 
rador se dirigia. A idéa da grandeza do 
Reino, o seu estado politico, e militar, 
devia ser dada em Calecut , e nao em 
Melinde. Cem o Monarca indiano , e 
não com o Monarca Africano era o ne- 
gocio; do Indiano exi^ia-se a alliança, 
do Africano hum Piloto prático, incul- 
cado pelos Mouros prizicneíros que o 



142 Censura das Lusíadas?. 

Gama levava. Este grande, e indescul- 
pável defeito das Lusíadas , toste Episo- 
dio fora de lugar , pois o seu verdadei- 
ro , e necessário lucrar era a índia , e 
não a Africa 9 tem por motivo , como 
todos os defeitos do mesmo Poema, a 
servil imitação de Virgílio , em tudo , e 
por tudo seguido pelo Principe dos Poe- 
tas. O fim da peregrinação, e navega- 
ções de Eneas era a sua chegada a Itá- 
lia , Laviniaque Recjna , oomo o fim da 
viagem de V asco da Gama , ( que para 
si de Eneas toma a fama , ) era o desco- 
brimento da índia, chegando lá como 
Eneas devia chegar á Itália ; porém co- 
mo Eneas foi ter a Carthago , também 
Vasco da Gama vai ter a Melinde, e 
como Eneas conta muitas historias a 
Dido , também Vasco da Gama as deve 
contar no caminho a EIRei de JMelin- 
de ; porém Eneas vinha para estar , e 
demorar-se , pois nâo sabia dos compa- 
nheiros, do forte Gyas. do forte Cloan- 
tho , e tinha chegado náufrago áquellas 
praias sem outra coi/,a mais que seu 
corpo gentil. Devia alli cuidar de trans- 
portes para a ítaíia , isto nâo era obra 



Terceiro Canto. 143 

de dias , pedia tempo : foi hospedado por 
Dido, vivia no seu Palácio, hiào caçar 
á coutada , lá houve o que houve ; em 
fim era hum hospede demorado . e era 
preciso que fallassem em alguma coiza > 
contou-lhe tudo o que Lhe tinha succe- 
dido em Tróia , e fora de Tróia na sua 
viagem até o momento do naufrágio. Na- 
da disto acontecia a Vasco da Gama, 
que nHú aporta a Melinde , senão para 
haver hum Piloto pratico , e apenas apa- 
nha o Rei, que veio de curiosidade ver 
as ISaos, lhe embute no mesmo batel 
em que vinha toda a historia de Portu- 
gal; o que excede os limites, primeiro 
da verosimilhança , e depois da paciên- 
cia humana. A relação de Eneas em 
Carthago era hum a necessidade , a re- 
lação de Vasco da Gama dentro do ba- 
tei d'EÍRei de Melinde, eralmma ocio- 
sidade fora de todo o propósito . mas o 
furor da imitação traz comsúro huma 
manifesta cegueira com que se atrope- 
lao todas as Íeis , e ícdos os dictaii.es 
da boa razão. 

Começa pois Vasco da Gama pela 
descripçâo Geográfica da Europa , des- 



144 Censura das Lusíadas. 

cripção a todas as luzes boa , e gran- 
de , e com efTeito o seu originai he 
muito grande , e devia produzir huma 
boa- copia ; Sanazzaro em o perfeitíssi- 
mo Poema — De Pariu Vircjinis — traz 
esta parte da descripção da Europa 
no Livro segundo , quando se trata do 
Edicto de César : — v.t descriheretur 
universus orhis. — Mas esta descripção 
nas Lusíadas he cheia de tantas allu- 
sões , de tantas erudições históricas , 

* 3 J 

que se torna a sua intelligencia impos- 
sível a Hum Mouro, ainda que Monar- 
ca , inculto j e rude , como realmente são 
iodos os da Africa por aquclla barbara 
Costa da Cafraria , e Ethyopia oriental ; 
e não pode hum homem dar aítenção 
a coizas que não entende, eo Poeta de- 
ve faliar com propriedade , adaptando 
o discurso á Índole . estado , ou condi- 
ção das pessoas a quem o dirige. O 
Príncipe dos Poetas nao íez mais que 
huma boa copia do Originai de Sanaz- 
zaro. Esquece-se muitas vezes da pes- 
soa a quem está fallando , dizendo mal 
dos Mahometanos a hum Rei também 
Mahometano , como se vê na Oit 1-2 : 



Terceiro Canto. 145 

>, Ao Ottomano está . que submettida , 
„ Byzancio tem a seu serviço indigno. }> 

A Lei dos Turcos he a mesma que a 
Lei dos Mouros, e poucos Mouros ha 
que não sejão , ou vassallos ? ou feuda- 
tarios do Grão Senhor. A Oit, 15 he 
notável , e muito notável por duas coi- 
zas que em si contém , e por tudo pas- 
são os Commentadores como céoos , e 
obstinados Idólatras do mérito , e pre- 
ço dos seus commentados : falia o Poe- 
ta da Itália, e diz — ■ 

,, Mas depois que o Porteiro tem divino 
„ Perdendo o esforço veio , e bellica arte > 
,, Pobre está já da antiga potestade ; 
} , Tanto Deos se contenta da humildade ! 

He por ventura própria a Perifrase de 
— Porteiro Divino — para dar a hum 
Rei bárbaro , e Mouro , a idéa do Pa- 
pa , e de seu poder espiritual , designa- 
do nas palavras de Christo a S. Pe- 
dro — Et tibi dabo claves Rerjni Coe- 
Jorumf — Eu te darei as chaves do 
Reino dos Ceos ? Ficava por ventura 
o Rei sabendo quem era o Papa ao 
Tom, L k 



146 Cejísura das Lusíadas. 

escutar a frase de — Porteiro Divino ? 
Mas eu não vejo diante de mim se- 
não Idólatras de Camões , ajoelhados 
com as mãos levantadas na presença 
da Grande Edição de Finnin Didot, 
como se em letras de ouro se não 
podessem imprimir parvoices ! O Epi- 
fonema que fecha a Oit. ainda he mais 
rariavel, pela notável equivocação do 
Poeta : 

„ Tinto Deos se contenta da humildade ! ! 

A humildade he huma virtude da mo- 
ral Chrisiã , e esta virtude está no co- 
ração, e não no estado, ou condição 
He certo que o Império Romano de- 
cahíra de sua antiga grandeza , não só 
<lepois da divisão de Oriental , e Occi- 
dental , porém na invasão dos Bárba- 
ros do JSorte que o retalharão , e divi- 
dirão, ou verdadeiramente anniquilá- 
rão , e desappareeeo de todo quando 
Mahomed segundo tomou Constantino- 
pla. Nem o Império Romano , nem 
mesmo a dominação temporal do Papa 
depois das doações de Constantino , de 



Terceiro Canto. 147 

Pepino, e de Carlos Magno, erão coi- 
za que avultasse ; e toma o Poeta o 
abatimento temporal do Império Roma- 
no, e a servidão da Itália dividida en- 
tre tantos Soberanos, e dominações pe- 
quenas , pela virtude moral ensinada 
no Evangelho como base da perfeição 
Christã . a humildade, que só existe 
no coração , e pode hum mendigo ser 
muito soberbo , e hum Rei com tantos 
dominios como EIRei D. João 3.° pôde 
ser muito humilde de coração , que he 
a humildade de que Deos se paga ? e 
de que Deos se contenta: 

J5 Tanto Deos se contenta da humildade ! ! „ 

que por certo não he , nem o abati- 
mento do Império Romano , nem a ser- 
vidão da Itália. A Oit. 20 também nos 
revela hum daquelles esquecimentos do 
Príncipe dos Poetas , que o fazem trans- 
gredir as Leis da chamada conveniên- 
cia , ou constante propriedade dos cos- 
tumes : falia de Portugal como Reino, 
que he o ápice da cabeça da Europa 

& 2 



3? 



148 Censura das Lusíadas, 

3 , Eis-aqui quasi cume da cabeça 
3, Da Europa toda . . . . „ 



diz — 

Este quiz o Ceo justo , que fioreça 
Nas armas contra o torpe Mauritano , 
}i Deitando-o de si fora ; e lá na ardente 
3, Africa , estar quieto não consente. „ 

Ora j chamar torpe a hum Mouro , fat- 
iando com hum Rei Mouro, de quem 
o mesmo Gama se mostrava dependen- 
te, he o ultimo dos desiemperos ; e 
se o Rei de Melinde não entendia a 
força do termo — torpe — então não 
entendia nada do que o Gama lhe di- 
zia, e era escusado estar-lhe fallando 



>> 



E lá na ardente Africa ? 



Que quer dizer a palavra — lá ? Pois 
elle não está na Africa? Pois eu hei- 
de estar em Portugal , e heide dizer 
— lá em Portugal ? Isso he se estive- 
ra no fírazil , ou em outra região que 
não fosse Portugal. 

Na Oit 21 confirma o Príncipe dos 



Terceiro Canto. 149 

Poetas a idéa que tinha dado a hum 
Rei Mouro da índole , e caracter da 
sua Nação , que vinha ser , perseguir 
os Mouros , porque começara a esta- 
belecer-se em corpo de Nação pela ex- 
pulsão dos Mouros , que pelo Direito 
de conquista erão Senhores da Lusitâ- 
nia Góthica havia mais de trezentos an- 
nos , e que não satisfeita com esta ex- 
pulsão , lá mesmo na Africa onde os ha- 
via arrojado , os perseguia , e acoçava 
sem os deixar ter socego em seus mes- 
mos lares: 

„ E lá na ardente 
„ Africa , estar quieto o náo consente. ,, 

Coiza esta muito própria para penho- 
rar a boa vontade de hum Rei Mou- 
ro , que podia dizer comsigo : — Que 
taes são os hospedes ? O mesmo que 
fizerão aos Mouros na Africa lá tam- 
bém farão na Africa cá : chama-se a 
isto conservar , e sustentar bem os ca- 
racteres ! Mas he nada para que o Poe- 
ta hirá deitando em rosto aos tristes 
Mouros. 



150 Censura das Lusíadas. 

Começa na Oit. 22 a dar pelo miú- 
do conta ao Rei de Melinde dos He- 
roes mais distinctos da Lusitânia an- 
tiga, e contenta-se com Viriato, indi- 
viduo incógnito ao Mouro , assim como 
todos, e tudo de que lhe falia ; mas 
Ha pintura de Viriato ha tanta am- 
biguidade , e tanta obscuridade , que 
fae preciso estar bem visto na Histo- 
ria , e nas etymologias , para se saber 
que he elle: 

i> Desta o Pastor nasceo , que no seu nome 
5» Se vê que de homem forte os feitos teve. „ 

Se o Rei de Melinde não souber que 
— Vir — em Latim , quer dizer ho- 
mem , rica em jejum a respeito do no- 
me do Pastor que nasceo desta Nação: 
" Desta, o Pastor nasceo. " Que sa- 
crilégio he emendar Camões ! Sejao 
embora nitidas , nitidissimas as Edi- 
ções , em todas ellas se verá , que não 
ha maior impropriedade de termos , 
nem maior in verosimilhança de ima- 
gens, e isto não he ser Poeta. 

Deixa huma lacuna na Historia de 



Terceiro Canto» 151 

Portugal , e passa repentinamen te cio 
tempo dos Romanos á vinda do Con- 
de D. Henrique , e dá ao Mauro nu- 
ma idéa do Maçno Affonso . Rei de 
Hespanha , jurada inimigo dos Mou- 
ras . e o Mouro de Melinde calado le- 
vando -as a pé lirme : 



,, Que fez aos Sarracenos tanta guerra , 

,, Que por armas sanguinas 3 força , e manha , 

„ A muitos fez perder a vida , e a terra. „ 



Daqui á manhã fazem-me o mesmo , di- 
ria o Rei de Melinde , e o Príncipe 
dos Poetas esquecido de que se faila- 
va a bum Mouro, cuja hospedagem se 
buscava , e de quem se dependia no 
caso do Piloto. Remata esta Oit 23 
com este verso errado, que os da sei- 
ta Camoniana ( se algum delles souber 
fazer bons versos ) não deixarão de con- 
fessar , que he hum grande defeito em 
hum grande Poeta 

5; Vinháo a elle , e á morte offerecer-se. ,, 

Os que vinhão erào Campeões da Fe 



152 Censura das Lusíadas. 

e por consequência inimigos natos dos 
Mouros , e falla-se com hum Mouro , 
mas prudente , e calado , porque em 
toda a comprida arenga de Vasco da 
Gama, não disse huma palavra. 

Torna a affirmar na Oit. 26 que em 
Portugal desde a sua origem politica, 
não se tratava senão de fazer guerra 
aos Mouros , que elle pretende aviltar , 
lembrando-lhes que erão descendentes 
de huma Escrava : 

Contra os descendentes 
„ Da escrava Agar % victorias grandes teve. „ 

Na Oit. 29 começa o Poeta, pela pri- 
meira vez no Poema a serie de impro- 
périos contra as Soberanas de Fortu- 
gal , e contra alguns dos Monarcas de 
cuja grandeza queria dar huma idéa ao 
Rei Mouro. Morreo o Conde D. Hen- 
rique , fosse Húngaro , fosse Borgo- 
nhez , ainda o Juiz não sentenciou a 
final este pleito ; (*) era hum Conde , e 

- 1 "■■ - i - 

(*) Já hoje psrece indubitável que o Conde D. 
Henrique era filho de Henrique, neto de Roberto 
Duque de Borgonha, chamado o Velho, e bisneto 



Terceiro Canto. 153 

com este titulo lhe foi dado ena dote 
por Affonso Rei deHespanha. quando 
o casou com sua lilha D, Tereza , ou 
bastarda . ou legitima , o que possuía 
em Portugal na Província do Minho. 
Passou a Rainha D. Tereza a segun- 
das núpcias (no que discorda o os His- 
toriadores ^ com o Conde de Trás ia- 
mara , também Conde ; não ha erro de 
condição, e nisto não ha nenhum de- 
licto . mas lo 2:0 veremos como o Poeta 
o trata de sensualidade, e brutal in- 
continência. Também não he nenhum 
delicto administrar o seu dote na jií- 
noridade de seu filho, pois não consta 
que ella intentasse usurpar-lhe para sem- 
pre o direito de herança, e succèssão , 
enós não sabemos qual era naquelles es- 
curos , e bárbaros tempos o espirito 
das Leis testamentárias. Isto era ques- 
tão para os Juristas , e matéria para 
os seus importantes Provarás; èjá que 

de Roberto II. Rei de França. A origem do Conde 
J). Henrique provêm por tanto de Hugo Capeio, 
como provou Tlieodoro Godejffroy no sen tratado jja 
Origem 4os Reis d* Portugal } impresso em Paris 
em 1612. 



154 Censura das Lusíadas. 

o Poeta se mette nisto ao menos nâo 
fizesse versos duros , que offenderião 
os ouvidos de hum homem tão instruí- 
do como o Mouro de Melinde em 1497 ! 

j, Do senhorio todo só sua era. ,, 

Na Oit. 30 ha coizas muito ridículas, 
e muito baixas. 

j, Mas o Príncipe Affonso , que desta arte 
3 , Se chamava , do Avô tomando o nome , 
„ Vendo-se em suas terras não ter parte , 
a , Que a mãi com seu marido as manda , e carne, „ 

Eu não sei que D. Affonso Henriques 
queria que a mãi lhe fizesse ! O Con- 
dado do Minho era seu , a casa era 
sua ; em a mãi morrendo , como elle 
era primogénito do primeiro matrimo- 
nio , e as terras dote da mãi , en tra- 
vão na herança , e o Conde de Tras- 
lamara se vivesse , hia com Deos , e 
levaria a sua terça , ou o que quer 
que fosse. Affonso Henriques nâo quiz 
esperar por isto ; chegou á idade suf- 
ficiente; fez hum partido, levantou-se 
em Guimarães , prendeo a mãi, e fez- 



Terceiro Caxto. 155 

se independente, e o mesmo Poeia di- 
rá depois, quando elle quebrou as per- 
nas no ferrolho da porta de Badajoz y 
e iicou prizioneiro de EIRei de Leão , 
que fora castigo do que fizera a suai 
mái. E o Mouro calado. Ke mui i.z- 
tavel a Oit. 31 ! 

,, De Guimarães o campo se tingia 
,, Co' o sangue próprio da intestina guerra p 
,, Onde a mái , que tão pouco o pareci-» , 
st A seu filho negava o amor , e a terra. ,, 

Menos , e muito menos o parecia o fi- 
lho , em fazer guerra a sua mãi , e 
em desapossalla antes de tempo do que 
era seu dote , e sua propriedade. 

,, Contra Deos , contra o maternal amcr ; 
,, Mas cella o sensual era maior. ,, 

Não he prova de sensualidade o pas- 
sar huma viuva a secundas núpcias. 
He hum erro indesculpável dar tào 
ruim idéa da primeira Soberana de Por- 
tugal com o titulo de Condessa ( cu 
antes geralmente intitulada Rainna ) y 
nem estas segundas núpcias defrauda- 



156 Censura das Lusíadas. 

vão da herança o filho Ho primeiro ma- 
trimonio. Não satisfeito Camões de a 
injuriar , criminando-a de incontinen- 
te , e sensual , passa a iguala lia com 
os monstros cia antiguidade na , entre 
todas , memorável Oit. 32 do Canto 
terceiro das Divinas Lusíadas. Eu a 
transcrevo toda , esperando pela des- 
culpa , ou sabida que lhe dá a seita 
Camoniana : — 

3i Oh Progne crua ! Oh Magica Medea ! 
,, Se em vossos próprios filhos vos vingais 
„ Da maldade dos pais , da culpa allúa , 
3 , Olhai , que inda Tereza pccca mais : 
, t Incontinência má, cobiça fêa 
,, São as causas deste erro pnncipaes; 
„ Scylla , por huma , mata o velho pai , 
„ Esta por ambas contra o filho vai. ,, 

Esta Oit. 32 devera desde logo fazer 
supprimir todo o Poema. Ainda em 
Portuguez se não escreveo coiza mais 
indigna. Tereza he peor que Medéa, 
peor que Progne , peor que Scylla , 
que matarão os pais ? e os filhos ! 

, } Olhai, que ainda Tereza pecca mais! ,» 



Terceiro Canto. 157 

E porque ? Porque huma viuva de hum 
Conde casou com outro Conde. O pe- 
queno dote de D. Tereza não era hu- 
ma soberania dada ao Conde D. Hen- 
rique seu Marido , nem o direito de 
Bucceder neste Estado, se tinha ainda 
estabelecido de pai a filho primogéni- 
to. Nas Cortes de Lamego se estabe- 
leceo depois. Fosse isto como fosse , 
nada disto desculpa , ou justifica os 
erros do Poeta. Na Oit. 33 torna a 
atacar com afnontosos nomes D. Te- 
reza , chamando-Ihe mãi iníqua , e de- 
clara finalmente que o filho a põe em 
huma prizào , e a ferros: 

„ A raãi em ferros ásperos atava, 9i 

Tudo isto he indigno , e muito prin- 
cipalmente dito a hum Rei, querendo 
dar-lhe idéa da grandeza, e perfeição 
de outro Re]. Depois de o represen- 
tar desobediente a sua mãi , arman- 
do-se contra ella 3 e prendendo-a , pa- 
ra acabar o retrato de hum homem abo- 
minável . aquém chama Santo, eCa- 
valleiro, o imprudentíssimo Poeta, tam- 



158 Cejcsuha das Lusíadas. 

bem o representa mnel aos tratados, 
•e infractor de artigos de Capitulação ; 
porque , promettendo obediência a' El- 
Rei de Castella por intervenção do 
Aio, 

(,, O fiel Egas amo , foi livrado. . . .) 
} , Que elle faria dar-lhe obediência j ,, 

como oom esta boa prosa diz na Oit 
36 j lha negK)a apenas o Castelhano te* 
cantou o cerco de Guimáres, e se foi 
para a sua terra: 

,, Fiado na promessa , e consciência , 
Jt De Egas Moniz 

E isto dito com o verdadeiro tom da 
Epopéa, que he o que me cumpre no- 
tar, porque como a impeccabilidade de 
Camões se annuncia absoluta , he pre- 
ciso mostrar a cada passo se tem al- 
guma coiza que emendar , eató ago- 
ra se tem visto, e se hirá vendo, que 
não ha hum Poema mais defeituoso em 
tudo : nas quebras da Poesia do esty- 
Ic ainda he mais notável ) pelo vicio 



Terceiro Caxto. 159 

de paríicularisar os objectos , e de nao 
omittir circunstancia alguma em hum 
Poema ; o que até seria fastidioso , e 
insupportavel em huma Historia. INa 
Oit. 42 começa de representar EIRei 
D. Afonso como capita! inimigo dos 
Mouros , formando todos huma Nação 5 
e tendo todos huma lei ? e as injú- 
rias communs , que o Poeta lhes diz , to- 
cado a todos . e por isto pecca contra a 
lei da justa conveniência, e não sabe 
sustentar , e conservar os caracteres. 
Quanto o Gama di? a EIRei deMelinde 
o devia seriamente oíiènder. Oit. 42 i 

,, Mas já o Príncipe Arnoso i parei ha va 

p O Lusitano exercito ditoso 

; , Contra o Mouro , que as íerra.s habitava 

,, D'além do claro Tejo deleitoso. ,, 

Estes . diria o Mouro de Melinde , es- 
tes que me estão contando estas his- 
torias , que me nào importão ? sao des- 
cendentes dos perseguidores , e exter- 
minadores da minha Nação. Que di- 
reito tinhão elles para esbulharem os 
Mouros da posse pacífica de hum Rei- 
no que possuiâo desde que o exerci- 



160 Censura das Lusíadas. 

to de Muça invadio , e conquistou a 
Hespanha ? Na Oit. 44 aponta o Prín- 
cipe dos Pcetas huma circunstancia que 
por certo escapou aos Historiadores 
da batalha de Castro-verde : as Damas 
guerreiras que acompanhavão os Mou- 
ros , que nem á rua as deixão sahir , 
quanto mais ao campo da batalha ! Ale- 
ga o Poeta exemplos absolutamente 
desconhecidos ao velho Melindano . e 
também aos que não estiverem muito 
ensopados nos factos da Historia an- 
tiga. Não saberia qual fosse a Dama de 
que os Troianos se ajudarão «,- e as que 
gostarão do Thermodonte ; Penthesi- 
léa , e as Amazonas. He bom ter erudi- 
ção , mas he melhor saber usar delia a 
tempo ; e neste e em muitos passos 
cias Lusíadas , podemos dizer com o 
bom Horácio r 

Sdd non erat hic iocus. 

Não vinhão , nem devião aqui appa- 
recer simiihantes coizas. Na continua- 
ção das outras Oit. não se vê mais 
que a continuação das injúrias dire- 



Terceiro Canto. 161 

ctas , e indirectas que se dizem aos 
pobres Mouros, cuja hospitalidade me- 
recia mais comtemplaçâo. Na Oit 45 
falia em J. C. sem idéa alguma pré- 
via da Revelação , o que he huma 
monstruosidade fallando com hum Mou- 
ro : 

„ Quando na Crui o Filho de Maria. „ 

E chamando aos Mouros infiéis , que 
he o que também os Mouros nos cha- 
mão a nós : 

t/ Aos infiéis , Senhor , aos infiéis. „ 

Não devia ficar muito contente o Rei 
de Melinde com este titulo dado aos 
Mouros. Na Oit. 46 com erro notável 
pòe a acclamação de EIRei D. Aífon- 
so Henriques anterior á batalha ? e á 
victoria do Campo de Ourique. Que 
cargo farião disto os da seita Camo- 
niana a outro qualquer Poeta que ago- 
ra apparecesse ! Na Oit. 47 ha huma 
comparação emprestada ( como todas ) , 
o que já se mostrou ;, e o que njiío he 
Tom. I. t 



162 Censura dás Lusíadas. 

pequeno desdouro do Poeta pois de- 
põe contra a sua originalidade. Na Oit. 
48 continua a usar do termo — Estô- 
mago — para dar a conhecer as dis- 
posições do animo : Estômago danado , 
estômago accendido. 

,, Tai o Rei novo , o estômago accendido 
}i Por Deos 

Parece esta expressão mais própria da 
Táctica Medicai \ do que do sentido 
moral . ou da accepçâo que lhe dá o 
Poeta , e quer que nós lhe demos : 
aqui" "parece que se deve tomar por 
moléstia que Deos dera ao Rei , pois 
parece a inHammação desta viscera, es- 
tômago accendido. Chamar aos Mouros 
infiéis , seria pagar-lhes na mesma moe- 
da , porém chamar-lhes — Perros , as- 
sim como he huma injúria atroz , hè 
hum erro no Divino Camões , porque 
mostra esquecer-se do caracter das pes- 
soas a quem falia va. 

?> Levantão nisto os Perros o alarido. „ 



Terceiro Canto. 163 

Tinha desculpa o Rei de Melinde se 
desse huma bofetada em Vasco da Ga- 
ma , ou ? se vivesse , em Luiz de Ca- 
mões se por lá passasse. Na Oit. 49 
continua o empréstimo das compara- 
ções , o que já está demonstrado , e 
continuão as provas da mingoa de ori- 
ginalidade. Na Oit. 50 vai por diante 
o fio das injúrias : 

„ Huns cahem meios mortos , outros vão 
„ A ajuda convocando do Alcorão, „ 

Isto he hum sutaque á falsidade , e á 
inefficacia da falsa Lei de Mafoma, 
— o Alcorão — j coiza sacratíssima , e 
adorável para todos os Musulmanos; 
e ainda que os Mouros Melindanos fos- 
sem tão distantes dos Mouros da Lu- 
sitânia, e Andaluzia, para todos era 
igualmente venerável o Alcorão , co- 
mo ( em sentido verdadeiro ) para to- 
dos os Christãos espalhados pela Ter- 
ra he venerável a Sagrada Bíblia. Na 
Oit. 52 ha outra incoherencia , e se 
lhe não quizermos chamar assim , di^ 
remos que he manifesta pobreza de rima: 

L 2 



164 Censura das Lusíadas. 
* t) Já perde o campo o exercito nefando. „ 

A mil coizas applica impropriamente 
este epitheto nefando , e elle , e o hor- 
rendo , vem -, e tornão a vir a cada 
instante , e quasi sempre mal applica- 
tlòs : e continua a ser impeccavel o Di- 
vino Camões, dizem os da seita ; tudo 
são bellezas; e eu direi que são in- 
correcções de estvlo ? o maior defeito 
de húm Poeta depois d& falta de in- 
venção. Na Oit. 53 ha huma passa- 
gem notável nos últimos versos da Oit. 

,, Cinco escudos azues esclarecidos , 

;,, Em sinal destes cinco Reis vencidos. ,, 

O que destroe a pia tradição dos Por- 
tuguezes , que naquelles cinco sinaes \ 
ou symbolos , reconhecem as cinco cha- 
gas. Os Sebastianistas , que a seu modo , 
e para seus fins , interpreíão , e appli- 
cão isto, não ficaráõ muito obrigados a 
Luiz de Camões , que de todo destroe 
esta piedosa illusão. Costumavão os 
Guerreiros no século das Cavallarias an- 
dantes , e nas expedições das Cruza- 
das ? trazer hum Escudo em branco, e 



Terceiro Canto. 16£ 

quando se assignalavão com algum fei- 
to de armas, então conservavão, com 
algum symbolo allusivo, a memoria das 
suas façanhas ; daqui vem o que se 
chama Armaria , e a sciencia do Bra- 
zão , pois tudo quanto vemos nos es- 
cudos de armas dos Grandes, e dos No- 
bres allude a alguma coiza. D. Afonso 
Henriques , foi com o escudo em bran- 
co para o Campo de Ourique , venceo 
os cinco Régulos Mouros, e designou 
por cinco escudos a victoria , que al- 
cançara destes cinco Potentados , assim 
como Afíbnso 3.° augmentou o Escu- 
do de Portugal com os Castellos que 
rodeào os cinco Escudos pequenos , pa- 
ra symbolo da Conquista do Algarve, 
donde por ultimo forão expulsos os 
Mouros , que até a esta época , possu- 
irão aquelle Reino. A memoria das cin- 
co Chagas , he huma piedosa , e po- 
pular tradição. 

Na, Oit. 55 ha hum daquelles tro- 
cadilhos e contrapostos , que tanto no- 
ta Ignacio Garcez Ferreira , e antes 
delle , e depois delle , notará sempre 
a boa razão : 



166 Censura das Lusíadas. 

„ Passado já algum tempo , que passada 
„ Era esta grão victoria , o Rei sobido 
)t A tomar vai Leiria , que tomaia . . . 



99 Com esta a forte Arronches subjugada 
99 Foi juntamente , e o sempre ennobrecidc 
„ Scalabicastro cujo campo ameno 
„ Tu , claro Tejo , regas tão sereno ! „ 



Erão accaso estas miudezas para hum 
Rei Mouro, que pela primeira vez na 
sua vida via os Portuguezes , e ignora- 
va absoluta, e invencivelmente a Geo- 
grafia do Reino? Isto occupa a maior 
parte do Poema ; porque tirada esta 
longa , e somnifera narração histórica 
nua e crua , sem maravilhoso algum , 
tirado também o additamento ao mes- 
mo Poema , que he tudo o que se con- 
tém no 9.° e 10.° Canto , depois de 
acabada , e inteiramente concluida a, 
acção , que fica das Lusiadas ? Nada 
mais que as tramóias de Baccho em 
Moçambique, e Mombaça, e alguma 
pequena intriga do mesmo Baccho na 
vergonhosa demora do Gama em Ca- 
lecut. 
9> Ta x claro Tejo , regas tão sereno ! „ 



Terceiro Canto, 16 7 

Esta apóstrofe ao Tejo lá de tào lon- 
ge , e no meio de huma tão animada e 
miúda narração , devia enternecer mui- 
to o Rei de Melinde, e fazer-lhe lem- 
brar o bom tempo que passara passe- 
ando nas Onias ! Na Oit. 56 outra após- 
trofe a Cintra , que devia enternecer 
o Rei., que a conhecia também desde 
o tempo em que alli esteve tomando 
ares ! 

„ Cintra , onde as Naiádas escondidas 
s% Nas fontes , vão fugindo ao doce laço 
,, Onde Amor as enreda brandamente , 
„ Nas aguas accendendo o fogo ardente. ,, 

Que não fujão tanto as Naiadas de 
Cintra , nem as queijadas , sabemos 
nós ; mas EIRei de Melinde ! Grande 
arte tinha o Poeta, e muito bem pu- 
nha as coizas em seu lugar , sabendo 
apropriar os discursos ás pessoas , e aos 
tempos ! Na Oit. 57 ha huma frase 
bem equívoca , e bem imprópria de 
hum Poeta que se annuncia correcta- 
mente ! 

„ E tu , nobre Lisboa , que no Mundo 
» Facilmente das outras és Princeza» } , 



J68 Censura das Lusíadas. 

Parece que quer dizer Princeza das 
outras Lis boas , e assim ficamos tendo 
muitas Lisboas , porque o Poeta nos 
não diz que outras erão estas , e este 
relativo outras não tem referencia mais 
próxima que as Lisboas — outras — 
Lisboas. 



„ Que edificada foste do facundo 

9 , Por cujo engano foi Dardania acceza. „ 



EIRei de Melinde sabia mui bem que 
este — facundo — era Ulysses ? e nps 
sabemos também , que acceza não quer 
dizer rigorosamente queimada, ou in- 
cendiada. Na Oit. 58 vem vasta , e 
profunda erudição apoiada no bordão 



)9 Lã do Germânico Albis , e do Rheno , 
„ E da fria Bretanha conduzidos , 
s, A. destruir o Povo Sarraceno. *, 



Não trata com hum Rei Mouro senão 
da destruição, e universal exterminia 
dos Mouros, 



Terceiro Canto. 169 

.,, Muitos com tenção santa erao partidos 
,, Entrando a boca já do Tejo ameno. ,, 

Ápparece aqui hum — cajado — que 
com effeito mata mais de hum coelho , 
porque offende a eufemia , primeira Lei 
do verso , e que até deve ser guarda- 
da escrupplosamente na prosa. E não 
são isto erros do inemendavel Camões ? 
Oit. 60. 

,, Desta arte em fim tomada se rendeo , 
„ Aquella , que nos tempos já passados 
,, A' grande força nunca obedeceo 
,, Dos frios povos Scythicos ousados. „ 

Não nos consta que em século algum 
os Povos da Scythia viessem directa- 
mente tomar , ou sitiar Lisboa : mas 
aqui ha hum erro Histórico, e não po- 
de deixar de ser emendado o impecca- 
vel Camões. Se pelos Povos Scythicos 
ousados entende os Godos , e os Vânda- 
los , os Suevos , e os Alanos , estes fo- 
rão senhores da Lusitânia , e Lisboa pas- 
sou do dominio dos Romanos ao dos Go- 
dos , do dominio dos Godos ao dos Sar- 
racenos , o que se CQahece pela His' 



170 Censura das Lusíadas. 

toria de suas antiguidades, pelos mo- 
numentos achados , e pelas medalhas 
conservadas. Na Oit. 61 ha huma no- 
tável falta de Grammatica , grande er- 
ro em hum Clássico Portuguez, como 
já dissemos : 



s , Óbidos , Alemquer , por onde soa 
,, O tom das frescas aguas entre as pedras 
, Que murmurando lava , e Torres Vedras* 



Às aguas são as que lavão , o tom , ou 
murmúrio das aguas , não he o que la- 
va , e nós vemos aguas no plural , e 
lava no singular. Pois também o Prin- 
cipe dos Poetas commette hum solecis- 
mo na Lingua Portugueza ! Na edi- 
ção de J. T. Barreto e outras lê-se; 
" Que murmurando lavão , e Torres 
Vedras. " Porém assim \ se he melhor 
Grammatica , he errado o verso. Ora Ca- 
mões não pode errar, isto he falta de 
intelligencia nossa ! Torres Vedras , a 
triste Torres Vedras , vai aqui meti- 
da não sei como , e se não fallasse em 
pedras, por certo não lhe lembrava a 
mais melancólica , e tediosa povoação 



Terceiro Canto. 171 

do Reino. Na Oit. 62 ha huma das 
costumadas apóstrofes ao Alemtejo. Pa- 
ra onde se viraria o Gama para excla- 
mar desta maneira? Para onde estava 
o batel virado ? Quem conta huma his- 
toria a hum homem, interrompe aca- 
so o fio da narração , apostrofando de 
continuo ? Sint próxima vero. Aproxi- 
mem-se á natural verdade , ao natural 
modo de contar , as coizas que se con- 
tào , e he ridiculo deixar o ouvinte , e 
virar-se , ora para aqui , ora para aili , 
oom apóstrofes , e movimentos orató- 
rios. 

„ E tu , Lavrador Mouro . . . . „ 

Onde estava alli o Lavrador Mouro ? 
He bom gritar de Melinde para o Alem- 
tejo ; para Elvas , para Moura , para Ser- 
pa , para Alcacere do Sal ! O Gama he 
feito Pregador de bote. Na Oit. 63 dá 
tanto a conhecer Giraldo sem pavor . 
como dera a conhecer Viriato : 



3, De Geraldo , que medos não temia. 



Si 



172 Censura das Lusíadas. 

Não temer medos não me parece mui 
claro , ou mui Portuguez , não dá a 
conhecer a tomada da Torre de vigia, 
dos Mouros de Évora. Oit. 66: 

3, O Rei de Badajoz era alto Mouro. „ 

E isto dá a conhecer a grandeza mo- 
ral , a estatura daquelle Musulmano ? 
Era alto Mouro — Era hum Mouro 
alto. A comparação do Touro matrei- 
ro, que em o mez do cio vem ao ca- 
minho esperar os passageiros para lhes 
marrar , não convém , nem quadra mui- 
to á dignidade , e nobreza de hum Rei 
guerreiro, e generoso, pois o faz hum 
atraiçoado , e hum matreiro , que accom- 
mette os descuidados : 

t> Saltêa o descuidado caminhante. „ 

Isto dá mais huma idéa de cobardia 
que de valor. Na Oit. 67 ha esta re- 
gra que a fecha: 

3 , Não mais que só sessenta de cavallo. w 



Terceiro Canto. 173 

A grande edição não dá por certo a 
isto a mais ligeira tintura de Poesia. 
Onde estão os rodeios , amhages ; de 
Petronio? Onde está aquella differen* 
ca que se deve sentir , e conhecer en* 
tre a Poesia , e a prosa similhante á 
que se conhece entre a Musica , e o 
ordinário modo de fallar? He sacrile* 
gio emendar Camões! A Oit. 6 9 aba- 
te sobre maneira aquelle mesmo Rei , 
que o Poeta tanto acabava de exaltar , 
declarando-o infeliz como por castigo 
da culpa que commettêra , pondo a fer- 
ros sua própria mãi. 

>, Agora lhe não deixa ter defeza, 

,. Da maldição da mãi que estava preza. ,, 

E na Oit. 70 : 



,, Que estando na Cidade que cercara, 
5, Cercado nella foi dos Leonezes. 



,, A pertinácia aqui lhe custa cara 

, s Assim como acontece muitas vezes 3 

,> Que em ferres quebra as pernas, indo acceío 

s , A' batalha onde foi venciio , e preiv. fi 



174 Censura das Lusíadas. 

He indecorosa para o Rei esta verda- 
de ; o Gama não escrevia a Historia 
de Portugal , queria dar ao Rei de Me- 
linde a idéa da grandeza , e poder des- 
te Reino , para isto devia omittir cer- 
tas particularidades não interessantes. 
Declarar hum Rei amaldiçoado de sua 
mãi , com as pernas quebradas em cas- 
tigo deste attentado , vencido elle mes- 
mo, e prezo na Cidade por EIRei de 
Leão , que só lhe deo a liberdade pe- 
lo feudo que lhe prometteo pagar , e 
depois se lhe negou nas Cortes de La- 
mego , erão coizas indignas , e sem re- 
ceio de faltar á verdade elle as podia 
omittir na relação que fazia ao Rei 
Mouro , que o não podia arguir de men- 
tiroso, porque absolutamente ignorava 
a nossa Historia, e estava ouvindo o 
que não entendia. Não são precizos os 
Cânones das Poéticas para vermos os 
erros do Principe dos Poetas , basta 
que escutemos os brados da boa razão 
para se patentearem em toda a sua 
luz tantas incoherencias. Chama ao 
Rei — pertinaz : — 



Terceiro Canto. 175 

,, A pertinácia aqui lhe custa cara. „ 

A pertinácia he hum grande vicio 5 
nem se equivoca , nem se pode com- 
padecer com a prudência , porque es- 
ta deve ceder ao tempo ? e amoldar-se 
ás circunstancias. Na Oit. 71 ha hu- 
ma impropriedade escandalosa. Tornão 
as costumadas apóstrofes do Conta- 
dor Gama. Estende-se por três Oita- 
vas esta grande apóstrofe 5 que con- 
tém a vida . as acções . as victorias , 
as conquistas . e a morte do Grande 
Pompeo. Como era possivel , torno , e 
tornarei sempre a dizer , que o Rei 
de Melinde estivesse tão visto em hum 
dos maiores quadros que na Historia 
Romana se offereceo aos olhos do Mun- 
do ? que entendesse o que o Gama , 
apartando-se do seu conto, estava di- 
zendo , apostrofando as cinzas do Gran- 
de Pompeo ? E a desgraça de D. Af- 
fonso , momentâneo prizioneiro em Ba- 
ilajoz por hum punhado de Leonezes , 
era o mesmo que as grandes derrotas 
de Farsalia , que mudarão os destinos 
<lo Mundo , e derão nova forma ao 



176 Censura das Lusíadas. 

Império de Roma ? Quer consolar Pom- 
peo com o desastre passageiro de D, 
Affonso em Badajoz ; 

3) Porque Affonso verás soberbo , e ovante 
}i Tudo render , e ser depois rendido. it 

Seja embora tudo isto assim , sejão si- 
milhantes , sejão idênticos os compara- 
dos , era isto para o Rei Mouro de 
Melinde ? — Convenientia jinge. — 

Tudo o que fingires , e inventares b 
convenha ao verosímil, ás circunstan- 
cias do tempo, do lugar, e das Per- 
sonagens, que se introduzem a fallar^ 
e escutar. 

A vinda milagrosa do corpo de S. 
Vicente Martyr para Lisboa , he tam- 
bém hum objecto não só conhecido j 
porém muito interessante para EIRei 
de Melinde , pois não esqueceo este 
facto na Oit. 74 , e na 75 começa de 
entroncar em sua relação os feitos do 
Infante D. Sancho: 



Terceiro Canto. 177 

,, Porque levasse avante sen desejo , 

9 , Ao forte filho manda o lasso velho, 

,, Que ás terras se passasse do Alemtejo. ,, 



Ainda não tinha dito quem era este 
forte filho que apparece de repente , e 
apparece também o lasso purissimo La- 
tim , que bem escusado era quando em 
Portuguez ha tantas palavras com que 
se desse a conhecer a decrepitude, 
cancasso . e abatimento de forcas do 
velho Monarca. No ultimo verso vem 
outra injuria a hum Mouro , dita na 
cara de hum Mouro : 

,, Co' o sangue Mouro , bárbaro , e nefando. }í 

Com o repizado epitheto — nefando — 
se augmenta ainda mais a atrocidade' 
da injúria , sempre pizadas as Leis da 
conveniência dos caracteres , em que he 
infelicissimo o Principe dos Poetas. Na 
Oit. 77 vem huma torrente de erudi- 
ção, eMythologia. perdida nas orelhas 
do Rei Mouro: 

,, Já se ajuntao do Monte a quem Medusa 
}1 O corpo fez perder , que teve o Ceo. „ 

Tom. L m 



178 Censura uas Lusíadas. 

E podia conhecer o Rei de Melinde* 
que era Atlante convertido por Medu- 
sa em monte do seu nome ? 

,, Q corpo fez perder que teve o Ceo. „ 

Custa a entender nisto a transforma- 
ção de Atlante , porque quem não en- 
tender a foiça da palavra — teve — 
parece que he o verbo ter, por pos- 
suir , e não pelo verbo suster ou susten- 
tar ; porque, segundo diz a Fabula, 
Atlante sustinha o Ceo noshombros; 
e aqui parece que o corpo que se 
perdeo era o corpo que o Ceo tinha : 

3 , O corpo fez perder , que teve o Ceo. „ 

Se huma incorrecção tão sensível não 
he hum erro , e se a fanática seita 
Camoniana lhe chama, como costuma, 
huma belleza , então cum animai ihzts 
non est luctandum. Oit. 73 : 



,, Entrava com toda esta companhia 
„ O Miralmuminim em Portugal. 5 , 



Terceiro Canto, 179 

E como se dirá isto em prosa . e pro* 
sa baixa ? 

,, E assim fazendo quanto mal podia , 

, ; O que em partes podia fazer mal , 

,, Dom Sancho vai cercar em Santarém , 

,, Porém não lhe succede muito bem. ,, 

Se aos voluptuosos não agradasse tan- 
to a pintura das pernas de Vénus , e 
dos desejos alli enrolados . e a minu- 
ciosa descripçao das turpitudes da Ilha 
que Vénus levou pelo mar aos empur- 
rões , vendo-se tanta baixeza de esty- 
lo j tantas incoherencias , quem se lem- 
braria das Lusíadas ? Não se descul- 
pão estes erros com a bellissima tira- 
da da morte de D. Affonso Henriques , 
e algumas victorias alcançadas por seu 
filho D. Sancho , ainda que em todas 
as bellas Oitavas se não interrompe a 
impropriedade de estar dizendo mal 
dos Mouros , que não fazião mais que 
defender-se . a hum Rei Mouro que 
com elles tinha commum a estirpe, ou 
a Lei. 

Na Oit. 89 se admirão estes dok 
sonoros versos : 

M 2 



180 Censura das Lusíadas. 

a , Da soberba Tui que a mesma sorte 
5> Vio ter a muitas Villas suas visinhas. 



Tui se pronuncia sempre , e não Tui 
com accento agudo no í. Na Oit. 91 
se começa a injuriar li um dos melho- 
res Monarcas que subirão ao Throno 
Portuguez , quero dizer , o infeliz D. 
Sancho 2.° , que tanto nas artes da 
paz engrandeceo o Reino , tantas obras 
boas, e grandes emprehendeo, proje- 
ctou, e executou, murou Cidades, e 
Villas , ediíicou grandes Templos , e 
Hospitaes , promoveo a Agricultura , 
e podemos dizer que em seu Reina- 
do sahio das sombras Gothicas para o 
perfeito estado de civil isaçao o Reino 
de Portugal até alli occupado na ex- 
pulsão , e total exterminio dos Mouros 
até ao Algarve. Elle era o primogé- 
nito de Afiònso 2.°, porque D. Aflbn- 
so 3.°, que era hum segundo na or- 
dem do nascimento , tinha hido casar a 
Bolonha de França , e a destronação 
de Sancho 2.° foi huma obra de fac- 
ções, de intrigas, e deslealdade, que 
fez interromper a linha da Primoge- 



Terceiro Canto. 18í 

nitura na successão ao sólio Portuguez. 
Vejamos , e admiremos a audácia do 
Poeta , e nella a mania Camoniana : 

Morto depois Affònso , lhe succede 
Sancho segundo , manso , e descuidado y 
Que tanto em seus descuidos se desmede, 
Que de outrem, quem mandava, era mandado i 
De governar o Reino , que outro pede , 
Por causa dos privados foi privado : 
Porque como por elles se regia , 
Em todos os seus vidos consentia. „ 

Ainda não houve Portuguez que dis- 
sesse mais injúrias a hum Rei Portu- 
guez , e que peor o maltratasse. O 
equívoco, ou trocadilho ridículo — Por 
causa dos privados foi privado — he 
huma das chocarrices escandalosas do 
Poema. Não se pode saber quem pe- 
dia o Reino ; se he o Conde de Bo- 
lonha , este não devia pertender sem 
crime o que por direito de successão 
lhe não pertencia, Na Oit. 92 mostra 
o Poeta com exemplos, e comparações 
que D. Sancho 2.° era hum hom Mo- 
narca , com hum grande chorro de eru- 
dições perdidas com o Rei de Melin- 
de , que as não entendia, Diz que naa 



182 Censura das Lusíadas. 

fora tão deshonesto como Nero . nem 
tão cruel como o mesmo Nero , nem 
tão raáo como Heliogabalo , nem co- 
mo o molle Rei Sardanapalo. Este ter- 
mo — tão — denota medida e quan- 
tidade , senão foi tanto , foi deshones- 
to , foi cruel , foi máo , foi molle , ain- 
da que não tanto, como aquelles mons 
tros da antiguidade. Continua na Oit. 
93 os termos comparativos para nos 
dar a conhecer que não foi abominá- 
vel em gráo supremo, porque o povo 
não era tyrannisado do modo que foi 
o povo de Siciliano dominio de seus 
Tyrarmos : que EIRei D. Sancho não 
tinha inventado tormentos tão cruéis 
como os de Fálaris ; finalmente que 
as suas maldades não içualavão em 
crueza as daquelles Tigres. Então se 
não era tanto quanto aquelles forão , 
porque razão o destronarão, e cha:..;- 
rào á successão o Conde de Bolonha ? 
O Poeta o diz também nos últimos 
versos da Oit. 

9 ", Mas o Reino de altivo, e costumado 
p , ±\ Senhores em tuia Soberanos , 



Terceiro Canto. ISô 

,, À Rei não obedece , nem consente 

_,, Quem não for mais que todos exceliente. „ 

Aqui temos nas Divinas Lusíadas cla- 
ros princípios de huraa Doutrina re- 
volucionaria. Sem consideração aos di- 
reitos de herança , e de legitimidade , 
ao acto de acclamaçào \ ao preito \ e 
homenagem que se lhe jurou . á in- 
violabilidade dos Direitos da Sobera- 
nia . o povo em liberdade de excluir 
hum 3íonarca , porque arbitrariamen- 
te o julga menos exceliente que os ou- 
tros j dando ao povo a liberdade des- 
te acto judicatorio ! Eu não sei que 
outra seja a Doutrina dos facciosos . 
e dos revolucionários . que o povo nao 
se fez para o Rei , porém o Rei por 
amor do povo. Não disamcs que isto 
fora principio anti-Monarquico em Luiz 
de Camões , foi ignorância. E terão as 
Lusíadas que emendar? 

A Oit, 04 he escrita em prosa da- 
quelle tempo , e nella ha hum erro 
que não sei como por elle tem passa- 
da os Comment adores. 



184 Censura das Lusíadas, 

t> Por esta causa o Reino governou 

,, O Conde Boionhez , depois alçado 

,, Por Rei , quando da vida se apartou 

„ Seu irmão Sancho , sempre ao ócio dado. 

„ Este , que Affonso o Bravo se chamou. . . „ 

Que Poesia , e Poesia Épica , reine nos 
quatro versos , todo o Mundo ouve , e 
oiça também o erro do quinto verso. 
He preciso ser mui hospede na His- 
toria Portugueza para não saber que 
o titulo de — Bravo — se dera ao 
Quarto , e não ao Terceiro Aífonso. 
Deo-se ao neto , e não se deo ao avô. 
A' vista deste innegavel testemunho, 
creio que os mesmos Supremos Dire- 
ctores do corpo Camoniano não deixa- 
rão de confessar que será aqui licito 
emendar Camões. Torna a ateimar no 
mesmo erro no segundo verso da Oit. 
96: 

,, Do Bravo Affonso estirpe nobre , e digna. „ 

Quando falia de EIRei D. Diniz . e 
dizendo que fizera transferir para Co- 
imbra a Universidade a que dera prin- 
cipio em Lisboa nas Escolas Gexaes % 
diz que levara 



Terceiro Canto. 185 

}i A pizar do Mondego a fértil herva 
,, Quanto pôde de Athenas desejar-se. ,, 

Ora com efíeito aquelles estudos não 
chegarão logo a tão subida perfeição , 
que nelles em tempo de EIRei D. Di- 
niz se visse quanto de Athenas se po- 
dia desejar ; talvez que o nome — Athe- 
nas — fosse ainda então em Portugal 
ignorado. Demócrito , Epicuro , Platão , 
Theofrasto , e Aristóteles ainda não ti- 
nhão apparecido a pizar aquella fértil 
herva Coimbrã , e na verdade , ainda 
agora Coimbra tem bons pastos á roda 
de si. Na Oit. 100 entre hum a erudi- 
ção deslocada vejo huma assersão men- 
tirosa ; trata da batalha do Salado , 
quando AíTonso 4.° , o Bravo , foi soccor- 
rer com o seu Contingente a seu Gen- 
ro Rei de Castella: 

,, Nunca com Serniramis gente tanta 
„ Veio os campos Hydaspicos enchendo , 
M Nem Attila , que Itália toda espanta 
>, Chamando-se de Deos açoute horrendo , 
,, Gothica gente trouxe tanta quanta 
,, Do Sarraceno bárbaro estupendo 
,, Co' o poder excessivo de Granada 
& Foi nos campos Tartezies ajuntada. „ 



186 Censura das Lusíadas. 

Pois os Mouros de Fez , juntos aos cio 
pequeno Reino de Granada formavão 
maior exercito que o de Attila Rei dos 
Hunos , povos da Hungria , e da Tran- 1 
sylvania, quando in vadio a Itália ? ( por- 
que Attila não trouxe os Godos, e o Prín- 
cipe dos Poetas estava mal visto neste 
passo da Historia do baixo Império. ) 
He ridícula esta exageração, E que po- 
dia Portugal então pôr em pé de guer- 
ra , que resistisse a hum exercito maior 
que o de Semiramis Rainha de Baby- 
lonia , e o de Attila Rei dos Hunos ? 
Aqui parece que sem offensa da Divin- 
dade das Lusíadas pode entrar alguma 
emenclazinha. Na Oit 102 que descre- 
ve a entrada da formosíssima Maria pe- 
los Paços Paternaes ha no 7.° verso com 
einco aaaaa huma grossa cacofonia : 

„ Diante do pai ledo — qu' a agazalha. „ 

Isto são pequenos erros, mas já que os 
notão sem razão , sejão notados com el- 
la. Olhem que não são tão Divinas as 
Lusíadas como se julgava. 

Na Oit. 103 começa a arenga da* 



Terceiro Canto, 18? 

formosissima fiaria . eha o que se vai 
a ler: 

,, Quantos povos a terra produz to 

., De Africa toda , gente fera , e estranha , 

,, O Grão Rei de Marrocos conduzio 

,, Para vir possuir a nobre Hespanha : ,, 

A Rainha vinha cancada, e muito as- 
sustada nào attentava para o que di- 
zia. Pois a batalha do Salado vierão 
quantos povos- produzio toda a Africa ? 

9 , Poder tamanho junto não se vio 

_,, Desde que o salso mar a terra banha. sy 

E então os Exércitos de Xerxes ? E as 
Legiões de César nas Gallias . e as de 
Varo , e depois as de Germânico na 
Alemanha ? E as invasões dos Bárba- 
ros do Norte no Império do Occidente ? 
E a invasão dos mesmos Sarracenos na 
Hespanha no tempo de Rodrigo , ulti- 
mo Rei dos Godos ? E a de França no 
Reinado de Carlos Martel ? E a dos 
Longobardos na Itália ? E a de Gense- 
rico na Africa? — A Oit. 105 acaba bai- 
xamente . e eom má Sintaxe ; 



188 Censura das Lusíadas. 

,, Acode, e corre pai, que se não corres 
„ Pôde ser que não aches quem soccorres. „ 

Pedia a Grammatica que dissesse — 
Quem soccorras. Assim também acaba 
a Oit. 106 : 

*, Tudo o Clemente Padre lhe concede 
it Pezando-lhe do pouco que lhe pede. ,, 

O Padre Clemente não se exprime com 
Real dignidade , mas em fim era pacto 
de familia , e ficava tudo de portas a 
dentro. Oit. 108 : 

j, Assim entra nas terras de Castella 
„ Com a filha gentil , Rainha delia, >y 

Tudo o que he incorrecção de estylo, 
deslustra muito hum homem Príncipe 
dos Poetas. Na Oit. 1 1 ha duas coizas- 
importantes : 

„ Antemão entre o exercito Agareno, 
„ Que com titulo falso possuindo , 
,, Está o famoso nome Sarraceno : } , 

Chamão-se os Mouros Agarenos , por- 



Terceiro Canto. 1Ò9 

que vem de Ismael filho de Abrahão, 
e Agar , e por isto são da mesma ra- 
ça , do mesmo tronco . e da mesma es- 
tirpe que es Judeos. Estes Mouros des- 
cendo das montanhas de Sarraca com 
Mahomet; e outros Conquistadores, se 
derramarão desde a  rabia Pétrea , e 
planices de Suez , até onde os vemos, 
isto he . até ás raízes do Atlante . clia- 
mando-se Sarracenos do lugar donde ti- 
nhào vindo; logo não tem este famoso 
nome com hum titulo falso : 

,, Assim também cem falsa conta , e núa , 
„ A' nobre terra alhêa chama sua. ,, 

Que hum a conta se chame certa , erra- 
da . falsa . enganada . e o que quizerem , 
pode ser , excepto conta núa. Como po- 
de convir á conta o at tributo de núa ? 
Se he despida de verdade . então he fal- 
sa 3 e isso já está dito ; porém conta 
núa ! Niís de Poesia vejo eu tantos ver- 
sos nas Divinas Lusiadas ! 

Nunca o Divino Camões se lembrou 
que o seu Heroe estava fallando com 
hum Mouro honrado para não insultar 
atrozmente os Mouros! Oit. 112: 



ido Censura das Lusíadas. 

„ Dest'arte o Mouro pérfido despreza 
3 , O poder dos Christãos. ,, 

Os Mouros j por serem Mouros , não são 
pérfidos , podem ser fiéis a seus trata- 
dos , e ailianças s e apresentar huraa 
batalha aos Christãos não he huma per- 
fídia , também os Christãos lha apresen- 
tavão ? e tanto que na peleja — Oit. 113: 

j, Chamão , segundo as Leis que alli seguião , 
„ Huns Mafamede, outros Santiago. ,, 

Este verso será huma grita ? mas por 
certo não he huma harmonia ! bem co- 
mo nenhuma tem o da Oit. 114: 



Com esforço tamanho estrúe , e mata. 



a 



Diogo Camacho em suas viagens ás 
Cortes do Parnaso, fallando do Princi- 
pe dos Poetas , por este , e por outros 
versos de igual metro , e harmonia , diz 
desta maneira : 



)y Hum Luiz de Camões , Poeta torto , 
., Poeta até o embigo , os baixos } prosa. „ 



Terceiro Canto. 191 

Não he muito fácil a intelligencia da 
Oit. 115: 

,, Já se hia o Sol ardente recolhendo 
, y Para a casa de Thetis, c inclinado 
} , Para o Ponente o Vespero 

Tudo isto sào symptomas da proximi- 
dade da noite : o feol hia para casa de 
Thetis , onde devia dormir aquelia noi- 
te , o Vespero hia também para o Po- 
nente : assim parece , mas o Poeta diz 
o contrario , e em tudo isto nâo desco- 
bre mais que os annuncios do nascer 
do dia 

,, trazendo 
„ Estava o claro dia memorado. 3 , 

Quando se põe o Sol, por certo para os 
do Hemisfério que o vêem por não nas- 
ce o dia ; he preciso que o Poeta quan- 
to mais sublime for , mais claro seja. 
porque se falta esta qualidade ao seu 
estylo falta-lhe a primeira das virtudes. 
Se falta a clareza falta também a ver- 
dade. 

„ Foi pelos fortes Reis desbaratado 



192 Censura das Lusíadas. 

„ Com tanta mortandade , que a memofia 
,, Nunca no Mundo vio tão grão victoria. „ 

Isto he huma daquellas exagerações , ou 
hyperboles que podem passar entre gen- 
te rude , ou vulgo ignorante ; porém em 
hum Poema para homens instruídos , 
vistos , e lidos nas Historias do Mun- 
do , he huma espécie de insulto. O Rei 
de Granada , e o Rei de Fez juntarão 
grandes forças no Salado contra EIRei 
D. Affonso de Castella , ajudado , ou soc^ 
corrido por seu Sogro D. Affonso 4.° o 
Bravo. Em Évora , na Igreja da Victo- 1 
ria, existião duas bandeiras Mouriscas 
ganhadas por D. Affonso 4.° Os Mou- 
ros recolhêrão-se a Granada, onde con- 
tinuarão a existir até o tempo dos Reis 
Catholicos , outros embarcarão em Ta^ 
rifa , e se forâo para Fez , e Marrocos. 
E nesta batalha , diz o Poeta , houve 
maior mortandade que em todas aquel- 
las de que a memoria humana se lem- 
bra ! ! A historia mesmo o contradiz. 

? , Nunca no Mundo vio tão grão victoria. „ 



Terceiro Ca:\to. 193 

E deixa ficar para lodos os séculos o 
verem no Divino Poema , que a mor- 
tandade que em suas victorias fizera o 
feroz Mário aos Cimbros , e Teutões , 
nações pugnacissimas de Alemanha , fo- 
ra menor que a mortandade do Salado ! ! ! 
Eu não quero allegar outros exemplos 
senão os que oPoeía allega, senão tam- 
bém me lembraria da mortandade dos 
Sarracenos junto a Poitiers em Fran- 
ça, e da mortandade dos Longobardos 
nos montes Fesulanos junto a Floren- 
ça. Lembra-se o Poeta com numa após- 
trofe , que deixaria espantado EIRei de 
Melinde , da mortandade dos Judeos no 
cerco de Jerusalém por Tito. Aqui mor- 
reo hum milhão e cem mil Judeos : Cm- 
decies centena mi i lia Judeorum periere , 
diz hum grave Historiador Ecciesiasti- 
co. Ou morressem por permissão Divi- 
na . ou peto esforço dos Romanos , mor- 
rerão 3 morreo hum milhão , e cem mil 
homens; istohe mais alguma coiza que 
a mortandade do. Salado, e he hum er- 
ro emendavel no Grande Camões. Não 
nos deve cegar tanto o amor Nacional , 
que faltemos á verdade , ou procuremos 
Tora. f N 



194 Censura das Lusíadas. 

contradizer os testemunhos , e os factos 
da Historia. u 

Chegámos em hm ao grande Episo- 
dio 

,, Da mísera, e mesquinha, 
„ Que depois de ser morta foi Rainha. ,, 

Este Episodio he hum dos mais firmes , 
e seguros sustentáculos da fama 3 e da 
grandeza das Divinas Lusiadas , e he 
a coiza mais deslocada , e incoherente ? 
que tem apparecido. Huma preoccupa- 
ção , ainda que seja successiva , he hum 
fantasma , que ao mais ligeiro assopro 
da razão se desfaz s e se desvanece. He 
onde mais impróprio, mais desconhe- 
cedor dos caracteres , ou costumes , eu 
contemplo este Poeta , sem escutar os 
preceitos dos Rhetoricos , mas sim os di- 
ctames da boa razão ? como até aqui te- 
nho feito , e hirei fazendo por todo o lar- 
go decurso desta Censura. Se os Nacio- 
naes , e Estrangeiros tem collocado no 
Parnaso Luiz de Camões , eu não pre- 
tendo derruballo ; mas ninguém me po- 
de tirar o direito de examinar os ti tu- 
fos desta collocação. Repentinamente, 



Terceiro Canto. 195 

sem preparação ou transição alguma, 
na Oit, 119 interrompe o Príncipe dos 
Poetas a sua longa historia , que o pa- 
cientíssimo , e insomne Rei de JVielmde 
ihe escutava , volta-se o Poeta sem se 
saber para onde , creio que para Alco- 
baça onde está , ou estava enterrada D. 
Ignez de Castro , e começa por duas 
apóstrofes y huma ao amor , e outra á 
mesma D. ígnez : Oit. 120 : 

„ Estavas , linda Ignez , posta em soeego. ,, 
e acaba : 

,, Aos montes ensinando, e ás kervinhas, 
„ O nome qae no peito escrito tinhas. ,, 

Entre montes . e hervinhas não ha mais 
nada . nem arvores , nem bosques , nem 
rochedos . nem fontes . nem oiteiros : fi- 
carão com ensino sò montes . e hervi- 
nhas. Devemos comtudu confessar . que 
entre todos os tractos do Poema este he 
o melhor , pelo que pertence á versifica- 
ção . ou metrificação ; os versos sâo har- 
moniosos . correntes, patheticos ? emui- 

IN £ 



196 Censura das Lusíadas. 

to bem feitos. He tão bello aqui o Ca* 
mões como he em quasi todas as suas 
Poesias soltas j ou Rimas : mas o — ser- 
vandi sunt tibi mores — está aqui para 
sempre esquecido , e desprezado. D, 
Ignez he condemnada á morte porque 

,, O velho pai si z eido, que respeita 

,, O murmurar do povo, e a fantasia 

}J Do filho , que casar-se não queria. . . „ 

He constante pelos melhores testemu- 
nhos da Historia que EIRei D. Pedro, 
sendo ainda Príncipe se recebera em 
Bragança com D. Ignez de Castro, e 
como havia casar , se elle estava casa- 
do ? Se assim nâo fosse , não a manda- 
ria coroar Rainha , e reconhecella por tal 
depois de morta, nào daria o titulo de 
Rainha ahuma mulher, ainda que tão 
illustre, que não fosse sua mulher. Is- 
to devia saber , ou conhecer o Poeta ; 
mas não deixa de o ser por ignorar 
hum ou outro facto Histórico, 

He conduzida D. Ignez de Castro 
com as mãos prezas diante de Aífon- 
so 4.° , vai rodeada de assassinos , e de 
algozes , tem a morte próxima ; e pode 



Terceiro Canto. 197 

huma fraca mulher neste estado , neste 
transe tào fatal pronunciar hum discur- 
so tào erudito , e tão concertado ? Que 
derrame lagrimas , que diga huma ou 
outra palavra solta , que pronuncie al-^ 
guma sentença que fique em memoria . 
e ainda mesmo que encare com intre- 
pidez o cadafalço , e a morte , isto po- 
de ser , e muitas vezes se tem visto nes- 
te , e nos passados séculos ; porém tan- 
ta erudição , tantos exemplos , tanto co- 
nhecimento da Historia natural , e da 
Historia antiga , failando em a mãi de 
Nino , em Rómulo , e Remo , criados 
por huma loba , o que por certo nem 
a mesma Madama Rolland , reputada 
o Tácito da Franca , fez na Guilhoti- 
na, he coiza tão fora de propósito, e 
tão opposta á verosimilhança dos cara- 
cteres j que o Poeta deve conservar, 
que podemos dizer , que he o maior 
erro das Divinas Lusiadas . porque não 
havia lugar para isto , e vai fora de to- 
dos os limites da verosimilhança. Vol- 
ta-se o Poeta na Oit. 133 para o Sol, 
e com assombro do Rei de Melinde , que 
não conhecia D. Ignez de Castro , e 



198 Censura das Lusíadas. 

irnnca ouvira fallar nella , e faz huma 
apóstrofe , em que lhe pede que se re- 
tirasse da vista dos algozes , como se 
tinha apartado da vista da cêa de Thi- 
estes. JBaccho sendo , como tem mostra- 
do, tão amigo dos Mouros , devia aqui 
excitar huma tempestade no mar, para 
fazer recolher á terra o Rei no seu ba- 
tel , e livrallo de huma secatura , que o 
matava , ouvindo coizas de que não po- 
dia fazer idéa , pois erão para elle abso- 
lutamente desconhecidas. Aqui temos 
pois o Episodio de D. Ignez de Castro 
fora de todo o propósito , cheio de to- 
das as incoherencias , e opposto a to- 
das as Leis da verosimilhança. Se o 
destacarem do Poema , se não rizer hu- 
ma parte delle será sempre bom , e se- 
rá sempre admirado, mas pelos dicta- 
mes da boa razão, está alli muito fora 
do seu lugar. Na Oit. 136 diz o Poeta 
desta maneira : 



*, De outro Pedro cruíssimo os alcança; 

j, Qne ambos imigos das humanas vidas, 

9i O concerto íizerão duro , e injusto , 

j, Que com Lépido , e António fez Augusto. v 



Terceiro Canto. 199 

Ha huma certa disposição em Luiz de 
Camões para insultar os Monarcas Por- 
tuguezes. Dizer-se de hum Rei Portu- 
guez , que he inimigo da vida humana, 
e comparar o acto de justiça em casti- 
gar três delinquentes atrozes com as 
proscripções Romanas no governo do 
Triumvirato. he injuriallo deveras, eEl- 
Rei D. Pedro ol.°, ainda que Justicei- 
ro , não merecia tào escandalosa inve- 
ctiva , nem o odioso titulo de — inimi- 
go da vida humana. — E na Oit. 137* 

„ Fazer nos máos cruezas fero, e iroso 
,, Erão os seus mais certos refrigérios. „ 

Hum Monarca por ser Justiceiro, não 
se segue que seja cruel , porque a jus- 
tiça não he huma vingança , nem hu- 
ma crueldade , e não he coiza decoro- 
sa dizer-se a hum Rei , quando exer- 
cita hum acto de justiça no castigo de 
hum delinquente , que se diverte , e re- 
frigera no derramamento do sangue hu- 
mano. As Divinas Lusiadas são muito 
injuriosas aos Reis , e ás Rainhas de 
Portugal. E se isto não he erro em Ca- 



200 Censura das Lusíadas, 

môes como Poeta , he hum grande er- 
ro como Politico. Vem na Oit. 138 ou- 
tra invectiva a outro Rei Portuguez, 
D. Fernando: 

„ Remisso , e sem cuidado algum Fernando. 3t 

As muralhas de Lisboa forão obra de 
EIRei D. Fernando , parte das de Évo- 
ra também são obra sua ; estabeleceo 
proveitosas Leis , cuidou na Agricultu- 
ra ; no seu Reinado se descobrem ves- 
tígios de Marinha regular , de que tan- 
to se aproveitou D. João 1.° na tomada 
de Ceuta. Deo óptimos Foraes a mui- 
tas Cidades , e Villas. Não era hum 
Monarca guerreiro, mas não se pode 
sem suprema injúria chamar remisso, 
e frouxo nas artes da paz. Continue- 
mos a vèr a baixa prosa com que o Poe- 
ta prosegue no começado insulto : 

}i Qne todo o Reino pôz era muito aperto : 
3f Que vindo o Castelhano devastando 
s> As terras sem deteza , esteve perto , 
„ De destruir-se o Reino totalmente. ,, 

Eu não sei que se possa insultar mais ! 



Terceiro Canto. 201 

Na Oit. 139 continuão os insultos : e 
será isto huma belleza das Divinas Lu- 
síadas ? 

., Ou foi castigo claro do peccado 
,, De tirar Leonor a seu marido , 
,, E casar-se com ella , de enlevado 
,j N'hum falso parecer mal entendido : 
„ Ou foi que o coração sugeito 3 e dado 
,, Ao ócio vil , de quem se vio rendido 
„ Molle se fez , e fraco , etc. . . . „ 

Em tão rasteiras expressões , e onde 
não reluz o mais ligeiro vislumbre de 
roesia , esta a mais superior injuria a 
Rainha D. Leonor Telles. Se he ver- 
dade o que o Poeta diz ; elle o devia 
oceultar fallando de hum Monarca a ou- 
tro Monarca. Na Oit. 140 se interrom- 
pe , e corta o interessante fio desta nar- 
ração , tão interessante para o Rei de 
Melinde , que não queria perder huma 
palavra : e começa o Poeta hum daquel- 
íes sermões com que costuma ou prin- 
cipiar, ou acabar seus Cantos , e que 
nenhuma relação ou ligação tem com a 
acção principal , erro que nasceo em Ca- 
mões da servii imitação de Ariosto. Nun- 



202 Censura das Lusíadas. 

ca , ou raríssimas vezes deve o Poeta 
na Epopéa ou fallar de si , ou misturar , 
como suas , reflexões ao que vai repre- 
sentando. Virgílio foi muito parco, e 
apenas em dois lugares introduzio estas 
reflexões, o Epifonema 

Tanta molis erat Romanam condere gentem ! 

E a profecia , ou vaticínio contra a ufa- 
nia de Turno. 

Néscia mens hominum fati sortis que futures 
Turno tempus erit. — 

O Príncipe dos Poetas se dispensou des- 
ta Lei , he profuso , he pródigo em ser- 
mões, reflexões, e digressões. 

„ Do peccado tiverão sempre a pena 

„ Muitos que Deos o quiz , e o permittio. ,> 

Que ouvidos se não arripiaráõ com es- 
te segundo verso? O tom da prosa tem 
elle , o metro por certo lhe falta. Segue- 
se o Catálogo dos que se perderão por 
amores : 



5? 



Terceiro Canto. 203 

Os que forão roubar a bella Helena. „ 



Depois Apio, Tarquinio, David, Ben- 
jamin , Faraó , Sichem , Hercules , Mar- 
co António , o Penno prospero , etc. O 
verso de Marco António , ainda nâo 
he verso : 

sy Com ser tanto a Cleópatra afTeiçoado. 3 , 

O verso errado emenda-se , o verso he 
de Camões , logo Camões pode ser emen- 
dado. Continuão nas duas ultimas Oit. 
142 , e 143 as mesmas reflexões , e po- 
dia o Rei deMelinde dizer que não lhe 
esquecesse o que hia dizendo, porém 
que lhe acabasse de contar o que se 
seguira dos descuidos de Fernando , pois 
lhe dava isso cuidado. E assim se con- 
cilie o terceiro Canto com a narração 
interrompida , hum dos maiores defei- 
tos das Divinas Lusíadas. 



204 

CENSURA 

DAS 

LUSÍADAS- 



QUARTO CANTO. 

-TjLcabou o terceiro Canto com hum 
sermão , e começa o quarto com hum a 
mentira. O Poeta não sei porque moti- 
vo nos diz , que as perturbações aca- 
barão com a morte de Fernando , e que 
com ella veio a paz ao Reino , como 
costuma vir a bonança depois da tem- 
pestade : 



SJ Assim no Reino forte aconteceo , 

3 , Depois que o Rei Fernando falleceo. „ 



E isto para nos começar de contar as 



Quarto Canto. 205 

horríveis guerras da successão . e a ba- 
talha de Aljubarrota , com os bandos , 
e facções . que tanto assolarão este Rei- 
no muito depois da acclamação de El- 
Rei D. João o 1.°; e a isto , pela mais 
estranha das contradiccões , chama o 
Príncipe dos Poetas vir a bonança : 

,, Depois da procellcsa tempestade. „ 

Na Oit. 2 , e 3 , conta a milagrosa ac- 
clamação do Rei pela voz de huma me- 
nina que estava em o berço : 

„ No berço o corpo t e a voz alevantou , 
i} Portugal , Portugal s alçando a mão , 
,, Disse pelo Hei novo Dom João. „ 

A Oit. 4 he a mais escandalosa de to- 
do o Poema, E pode ter desculpa o Prín- 
cipe dos Poetas em fazer revelar a hum 
Rei Mouro em tão remotas regiões si- 
milhantes turpitudes , e indecencias ? 

„ Alteradas então do Reino as gentes , 

,, Co' o ódio que occupado os peitos tinha , 

„ Absolutas cruezas , e evidentes , 

ti Fez uo povo o furor por ouce vinha : 

„ Matando vão amigos , e parentes 



206 Censura das Lusíadas. 

,, Do adultero Conde , e da Rainha 

ti Com quem sua incontinência deshonesta 

yi Mais depois de viuva manifesta, ,, 

E sabia o Rei de Melinde quem era o 
Conde João Fernandes Andeiro ? Do 
adultero Conde. Tanta certeza tinha Ca- 
mões deste caso ? A murmuração , ou 
os ditos do vulgo, são bastantes provas 
para se infamar huma Rainha tão cla- 
ra , e desavergonhadamente? Fosse em- 
bora assim , o que nunca se poderia pro- 
var , porque a Rainha D. Leonor ate 
se ofíereceo á prova do fogo , devia Ca- 
mões ser hum infame delator de tão hor- 
rendo crime? Na Oit. 5 ha huma inú- 
til narração das cruezas do povo na 
morte do Arcebispo de Lisboa D. Mar- 
imbo, precipitado da torre da Sé , e is- 
to annunciado de hum modo , queElíiei 
de Príelinde podia muito bem entender ! 

,, Quem como Astian3x precipitado 
i} ( Sem lhe valerem ordens ) d'alta torre , 
, 3 A quem ordens , nem aras , nem respeito , 
,, Quem nu por ruas , e em pedaços feito. ,, 

Sem lhe valerem ordens. Queria o Poe- 
ta que o Arcebispo allegasse os Sagra- 



Quarto Canto. 207 

dos Cânones aos que atirarão com elle 
da torre abaixo ? Tinha acaso o Mouro 
algum conhecimento das disposições dos 
Cânones sobre a sentença de morte pro- 
ferida contra o Clérigo in sacris ? Este 
pareníhesis ( sem lhe valerem ordens ) he 
das coizas mais ridículas das Lusiadas ; 
e a expressão mais aníipoetica que se 
podia pronunciar. Na Oit. o" levanta 
Camões hum novo testemunho á Rai- 
nha D. Leonor. 

99 Por isso Leonor , que o sentimento 
if Do morto Conde no Mundo esscobrio , 
„ Faz contra Lusitânia vir Ca^teiia , 
„ Dizendo ser §ua filha herdeira delia. „ 

Nem da Rainha era herdeira D. Bea- 
triz . nem de Casteila Em quanto a D. 
Leonor . apenas o Mestre de Aviz ma- 
tou o Conde . e o povo de Lisboa o ae- 
ciamou Regente, vestida de pezado iu- 
ío ; como andava 5 se foi para Alem- 
quer , e continuando as desordens . e 
os bandos no Reino , se passou a Cas- 
teila , e se sepultou no Convento de 
Tordezilhas . onde morreo . sem iniiuir 
coiza alguma nas pertenções de seu *ren- 



208 Censura das Lusíadas. 

ro o Rei deCastella, pois allegava o di- 
reito da herança de sua mulher , 

}i Por filha de Fernando reputada. „ 

Outra injúria a EIRei D. Fernando. As 
Oit. 8 , *9, 10 , e 11 com o bordão lá 
fazem a descripção dos povos de Hes- 
panha , que formavão o exercito com 
que D. João invadio este Reino. Estas 
gentes , seus diversos costumes , a po- 
sição Geográfica das suas respectivas 
regiões , erão mysterios indecifráveis pa- 
ra o paciente Rei de Melinde ? a quem 
o Gama embute quanto podemos ago- 
ra ler na Monarquia Lusitana, e quan- 
to nos custa a entender a nós. E erao 
estas miudezas para hum Mouro de 
Zanguebar, como tenho tantas vezes re- 
petido ? 

Na Oit. 12 ha huma particularidade 
bem curiosa , e que até aqui ninguém 
sabia de EIRei D. João 1.° : 

., Joanne a quem do peito o esforço cresce , 
> y Como a Sansão Hebrêo da gadelha. ,, 

Para nos soar este verso , he preciso es- 



Quarto Canto. 209 

tirar muito as syllabas da palavra — He- 
brèo — aliás coxèa como innumeraveis ; 
porém ainda que isto seja huma miude- 
za , he hum defeito em Camões . que; co- 
mo tão grande Poeta que mereceo o 
Principado , devia conhecer melhor o 
mecanismo da sua arte. Não seja isto 
do caso. A Sansão Hebrèo cresciâo-lhe 
as forças fysicas em proporção do cres- 
cimento de seus cabellos : se estes se 
cortavão, diminuía a elasticidade de seus 
músculos , e por consequência a sua for- 
ça íysica. E será isto huma imagem do 
heróico esforço moral de EIRei D. João 
o l.° ? Eisaqui a miserável incoherencia 
para que se não tem advertido. Então 
o esforço . e valentia de animo crescia 
no Monarca em proporção do volume 
do peito que se lhe augmentava , como 
a força do corpo em Sansão se augmen- 
tava com o accrescimo dos cabellos da 
sua cabeça . que Dalila cortou . e com 
que aquelle Hercules Judeo ficou ener- 
vado ? 

,, Corno a Sansão Hebrêo da gadelha ? ,, 

A Oit. 13 não Le menos notável. To- 
Tom. I. o 



210 Censura das Lusíadas, 

dos sabem os partidos em que estava 
dividido o Reino sobre a successão ; os 
mesmos Irmãos do Condestavel segui- 
rão as partes de Castella , e hum delles 
morreo na batalha de Aljubarrota. Ca- 
da hum interpretava a seu modo , ou 
segundo seu individual interesse , os di- 
reitos da Rainha D. Brites. E que mo- 
tivo tem o Poeta para dizer afíirmati- 
vaniente , que os que seguirão o parti- 
do da Hespanha reconhecendo os direi- 
tos da herança , e a legitimidade ( ain- 
da que supposta) da pretenção de EI- 
Rei D. João de Castella, também ne- 
garião a Deos ? 

,, Negão o Rei , e a Pátria , e se convém , 
} , Negarão como Pedro o Deos que tem? ,, 

São isto exagerações importunas , e op- 
postas aos dictames da boa razão. A 
Oit. 14 contém a gabada pintura do 
Condestavel , defendendo em conselho , 
onde se devia tomar a deliberação de 
se oppòr o Reino ás pretenções do Mo- 
narca Hespanhol , e eu nella não des- 
cubro mais que humareprehensivel Ro-= 



Qcarto Canto. 21 í 

domontada , e fora do caracter de hum 
homem que delibera em hum Conselho 
de Estado : 

,, Mas nunca foi que este erro se sentisse 

„ No forte Dom Nuno Alvares, mas antes, etc. 



3, A mão na espada irado , e não facundo 
Jf Ameaçando a terra , o mar , e o Mundo. „ 

Em hum conselho opina-se , e delibe- 
ra~se com razões , e não com ameaços , 
pois elle não estava entre inimigos. 
Chama ao Condestavel não facundo, e 
põe em sua boca huma grande ora- 
ção no género deliberativo em cin- 
co consecutivas Oitavas com todos os 
movimentos oratórios. Vejâo se fosse 
facundo quando acabaria a oração ! E 
Vasco da Gama a levava bem deco- 
rada para a repetir a fio a EIRei de 
ÕUelinde , que devia gostar muito. Na 
Oit. 16, fallando dos Eespanhoes a quem 
se devia resistir , diz que EiRei D, 
A Afonso Henriques os vencera : 

j, Como ! Não sois vós inda es descendentes 
', Daquelles que deb?ixo da bandeira 

O 2 



/ 



212 Censura das Lusíadas. 

,, Do Grande Henriques, feros, e valentes, 
j, Vencestes esta gente tão guerreira : 

EIRei D. Afíbnso Henriques foi ven- 
cido pelos Hespanhoes Leonezes em 
Guimarães , esó o deixarão pelas pro- 
messas do Aio. Foi vencido , e feito 
prizioneiro pelos mesmos Hespanhoes 
em Badajoz , e solto depois da estipu- 
lação do feudo a EIRei de Leão. Eis- 
aqui como os Castelhanos forão ven- 
cidos. As guerras de D. Afíbnso Henri- 
ques , e as suas victorias , forão sem- 
pre contra os Mouros. Os Hespanhoes 
não lhe disputarão a posse do Reino , 
que hia ganhando , só querião o re- 
conhecimento da dependência , o que 
ficou solemnemente abrogado nas Cor- 
tes de Lamego. Luiz de Camões co- 
nhecia pouco da Historia do Reino, 
e creio que o Cenotafio preparado não 
o salva deste erro. 

O resultado da oração do Condes- 
íavel ? foi que todos — ( Oit. 21:) 

S) Vão correndo , e gritando á boca aberta. „ 

Ora eu não sei como se possa gritar 



Quarto Canto. 213 

com a boca fechada ! Não sei como se 
possa chamar Poeta quem falia impró- 
pria , e incorrectamente ! Compara na 
Oit. 24 o Condestavel com Attila , Rei 
ferocíssimo dos Hunos , e diz que fo- 
ra para os Castelhanos o que foi aquel- 
le Bárbaro, denominado o íiagello de 
Deos . para os Francezes , e para os 
Italianos. Ora a victoria de Valverde , 
dos Atoleiros , e de Tui nào fora o co- 
mo as subversões de Franca , e de Ita- 
lia , na invasão daquelle formidável as- 
solador. Dá conta na mesma Oit. do 
Commandante da ala direita do Exer- 
cito na batalha de Aljubarrota, e co- 
mo se fosse mui conhecido de EIRei 
de 3Ielinde : 

,, Mem Rodrigues se diz de Vasconcellos. „ 

Isto excede toda a verosimilhança ! 
Vasco da Gama feito em Melinde o 
Chronista Mor do Reino, Fr. Bernar- 
do de Brito ! Como se nada mais ti- 
vera que fazer, e isto mettido n'hum 
barco ! Dois individuos me fazem dó 
nesta proluxa, e interminável arenga, 



214 Censura das Lusíadas. 

hum he o Rei de Melincle a ouvir ca- 
lado o que nâo podia entender , e se 
o Gama não soubesse a Língua do 
paiz , e usasse de Interprete , levava 
dobrado tempo, porque era preciso re- 
petir o que elle dissesse como aconte- 
ceo em Calecut por intervenção de 
Monçaide ; o outro he o Camarista que 
levou a função de pé , com o chapeo 
de Sol na mão por detrás do Rei , co- 
mo nos disse o Poeta ; tinha os bra- 
ços deitados a baixo, e pedia a Deos 
que anoitecesse , para se lhe acabar 
aquelle tormento ; e Vasco da Gama 
a contar sem tomar o folgo ! ! Na Ort 
25 aponta o outro Commandante : 

$, E da outra ala , que a esta conresponde , 
„ Antão Vasques de Almada he Capitão. ,, 

Antão , Capitão — tão no principio , e 
tão no fim não soa bem. Que sacrilégio ! 
Notar hum defeitinho em Luiz de Ca- 
mões , que não he homem , he Divi- 
no ! — O Divino Camões pôde errar ! - — 
Nunca se disputou esta rnfaHibilidacle 
Poética ! ! 



Quarto Canto. 21 b 

5, Das gentes vai regendo a sestra mão. „ 

Não he a ala esquerda , ou o flanco 
esquerdo do Exercito , he a mão es- 
querda das gentes que Antão Vasques 
vai regendo — A sestra máo. — As 
miudezas da Oit. 26 deviào ser mui 
curiosas, e agradáveis, e até edifican- 
tes para El Rei de Melinde : 

,, Estavão pelos muros temerosas , 

,, E de hum alegre medo quasi frias , 

., Rezando as mais , irmãs , Damas , esposas , 

5> rromettendo jejuns , e romarias. ,, 

Esta puerilidade he irrisória na ma- 
gestade de hum a Epopéa. O que he 
para admirar he o cabal conhecimen- 
to que o Mouro tinha destas coizas, 
pois nào pôz huma dúvida , nem pe- 
dio huma explicação. Deixou falia r o 
Gama até cancar. A mesma narração 
de Henrique 4.° á Rainha Isabel de 
Inglaterra ; não he tão fastidiosa na 
Gazetal Henriade. Seguem-se quatro 
Oit. no verdadeiro tom Épico , que são 
as 28, 29, 30, e 31, porém appare- 
cem talye^ que para lastimarmos ain» 



216 Censura das Lusíadas. 

da mais as frequentes quedas , e as 
baixezas verdadeiramente pueris. Ve- 
jamos a Oit. 32 : 

„ Destes arrenegados muitos são . . . 
„ No primeiro esquadrão , que se adianta 
„ Contra irmãos , e parentes. . . . ,, 

E estes irmãos , e parentes não hião 
contra os outros parentes , e irmãos. 
Só os de lá tem culpa, e merecem o 
nome de — arrenegados — porque se 
illudírão com a opinião da legitimida- 
de dos direitos da Rainha D. Brites ! 
Deixemos Luiz de Camões como po- 
litico j e consideremo-lo como Poeta. 
Eu não sei como se pronunciava no 
tempo de Camões a palavra — Ma- 
gno — nós não éramos Italianos, quem 
quizesse agora rimar — Estranho , e 
Magno — seria sem dúvida apupado 
no Parnazo. Para que bordo do batel 
se viraria Vasco da Gama para apos- 
trofar tão fora de tempo Sertório , e 
Coriolano ? Julgo que para o mesmo 
bordo donde apostrofava Catilina. A 
Oit. 33 me obrigou a grandes refle- 
xões. Este Sertório , este Coriolano, 



Quarto Canto. 217 

este Catilina apostrofados, que quere- 
rão dizer ? O Poeta os chama para 
mandar por elles hum recado a Plu- 
tão , chamado Sumano. Sem o Poeta 
fallar , não nos podemos explicar : 

„ O' tu Sertório , ó nobre Coriolano , 

,, Catilina, e vós outros dos antigos, 

„ Que contra vossas Pátrias com profano 

,, Coração vos fizestes inimigos : 

,, Se lá no Reino e c curo de Sumano , 

,, Receberdes gravíssimos castigos , 

,, Dizei-lhe , que também dos Portug':ezes 

3) Alguns traidores houve algumas vezes. ,, 

A intenção deste recado mandado pe- 
los três famosos Romanos era pedir a 
Sumano que quando lá apparecessem 
no Inferno Portusfuezes , que lhe car- 
regasse a mào deveras. Suppõe o Poe- 
ta traidores a Coriolano . e Sertório ; 
quero conceder-lhe que este fosse o 
crime de Catilina : julo-a-os condemna- 
dos ao Tártaro . e Cocito . grita-lhe de 
cá , que digão a Sumano o que por 
cá vai com os que seguirão as partes 
de Castella ; e porque nào faz o Poe- 
ta directamente a queixa a Sumano? 
Tão pouco tinhão que fazer os três 



218 Cexsura das Lusíadas. 

condemnados , que fossem metter tu- 
do no bico a Sumano ? Vivos não hião 
lá j e mortos , não ás pérdião , nem he 
de presumir que Sumano deixasse de 
fazer a sua obrigação quando lá os 
apanhasse , e lhe cahissem nas unhas. 
Isto não seria huma novidade para Su- 
mano ; que já lá teriâo appàrecido os 
traidores , que tanto promoverão a de- 
posição de D. Sancho 2.° , os que se 
conspirarão contra EIRei D. Diniz nas 
revoltas do Infante D. Aflonso. Se o 
Sumano já sabia , porque por vezes lhe 
tinhão sido feitas de cá essas remes- 
sas , se já o sabia , era muito inútil 
o recado mandado pelos três condemna- 
dos acima referidos. 

Vejo na Oit. 34 hum aleijão do 
costume : 

3 , Rompem-se aqui dos nossos os primeiros 
3 , Tantos dos inimigos a elles vão, ,, 

Quando hum verso está errado, emen- 
da-se , este segundo verso está erra- 
do , logo pode emendar-se ; o verso he 
de Camões , Jogo Camões pode emen- 



Quarto Canto. 219 

dar-sé , porque faz versos errados , e 
emendar os que errao he huma obra 
de misericórdia , e não hum sacrilégio. 
Huma vez podia escapar, mas já são 
tantas ! Loao na Oit. seguinte 35 vem 
outro verso errado , e viráõ outros mui- 
tos. 

„ Ferina , e a ira, não lhe compadecera. ,, 

Se nisto se acharem observadas as ri- 
gorosas leis do metro , eu me retra- 
ctarei em público. Na Oit. 36 vem hu- 
ma comparação emprestada de Esta- 
cio, como já está demonstrado. 

,, Qual parida Leoa fera , e brava. ,, 

Não sei que sahida dará a seita Ca- 
moniana a esta infecundidáde. Na Oit. 
40 , temos o terceiro verso desta am- 
íibologica maneira : 

i, O mestre morre alh de Santiago. >, 

Parece que mor fé de doença assim 
chamada. O mestre não niórreo de se- 



220 Censura das Lusíadas. 

zoes 3 morreo de Santiago , e se ha mal 
de S. Lazaro , também o haverá de 
Santiago. A primeira virtude do esty- 
lo he a perspicuidade. No sexto ver- 
so ha hum epitheto sem motivo : 

„ Outro Mestre cruel de Calatrava. „ 

Não se diz que Mestre era , nem as 
razões porque tinha merecido este hor- 
roroso , ou vilipendioso titulo de cruel : 
não se deve dar huma idéa má de 
hum individuo sem dar a razão deste 
dito. Muita sente morre ! 

o 
,, Os Pereiras também arrenegados. „ 

Em prosa não se diz melhor , e he 
bem de presumir que se arrenegar ião 
com a morte. Morrem arrenegados ? e 

íf Morrem arrenegando o Ceo , e os Fados. ,, 

Não ha motivo nenhum para dizer que 
estes íllustres guerreiros , irmãos de D. 
Nuno , morrendo na batalha , o que 
aconteceo a muitos de ambos os exer- 



Quarto Canto. 221 

eitos , vencedor , e vencido , sendo , co- 
mo erão, Christãos, morressem arre- 
negando o Ceo, e os Fados. Assim o 
quiz dizer Luiz de Camões , e assim 
commetteo hum grande erro. A Oit. 
41 he digna de reparo por este ver- 
so: — 

}) Muitos também do vulgo vil sem nome „ 

( Não ha razão para chamar vis aos sol- 
dados , ainda que não conhecidos por 
seu nome , o exercito compõe-se de 
soldados , e ser soldado , ainda que ra- 
zo , e razo do chão , não he ser vil. ) 

3 , Vão, e também dos nobres, ao profundo, 

} , Onde o trirauce Cão perpetua fome 

j, Tem das almas que passão deste Mucdo. „ 

Tanío os Castelhanos , como os Portu- 
guezes da batalha de Aljubarrota, erão 
baptizados . e Christãos velhos , Catho- 
licos Romanos, e misturar huma idéa 
tão gentilica como he a do trifaace Cão , 
que tem fome das almas que vão des- 
te Mundo , que devem apparecer di- 
ante de hum Deos Julgador, he hu- 



222 Censura das Lusíadas. 

ma parvoíce, quando lhe não queirâo 
chamar huma impiedade. Apparece na 
Oit. 42 outro verso errado , objecí.0 so- 
bre o qual nâo deve recahir , nem des- 
culpa, nem indulgência: 

„ Se vê , e de seu propósito mudado. 9 , 

Tão grande mestre , e tantos versos 
aleijados ! He ridículo o verso da Oit. 

46 : 

fi E de vários senhores n'hum momento ! ! „ 

Vários senliores he hum grande rasgo 
de Poesia Épica ! Na Oit. 47 ha ou- 
tro ainda peor. Sejyit humi : arrastra- 
se em baixíssima prosa ! 

,, Destas , e outras victorias longamente. , t 
Versus inopfE rerum , nugce que canorce ! 
De cohas versos nus , chutas canoras S 

Podia aqui dizer Horácio a Camões , 
se acaso Camões pode ser emendado 
por Horácio , sem que a seita grite , 
sacrilégio ! sacrilégio ! Na Oit. 48 vem 
huma das notáveis injúrias que ocul-* 



Quarto Canto. 223 

pavel esquecimento do Poeta faz di- 
zer ao Rei Mouro. Trata da conquis- 
ta de Ceuta por EIRei D. Joào l.° 

,, Este he o primeiro Hei que se desterra 

,, Da Pátria por fazer que o Africano 

J} Conheça pelas armas quanto excede 

j, A Lei de Christo á Lei de Mafamede. ,, 

Ora isto dito na cara a hum Rei Mou- 
ro . e também Africano ! He huma in- 
coherencia , e huma falta de conser- 
vação, e igualdade de caracteres. Pa- 
rece que o Gama nâo conta huma no- 
va historia , que nào seja para inju- 
riar aquelle bom homem do Rei de 
Melinde; Oit. 49. 

» O monte Abila , e o nobre fundamento 
j, De Ceuta toma , e o torpe Mahometa 
,, Deita íóra , e segura toda a Hespanka 
3 , Da Julianna má ; e desleal manha. _,, 

Torna a injuriar o Rei Mouro ? cha- 
mando torpes aos Mahometanos , e diz 
huma mentira , porque a Hespanha nào 
ficou toda livre de Mouros com a to- 
mada de Ceuta. O Reino Mourisco de 
Granada . e sua galantíssima Corte se 



224 Censura das Lusíadas. 
conservou na Hespanha até ao Rei- 
nado de Fernando, e Isabel, reinan- 
do em Portugal D. João o 2.° : N então 
íbrâo os Mouros de todo expulsos da 
Península. Por certo Camões , quando 
compunha isto , não tinha á mão a 
Historia do Reino. A Oit. 50 prosa co- 
meça, e prosa acaba: 

„ Deixou quem o levou quem governasse , 
„., E augmentasse a terra rnais que dantes. „ 

Neste cálios de éccos , custa a achar 
hum sentido , e de todo incógnito, 
quando nos lembramos que EIRei D. 
Duarte não augmentou mais o Reino 
do que o havia augmeníado seu an- 
tecessor, e pai D. João 1.° Nem po- 
demos chamar au amento , e dilatação 
do Reino ao casamento da Infanta D. 
Leonor , hllia de EIRei D. Duarte com 
o imperador de Alemanha. Pouco ti- 
nha que augmentar hum Reino atri- 
bulado , e devastado pela peste de que 
o Rei morreo em Thomar , e de pou- 
ca idade. Julgo que por esta razão diz 
o Poeta na Oit. 51 que 



Quarto Canto. 225 

: , Nío foi do Rei Duarte tão ditoso 

f> O tempo , que ficou ua summa alteza. ,, 

Na Oit. 52 dá ao Mouro o nome de 
Sarraceno, tendo já dito. que se lhe 
não devia . porque o Mouro usurpava 
este illustre nome ; tem o Príncipe dos 
Poetas suas faltas de memoria. 

Concedamos-lhe ao amor nacional 
preferir o cativeiro do Infante D. Fer- 
nando ao voluntário sacrifício de Có- 
dro 3 e de Régulo ; diga embora , que 
nem Curcio , nem Décio fizerâo tan- 
to. Fallando na Gií. 54 de EiRei D, 
AfTonso õ.° acaba com estes deis ver- 
sos: 

„ IMãs Africa dirá ser impossibil , 

}i Poder ninguem vencer o Rei terrilil. „ 

Não sei que o titulo de terrihil se des- 
se já mais a EIRei D. AfTonso o õ.° ? 
e só sim o de Africano pelas suas proe- 
zas na Africa , o qual não foi tão im- 
pr^sibil de vencer , que se não visse 
obrigado de hir em pessoa a Fr?nça 
implorar algum jsoxcorro. que ní.o ai- 
Tora, L f 



226 Censura das Lusíadas. 

cançou a e tanto se abateo o animo 
do Rei , que destinou abdicar a coroa , 
e acabar a vida em huma peregrina- 
ção a Jerusalém ; não sei porque lhe 
chama o Rei ierribil: por pobreza de 
rima. Os quatro primeiros versos da 
Oit. 55 são verdadeiramente anfibolo- 
gicos. \ 

s , Este pôde colher as maças de ouro 

9> Que somente o Tyrinthio colher pôde ; 

>, Do jugo que lhe pôz o bravo Mouro 

„ Da cerviz inda agora não sacode. „ 

Não se sabe a quem o Mouro impo= 
será o jugo , se a este a se ás maçãs , 
se ao Tyrinthio ; toda esta obscurida- 
de nasce da nimia , e affectada erudi- 
ção ? que em toda a parte apparece 
sem causa , e sem motivo. Como era 
possível que o Mouro de Melinde sou- 
besse , que o Tyrinthio era Hercules , 
e que este Hercules fora ao jardim das 
Hespérides roubar as maçãs , ou as 
laranjas , ou o que quer que foi. ? No 
terceiro verso chama-se o Mouro — bra- 
vo — 5 no sexto verso chama-se o mes- 
mo Mouro — bárbaro. 



Quarto Canto. 227 

Louvando até aqui EIRei D. Af- 
fonso 5.° começa na Oit. 57 a inve- 
ctivar EIRei D. Afíònso 5.° 

,, Porém depois tocado de ambição , 
9i E gloria de mandar amara , e bella , 
„ Vai commetter Fernando de Aragão. „ 

Deixemo-nos dos contradicíorios epí- 
thetos dados á gloria amara , e bella. 
Na Oit. 58 torna a invectivar Afíòn- 
so 5.° chamando-lhe ambicioso, e san- 
guinolento : 

3 , De ir ajudar o pai amlicioso . . . I 
,, Desbaratado o pai sanguinolento. „ 

Venha agora em corpo de Tribunal 
toda a Seita Camoniana dizer-nos que 
a gloria da Pátria está de tal arte 
identificada com a gloria de Camões, 
que nào se pode oíTender hum a sem 
ultrajar a outra. Para gloria de EIRei 
D: Afíònso 5.° declara que ficou ven- 
cido por EIRei de Aragão: 

„ Desfarte foi vencido Octaviano , 
„ E António vencedor seu companheiro. 9 % 

P 2 



228 Censura das Lusíadas. 

Na Oit. 61 depois do bordão lá cha- 
ma aos Hespanhoes inclytos: 

SJ Com o senhorio de inclytos Hispanos : „ 

tendo acabado de lhes chamar huns 
patifes. Na Oit. 62 vem outro bordão 

,-, Que de Christo lá guarda o santo rito. „ 

E saberia o Mouro que coiza era o 
santo rito de Christo? Trata o Prín- 
cipe dos Poetas , e o mais comprido 
dos contadores , da viagem intentada 
por A Afonso de Paiva , e Pêro da Co- 
vilhã , mandados por EIRei D. João o 
2.° á índia por terra : e assim rema- 
ta a Oit. 65 : 



>9 Lá morrerão em fim , e lá ficarão 
„ Que á desejada Pátria não tornarão. „ 



Hum morreo , e outro tornou a Por- 
tugal, e he para admirar que o Poe- 
ta , tão próximo áquelles tempos , igno- 
rasse hum facto tão público ; porque 



Quarto Canto. 229 

depois da chegada deste viajante se 
determinou EIRei D. João 2.° a man- 
dar Bartholomeu Dias dobrar o Cabo 
da Boa Esperança , e chegar como che- 
gou ao Padrão de S. Filippe , e Uhéo 
da Cruz. Na Oit. 66 vem hum dos 
costumados peccadinhos contra as leis 
do metro: 

„ Para Manoel , e seus merecimentos. „ 

O merecimento que isto tenha em Poe- 
sia conhecem bem os que não se alis- 
tarão nas bandeiras da Seita Camonia- 
na. São estes erros indesculpáveis até 
em hum principiante. Segue-se a enig- 
mática Oit. 67, que em si, e comsi- 
go nada conclúe , e passa- para a se- 
guinte ; he preciso copialla : 

Jt O qual, como do nobre pensamento 
y) Daquella obrigação, que lhe ficara 
}) De seus antepassados, cujo intento 
„ Foi sempre accrescentar a terra chara , 
)9 Nâo deixasse de ser hum só momerto 
„ Conquistado , no tempo que á luz clara 
^ Foge , e as estrellas nítidas que sabem 
Jt A repouso conyidão quando cahem, . . ,* 



230 Censura das Lusíadas. 

Aqui não ha sentido algum, nem or- 
dem de idéas entre si ligadas. Seja 
á prima noite , seja á meia noite , se- 
ja de madrugada , o Poeta nenhum des- 
tes três tempos quiz designar em par- 
ticular. O sonho, e a visão de EÍRei 
D. Manoel foi de noite , e o Principe 
dos Poetas quiz fazer huma perifrase 
da noite a seu modo. O verbo deste 
nominativo — O qual — passa para a 
Oit. seguinte 68 na primeira palavra: 

„ Estando já deitado no áureo leito. „ 

Era de presumir que o Rei se deitas- 
se quando naquelle tempo se deitava 
a outra gente. Deitou-se na cama, e 
seria por certo antes da meia noite, 
começou quando pòz a cabeça no tra- 
vesseiro a fazer o que costumão fazer 
os que trazem entre mãos algum ne- 
gocio de importância, meditarem nel- 
le , occuparem-se delle quando se dei- 
tão , e adormecer nestas considerações ; 
nesta occasião adormecendo EÍRei D, 
Manoel , sonhou então : e assim sem o 
discurso de João Franco Barreto, de 



Quarto Canto. 231 

Manoel Pires de Almeida, e extáticas 
contemplações do Padre Thomás de 
Aquino , sobre a importância do ac- 
cento agudo posto em cima do — á — 
á luz clara, sabemos que foi de noi- 
te , porque o Rei : — 

_>, Estando já deitado no áureo leito , 
^, Onde imaginações mais certas são. iS 

Era de noite , que he o que se pode 
colligir da embrulhada de palavras que 
formão os versos da commentada , e 
recommentada Oit. 68. 



9> 



Morfeo em varias formas lhe apparece. „ 



Novo erro : Morfeo não he o sonho, 
Morfeo he o somno , ou o Deos do 
somno , que he o mesmo : os sonhos 
são os que apparecem em varias for- 
mas , e não o somno. Não se sabe o 
que o Poeta entenda pela — prima 
esfera — da Oit, 69. Se entende (no 
systema de Astronomia antigo ) que 
èra o primeiro movei, não era neces- 
sário subir tão alto para ver vários? 



232 Censura das Lusíadas. 

Mundos , bastava-lhe só ver a terra, 
e vejão os da Seita Camoniana se lhe 
era precizo boa vista , como já nota- 
rão em outro sonho , e outras imagens, 
Vem pois o bordão lá : 

„ E lá bem junto donde nasce o dia-, 
„ Depois que os olhos longos estendera , 
5 , Vio de antigos , longiquos , e altos montes 
}J Nascerem duas ckras , e altas fontes. „ 

Vio pois EIRei naquellas scenas adver- 
sarias de mais conversação rebentarem 
duas fontes , e sahirem logo das fontes 
dois homens velhos : 

)f Dois homens que mui velhos parecião , 

,, A cor da pelle , baça, e denegrida, 

„ A barba irsuta s intonsa mas comprida. )t 

Se a barba era — não cortada , inton- 
sa — , claro está que era comprida. Na 
Oit. 72 ha huma circunstancia notável , 
que he a difíerença que se descobre nos 
dois velhos , que sahem das duas fontes 
que nascem na mesma montanha adver- 
saria de mais conversação , e se apre- 
sentão aos olhos do Rei; hum delles vi- 
nha mais cançado do caminho que ou- 



QUARTO Canto. 233 

tro. Onde foi este velho primeiro que 
viesse , pois sahem ambos do mesmo lu- 
gar , isto he das mesmas fontes huma 
ao pé da outra ? Se antes de sahir da 
fonte vinha de mais longe , porque nâo 
descançou hum bocado , dizendo ao 
companheiro que esperasse ? Hum rio 
não começa a andar senão da fonte don- 
de nasce. Vir , ou não vir , como Alfeo , 
ou o Guadiana, por baixo, ou por cima 
da terra , esta vinda , visivel , ou não vi- 
sível , nâo torna o seu curso mais dila- 
tado , sempre sahe da fonte donde co- 
meça, a carreira alli tem o seu princi- 
pio , e tanto cança o rio por cima , co- 
mo por baixo , porque o seu curso he o 
mesmo. Ora se ha coiza ridicula he es- 
ta circunstancia do rio cancado. A ri- 
gura de hum rio , representada em hum 
velho venerando , he puramente allego- 
rica , o cançaço só pode dizer-se de hum 
animal orgânico , aquém a agitação dos 
músculos , e dos nervos cause depois aba- 
timento ; e hum rio ainda que se mo- 
va , e agite , nada pode sentir , porque 
lhe falta a constituição orgânica , irri- 
tável; e sensível. Oit. 73 : 



234 Censura das Lusíadas. 

í, Este que era o mais grave na pessoa. >f 

Depois de huma pintura idêntica , vem 
a diferença da gravidade da pessoa. De- 
clara depois quem seja , e antes disse 
diz ao Rei: 

\ y Te avisamos que he tempo que já mandes. 
„ A receber de nós tributos grandes. f> 

Na Oit. 74 logo declara ao Rei que* 

>, Custar-te-hemos comtudo dura guerra. „ 

Não he hum annuncio próprio de quem 
vinha ofíerecer voluntários tributos , e 
tributos grandes ; era mais huma decla- 
ração de guerra que hum convite , e 
como o Rei cuidava , e meditava no des- 
cobrimento da índia , o rio velho e can- 
çado do caminho lhe veio declarar, que 
o tal descobrimento que intentava fa- 
zer-lhe devia custar caro , isto era mais 
assustar, que venerar o Monarca. Oit 
75: 

3 , Não disse mais o rio illustre , e santo , 

3 , Mas ambos desparecem n'hum momento, „ 



Quarto Caxto. 233 

Este annúncio de guerra determina o 
Monarca , quando parece que se deve- 
ra suspender para ponderar mais a em- 
preza , pois não era hum pequeno obje- 
cto a guerra que devia custar o desco- 
brimento da índia. Oit. 76 : 

i} Chama o Rei os Senhores a conselho. ,, 

Com maior baixeza de estylo não se po- 
dia annunciar tão augfusia ceremonia ; 
se o primeiro he assim , o segundo não 
lhe he inferior em elevação , e harmc- 
nia : 

„ E propõe-lhe as figuras da visão. si 

Ora pode caber no entendimento hu- 
mano. queElRei D. Manoel, quando pro- 
põe em Conselho a expedição de Vas- 
co da Gama . dissesse aos Conselheiros 
de Estado , que vira em sonhos dois 
velhos , hum mais cançado que o ou- 
tro : 

y , E propõe-lhe as figuras da visão ? }i 

E que estes velhos, asfxjuras da visão <, 



23e Censura das Lusíadas. 

erão o Rio Indo, e o Rio Ganges? O 
peor he o que se segue na mesma Oit. : 

„ As palavras lhe diz do santo velho , 
9 , Que a todos forão grande admiração. )f 

E com effeito , todos se devião admirar 
de similhante patranha , e assentarem 
por primeira resolução de Conselho , que 
EIRei não estava em seu juizo perfei- 
to. Este maravilhoso dos dois Rios he 
muito deslocado', porque fazendo o Ga- 
ma huma narração rigorosamente his- 
tórica , e na presença de hum Monar- 
ca , faria muito bem , sem infringir as 
Leis da Epopéa , cujo maravilhoso he 
sempre sonhado nas Lusiadas , se ex- 
posesse os motivos politicos , e religio- 
sos , que obrigavão o Rei de Portugal 
a commetter , ou tentar similhante em- 
preza. 

)f Determinão o náutico apparelho , 
,, Para que com sublime coração , 
3, Vá a gente que mandar cortando os mares. * . „ 

Nada se disse em Conselho , todos a 
eito se callárão, admirados dos dois fi- 



Quarto Caxto. 237 

giirôes velhos que tinhâo apparecido ao 
Rei , que acreditou logo as palavras. 
Na Oit. 79 trala-se da escolha , e re- 
cahe esta na pessoa de Vasco da Ga- 
ma , e sem se ter fallado nelle , lhe diz 
o Rei estas palavras ( agora sabemos 
que Vasco da Gama estava no Conse- 
lho ) : 

„ Eu vos tenho entre todos escolhido. ,, 

O Gama deve responder a isto , e agra- 
decer ao Rei a mercê, e honra que lhe 
fazia , e apparece hum Gentio , hum Pa- 
gão , hum Idólatra a íallar , para aca- 
bar com a allusào a humas palavras do 
Evangelho. Entre todas as incoheren- 
cias das Lusiadas , esta resposta de Vas- 
co da Gama a EIRei D. Manoel he a 
maior : Oit. 80 : — 

,, Imaginai tamanhas aventuras , 

„ Quaes Eurystheo a Alcides inventava ; 

,j O Leão Cleoneo , Harpias duras, 

„ O Porco de Erymanto , a Hydra brava ; 

,, Descer em fim , ás sombras vãs , e escuras } 

i9 Onde os campos de Dite a Estyge lava ; 

3> Porque a maior perigo , e mór affronta 

„ Por vós, 6 Rei, o esprito, e a carne he prompta. „ 



238 Censura das Lusíadas. 

Spiritus quidem promptus est , caro au- 
tem infirma : elle emenda o infirma , e 
diz prompta. Pode haver coiza mais 
pueril ? Pois era mais o Leão , o Por- 
co , a Hydra , as Harpias , do que era 
surcar o Oceano do Tejo a Calecut? 
E estas fantasias da delirante Grécia 
erão acções que allegasse por exemplo 
de maior para menor hum homem Chris- 
tão em huma acção politica , e religio- 
sa ? E inverter no fim , ainda que em 
parte, o Oráculo do Evangelho que cha- 
ma a carne enferma, e fraca, chaman- 
do-lhe prompta ! Em nenhum dos lan- 
ces do Poema , he mais escandalosa a 
mistura do sagrado com o profano. O 
ultimo verso da Oit. 81, e o primeiro 
da 82 são dignos de memoria: 

3i O charo meu irmáo Paulo da Gama. „ 
5 , Mais se me ajunta Nicoláo Coelho. i3 

He tão familiar, e até meigo este mo- 
do de contar : 

39 Mais se me ajunta Nicoláo Coelho, ,, 

que nos está parecendo que EIRei de 



Quarto Canto. 239 

Melinde conhecia pessoalmente Nico- 
Jao Coelho, e até que era amigo ínti- 
mo de Nicoláo Coelho , coiza tão pró- 
pria da magestade da Epopéa que ain- 
da que as Divinas Lusíadas não tives- 
sem bases tão seguras da perpetuidade 
da Fama , para se fazerem immortaes 
bastaria este verso : 

3 , Mais se me ajunta Nicoláo Coelho. „ 

A Oit. 83 também começa com o or-* 
dinario ímpeto . e furor Épico : 

,, Forão de Manoel remunerados. „ 

Diz Horácio , ou diz a boa razão , que 
quando o Poeta vê coizas , que ditas , 
e tratadas em Poesia não podem bri- 
lhar , que as deve prudentemente omit- 
tir. A Oit. 86 he recomendável pe- 
la circunstancia de que o Gama dá par- 
te a EIRei Mouro de Melinde , que a 
gente da tripulação se disposera para 
a longa , e incerta viagem , como quem 
se dispõe para a morte ; isto he ? com 
os Sacramentos; 



240 Censura das Lusíadas, 

„ Apparelhamos a alma para a morte. ,, 

Coiza de que o Mouro se edificaria mui- 
to ? pois via que erão bons Christãos: 

„ Imploramos favor que nos guiasse , 
„ E que nossos começos aspirasse. „ 

O verbo — Aspirar — nunca pode di- 
zer, favorecer, ajudar, prosperar, ese 
querem alatinar a coiza , diga-se — se- 
cundar — mas aspirar não corresponde 
a idéa que o Gama quer annunciar. 
Tomar-se-ha por bafejasse? Oit. 87: 

9i Partimo-nos assim do santo Templo , 

_,, Que nas praias do mar está assentado. „ 

Era precizo que o Rei Mouro soubes- 
se como se chamava o Templo , isto 
he , qual era a sua invocação ; mas de 
hum modo que lhe fosse comprehen- 
sivel : pelo contrario , usa o Poeta da 
perifrase que aos Christãos dá a conhe- 
cer o maior mysterio : 

}> Que o nome tem da terra para exemplo , 
„ Onde Deos foi em carne ao Mundo dado. ,1 



Quarto Canto. 241 

Nós sabemos que he — Belém — e o 
Mouro podia saber que assim se cha- 
mava huma Cidade da Judéa , onde nas- 
ceo feito homem o filho de Deos ? feào 
coizas tão impróprias , e tão alhêas das 
pessoas a quem se falia , tão oppostas 
aos dictames da razão , que me parece 
hum problema irresolvivel o motivo por- 
que se tem lido , e traduzido este Poe- 
ma. 

Seguem-se os prantos da gente até 
á Oit. 93 , onde se notão estes dois to- 
cantes , e sublimes versos ! — 

j, Determinei de assim nos embarcarmos 
3 , Sem o despedimento costumado. ,, 

Depois de haver dito em igual prosa ? 
que mais , esposas , filhos , parentes , tu- 
do viera com os navegantes á praia des- 
peçlir-se entre prantos ? e alaridos : 

,, Agente da Cidade aquelle dia , 

„ (Huns por amigos, outros por parentes, 

>y Outros por vêr somente) concorria 

_,, Saudosos na vista , e descontentes : 

Jt E nós co' a virtuosa companhia 

„ De mil Religiosos diligentes , 

,, Em procissão solemne a Deos orando , 

9 , Para os batéis Yieraos caminhando. „ 

Tom. L a 



242 Censura das Lusíadas. 

Finalmente naOit, 94 começa adêcan* 
íada Prosopopéa cio velho de Belém, que 
bem considerada devia ter feito sup- 
primir o Poema desde o sen primeira 
ápparecimento. He pena que se descu» 
brâo tantas , e tão indesculpáveis faltas 
de juizo em Luiz de Camões ! No mo- 
mento do embarque , na presença ■ e 
na cara do mesmo Rei , que desde a Er- 
mida da Senhora de Belém acompanhou 
Vasco da Gama até á praia de Rastel- 
lo , onde embarcou , introduz hum ve^ 
lho, não só a agoirar mal, e a vocife* 
rar contra a expedição com as mais des- 
comedidas , e insultantes expressões ? 
sendo a expedição mandada pelo Rei , 
e de tanto tempo disposta para engran- 
decimento do Reino , mas a invectivar 
com audácia o mesmo Monarca na sua 1 
presença , reprehendendo-o pela a€*;ão 
que fazia , porque despovoava o Reino , 
deixava engrossar inimigos próximos, 
só com o fim de se lizongear com apro- 
pria fama. Convém trasladar aqui tão 
insolente invectiva , e com ella fazei" 
emudecer a pertinaz Seita Camoniana, 
se á pertinácia não juntar também a 
i;iipudencia: Oit. 101: 



Quarto Canto. 243 

,, Deixas criar ás portas o inimigo 

,, Por ir ã buscai- outro de tão longe , 

j, Por quem se despovoe o Ueino antigo , 

}i Se enfraqueça , e se vá deitando a longe : 

,, Buscas o incerto , e incógnito perigo 

st Porque a farra te exalte , e te lisonge , 

„ Chamando-te Senhor com larga cópia 

,, Da índia, Pérsia , Arábia, e da Ethiopia. „ 

Reprehenda embora , como máo politi- 
co , a intentada empreza do descobri- 
mento, sirva-se, como máo Poeta, dè ter- 
mos idênticos para diversos consoan- 
tes — L,Gnye . e Longe ? que não são ri- 
mas; porém que Luiz de Camões perdes- 
se de todo o juízo', e a reflexão, e sé 
não lembrasse que no momento em que 
introduz o velho a vociferar , era aquél- 
le em que sedava o primeiro passo pa- 
ra o descobrimento da Indía í . . Por ven- 
tura tinha já EIRei D. IManoel assumi- 
do estes gloriosos títulos dê Senhor do 
Commercio , Navegação , e Conquista 
da índia, Arábia, Pérsia, e Ethiopia? 
Pois se a índia não estava descoberta, 
como estava já conquistada ? Quantos 
annos depois apparécêrão estes titulos ? 
O velho era Profeta ? Donde consta is- 
so ? E se era Profeta devia conhecer os 

a 2 



244 Censura das Lusíadas. 

bens , e vantagens , que não só para es- 
te Reino, mas para muitos povos, de- 
vião resultar daquella empreza. He in- 
desculpável esta parvóice. O velho era 
Catholico j e queria que se peleijasse 
pela Lei de Christo , como se vê na 
Oit. 100 : 

„ Não tens junto comtigo o Ismaelita , 
)9 Com quem sempre terás guerras sobejas? 
3J Não segue elle do Arábio a Lei maldita , 
3 , Se tu pela de Christo só pelejas ? „ 

E isto contado a hum Rei Mouro, que 
seguia a Lei de Mafoma , e chamar a 
esta Lei maldita na cara deste petrifi- 
cado Mouro ! . . Pois este Catholico , mis- 
tura a toda esta grande invectiva as 
fabulas do Paganismo : Oit. 103: 

3i Trouxe o filho de Jápeto do Ceo. ,, 

Que vem aqui fazer Prometheo da Ode 
de Horácio , com a fabula de Dédalo , 
e ícaro ? Vem findar o Canto 4.° com 
a mais intempestiva erudição, compa- 
rando a acção do denodo , pericia , e po- 
litica dos Portuguezes no descobrimen- 



Quarto Canto. 245 

to da índia com a temeridade de Dé- 
dalo , e ícaro , que voarão com azas en- 
ceradas , e com o sacrilégio de Prome- 
theo em roubar o fogo celeste ; de ma- 
neira que descobrir a índia , he huma 
temeridade, e hum sacrilégio . e aquel- 
le mesmo Gama que conseguio este fim , 
he o mesmo que lhe dá este nome na 
presença de hum Rei a quem pedia au- 
xilio para ultimar este projecto. 






246 

CENSURA 

LUSÍADA 



QUINTO CANTO. 



C 



resce o Poema das Lusíadas , e 
crescem as incoherencias , e inverosi- 
milhanças , e entre as que nos outros 
Cantos se devisâo , as do quinto são as 
maiores , e as mais escandalosas aos sin- 
gellos dictames da boa razão. Logo na 
primeira Oit. , e no primeiro verso em 
que continua a nojoza, e interminável 
narração vemos este verso : 

3 , Estas sentenças taes o velho honrado 
,, Vociferando estava . . . „ 

Foi manifesta a honra do velho em re- 






Quinto Canto. 247 

provar a expedição, praguejando-acom 
infâmia, e insultando de vào, e ambi- 
cioso o Monarca que a mandava exe- 
cutar, e tudo isto na sua mesma cara. 
e até motejando-o sobre os títulos que 
ainda não tinha assumido , nem podia 
então assumir: eisaqui a honra do ve- 
lho ! Estas sentenças taes he huma ira- 
se incorrecta , e vociferar sentenças não 
se sabe o que he , porque he impro- 
priamente dito ; proferir , e até mesmo 
assoalhar sentenças pode dizer-se , mas 
de vociferar sentenças em nenhuma das 
épocas da Lingua se assignalará hum 
exemplo em qualquer dos clássicos Por- 
tuguezes. 

3i A vela desfraldando, o Ceo ferimos 
)y Dizendo boa viagem . . . 

O Ceo ferimos he frase de Virgílio , po- 
rém n'outras circunstancias, 

Ferie altera sidera clamor. 

Dizendo > boa viayem. Se nos não tras- 
ladarmos aos tempos Homéricos, em que 



248 Censura das Lusíadas. 

tudo se dizia pelo seu nome , e nada se 
omittia , de necessidade nos havemos 
rir da singeleza desta expressão — boa 
viagem , — na levantada Poesia Épica : 



3> 



Nos troncos fez o usado movimento. 



Custa muito a entender que — tron- 
cos — queira dizer mastros de navio : 
duro translato, porque não se sabe que 
troncos sejão aquelles em que o vento 
faz o usado movimento , porque o pri- 
meiro e mais usado movimento he o das 
velas. Se as metáforas fazem o senti- 
do escuro 5 são viciosas. Oit. 2. a : 

,, Entrava neste tempo o eterno lume 

,, No animal Nemeo truculento 

,, £ o Mundo que co' o tempo se consume. , } 

Se he eterno o Sol , — eterno lume — 
e o Sol he hnma parte do Mundo , não 
pode ser eterna a parte , e caduco í e 
consumivel o todo, chegando a ser. en- 
fermo , e lento. Na 3. a Oit. temos hu- 
ma descripção geográfica dos lugares 
que se vão perdendo de vista em pro- 
porção do espaço que a armada vai cor- 



Quinto Canto. 249 

rendo como se EIRei de Melinde os co- 
nhecesse, e sobre tudo a qualidade da 
frescura da Serra de Cintra . que nos 
ardores da costa oriental da Africa ex- 
citaria no Monarca desejos de hir lá 
passar o verão. As impropriedades são 
tantas , que seria eterno o commentario 
se as quizesse notar todas. A mentira 
do verso secundo da Oit. 4. a já está con- 
futada quando se tratou dos mares nun- 
ca dantes navegados : 

„ Que geração alguma não alrio. }> 

Até ao sitio em que o Gama dizia isto, 
como já se mostrou . Bartholomeu Dias 
chegou ao Ilheo da Cruz , e Padrão de 
S. Filippe , e daqui para cima até Mom- 
baça , diz Barros que o Gama encon- 
trara — Gentes que naveqctváo ao nosso 
medo. — Ora . de Melinde até Calecut , 
se o Piloto Árabe . Moalem Cana , não 
fosse prático em a navegação , não le- 
varia lá Vasco da Gama. Só podião di- 
zer isto Fernando de Magalhães , e Pe- 
dro Fernandes de Queirós lutando com 
os gelos , e cerrações do Polo austral 
Oit. 5. a : 



2 50 Censura das Lusíadas, 

v Passámos a grande Ilha da Madeira , 
3i Que do muito arvoredo assim se chama -, 
„ Das que nós povoamos a primeira, „ 

Então que Ilhas tinhão que passar an- 
tes da Madeira? 

}) Mas nem por ser do Mundo a derradeira , 
3 , Se lhe avantajão quantas Vénus ama. „ 

Não sei porque se hade chamar a Ma- 
deira a ultima Ilha do Mundo. E as 
Antilhas não erão já descobertas no 
tempo do Gama , e as Canárias não são 
muito mais ao Oeste presuppondo que 
não existia a America , porque ainda 
no tempo do Gama não estava o seu 
continente descoberto? Deixemos isto, 
A posição da Madeira como a ultima 
Ilha do Mundo não a faz avantajar ás que 
Vénus amou, porque podia ser a ulti- 
ma do Mundo , e ser hum rochedo quasi 
estéril como a de Santa Helena, ou a 
despovoada Ilha da Ascensão. A posi- 
ção geográfica não a fazia nem melhor, 
nem peor. Na Oit. 6 nos dá a conhe- 
cer o Poeta huma qualidade de gente 
bem rara , gente que nunca bebe agua ; 
esta gente são os Azenegues: 



Quinto Canto. 251 

„ Gente que as frescas aguas nunca gosta. „ 

O animal bipede , e implume, que he 
o homem de Platão , não pode viver sem 
beber agua , ou coiza que o valha , mas 
os Azenegues nào tem vinho ; e ainda 
quando se supposesse huma nação de 
bêbadas , tal he a occasião , e a compo- 
sição dos vinhos engarrafados , que ao 
menos os devotos sempre refrigerão pela 
manhã a boca alastrada de sarro com 
hum púcaro de agua. No verso G vem 
outro prodigio , que se perdoa ao Poe- 
ta pela preoecupação popular ; que vem 
a ser o sueco digestivo das Emas , que 
esmoe o ferro : 



»> 



Onde as Aves no ventre o ferro gastão. 



Engolir espadas temos nós vi$to pelo 
nosso dinheiro , mas digerir ferro he 
huma fabula. Estão expostas as qua- 
lidades da £eníe Azenega a que vem a 
ser não beberem agua , habitarem hu- 
ma terra que nem hervas produz , por- 
que até as Aves comem ferro por não 
terem outra coiza , em íim he gente de 
extrçma pobreza ; — 



252 Censura das Lusíadas. 

„ Padecendo de tudo extrema inópia , 
„ Que aparta a Barbaria da Ethiopia. „ 

Ora aqui temos a raia , ou a extrema 
de duas regiões differentes. A Ethiopia 
separa-se da Barbaria pela inópia. Não 
he isto o que se chama chicana da crí- 
tica , sào construcções anfibologicas , 
que transtornão todo o sentido, ou o fa- 
zem equívoco , e hum bom Poeta não 
deve ser preguiçoso ; — sudet multum , 
diz o arrazoado Horácio , e não deixe 
hir a palavra da mesma sorte que se 
apresenta. 

Sena Oit. 6 foi o Poeta máo Gram- 
matico , na Oit. 7 pelo escuro modo com 
que se explica , figura de máo Geógra- 
fo , e hum homem que tinha passado á 
índia devia rectificar esta idéa , e ex- 
phcar-se sem anfibologia, pois nestes 
dois versos mais se entende o trópico 
de Capricórnio que o de Câncer , por- 
que de lá he que o Sol guia o carro 
para o Norte: 

j, Passámos o limite aonde chega 

s> O Sol , que para o Norte os carros guia. „ 

Muito bem \ oiçamos o verso 5 , e 6 ; 



Quinto Canto. 253 

9> Aqui gentes estranhas lava, e rega 
9S Do negro Senegá a corrente fria. , 9 

Deixemos o erro do segundo destes ver- 
sos. Se o Gama tinha já passado o tró- 
pico de Capricórnio , como he possivel 
que neste ponto lavasse , e regasse o 
Senegal estranhas gentes, se o Senegal 
desemboca no Oceano áquem da Equi- 
nocial ? Nem o rio Senegal . nem o Ca- 
bo Arsinario . ou Cabo verde íicão além 
do trópico de Capricórnio. 

Na Oit. 8 faz andar o Gama para 
trás só para fallar nas Ilhas Canárias , 
nas Hespérides , ou Fortunadas : 

9 , Terras por onde novas maravilhas 
„ Andarão vendo já nossas armadas. ,, 

Pois não tinha e!le dito na Oit. 4 que 
navegarão mares : 

„ Que geração alguma não abrio ? „ 

Isto he ser falto de memoria. Torna 
outra vez ás Ilhas de Cabo Verde , e 
dá ao Rei Mouro huma idéa da Ilha 
de S. Thiago desta guiza : — 

#, A'quella Ilha aportámos que tomou 
*i O nome do guerreiro S. Thiago y 



254 Censura das Lusíadas, 

3 , Santo que os Hespanhoes tanto ajudou 
,,, A fazerem noi Mouros bravo estrago. „ 

Olhem com que devoção ficaria o Rei 
Alouro ao Apostolo S. Thiágo ! 

Notandi sunt úbi mores , 

diz; o atilado fíoraciò , é se o Poeta 
não olha para isto , não faz senão par- 
voíces. Na Oit. 1 1 vem ( como he eru- 
dição Mythologica , vem por força), 
a fabula das três irmãs Dorcadas , que 
vião todas três por hum só olho , e' 
caminhando na Oit. 12 para o Austro , 
tornar a andar para trás , vem de no- 
vo á Serra Leoa , e ao Cabo das Pal- 
mas. Na Oit. 13 diz que passara ali- 
nha 3 onde o meio do Mundo he limi- 
tado , e isto depois de haver passado 
o limite onde o Sol chega para virar 
para o Norte. Isto não se entende. Na 
Oit. 18 Vem o fenómeno eléctrico que 
deixa luminosas por alguns instantes 
as pontas dos mastros. Os nossos ma- 
rujos lhe chamão S. Telmo , e Vas- 
co da Gama para fazer conhecer ao 
Mouro o que isto era lhe diz: — 



Quinto Canto. 255 

j, Vi claramente visto o lume vivo 

„ Que a marítima gente tem por Santo. „ 

Que idéa podia o Mouro formar com 
isto do prodígio que o Gama lhe con- 
tava ! Nesta mesma Oit. , ena 19, e 
20 lhe conta o ordinário fenómeno que 
Se chama tromba , que he a acção do 
vapor aquoso que sobe , e se incor- 
pora em a nuvem perpendicular para 
se desatar depois em hum grosso chu- 
veiro : 



„ No ar hum vaporzinho , e subtil fumo , 
„ E do vento trazklo , rodear-se. ,, 



Rodear-se de que? Que quer isto di- 
zer? Estender-se em roda não se ex- 
prime pelo termo rodear-se. 

3i Estava-se com as nuvens ondeando. „ 

Ondeâr-se com as nuvens não se sa- 
be o que he: 

„ Em cima delle huma nuvem se espessava. „ 

He comprido de riiais. Em sê extin- 



256 Censura das Lusíadas. 

guindo a columna de vapor , acabou- 
se a representação da tromba , ou man- 
ga ( como lhe chamâo os marujos ) que 
leva , ou eleva a agua. 

3i Porque com a agua a jacente agua molhe. „ 

He hum verso errado , jacente não he 
Portuguez . e molhar agua com agua , 
he chover no molhado , ou he troca- 
dilho de Freiras velhas. Na Oit. 25 
rica o sentido truncado , ou suspenso 
por falta de gramm atiça , e senão re- 
jão-se conforme as regras estes qua- 
tro últimos versos da mesma Oit. : 

,, E para que mais certas se conheçáo 

3i As partes tão remotas onde estamos , 

,, Pelo novo instrumento do Astrolábio 

3t Invenção de subtil juizo , e sábio. . . . „ 

O que ? Que flzerão ? Isto he o que 
falta na oração. Na Oit. 26 não falta 
senão memoria no Poeta para não fa- 
zer mentiroso o seu Heróe. Disse el- 
le na Oit 83 do Canto 2.° que leva- 
va em regimento do seu Rei que não 
devia saltar em terra senão na índia • 



Quinto Canto. 257 

e que por isso não hia visitar pesso- 
almente em seu Palácio a S. Mages- 
tade Moura , e a esta mesma Moura 
Magestade diz nesta Oit. 26 do Can- 
to ã.° : 

5 , Desembarcámos logo na espaçosa 

„ Parte por onde a gente se espalhou. „ 

E para provar que era verdade o que 
dizia de ter alli desembarcado , como 
mais depressa se apanha hum menti- 
roso que hum coxo ? lhe dá hum sinal 
certo de que com etfeiio fora á terra ? 
dizendo na Oit. 33 : 

„ Que esta perna trouxe eu dalli ferida. „ 

Não se fora lá metter , que ninguém 
o mandava , antes pelo contrario não 
devia hir ; porque lhe ordenara o seu 
Rei que não desembarcasse. Isto he 
verdadeiramente enjoativo . abater tan- 
to o Heróe que o mette em huma bri- 
ga de negros , nos quaes saltarão os 
da lancha com os croques ? e lamba- 
zes , a ponto de sahir da briga , como 
Tem. I. r 



1258 Censura das Lusíadas. 

elle diz , cem hum a perna escalavra* 
da ; se isto hão entendia o Mouro, de* 
vião entendello os leitores , e juígallo a 
Posteridade. Na Oit. 34 ha huma gran- 
de incoherencia , inadvertida até agia* 
ra , porque a mania Camoniana tem 
feito olhar para o Poema não com os 
olhos do exame , mas com õ êxtase da 
estúpida , e irreflexiva admiração. 

,. Da gente bestial , bruta , e malvada , 

,, De quem nenhum melhor conhecimento , 

j, Podemos ter da índia desejada 

i, Que estarmos inda muito longe delia. „ 

Pois era preciso preguntar isto aos ne- 
gros da Angra de Santa Helena ? O 
Gama não sabia que ainda não tinha 
dobrado o Cabo da Boa Esperança ? 
E os Pilotos não conheciao pelos ro- 
teiros já formados , e que èlles leva- 
vãó comsigo , que não tinhão chegado 
: onde chegara Bartholomeu Diâ&? De- 
via o Gama preguntar pela índia além 
do termo onde os precedentes navega- 
dores tinhão chegado. A Oit. 35 apre- 
senta hum daquelles quadros dê qlie 
diz o profundo Horácio: 

Scd non erat his hcvs. 



Quinto Canto. 259 

H« hum sotaque , e bum motejo da 
gente da proa , e que se deve ouvir , 
porque nem 09 ditos dos arrieiros , nem 
os dos marujos Portuguezes são para 
perder ; eu os oiço com reflexão , e 
observo alli hum singularissimo rasgo 
do caracter do miúdo povo Portuguez. 
Nem arrieiros Coimbrões , nem maru- 
jos se virão ainda melancólicos , sem- 
pre gracejão , ou estoirados de coices 9 
e estafados de andar, ou abraçados com 
huma taboa em hum naufrágio, e he 
grande aquelle animo , que nunca sé 
impacienta. 

„ O' lá Velloso amigo , aquelle oiteiro 
„ He melhor de descer, que de subir! 
,, Si he , { responde o ousado aventureiro) ; 
_,, Mas quando eu para cá vi tantos vir 
,, Daquelies cães , depressa hum pouco vim 
,, Por me lembrar , que estáveis cá sem mim. 3i 

He bello porque he verdadeiramente 
epigrammatico o sotaque : 

„ He melhor de descer , que de subir ! 

E não he menos epigtamm&tico o con- 
tra-sotaque : 

: , Por me lembrar que estáveis cá sem mim. „ 

R 2 



260 Censura das Lusíadas. 

Mas isto he bonito ouvido a bordo ? 
e não meltido na sustentada mages- 
tade de huma Epopéa de assumpto tão 
grave. Huma tremenda cunha vem no 
segundo verso da Oit. 36 : 

3 , Contão então , que tanto que passarão 

„ Aquelle monte , os negros de quem fallo, Jt 

Isto he o mesmo que dizer — como 
lhe vou contando; — he digna de se 
notar esta notável Oit. em hum Poe- 
ma Épico: 

,, Contou então , que tanto que passarão 
3i Aquelle monte, os negros de quem fu lio , 
>t Avante mais passar o não deixarão , 
,, Querendo , se não torna , alli matallo , 
,, E tornando-se , logo se emboseáráo , 
}i Porque sahindo nós para tomallo 
„ Nos podessem mandar ao Reino escuro 
íy Por nos roubarem mais a seu seguro. ,, 

Não se pckle eomprehender como isto 
se diria em prosa mais baixamente , 
ou como o contaria hum marujo gru- 
mete a outro grumete marujo ! Man- 
dar-nos ao Reino escuro ! Pois elle Ga- 
ma , e todos a eito devião hir para o 



Quinto Canto. 261 

Inferno ? Que outra coiza he o Reino 
escuro? Na Oit. 37, além da teimo- 
sa repetição dos — Mares nunca dou- 
trem navegados , vem huma notável con- 
tradição : 



j, Quando huma noite estando descuidados 
,, Na cortadora proa vigiando. 3i 



Como pode vigiar quem está descui- 
dado ? E como pode estar descuidado 
quem vigia ? Mas começa a appare- 
cer o tamanhão do Adamastor: sobre 
esta insensata Fantasmagoria existe im- 
pressa huma Dissertação minha , e se- 
ria bastante remetter os Leitores á con- 
templação daquelle Opúsculo , porém 
como esta mina he tão fecunda que 
nunca será bastanlemente explorada, hi- 
rão neste commentario occorrendo mais 
algumas reflexões. A Oit. 38 he bel- 
la, e tem, e terá sempre o sabor da 
boa Poesia ; porém na Oit. 39 come- 
cão a formigar as incoherencias do cos- 
tume. Fez o Poeta huma grande pin- 
tura da noite , a nuvem que tolda o 
Ceo, e que se estende por todo o Ho- 



262 Censura das Lusíadas. 

risonte do mar , he negra , he teme- 
rosa , he carregada , por tanto augmen- 
tava, ou duplicava a obscuridade nar 
tural da noite , não se poderião ver 
huns aos outros no convez , e tolda do 
navio; e como nos não diz que a fi- 
gura vinha illuminada, he não só in- 
verosímil , mas impossível que se po- 
desse devisar o Gigante ainda que 
maior que o estranhíssimo colosso de 
Rhodes , envolto como se nos diz , na 
mesma escura , e carregada nuvem a e 
se o total da figura não se podia de- 
visar , a que luz vio o Gama tanta 
miudeza? Só se dissermos que a luz 
do farol da Náo , como reflecte o Com- 
mentadcr Ignacio Garcez Ferreira. Se 
tão grande medo se assentou no co- 
ração de todos , que o Gama tremen- 
do implora a Potestade sublimada, co- 
mo he possível que ficasse com o ani- 
mo tão seguro , e olhos tão resolutos 
que pocesse ver que os cabellos do Gi- 
gante erão crespos , e alóm de cres- 
pos cheios de lerra? E sem abrir ain- 
da a brca para fallar como Le possí- 
vel que visse que era negra ; e que 



Quinto Canto, 263 

os dentes erão amareilos , ou por es- 
tarem cariados , ou por incúria do mes- 
mo Gigante , que sendo tão namora- 
do das. bellas tinha tao pouca curiosi- 
dade no asseio da boca ? Se o Gama, 
dissesse que daquella obscuridade sa- 
fria hunia voz sem saber de quem , por- 
que não via quem lhe fallava, e bra- 
dava espantosamente, e que esta voz 
lhe dizia o que o Poeta põe na boca 
<do Gigante , salvava-se a inverosimilham- 
ça , e conservava mais a illusão que 
se destróe de todo , e deita a perder 
o eífeito da visagem ; a vista , e as 
miudezas da figura tirada por feições 
fazem ridículo o que muito bem se 
podia aproveitar. O Poeta morre por 
descripções , e erudições. O Rei . que 
nem idéa teria de Colosso, quanto mais 
do Colosso de JEihodes , ficaria forman- 
do o justo conceito da estatura da cri- 
ança. Sem preparo algum , o Pregador 
4a nuvem começa a formidável aren- 
ga. Oit. 4* : 

5> Pois os vedados términos quebrantas , 
w E navegar ^pns longos mares ousas x 



264 Censura das Lusíadas. 

„ Que eu tanto tempo ha que guardo , e tenho , 
„ Nunca arados de estranho , ou próprio lenho. „ 



De quem seria esta propriedade , ou 
que Nação havia no Cabo da Boa Es- 
perança , que navegasse sem licença do 
Gigante? À quem se referia este — 
próprio lenho? — Isto ainda he pou- 
co. Creio que o Gigante Adamastor 
ou dormia longos somnos, ou se dis- 
trahia com o estudo dos Geógrafos an- 
tigos 9 a cuja lição se dava , como lo- 
go veremos. 

„ Nunca arados de estranho , ou próprio lenho. „ 

Onde estava mettido o Gigante Adamas- 
tor quando passou Bartholomeu Dias ? 
Não só passou , e tornou a passar , mas 
deo nome ao Cabo, que, julgado, ou 
dito até alli das Tormentas 9 ficou cha- 
mado o Cabo da Boa Esperança, que 
assim quiz EIRei D. João o segundo 
que se chamasse. Primeira mentira, 
ou primeiro descuido do Gigante Ada- 
mastor. Que mór injuria lhe fazia ago- 
ra Vasco da Gama, do que lhe tinha 



Quinto Canto. - 26 5 

feito Bartholomeu Dias? Todo o seu 
enfado he contra o Gama, como se a 
primeira desfeita não fosse maior que 
a secunda. Oit. 42 : 



b 



„ Ouve os damnos de mi que apercebidos , 

,, Estão a teu sobejo atrevimento 

,, Por todo o largo mar , e pela terra , 

„ Que inda has de subjugar com dura guerra. „ 

Quando o Gama lhe ouvisse estas pa- 
lavras devia aleerar-se , e dizer com 
os seus botões , ou alamares : — Falia 
para ahi quanto quizeres , alardêa ahi 
todos os ameaços , e feros que te pa- 
recerem , como eu hei de subjugar o 
mar , e a terra , que me importa a 
mim o que tu dizes , ou para que o 
dizes tu , se sabes que eu hei de hir 
com a minha por diante ? Oit. 43 : 

„ E da primeira armada que passagem 

,,, Fizer por estas ondas insoffridas , 

} , Eu farei de improviso tal castigo 

,, Que seja mór o dam no que o perigo. „ 

Já sabemos que faltaria sempre á sua 
palavra , e que quem muito ameaça 
pouco executa ; pois não sendo a do 



266 Censura das Lusíadas. 

Gama a primeira armada que por ai- 
]i passava , mas sim a de Bartholomeu. 
Dias , deixou-a passar sem lhe fazer 
mal nenhum. Sabemos que faz allusão 
ás treze velas com que devia passar 
em 1500 Pedro Alvares Cabral; mas 
essa não he a primeira armada, he a 
terceira. Mas embora se entenda a pri- 
meira depois da do Gama. Na Oit. 45 
dá a entender , que D. Francisco de 
Almeida soflreria muito na volta da ín- 
dia para Portugal , assim como se lem- 
bra do naufrágio de Manoel de Sousa 
de Sepúlveda na Costa da Çafraria; 
mas que tem isto com a primeira ar- 
mada? Se se ha de vingar destes que 
vierão depois , porque se não vinga do 
Gama , que vinha primeiro , e o tinha 
alli quieto, e parado, porque se não 
deixa cahir em cima delle, e o met- 
te no fundo ? Estava tudo acabado. Na- 
da. Deixa passar Bartholonieu Dias , 
deixa passar Vasco da Gama ; e qs que 
hão de vir depois devem pagar a ou- 
sadia, destes? Que me dizem á wico- 
herencia, ou ábelleza do Episodio Ada- 
mastor ? 



Quinto Canto. 267 

Tão cruéis , e sinistros agouros en* 
io o Gama , e rendo , que a coi^ 
za nào era tào medonha , ou vendo , co- 
mo homem forte, que sem perigo po- 
dia fallar a coizas más , que lhe ap- 
parecessem , como a conversa devia ser 
dilatada , marcando as velas se pôz 4 
capa , e lhe disse : 

,, Lhe disse eu , quem és tu , que esse estupendo 
,, Corpo , certo me tem maravilhado ? ^ 

O Gigante estava mais macio , e , co- 
mo quem seus males conta os alivia, 
responde : Oit. 50 : 

,, Eu sou aquelle occulto , e grande Cabo 

„ A quem chamais vós outros Tormentório , 

)y Que nunca a Ptolomeo , Pomponio , Estrabo , 

,. Plinio , e a quantos passarão, fui noiorio. „ 

Que diria o Gama com si 20 , os qv& 
dirião os da armada ouvindo estas pa- 
lavras ao da boca negra . e dentes ama- 
rellos ? Então o Cabo das Tormentas , 
e da Boa Esperança anda peles ares ? 
Nós devíamos passar á roda . e agora 
passamos por baixo ! Os Peoses tinhào . 



268 Censura das Lusíadas. 

assim he , transformado este Gigante 
em Cabo , como daqui a pouco elle di- 
rá , e contará ; logo só por força e po- 
der dos mesmos Deoses podia elle dei- 
xar de ser Cabo , e passar para seu 
antigo estado , e fallar ; porque se elle 
por sua vontade podesse deixar der ser 
Cabo para ser outra vez Gigante ha 
muito que o tinha feito. A mesma My- 
thologia que nos conta estas transfor- 
mações , não nos lembra , ou aponta hum 
só exemplo desta tornada para a an- 
tiga forma; hum Loureiro não tornou 
mais a ser Dafne , nenhuma cana foi 
Siringa ( excepto no Entrudo em mãos 
de rapazes), nenhum Cypreste tornou 
a ser Cyparisso , etc. Só o Cabo da 
Boa Esperança tornou a ser Adamas- 
tor 3 para papaguear , e compor a his- 
toria terníssima , e sentimental dos seus 
amores ; e assim por algumas horas fi- 
cou a Africa sem o seu Cabo austral, 
para hir ser outra vez o que tinha si- 
do, hum Gigante. 

A esta grande , e pasmosa incohe- 
rencia, se segue outra de não menor 
calibre , ou inferior quilate. A vasta 



Quiivto Canto. 269 

mstrucção deste Gigante transformado 
em monte no tempo da guerra dos Tí^- 
tanes , e a sua Leitura dos Geógra- 
fos antigos , mas por certo muito pos- 
teriores ásua transformação, Ptolomeo> 
Pomponio Mela , Estrabão , e PJinio o 
Naturalista: quando os lêo, antes, ou 
depois de ser Cabo da Boa Esperan- 
ça ? Se os lêo antes, elles não exis- 
tião , se os lêo depois , quem vio hum 
monte a ler ? Era função que eu não 
perdia ! No monte de Santa Cathari- 
na vi eu muitos a ler as Profecias do 
Preto do Japão, mas o monte a ler, 
isso ninguém vio. O Poeta quer pare- 
cer erudito , e com efíeito era erudi- 
to , e sabia tudo quanto de Humani- 
dades em seu tempo se podia saber, 
mas devia ser mais parco , e ecóno- 
mo de erudições , ao menos collocallas 
onde as devia collocar. Na Oit. 51 diz 
Adamastor quem era antes de ser Ca- 
bo: 

>, Fui dos filhos aspérrimos da terra , 
„ Qual Encelado , Egeo , e o Centimano ; 
,, Chamei-me Adamastor , e fui na guerra 
„ Contra o que vibra os raios de Vulcano ; 



270 Censura das Lusíadas. 

), Não que pozesse serra sobre serra , 

„ Míts conquistando as ondas do Oceano , 

J5 Fui Capitão do mar , por onde andava 

jí A armada de Neptuno que eu buscava. „ 

Este OíFicio de Adamastor , esta Pa- 
tente de Capitão Mor, ou Almirante, 
he a mais ridícula coiza que podia lem- 
brar aos miolos poéticos de Luiz de 
Camões. Que armadas teria Neptuno, 
quê Construcção naval seria a sua, 
que gente guarneceria as suas Náos? 
Se usaria já da artilharia ? Neptuno 
ínettido nas conchas êm seu Pakcio 
de vidro , onde depois foi Baccho fazer 
com elle hum Tratado oífensivo con- 
tra o Gama , vindo de vez em quan- 
do no seu carro com seu Tridente na 
jiiao accommodar as ondas quando ha 
barulho , apparecendo , e desapparecen- 
do em qualquer ponto de seu dilata- 
do império , o Oceano , que necessida- 
de tinha de armada , para que , e con- 
tra quem ? E a Na' o grande em que 
devia hir Adamastor como Capitão do 
mar , de que tamanho séria ? Por c^r- 
ío tinha maior quilha que dez Náos 
Hibernías , ou Cidades de Paris redu- 



Quinto Canto. 271 

zidas a huma ! Vgâ© se apanhasse lá 
La Trinidad. ou Èl médio Mundo , que 
nós aqui vimos ; onde hiria a armada 
de Neptuno que elle buscava ! Pois se 
elle pilhasse para Contra-iUestre J\ía- 
zarredo , e Arribas 3 e Cabarruz para 
Sobre-Cargâs ? . . . 

Risum teneatis , amici ? 

Como não era hum Deos marinho , por 
força havia andar embarcado , e o que 
he mais de admirar . he que Neptu- 
no se retirasse ? e não buscasse occa- 
sião de lhe ofierecér o costado \ e al- 
cançar de Adamastor huma victoria 
nõ mar, como seu irmão Júpiter a ti- 
nha alcançado no Ohmpo contra os 
irmãos de Adamastor , que era dos fi- 
lhos aspérrimos da terra , e teve sem- 
pre propensão para o corpo da Mari- 
nha. Ah ! que se elle apanha huma 
Patente de Corso assignada pelo Ar- 
tigas , a Deos Commercio , ouem to- 
maria chá> porquê nâ volta de Macáo 
tudo lhe vinha cahir nas unhas , e tu- 
do seria reputado boa preza no Almi- 



272 Censura das Lusíadas. 

rantado dos Gigantes. Deixemos iro- 
nias , e tratemos da historia amorosa 
deste tamanhão , já que nem elle se 
envergonhou de a contar , nem Vasco 
da Gama de a repetir. Oit. 52 : 

,, Amores da alta esposa de Pileo 
„ Me flzerão tomar tamanha empreza : 
,, Todas as Deosas desprezei do Ceo , 
J9 Só por amar das aguas a Princeza: 
,, Hum dia a vi co' as filhas de Nereo, 
„ Sahir nua na praia w 

Todas as mulheres se vestem para sa- 
hir fora, Thetis não seguia esta mo- 
da, mas eu creio que ella não anda- 
ria vestida pelo fundo do mar , por- 
que se molhava toda, era mais natu- 
ral que andasse por lá nua, eque quan- 
do ejuizesse dar o seu passeio , e sen- 
íar-se 

J} N*kum penedo na praia de Caxias if 

posesse ao menos hum chalé de ca* 
chemira pelos hombros. Vasco da. Ga- 
ma por certo era hum Gentio , pois 
ouvia , e assoalhava depois todas es* 
tas patranhas. Oit. 53 : 



Quinto Canto, 273 

í, Como fosse impossibil alcançalla 

„ Pela grandeza feia do meu gesto. ,, 

Pois hum Gigante que chega a con- 
fessar de si mesmo que era hum vi- 
vo Diabo de figura , e como tal o re- 
presenta , e o tinha visto Vasco da Ga- 
ma, 

,, Cheios de terra , e crespos os cabellos , 
,, A boca negra , os dentes amarellos. ,, 

che^a a dizer com tanta bazofia na 
Oit. precedente 

j, Todas as Deosas desprezei do Ceo * ,, 

Logo morriâo éllas de amores pôr es- 
te Adónis , por este Ganimedes ; só 
Thetis o despreza a elle ! Para dizer- 
mos que era por ser casada com Pe- 
leo, 

„ Amores d'alta Esposa de Peleo , }) 

e que queria ser fiel a seu marido , 
como o devem ser todas as mulheres 
Tom, L s 



274 Censura das Lusíadas. 

casadas , esta razão não vale , porque 
não constando que lhe tivesse morri- 
do o marido , passa a segundas núpcias 
com Vasco da Gama 

„ Com palavras formaes , e estipulantes. ., 

E isto ainda he mais criminoso, que 
o furtivo galanteio com Adamastor, 
que podia passar em silencio com a 
boa alcoviteira que tinha na sua ami- 
ga Dor is : 

,, Huma noite de Doris promettida. ,, 

Esta mesma Oit. 53 acaba com hum 
tom epig rammatico , que não exclúe por 
certo as nossas maliciosas intelligen- 
cias , porque em fim , nós somos máos , 
e o século em que existimos he de 
muita penetração, e sobeja viveza, e 
a coiza não he muito própria de hum 
Poema Épico : 

„ Respondeo ; qual será o amor bastante 
„ De Ninfa , que sustente o d'hum Gigante ? „ 

j 

Ora a desproporção era muito grande ; 



Quinto Canto. 275 

vamos adiante. Esta Theíis tinha suas 
respostas prenhes. es'e desdém do fim 
da Oit. 53 , e a resposta da Oit. 54 
tem seu saber de Aladama Stael , e ou- 
tras, que nós conhecemos , grandes Dou- 
toras : 

,, Comtudo , por livrarmos o Oceano 

,, De tanta guerra , eu buscarei maneira , 

}) Com que- com minha honra escuse o dam no. „ 

Ora o Gigante Adamastor , que ante- 
via os casos futuros : e contingentes 
para os annunciar ao Gama ? nào te- 
ve intelligencia , e penetração para co- 
nhecer o equívoco da resposta . e o 
mono que as duas lhe tinhao destina- 
do pregar r As mulheres são capazes 
de enganar hum Santo , quanto mais 
o Brutamontes do delambido Adamas- 
tor : 

,, Eu que cahir não pude neste engano, 
„ Enchêrão-me com grahcfès abundanças 
„ O peito de desejos , e esperanças. 93 

A Oit. 55 tem hum ar de torpeza ínr- 
próprio da decência de huma Epo- 
péa í 

5 2 



276 Censura das Lusíadas. 

„ Huma noite de Doris p-romettida 
}) Me apparece de longe o gesto lindo 
if Da branca Thetis , única , despida. „ 

Se Thetis , esta mesma Thetis , era a 
Sabedoria Divina . como sacrilegamen- 
te querem alguns dos Commentadores do 
Poeta , e todos os Confrades da gran- 
de , e espalhada Congregação Camo- 
niana ; como podia apparecer ao Gi- 
gante em tal figura , a taes horas , em 
tal estado , e para tal fim ? Descobre- 
se neste tracto lascivo alguma sombra 
de Àllegoria , como querem encontrar 
em Thetis os Commentadores do Can- 
to 9.° , e os Confrades da Conspiração 
Camoniana? A Oit. 56 ainda vem afor- 
moseada com mais huma monstruosa 
incoherencia : 

j, Oh ! que não sei de nojo como o conte ! 
3 , Que crendo ter nos braços qnem amava , 
_,, Abraçado me achei c'hum duro monte , 
3 , De áspero mato , e de espessura brava : ,, 

Aqui temos outra transformação sem 
ser a de Adamastor. Thetis.se trans- 
forma tambemi em duro monte de áspe- 
ro mato ? e abraçou-se o asno com a 



Quinto Canto. 277 

ameixieira. Que Adamastor nào íicou 
transformado ainda em Cabo , mas sim 
Thetis em monte , se collige da Oit. 
57 : 

)3 Daqui me aparto irado , e quasi insano 

,, Da magoa , e da deshonra alli passada , 

,, A basear outro JMundo onde não visse 

,, Quem de meu pranto , e de meu mal se risse. ,, 

Foi Adamastor para o outro Mundo, 
e ainda tornou cá para apparecer ao 
Gama. Chega finalmente a hora min- 
goada da transformação do Gigante em 
Cabo : 

,, Em fim , minha grandíssima estatura 
J} Neste remoto Cabo converterão 
_,, Os Deoses. ,, 

E quem o fez agora deixar de ser Ca- 
bo . para ser Gigante , e failar nos ares > 
mettido nas cortinas de huma nuvem , 
a Vasco da Gama o forte Capitão? Vi- 
nhão a ser dois Adamastores , hum Ca- 
bo , figura que não falia , outro Gigan- 
te que tanto tem papagueado. Se na 
mão do Cabo estava íazer-se outra vez 
Gigante ? porque razão o não tinha fei- 



278 Censura das Lusíadas. 

to até agora \ até para evitar o insul- 
to , e re vindicta de Thetis em lhe an- 
dar molhando os pés ; 

„ Me anda Thetis cercando destas aguas ? ,, 

Ora foi- se o Gigante metter outra 
vez no Cabo , sem ter vindo a outra 
coiza mais que a contar a Vasco da 
Gama o gatazio , ou surra que The- 
tis lhe tinha pregado ; pois vemos que 
dahi a nada amanhece, e que Vasco 
da Gama se vai embora são, e escor- 
reito. Porém o que ha de mais pas- 
moso , ridiculo , e extravagante em to- 
das as Lusiadas , são os quatro últi- 
mos versos da Oit. 60 : 

3i Eu , levantando as mãos ao Santo Coro 

j, Dos Anjos , que tão longe nos guiou , 

3 , A Deos pedi , que removesse os duros 

„ Casos que Adamastor contou futuros. „ 

Dirige- se Vasco da Gama a Deos ver- 
dadeiro, e implora o auxilio dos An- 
jos da Guarda, que até alli o havião 
guiado. Logo o Gama cria verdadeira- 
mente no apparecimento do Gigante , 
e reconhecia-lhe o dom de profecia em 



Quinto Canto. 279 

o annúncio dos casos futuros ! E o Ga- 
ma não era Christão ? Invocar a Deos 
para remover os ameaços de huma fa- 
bula? He muito indecoroso a humHe- 
roe tal como este illustre navegador 
enganar desta maneira hum Rei S lou- 
ro, inimigo, por Lei, das fabulas do 
Paganismo , e mais indecoroso \ ter di- 
to que seguia a Lei de Christo , e mos- 
trar que simultaneamente admittia as 
quimeras do gentilismo. Qualquer Agen- 
te em hum Poema . muito principal- 
mente se he sobrenatural ; deve obrar 
por algum fim \ e apparecer em sce- 
na por alguma causa final , ou effici- 
ente ; para que veio aqui o Gigante 
Adamastor? Tudo o que obra em hum 
Poema , deve apressar . ou retardar a 
acção, e a conclusão cfd mesmo Poe- 
ma : em que retarda , ou apressa Ada- 
mastor a conclusão do descobrimento? 
Falia hum pouco a Vasco da Gama, 
conta-lhe a historia de seus amores , 
e sem esperar pela resposta , desappa- 
rece ! Não só he inverosímil . mas abso- 
lutamente inútil , e ocioso o Episodio 
do Adamastor. 



280 Censura das Lusíadas. 

A Oit. 61 emprega-se em dizer que 
dobrarão o Cabo , sem que Adamastor 
curasse da vingança , ou punisse o atre- 
vimento , e vâo costa acima da Cafra- 
ria , e tomâo terra segunda vez. Não 
pode ser mais miúdo o roteiro de hum 
Piloto ! Tiradas do Poema as Oit. inú- 
teis ficava reduzido a coiza nenhuma. 
A alta Poesia considera as coizas em 
grande 5 e não desce a particularisa- 
çoes que o mesmo Historiador debai- 
xo do depoimento de fiéis testemunhas 
deve omittir. A Oit. 62 tem o se^un- 
do verso tão errado que faz vergonha . 
e o Poeta não deve alterar o valor . 
breve 9 ou longo das syllabas : 

}) A gente que esta terra possuia , 

„ Posto que todos Ethiopes erao . . . 

„ Pela praia arenosa a nós vierão , 

„ As mulheres comsigo , e o manso gado , 

,, Que apascentavão , gordo , e bem criado. „ 

Esta circunstancia do gado gordo , e 
bem creado, he verdadeiramente Ho- 
mérica ! He preciso não deixar passar 
nada em objectos tão attendiveis. Que 
vem fazer na Epopéa a magreza, ou 



Quinto Canto. 281 

a gordura do gado vaccum dos Hotten- 
totes? A Oit. 63 he digna de memo- 
ria eterna : 

j, As mulheres queimadas vem em cima 
3i De vagarosos bois. . . . ,, 

Mulheres queimadas! He verdade que 
isso merecia ser a maior parte delias. 
A còr dos pretos provém nâo da ac- 
ção do Sol ardentissimo sobre a cútis , 
mas de certa configuração do epider- 
me, como está demonstrado em Ana- 
tomia. Pode hum homem estar tosta- 
do , ou queimado do Sol , porém isso 
não o constitúe essencialmente preto , 
nem o constitúe na espécie do homem 
nocturno , como se explica Linneo. Os 
Hottentotes são negros , não são quei- 
mados , e por mulher queimada nun- 
ca se entenderá huma Preta ainda que 
seja pingada. 

i3 Cantigas pastoris em prosa , ou rima 
9i Na sua língua^ cantão concertadas , 
„ Co' o doce som de rústicas avenas 
„ Imitando de Tytiro as Camenas. )y 

Com effeito nunca lembrou a Vireiliò 



282 Censura das Lusíadas. 

que acharia entre os Poetas Hottento- 
tes imitadores da sua Bucólica Poesia ! 
E serião os Hottentotes da casta do ó 
imitatores servum pecus de Horácio ? 
Não; aquillo erão imitações livres. Mas 
que idéa faria o Rei Mouro de Me- 
linde das Camenas de Tytiro? Ainda 
que isto seja Latim , para elle era ver- 
dadeiramente Grego. O canto , ou vo- 
zeria dos Hottentotes nâo passão de 
sons inarticulados , e chama Luiz de Ca- 
mões a isto huma imitação das Eglogas 
de Virírilio ! ! ! Ponderemos a Oit. 64: 

,, Estes como na vista prazenteiros 

,, Fossem, humanamente nos tratarão, 

„ Trazendo-nos galinhas, e carneiros, 

j, A troco cToutras peças que levarão : 

,, Mas como nunca em fim meus companheiros, 

., Palavra sua alguma lhe alcançarão 

} , Que desse algum sinal do que buscámos , 

„ As velas , e as ancoras levámos. ,, 



Depois desta prosa copiada de Casta- 
nheda , he bem de notar . que não en- 
tendendo os Portuguezes huma só pa- 
lavra, ou uivo dos Hottentotes , como 
podião conhecer que o que elles di- 
zia o ; ou cantavão era huma imitação dai? 



Quinto Canto. 283 

ogas c!e Virgílio? Isto, que nós não 
entendemos , são as Can.enas de Ty- 
tiro! AOit. 65 descobre huma mentira 
do Gama : 

„ Aquelle Ilheo deixámos aonde veio 
_,, Outra armada primeira que buscava 
,, O Tormentório Cabo. ,, 

Pois não tem dito ate" aqui o Gama , que 
viera — 

,, Par n ares nunca cToutrem navegados ? 

Agora diz que já tinha vindo outro Na- 
vegador. As Oit. £6 . e 67 são em boa 
prosa roteiro de. viagem. Ora descahia 
a armada a ré , ora hia avante com ven- 
to fresco, em popa . á bolina, ou a hu- 
ma larga. IN a Cit. 68 se dizem coizas 
da ultima obscuridade para o Rei a 
quem se contavào. Transcrevamos: 

it Trazia o Sol o dia celebrado 
,, Em que três ReÍ9 das partes do Oriente 
,, For3o buscar bum Rei de pouco nado ; 
„ No qual Rei outros três ba juntamente. „ 

Então erão quatro , porque três , e mais 



284 Censura das Lusíadas. 

hum , em todas as Taboadas são qua- 
tro: 

,, No qual Rei outros três ha juntamente. ,, 

Porque se elle quer aqui entender , e 
explicar ao Mouro as Pessoas da San- 
tíssima Trindade , não são mais do que 
três , nem nunca forão ; o Pai que ge- 
rou o Filho , e o Espirito Santo que pro- 
cede do Pai , e do Filho , como nos diz 
o artigo do symbolo de Nicea : Qui a 
Patre , Filioque procedit. O Rei recém 
nascido era o Filho de Deos , e no fi- 
lho de Deos pela unidade da Essência 
Divina que he só huma em trez Pes- 
soas distinctas , estava o Pai , e o Es- 
pirito Santo que erão dois ? e não erão 
trez os que estavão no Rei de pouco na- 
do. O Poeta J ainda que Principe de Poe- 
tas , era muito fraquinho Theologo ! 

Os escrupulosos em cacofonias tem 
muito com que se divertir, e consolar 
na Oit. 6 9 , que não preciza de mais 
commentarios , que a leitura do segun- 
do verso : 

„ Desta gente refresco algum tomámos , 

„ E do rio fresca agua P mas comtudo . . . „ 



Quinto Canto. 285 

Podem refrigerar a sede da admiração , 
e dos applausos com esta pinga de agua 
fresca , e molhando a palavra continuar 
na salmodia do costume : zzr Louvores 
sejâo dados ao Divino Camões ! rz Nas 
Oit. 70, 71, 72 nada ha notável, por- 
que são de classe dos Roteiros de via- 
gem , o ultimo verso da Oit. 73 me fez 
pasmar , porque em fim chegou o tem- 
po de ler as Lusiadas com a attenção 
que dá o despique , e a desforra de tan- 
tas injurias com que frenéticos insipi- 
entes me tem atacado com tanta vile- 
za , quanta era a mingoa de razão em 
tão despreziveis vermes , que confundi- 
dos , e espezinhados no lodo em que vi- 
vem, qualquer luz que appareça os des- 
lumbra , e dezespera. 

,, Que a costa faz alli daquella banda 
„ Donde a rica Sofála o ouro manda. „ 

A quem mandava Sofála o ouro neste 
momento em que Vasco da Gama dava 
conta de sua viagem ao Rei de Melin- 
de ? Ao Rei de Melinde não , porque 
isso não sabia o Gama ; nem Sofála era 



286 Censura das Lusíadas. 

tributaria, nem conquista de Melinde. 
Além disto que demora teve Vasco da 
Gama em Sofála , onde não entrou pa- 
ra conhecer que aquelJe paiz , asáim co- 
mo os rios de Sena erão abundantes em 
minas de ouro? Este mandado ouro de 
Sofála , não se refere , nem pode referir 
senão a Portugal 5 e quantos annos de- 
pois do descobrimento , e estabeleci- 
mento na índia se estabelecerão, e íir- 
márão as conquistas naquella porção da 
costa oriental da Africa ? Com as pá- 
reas de Ormuz , conquistada por Aífòn- 
so de Albuquerque, veio a este Reino 
o primeiro ouro de que EIRei D. Ma- 
noel mandou fazer a coroa da Senhora 
do Espinheiro , que está em Évora , e 
a custodia que ainda se conserva no 
Mosteiro de Belém ; e Vasco da Gama , 
que chega a Melinde em demanda da 
índia já diz que a rica Sofála manda 
ouro a Portugal ! Estes descuidos , des- 
temperos , ou parvoíces divinizão bem 
as Lusíadas , e o seu Autor ! ! Oit. 74 : 

)t Esta passada , logo o leve leme 
„ Encomendando ao sacro Nicoiáo. ,, 



Quinto Canto. 287 

Seja embora isto da mais alta Poesia , 
tenha mais que a magestade Estacia- 
na,ea polidez Virgiliana ; por ventu- 
ra este louvável costume dos nossos an- 
tigos marujos era conhecido do Rei Mou- 
ro de Melinde ? Com que edificação do 
Monarca se lembra aqui o nome de S. 
Nicoláo! E com que devoção lhe fica- 
ria elle para o bom successo dos seus 
navios, se os tivesse! A Oit. 77 apre- 
senta hum daquelles versos , que com 
tanta frequência de espaço a espaço vão 
pespontando , e aformoseando as Lusia- 
das. 

-,, Dizem , que por náos que em grandeza igualão. Jf 

Que orelhas acharáo aqui cumpridas , 
e desempenhadas as severas Leis do me- 
tro ? Na edição de J. F. Barreto lê-se : 
~ Nos dizem que por náos que estas 
igualão. zz Nas Oit. 81 , e 82 vem a 
moléstia de escorbuto ; sem cuja rela- 
ção miúda se não podia passar em hum 
Poema Épico de assumpto tão grave . ] 
Na Oit. 85 o Leitor vê terra, e algu- 
ma coiza descança, porque he o rema- 



288 Censura das Lusíadas. 

te, e o passo para a peroração da com- 
prida, ou interminável arenga em que 
o Rei por certo teria dormido 5 e ron- 
cado a som no solto : 

„ Nos deste ; e vez aqui , se attento ouviste , 
,, Te contei tudo quanto me pediste. _,, 

Por certo que se elle soubesse que lhe 
havia dar tão bom mercado , não lhe 
pediria tanto. He muito sincera , e ao 
mesmo tempo muita erudita , e são mui 
bem allegados os exemplos da Oit. 86 ! 

,, Crês tu, que tanto Eneas , e o facundo 
,, Ulysses pelo Mundo s'estendessem ? 
,, Ousou algum a vêr do mar profundo , 
yi Por mais versos que delle se escrevessem , 
,, Do que eu vi , a poder d'esforço , e arte , 
,, E do que inda hei de vêr , a oitava parte ? } , 

A conta he boa de fazer , mas quem deo 
idéa ao Rei de Melinde das navegações 
de Eneas ? e de Ulysses pelo Mediter- 
râneo para as cotejar , e comparar com 
as de Vasco da Gama , e conhecer , que 
as deste erão muito mais dilatadas? 

., Por mais versos que delle se escrevessem. „ 



Quinto Canto. 289 

Pois escrever muitos versos de hum ho- 
mem he motivo para suas longas nave- 
gações ? Em fim assevera o Gama que 
nem a oitava parte do que elle andou ? 
e vio , andara , e vira algum mortal que 
o precedesse , quando elle só vira de no- 
vo o que vai do Ilhéo da Cruz até Me- 
linde, porque o mais já tinha sido vis- 
to até este ponto , pelos que começarão 
os descobrimentos ao longo da costa Oc- 
cidental da Africa desde os dias do 
Infante D. Henrique até Bartholomeo 
Dias , que avançou mais que todos , e 
só menos que o Gama , porque em fim 
estava . e fallava em Melinde. As Oit. 
87. 88 , e 89. erâo para acabar decan- 
çar , e moer a paciência do Rei de Me- 
linde com as para elle incógnitas fabu- 
las da Odvsséa. Oit. 90 : 

,, Da boca do facundo Capitão 

3i Pendendo estaváo todos embebidos , 

„ Quando deo fim a longa narração, } j £ " l ' ! 

n 
Sempre a verdade obrigou o Poeta a 
confessar que era longa. E com effeito < 9 
333 Oit. de Embaixada . . . e para que P 
Para haver hum Piloto que o levasse á 
Tom. I. t 



290 Censura das Lusíadas. 

costa do Malabar. E o peor era não ser 
aquelle o Rei que buscavão , nem este 
o fim da viagem , mas hum mero acci- 
dente, e casual encontro de hum porto 
na Africa que nâo era o objecto, nem 
o termo da expedição. A idéa da gran- 
deza do Reino , e da sua Historia mili- 
tar, e politica, só devia ser dada , e 
contada ao Monarca Indiano , com o 
qual se devia firmar a alliança , e não 
ao Régulo Africano , que por acaso en- 
contrão, fallando-lhe apenas dentro de 
hum batel no meio do mar, onde era, 
e he inverosimil , que o Gama podesse 
repetir tão comprida arenga , e que o 
Rei sem a entender, tivesse a paciên- 
cia de a ouvir. Este he o maior erro 
das Lusíadas. Eneas repete a Historia 
da tomada de Tróia a huma Rainha, 
que o recebia , e agazalhava , e tinha 
chegado alli naufrago , e desbaratado , 
e era preciso , que lhe desse conta de 
quem era. 

As quatro Oit. desde 95 inclusive 
até 98 não são próprias da Epopéa , 
não entra p seu conteúdo na marcha 
da acção , porque estão fora delia , e 



Quinto Canto. 291 

muito menos a Oit. 97 que envergo- 
nha a Nação: 

,,, Em fim , não houve forte Capitão , 
s , Que não fosse também douto , e sciente 
,, Da Lacia , Grega , ou barbara Nação , 
„ Senão da Portugueza tão somente. ,, 

A Nação Portugueza n £o deixou de 
ter fortes Capitães , e doutos ? e sei- 
entes ao mesmo tempo; até o Princi- 
pe dos Poetas mostra o contrario , e 
se contradiz . dando tanta sciencia . e 
erudição ao seu Heroe , quanta até 
agora tem assoalhado, não só na ex- 
posição da Historia de Portugal , mas 
na mistura contínua que com ella faz 
da Historia antiga , e Romana nos fa- 
ctos mais particulares . e sobre tudo 
no recôndito conhecimento da Mytho- 
logia Pagã. Tão ignorante era o In- 
fante D. Henrique ? O primeiro que 
na Europa applicou a Astronomia á 
Navegação , e instituio , e abrio hum a 
escola de Mathematica em Sagres , a 
que chamou os homens mais doutos da- 
quelle tempo , entre outros os dois fa- 
mosos Mathematicos Judeos , José , e 






292 Censura das Lusíadas. 

Rodrigo? Tão pouco instruído era na 
Cosmografia , Hydrografia , e Astrono- 
mia Fernando de Magalhães , e Fran- 
cisco Faleiro ! Affonso de Albuquer- 
que , e D. João de Castro erão igno- 
rantes ? António Galvão era pouco ins- 
truído? Oiçamos a Oit. 98: 

t> Mas o pior de tudo he que a ventura , 

3> Tão ásperos os fez, e tão austeros, 

j, Tão duros, e de engenho tão remisso, 

3i Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso. ,, 

Não se pôde injuriar mais huma Na- 
ção , nem dar de seu caracter huma idéa 
mais odiosa , e isto a hum homem a 
quem tanto se tinhão exagerado as 
grandezas de Portugal ! 

As Oit. 99 , e 100 vão descobrir 
hum arcano que fará emudecer a per- 
tinacíssima Seita ? que julga as Lu- 
síadas hum perfeitíssimo Poema Épi- 
co: 



5y A's Musas agradeça o nosso Gama 

j, O muito amor da Pátria que as obriga 

j, A dar aos seus na Lyra nome , e fama 

} , De toda a illustre, e bellica fadiga : 

J9 Que elle , neta quem na estirpe «sen se chama , 



Quinto Canto. 293 

,, Calliope não tem por tão amiga , 

j, Nem as filhas do Tejo , que deixassem 

}i As telas douro fino , e que o cantassem. }} 

Logo o Principe dos Poetas aqui mes- 
mo prova, que não quiz cantar o Ga- 
ma . porém só os feitos dos Portugue- 
zes. Tudo se encaminhava a tecer a 
Historia Poetico-Episodica das acções 
dos Portuguezes na índia , a que era 
principio a navegação de Vasco da Ga- 
ma , e esta penúltima Oit. do Canto 
quinto } he o Commentario , e a ex- 
posição mais litteral . e mais ampla do 
primeiro verso do mesmo Poema : — 

3 , As armas, e es Varões assignalados. ,, 

O que de nenhuma sorte compete a 
Vasco da Gama - ou delle se pode en- 
tender : e para se conhecer , e accla- 
rar isto ainda mais. e excluir do nú- 
mero das Fpopéas o Poema das Lu- 
síadas , basta que se leião os primei- 
ros quatro versos da ultima Oit. des- 
te Canto : 

3J Porque o amor fraterno , e puro gosto 
n De dar a todo o Lusitano feito 



294 Censura das Lusíadas. 

„ Seu louvor _, he somente o presupposto 
„ Das Tágides gentis , e seu respeito. „ 

Não era puramente a expedição de 
Vasco da Gama, era todo o Lusitano 
feito o objecto em que destinou em- 
pregar-se a Musa de Luiz de Camões , 
que depois de lembrar a EIRei D. Se- 
bastião os Heroes que devia cantar, 
accrescenta : — 



}9 Dou-vos também aquelle illustre Gama , 
„ Que para si de Encas toma a fama. „ 

Vindo por isto a ser como hum addi- 
tamento , hum accessorio , e não o He- 
roe principal do Poema , a quem o 
Poeta na l. a , e 2 a edição do anno de 
1572 não deo o titulo nem de Epo- 
péa .> nem de Poema Épico , o que dá 
bem a conhecer a sua intenção. Os 
Commentadores , que vierão depois, 
lhe derão o titulo de Poema Épico, e 
a nova Seita Camoniana o classifica 
acima de tudo quanto a antiga , e mo- 
derna idade tem produzido mais per- 
feito. 



Quinto Canto. 295 

Tenho concluído o primeiro Volu- 
me da Censura, que comprehende me- 
tade do Poema , isto he , cinco Can- 
tos. Como aos dictames da boa razão 
se não pode oppôr mais do que o fu- 
ror, e a cegueira da pertinácia, não 
se esperem mais do que latidos , que 
vem a ser manifestas injurias. O que 
eu faço a Camões íizerão antes em 
França Freron , e Baumelle á célebre 
Henriada de Voltaire : existe a edição 
em 4,° que he o Commentario perpe- 
tuo ao texto que apresentão em cima 
das notas. Descobrirão no meu Com- 
mentario maior acrimonia ; mas em 
mim existe maior razão para o fazer. 



Fim do primeiro Volume. 



ÍNDICE 
Do Volume primeiro. 



Introducção. Pag. 3 

Censura do Canto L 13 

do Canto II. 90 

do Canto III. 134 

do Canto IV. 204 

— do Canto V: 248 



CENSURA 



DAS 



LUSÍADAS 



POR 



JOSÉ' AGOSTINHO DE MACEDO. 



Tolluntur iu ai tu ai , 

Ut lapsu graviore ruant. 

Claud. 



TOMO II 




LISBOA: 

NA IMPRESSÃO REGIA. Anno de 1820. 



Com Licença» 



. 






)■ ■ ■^■■J. » ■■ ' — 1— 



CENSURA 

DAS 

LUSÍADAS- 



SEXTO CANTO. 

CoIuando se contempla a marcha pro- 
gressiva do Poema das Lusíadas , se 
descobre huma lambem progressiva , e 
sensivel diminuição da faculdade imagi- 
nativa do Poeta, He verdade que em o 
6.°, 7.°, e 8.° Cantos, pouco se aparta na 
parte narrativa do que tinhao escrito 
Fernão Lopes , João de Barros , e Jero- 
nymo Osório , como notarão os três mais 
espraiados Commentadores do Poema, 
Manoel Corrêa , contemporâneo do Poe- 
ta , e Parroco da Freguezia de S. Se- 
bastião da Mouraria, onde elle morou, 

A 2 



4 Censura das Lusíadas 

Manoel de Faria e Sousa, e Ignacio 
Garcez Ferreira ; transcrevendo as pas- 
sagens destes Historiadores que o Poe- 
ta trasladou Ião escrupulosamente, que 
apenas difTerem nas similcandencias , ou 
simildesinencias que era preciso dar ao 
que se chama versos. Continua com o 
mesmo maravilhoso , ou sobrenatural ab- 
surdo, mas com hum tom intercaden- 
te , e moribundo , e quanto mais se vai 
avançando, mais vão crescendo as im- 
propriedades , os erros , e as incoheren- 
cias. Eu não intentei seguir nesta cen- 
sura mais que os dictames da boa ra- 
zão , na qual se fundão todas as regras, 
e todos os preceitos , ou documentos da 
arte, e por isso não se verá em meus 
discursos , e reparos , o amargo fel da 
Satyra, mas a severidade, e a gravida- 
de da Critica , que só reprova o repre- 
hensivel , e nota o defeituoso. He hum 
trabalho de grande momento , e pon- 
deração , e ainda que eu lhe misture 
em alguns lances a desforra própria , 
em tudo se continuará a ver o cunho da 
imparcialidade ; nem poderei ser taxado 
de. injustiça ? onde a razão he pública, 



Sexto Canto, 5 

e a verdade manifesta. A mais própria 
funcção de hum Filosofo he destruir 
os erros populares . e as preoccupações 
arreigadas , e successivas. He louvável 
o amor da Pátria , e da gloria nacio- 
nal, mas he preciso que este seja dis- 
creto, e não cego e pertinaz. He hum 
Patriotismo mal entendido, e muito vi- 
cioso aquelle que suíToca os gritos , ou 
os clamores da verdade. Aristarco não 
deslustrou a Grécia, quando rectificou a 
opinião pública a respeito de Homero, 
nem nos nossos dias , como podemos di- 
zer, o celebre Pedro Daniel Huet des- 
lustrou a França, ou diminuio alguma 
coiza do seu esplendor, quando tão se- 
veramente censurou a Filosofia de Des- 
cartes ; e fazer desvanecer o systema 
dos Turbilhões como huma quimera , 
não he roubar á Fama , e á immortali- 
dade o Tratado de Methodo , ou a en- 
genhosa , e precisa applicação da Ál- 
gebra á Geometria , que tanto engran- 
decerão , e ainda conservão , e conser- 
varão respeitável na Republica das Le- 
tras o nome , e a memoria de tão abali- 
zado Filosofo, que mostrou que as Sum- 



6 Censura das Lusíadas 

mulas de Aristóteles não erão o Crite- 
tío da verdade, nem a sua adulterada 
Dialéctica a verdadeira vereda , que 
devia seguir o Entendimento na inqui- 
rição, ou indagação da verdade. Luiz 
de Camões he muito digno de respeito , 
e de louvor, foi o primeiro que entre 
nós arquitectou hum Poema Heróico, 
aperfeiçoou , e adiantou muito a lingua . 
he o mais polido dos Escritores de seu 
tempo, e felizmente atrevido na intro- 
ducçâo de novos termos com que muito 
enriqueceo a lingua ; mas tudo isto não 
tem mais poder que a verdade quando 
se trata de seus erros , e imperfeições ; 
e não sei se he pertinácia, se he de- 
mência em muitos quererem que todo 
o Mundo o julgue impeccavel. Que Es- 
criptor o pode ser, se hum Escriptor 
he hum homem ? Na classe dos Poemas 
Épicos , sempre se julgou o mais per- 
feito a Jerusalém de Tasso , e nem por 
isso deixou de o censurar a Academia 
da Crusca , e esta censura fez tanto pe- 
zo no juízo daquelle grande homem , e 
grande Poeta , que o obrigou a refor- 
mar o Poema. Ora qual dos dois Poe- 



Sexto Canto. 7 

mas terá maiores defeitos, a Jerusalém, 
ou as Lusiadas ? A censura os desco- 
brio em os primeiros cinco Cantos , a 
censura os vai revelar em os cinco últi- 
mos j e muito mais notáveis , pois me 
parece que o Poeta sentia huma espécie 
de cançaço , quanto mais hia cami- 
nhando, e mais se aproximava a seu 
termo. 

Começa o 6.° Canto com hum erro. 
e huma contradicção , a que eu chama- 
rei huma confusão de idéas , pela inad- 
vertência do Poeta, que nunca se lem- 
brava do que já tinha dito , nem adver- 
tia , ou attentava pelo que devia dizer 
Oiçamos a Oitava l. a 

,, Não sabia era que modo festejasse, 

„0 Rei Pagão os fortes navegantes, 

,, Para que as amizades alcançasse 

,, Do Rei Christão de gentes tão possantes." 

De sorte alguma pode convir o nome 
de Pagão, ou Gentio a hum Mouro, 
apezar das explicações mysticas de hum 
texto de Burio na vida dos Papas , e de 
outro de Paulo Osório na Prefação da 
Historia de seu tempo, com que Igna- 



8 Censura das Lusíadas 

cio Garcez Ferreira pretende desculpar 
este erro do Príncipe dos Poetas. Dá-se 
o nome de Pagãos a Idólatras , e tam- 
bém a Gentios sem Lei ; e todos sabem 
que idéa corresponda a esta palavra Pa- 
ganismo , que se não pode dizer de hum 
Mouro , que o mesmo Poeta sempre se- 
para e distingue de Idólatras : „ De Ido- 
latras , e de Mouros " ; elle mesmo diz 
que não são huma mesma coiza. Na 
Oitava 101. a do Canto 2.° tinha chama* 
do Mouro a este mesmo Rei. Tudo sa- 
crifica quando vê que pode usar de hum 
contraposto. O Rei Pagão , e o Rei 
Christão. 

Este Rei Mouro \ e não Pagão , nem 
interrompeo com huma só reflexão o 
longo rio da Historia que acabava de 
ouvir, nem disse huma só palavra á 
Vasco da Gama; só o Poeta he o inter- 
prete do que elle sente , e nos diz , que 
lhe pezava de estar tão longe de Por- 
tugal : 

,, Peza-lhe que tão longe o aposentasse 

3> Das Européas terras abundantes 

s , A ventura, que não o fez vizinho 

„ Donde Hercules ao mar abrio ceminho. ,! 



Sexto Canto. 9 

Dá a entender o Pceta que o Rei de 
Melinde queria existir em Cadiz , ou 
nas suas vizinhanças , e não nos diz 
para que ; creio que para fazer com 
mais commodidade hum a visita a El- 
Rei D. Manoel , porque para ser seu 
amico, e alliado, nenhum embaraço ti- 
nha com a distancia do lugar ; antes 
era mais para estimar , e era huma pro- 
va de maior amizade , conservar-se lá 
de tão longe em firme alliança com os 
Portuguezes : e assim ficamos ignoran- 
do o motivo porque o Rei Pagão queria 
existir junto ás Columnas de Hércules. 
Na Oitava 2. a descreve o Poeta os fes- 
tejos com que o Rei Mouro celebra o 
apparecimento dos Portuguezes naquel- 
jas paragens : 

„ Com jogos, Danças, e outras alegrias, 

,, A secundo a Policia Melindana, 

3 , Com usadas, e ledas pescarias, 

,, Com que aLagéa a António alegra, e engana;" 

A parie destes festejos não assiste Vas- 
co da Gama , porque como não desem- 
barcava nem para visitar o Rei . menos 
desembarcaria para ver dançar, e as 



lo Censura das Lusíadas 

danças devião ser em terra, e não no 
mar ? onde ás vezes só as embarcações 
danção contra vontade dos que vão nel- 
las. Isto he ridículo. A edição de Gar- 
cez traz assim o segundo verso : 

t> Segundo a Policia Melindana, " 

e desta sorte , julgo que todos concor- 
darão , que pecca contra as leis do me- 
tro, e está errado. O Padre Thomaz, 
que sabia pouco de versos , quiz emen- 
dar este erro , pondo-o na sua edição co- 
mo eu o transcrevo: 

}i A segundo a Policia Melindana. " 

Se não erra o metro, apresenta huma 
elocução barbara, porque a particula A, 
se serve para inteirar as syllabas do 
verso, nada faz ao sentido, e gramma- 
tica da frase , antes nos deixa sem sa- 
bermos o que quer dizer. 

Chama a Cleópatra — Lagéa — por- 
que o Avô desta Rainha se chamou 
Ptolomeo Lago, e he a primeira vez 
que se lhe dá este nome , o que lança 
sobre a imagem huma obscuridade tal , 
que se nos torna hum verdadeiro enig- 



Sexto Canto. 11 

ma. E quem se ha de lembrar que Cleó- 
patra mandava por Búzios , ou Mergu- 
lhadores, pendurar peixes fritos nos an- 
zoes com que Marco António , o Trium- 
viro pescava quando com ella se diver- 
tia, e enganava? Torna na Oitava 3. a 
a chamar Pagão ao Rei Mouro de Me- 
linde : 

,, Já do Pagão benigno se despede, 
„ Que a todos amizade longa pede. 

Parece que devia o Poeta pôr na boca 
deste silencioso Monarca algum discur- 
so, ainda que breve, com que mostras- 
se ao hospede a admiração que lhe cau- 
savão as proezas dos Reis Portuguezes ; 
porque depois de ouvir tanto , parece 
que devia responder alguma cousa. Mas 
não fez mais que ouvir, e calar. Ape- 
nas transcreve o Poeta numa frase de 
Virgílio , e com isto se contenta : 

Dum spiritus hos regei ar tus . . . 

)t E que em quanto ao seu corpo o esprito reja 

j, Estará de contínuo aparelhado 

„ A pôr a vida , e o Reino totalmente 

„ Por tão bom Rei, por tão sublime gente," 



12 Censura das Lusíadas 

Se ha cousa antipoetica , he com effeito 
o adverbio — totalmente — he hum a per- 
feita cunha, e hum manifesto indicio de 
pobreza de idéas. 

Já era tempo de apparecer o mara- 
vilhoso do Poema, pois por três contí- 
nuos Cantos tinha esquecido; e he de ad- 
mirar que servindo-se Baccho dos Mou- 
ros de Moçambique , de Mombaça , e 
de Sofala para se oppôr á navegação 
dos Portuguezes , e para os perder , se 
não quizesse também servir dos Mouros 
de Melinde para o mesmo fim. Por si, 
já temos visto que nada podia fazer, 
não era hum Deos sem o ministério dos 
homens , o que de todo degrada a sua 
jerarquia , e podendo n'outro tempo de- 
bellar , e subjugar a índia , deixando 
alli hum deposito de gloria , que em to- 
das as idades queria conservar intacta, 
não podesse obrar contra três Navios, 
e sua trabalhada, e quasi consumida 
tripulação : nunca se atreveo á cara des- 
coberta ; e tendo-se até aqui servido do 
ministério dos homens , busca e implo- 
ra agora o auxilio , e o soccorro dos 
Deoses. Oitava 6.* 



Sexto Canto. 13 

)s Mas o máo Thyoneo que n'alraa sente 
„ As venturas, que então se aparelhavão, 
„ A' gente Lusitana delias dina, 
„ Arde, morre, blasfema, e desatina." 

Arder , morrer , blasfemar , e desatinar 
são coizas muito impróprias da Divin- 
dade. Como se pode conceber que hum 
Numen . íilho do Padre sublimado, mor- 
ra, e blasfeme. Se Virgilio se espanta 
de que coubesse ira em hum animo ce- 
lestial , 

Tantoe ne animis Ccelestihus ircz ? 

como se não assombraria de ver em 
hum Numen aífectos tão baixos, que só 
se não poderião estranhar nos imperfei- 
tíssimos humanos ? 

Nesta Oitava representa o Poeta a 
Baccho como hum blasfemo, e deliran- 
te . na Oitava 7. a o reoresenta como 
hum mentecapto; por que só hum de- 
mente busca com afinco aquilío mesmo 
que sabe que não pôde , nem ha de 
conseguir, porque se lhe oppõe huma 
força , que elle não pode contrastar. Oi- 
çamos o Poeta ? porque na verdade ha 



14 Censura das Lusíadas 

algumas passagens , em que elle não só 
se repi ehende a si , porém se refuta , e 
se combale. 

,, Via estar todo o Ceo determinado 
,, De fazer de Lisboa nova Roma; 
}i Não o pode estorvar; que destinado, 
,, Está doutro poder, que tudo doma.' 1 

Antes de notarmos as incoherencias do 
Poeta neste procedimento do infeliz Bac- 
cho , não posso deixar de fazer huma re- 
flexão sobre o cego furor dos Commenta- 
dores , que me confirma na aversão que 
tenho a escusadas notas de Livros , coi- 
za absolutamente ignorada , ou despre- 
zada dos antigos, lgnacio Garcez Fer- 
reira commentando esta determinação de 
Júpiter sobre os futuros destinos de Lis- 
boa depois do descobrimento da índia, 

)} De fazer de Lisboa nova Roma, " 

diz assim : — Pois devendo dizer outra 
Roma , disse nova Roma ; que entende- 
mos a Catholica , com a qual vemos com- 
petir Lisboa na magnificência da sua Pa- 
triarcal — Até Luiz de Camões profeti- 
zou a Patriarcal nas Lusíadas ! ! ! 



Sexto Caxto. 15 

Ora pois. se Baccho sabe que não 
pode estorvar nem transtornar o fim da 
Enipreza : se elle conhece , que está de- 
terminado de hum Poder que tudo ven- 
ce . e doma . e ao qual se não podem 
oppòr nem os Deoses no Oiympo , nem 
os homens na terra . e que Lisboa deve 
ser reputada , e conhecida outra Roma 
pe ] a vasta extensão de seus domínios , 
e pela grandeza de seu poder ; se tudo 
isto lhe he conhecido . e se elle como 
hum Numen sabe que a serie dos Fa- 
dos he immudavel , porque razão inten- 
ta o que não ha de conseguir ? Isto não 
he a acção de hum Deos , he a pertiná- 
cia de hum mentecapto : além de men- 
tecapto he hum pusillanime . nada in- 
tenta por si sem a intervenção de for- 
ça estranha. Não se deo bem com o mi- 
nistério dos Mouros , busca o auxilio 
dos Deoses , e não podendo achar favor 
no Pai . vai tentar o amor do Tio : 

,, Do Oiympo desce era fim desesperado. ~* 

Hum Deos desesperado he hum Deos 
ridiculo. Desce do Ceo sem esperança. 
Ora os que para salvarem do ridiculo o 



16 Censura das Lusíadas 

Maquinismo, ou maravilhoso das Lu- 
síadas , querem que se entenda por Bao 
cho o Diabo , assim como por Thetis a 
Divina Sabedoria (blasfémia horrorosa) 
dirão que o Diabo fora ao Ceo, e que 
viera de lá desesperado ? Mas tempo 
virá em que Thetis diga, que ella, e 
Báccho são coiza nenhuma. Busca o 
Deos desesperado o Palácio de Neptuno 
no fundo do mar. Miserável Baccho , 
que mettendo-se no fundo do mar não 
tem poder para levar comsigo os três 
Navios de Vasco da Gama ! Nem con- 
segue o que intenta , nem pôde execu- 
tar o que deseja ! 

Cheg-a Baccho ao fundo do mar , e 
descreve o Poeta o Palácio de Neptuno, 
onde elle mora , e as Divindades húmi- 
das ; Oit. 8. a 

,, Que habitão estas húmidas Deidades." 

Os Commentadores de Camões imaginão 
que lhe fazem hum grande favor, e o 
collocão na primeira jerarquia dos Poe- 
tas , quando lhe descobrem os originaes 
de que elle formara as suas copias ser- 
vis nesta e outras partes, e não fazem 



Sexto Canto. 17 

mais que dar a mingoa de invenção , ou 
a esterilidade de génio. Quasi nunca he 
seu o que nos parece grande no seu até 
aqui estupidamente admirado Poema. 
Não me assombro tanto da infecundida- 
de do génio, como da falta de juizo. 
Trasladasse embora toda a tirada dos Au- 
thores Latinos , como aponta o Garcez 
Ferreira, mas descrevesse o Poeta este 
Palácio de vidro , e a escultura das suas 
portas de ouro. Assim fazem , e assim 
íizerão outros Poetas, assim o fez Oví- 
dio na descripçao do Palácio do Sol : e 
depois da descripçao , dissesse que Bac- 
cho fora , e entrara neste Palácio. Não 
faz isto . depois de nos dizer que Bac- 
cho hia desesperado , desatinado, e blas- 
femo implorar o soccorro de seu Tio 
para se vingar dos Portuguezes , o que 
tuppõe hum movimento arrebatado , e 
incapaz de attender a outro qualquer 
objecto , demora , e suspende puenl- 
mente o mesmo Baccho, fazendo-o con- 
templar com miudeza tudo quanto a ar- 
te tinha executado no feitio das partas. 
-Oitava lo. a 

Tom. II £ 



18 Censura das Lusíadas 

„ De escultura formosa estão lavradas, 
„ Na qual do irado Baccho a vista pace, 
j, E vê primeiro em cores variadas, &c. 

Esta ccníemplação tão miúda ; e tão 
curiosa , não se compadece com a pres- 
sa que levava, e com o fim a que elle 
hia , apascentando a vista em tantos , 
e tão diversos objectos. Quem disse a 
Camões que Baccho vio lá tudo isto ? 
Dirão que Baccho não era cego , e que 
estando esculpidos os quatro Elementos 
separados entre si nas portas do Palá- 
cio , quando entrasse os devia ver. Sim, 
embora depois de conseguido o fim da 
sua missão se detivesse a descancar ai- 
guns dias , e então conhecesse as rari- 
dades do Palácio de vidro. He esta hu- 
ma das incoherencias , ou puerilidades 
mais notáveis de todo o Poema. 

Não pode a censura deixar de re- 
prehender a Oitava 12. a pelo vicio, ou 
imperfeição das suas rimas. Revestida, 
Flmidas , Vida : a travaçào de ida , e 
•idas dão o mesmo som, e isto he hum 
erro , e hum erro grande , e hum tão 
grande Poeta devia olhar mais pela cor- 
recção do seu estylo. Passa repentina- 



Sexto Canto. 19 

mente- da pintura dos quatro Elemen- 
tos , á guerra dos Gigantes na Oitava 
13. a , e acabou-se a escultura das por- 
tas do Palácio de vidro. As Nynfas do 
Rio Penêo se admirão quando nelle vi- 
rão entrar a Aristeo , mas admirão-se 
dignamente ? como diz Virgilio: 

Vitreisque sedilibus omnes 
Ohstupuere — 

Camões quiz melhorar Virgilio, e disse: 

„ Das Ninfas que se estão maravilhando 

,, De ver que cometendo tal caminho, 

„ Entre no Reino d'agua, o Rei do vinho. 

Temos aqui claramente exposto , e de- 
clarado o Baccho da Fabula , o filho de 
duas mais , Semelie , e a coxa de Jove f 
e com esta declaração se destroe todo 
o sentido allegorico que lhe queirao dar 
os da Seita Camoniana , tomando Bac- 
cho pelo Diabo, porque a este nunca 
se deo o titulo de Rei do vinho , nem 
por tal se conheceo , nem lembrou ao 
Poeta fazer de Satanaz hum Agente do 
Poema debaixo do nome do mio Tyo- 

B2 



20 Censura das Lusíadas 

neo. Fica por huma vez destruído este 
frívolo subterfúgio com que se tem pro- 
curado disfarçar o absurdo maquinismo 
das Lusindas. 

Acaba esta Oitava com huma ver- 
dadeira chocarrice própria de huma Co- 
media . e indigna de huma Epopéa. 

3) Entre no Reino tTagoa o Rei do vinho." 

Devia causar admiração , porque o Poe- 
ta julga estes dois líquidos antipathi- 
cos. O ódio devia ser reciproco , tanto 
devia fugir o vinho da agua , como a 
agua do vinho. Só não he de admirar 
que os nossos Taverneiros facão esta 
liga na razão inversa , obrigando o rei- 
no d' agua a entrar mais do que devia 
no Rei do vinho. A maior extravagân- 
cia do Poeta he querer que tomemos o 
vinho pelo seu inventor para o julgar- 
mos huma substancia opposta a outra 
substancia, porque se a agua se não 
une bem com o vinho , nem o vinho 
com a agua, isso não podia vedar que 
o Sobrinho fosse ao Palácio do Tio, 
ainda que este fosse o Soberano das 
aguas , como aquelle era o inventor do 
vinho. 



Sexto Canto. 21 

Sirvo-me para esta censura da cui- 
dada edição do Padre Thomaz feita so- 
bre a de Faria , e collacionada com os 
ms. originaes deste douto Commenta- 
dor; por isso transcrevo os versos da 
mesma sorte que alli os vejo : começa 
a Oitava 15.* 

„ O* Neptuno, lhe disse, não te espantes 
„ De a Baccho nos teus Reinos receberes." 

Parece por estas expressões, que con- 
tinua a fundamentar o espanto da hida 
de Baccho sobre a antipathia dos dois 
líquidos, agua, e vinho, porque não 
podia causar espanto a visita de hum 
parente tão próximo. A expressão ou 
fraze — De a Baccho — he tão plebea, 
e tao dissonante, que com efTeito es- 
candalisa a quem tiver a mais superfi- 
cial idéa da correcção do estylo. 

,, Manda chamar os Deoses do mar, antes 
„ Que/alie mais : se ouvir m' o mais quizeres . 
,, Verão da desventura grandes modos : 
„ Oução todos, o mal que toca a todos." 

JNestas baixas expressões , e impróprias 
de hum Deos, se descobrem notáveis 



22 Censura das Lusíadas 

absurdos. Tão solitário vivia Neptuno 
em seu Palácio , que nenhum dos Deo- 
ses do mar lhe fizesse Corte J sendo pre- 
ciso mandallos chamar ; tão distantes 
estavão, que não vissem o Rei do vinho 

?ara o virem cumprimentar como hum 
rincipe do sangue, e Sobrinho direito 
do seu Soberano ? 

„ Ouçâo todos, o mal que toca a todos? " 

Como ? A mesma navegação de Vasco 
da Gama se se não dirigisse á índia 
não era hum mal para Baccho , porque 
até aqui não se queixou da navegação , 
e O motivo porque a per tende embara- 
çar he o receio de que as futuras victo- 
rias e conquistas dos Portuguezes of- 
fuscassem a gloria , e fizessem esquecer 
o nome que Baccho tinha deixado iia 
índia quando alli fora o conquistador. 
Isto he só com elle , não he com os ou- 
tros Deoses do mar, que não erão con- 
quistadores , nem se embaraçavão com 
a navegação do Gama, pois até alli o 
tinhão deixado passar sem opposição. 
Logo não era hum mal que a todos to- 
casse. Só Baccho se dava por offendido, 



Sexto Canto. 23. 

sem se lembrar que, por maior que fosse 
a gloria de hum homem, ainda que gran- 
de Guerreiro, nunca poderia, não digo 
eu igualar a gloria de hum Deos, mas 
nem de longe arremedalla. 

Todos os Deoses de Camões são pa- 
tetas , são ignorantes , nada sabem , tu- 
do lhes he oceulto , e escondido. Se as- 
sim representa hum Deos, como ha de 
representar hum homem ? Oiçamos o. 
mesmo Camões : 

„ Julgando já Neptuno, que seria 

„ Estranho caso aquelle, logo manda 

„ Tritão, que chame os Decses à % aguafria, 

}9 Que o mar habitão d'huma, e d' outra banda." 

Pois Neptuno irmão de Jove , e Deos 
como elle , não sabia com. certeza o mo- 
tivo da vinda de Baccho para dizer in- 
determinadamente , e como quem igno- 
ra, que algum estranho caso obrigava o 
Rei do vinho a cometter tal caminho ! 
Onde está a presciência , ou omnisciên- 
cia de hum Numen supremo ? Os cara- 
cteres são a eoiza mais ignorada nas 
Lusíadas. Deixemos os Deoses efagua 
fria : 



24 Censura das Lusíadas 

Neque enim concludere versum 
DLveris esse satis. 

A primeira palavra que lembra a Luiz 
de Camões para fechar hum verso, ou 
para rimar hum verso , he logo empre- 
gada sem escolha, venha ou não venha 
para alli ; quando diz agua fria parece 
que ha Deoses d'outra agua ou quente , 
ou morna. 

,,Que o mar habitão d'huma, e cToutra banda." 

Se elles são d'agua fria, escusava dizer 
que habitavão o mar ; chama-se a isto 
hum pleonasmo de idéas vicioso. 

,, Logo manda Tritão, " 

Como já em Portuguez se sabe a que 
idéa corresponda a palavra — bambuxa- 
ta — nenhuma outra exprime também a 
pintura de Tritão. Se os cabellos deste 
subalterno Numen marinho erâo limos 
prenhes d'agua não necessitavão de pen- 
te para se frizarem e pentearem. 

,, Que nuuca brando pente conhecerão " 

Tudo he ridículo nesta pintura. Nem 



Sexto Canto. 25 

em Poeta \ nem em Pintor se verá nun- 
ca hum Tritão, cujo cabello tenha por 
papelotes — mixilhões. — 

)3 Os negros mixilhões, que alli se gerão." 

Ninguém pode conter o rizo ao ver este 
Numen marinho, e mergulhador com 
hum escusado chapeo : 

„ Na cabeça por gorra tinha posta 
„ Huma mui grande casca de Lagosta." 

Mixilhões pendurados dos limos da ca- 
beça , e isto coberto com a casca de 
hum marisco, que nenhum feitio tem de 
gorra, ou de chapeo, he com effèito a 
mais ridicula, e extravagante figura que 
a imaginação pode conceber ! Para que 
he esta casca de lagosta ? Pois Tritão 
só tinha medo de molhar a cabeça ? 
Não tem fim a bambuxata. Depois de 
descrever a cabeça , descreve o corpo 
do Tritão ; depois de dizer que todo o 
corpo era mi , também era escusado di- 
zer que nenhuma cobertura tinhão os 
membros genitaes : Coiza infame , tor- 
píssima , e immunda em huma Epopéa : 



%6 Censura das Lusíadas 

não pareça isto encarniçamento ; trans- 
crevamos tão impertinentes versos : 

„ O corpo nú, e os membros genitaes, 
3Í Por não ter ao nadar impedimento. " 

Ninguém representou ainda vestidos os 
Tritões , e as Nereidas ! ! 

„ Mas porém de pequenos animais, 

3 , Do mar, todos cobertos, cento e cento; 

,, Camarões, cranguejos , e outros mais, 

„ Que recebem de Febe crescimento, 

„ Ostras, e bribigóes de musgo sujos, 

,, E ás costas com a casca os caramujos. ** 

Não sei o que seja aqui mais para cen-r 
surar , se a ridiçula imaginação do Poe- 
ta nesta extravagante pintura, se a in- 
cúria ou preguiça de Tritão , que deixa 
fazer de seu corpo ou hum rochedo i 
ou o costado de hum navio velho. Pois 
consentiria Tritão , hum Numen filho 
de Neptuno , e empregado por seu pai 
no officio de Trombeta ? e de Correio , 
ou Postilhão, que esta innumeravel , e 
incommoda multidão de mariscos tes- 
taceos , e não testaeeos . se lhe apegas- 
se ao corpo , e se alimentasse da sua 
mesma substancia sem se livrar jamais 



Sexto Canto. 27 

de tão importunos hospepes ! A cento. 
t cento? Muitas vezes se desordena a 
fantasia de Ariosto , mas nunca chegou 
a este ponto dextravagancia que aos 
olhos da razão descobre o Quadro de 
Tritào ; 

}i A's costa? com a casca os caramujos." 

Isto he huma expressão burlesca . por- 
que o vulgo o diz do Caracol que traz 
a caza ás costas. A casca não he huma 
coiza estranha áquelle marisco para a 
trazer ás costas . forma com elle hum 
todo. não he hum fardo, he huma par- 
te , ou integrante porção do seu corpo, 
Oitava I9. a 

3Í Já toda a companhia apercebida 

,, Dos Deoses para os Paço caminhava 

,, Do Deos que fez os muros de Dardania, 

,, Destruídos cW-pois d-a Gre^a insânia," 

Deixemos a Neptuno com o oíficio de 
Pedreiro ; porque são estes os que fazem 
os muros. Notemos a incorrecção do 
ultimo verso. Parece que nus diz que 
os muros de Tróia forâo destruídos de- 
pois da Grega insânia , o termo — depois 



28 Censura das Lusíadas 

— denota hum espaço de tempo — depois 
disto , depois daquillo ; e não hum ins- 
trumento, ou hum motivo. A guerra 
que os Gregos fizerão aos Troianos não 
foi hum efleito de insânia , ou loucura , 
foi hum acto de justiça para vingarem 
a injuria, e affronta que se lhes havia 
feito no roubo de huma Rainha ; não 
sei como nisto haja loucura, ou insâ- 
nia, porém era precisa huma palavra 
que rimasse com Dardania, a primeira 
que occorreo ao Poeta foi — insânia ; — 
pois vá insânia , o verso ha de rimar 
seja com que for, e como for. Na Oi- 
tava 20. a 

„Vem Nereo que com Doris foi casado" 

Aqui nos dá com este pretérito — foi— 
a idéa de que Nereo ou estava naquelle 
viuvo , ou divorciado : — Foi casado. — 

„ O Profeta Protheo, deixando o gado 
,, Marítimo pascer pela agua amara, 
,, Alli veio também , mas já sabia, 
,, O que o Padre Lieo no mar queria." 

O termo — amara — parece que designa 
em Portuguez o pretérito plusquam per- 



Sexto Canto. 29 

feito do verbo — amar; — se nâo tivesse 
a lingua os termos , amarga , amargosa , 
obrigaria a penúria a usar do puro La- 
tim , mas os versos de cima estavão fei- 
tos era preciso hum consante em ára 
pois vá amara. Nenhum Poeta interpre- 
tou mais amplamente as Leis da liber- 
dade Poética. Quando para o verso he 
preciso que Protheo tenha a primeira 
'longa , tem a primeira longa , e quando 
he preciso que tenha a segunda , tam- 
bém fica longa. Tem Protheo huma fa- 
culdade negada ao Deos do mar , Nep- 
tuno ; este ignora o motivo da vinda de 
seu Sobrinho , e só Protheo a sabe. Que 
Numen he este irmão de Jove , que não 
antevê , ou conhece o futuro ? Este con- 
gresso dos Deoses marinhos devia ser 
convocado depois da proposta de Bac- 
cho feita ao Tio , para deliberarem n'hum 
Conselho d'Estado maritimo sobre os 
meios de que se devia o servir para al- 
cançar o que Baccho desejava , que era 
a destruição dos Portuguezes , e toman- 
do-se os votos, proceder á execução : não 
he assim ; porque o Principe dos Poe- 
tas ignora todas as Leis da convenjea- 



30 Censura das Lusíadas 

GÍa; sem que o mesmo Neptuno saiba 
para que , convoca com huma trombeta 
os moradores do mar de huma , e dou- 
tra banda. Oitava 21. a 

„ Vinha por outra parte a linda esposa 
,, De Neptuno, de Célo, e vesta rilha." 

Pois nem a mesma esposa de Neptuno 
estava no Palácio? O miserável Monar- 
ca do Oceano era hum perfeito Anaco- 
reta. Só se quizermòs dizer para salvar 
o Poeta que Thetis naquelle tempo era 
como algumas mulheres d'agora , que 
aonde estão elías , não estão os maridos. 
Mas tratemos isto com a possivel serie- 
dade. Thetis que he convocada , e que 
vem , Thetis que ha de opinar a favor 
de Baccho em o exterminio dos Portu- 
iruezes , que ha de impor silencio a quem 
opinar o contrario naquelle verso, (ver- 
so que nada mais he que a baixa prosa 
do vulgo) ; 

„ Neptuno sabe bem o que mandou." 

he a mesma Thetis que depois deve ser 
Ião propicia ao Gama , que execute tu- 
do quanto se lerá ; e annotará no Canto 



Sexto Canto. 31 

? . a ponto de vir a cazar com o pró- 
prio Gama , cuja perda agora tanto ap- 
prova , e favorece ! ! Caracter das mu- 
lheres ! Ou mais depressa . ignorância 
em Luiz de Camões ; que nào se lem- 
bra do que disse . nem do que havia de 
dizer , e que sobre a decência . e igual- 
dade de costumes tantos erros comette, 
quantas são as personagens que admitte. 
Duas mulheres de hum só marido 
são naturalmente duas rivaes irreconci- 
liáveis , e neste caso falta o Poeta a 
esta lei de costumes ou caracteres . pois 
faz tão amigas , e tão unidas Thetis : e 
Antitrite . que as introduz ambas de 
braço dado , allegando para esta união 
aquelle mesmo motivo que as devera 
desunir. Oitava 22. a 



,. Ambas vem pela mão, igual partido, 
„ Pois aaibas são esposes de hum marido." 



E nem huma. nem outra estavão com 
elle . ou com elle fazião vida , sendo 
precizo que acudissem ao Paço ao som 
da trombeta de Tritão . o íilho da Sala- 
cia veneranda. A' excepção do Profeta 



32 Censura das Lusíadas 

Protheo ninguém sabe para que viera 
ao Reino (Tagua o Rei do vinho : elle 
o dirá. 

Oitava 23/ nesta Oitava apparece 
íno , que, fugindo do marido louco fu- 
rioso, se lançou ao mar, e foi convertida 
em Deosa, assim como o foi seu rilho 
Melicerta, que depois se chamou Pale- 
mon. E vem pela praia ! ! Se o Paço de 
Neptuno fica nas mais profundas caver- 
nas do Oceano , vá Ino lá ter , não saia 
do mar, para passear pela praia, e ir 
outra vez lá ter : este rodeio he escusa- 
do ; porém a maior impropriedade desta 
pintura he vir ainda o filho em estado de 
menino , sendo precizo , que a Nereida 
Panopéa o tome ao collo quando cança 
de brincar pela arêa. Pois desde a fun- 
dação de Thebas até ao anno de 1497 
não tinha este menino tido tempo de 
crescer ? Ainda se conserva do tamanho 
em que a mâi abraçada com elle se lan- 
çou ao mar? A pintura he muito deli- 
cada , mas muito falsa , e muito impró- 
pria. Na Oitava 25. a se nos representa 
a antiga etiqueta da Corte de Neptuno. 
Os Deoses de cadeira 3 e as Deosas de 



Sexto Canto. 33 

estrado. Isto está abolido. O ultimo nos 
oíièrece huma synedoche : 

,,Que no mar nasce, e a Aratia em cheiro passa." 

Mas delia resulta hum extravagante sen- 
tido. Falia do âmbar, e nos quer dar 
a entender que excede na intensidade 
da fragrância o incenso que vem d' A ra- 
bia feliz. O incenso he o que cheira , e 
não he a Arábia ; a exaltada mania da 
erudição faz os sentidos annbologicos , 
e obscuros. Oitava 26. a 

,, Estando soce^atlo já o tumulto 

,, Dos Deoses , e cie seus recebimentos. '* 

Nenhuma idea nos deo ate aqui o Poe- 
ta deste tumulto , ou borborinho 3 nem 
podemos conceber o modo porque hou- 
vesse esta desordem na entrada dos Deo- 
ses , e no acto dos seus recebimentos , 
pois nos pinta o Poeta a Neptuno tão 
só em seu Palácio, que se não pode sa- 
ber quem fizesse os o fii cios de Mestre- 
SaJa, e Aposentador. Na Oitava 27 dá 
principio Kaccho ao seu arrezoado , fun- 
dando -se em Direito ; 
Tom. II. o 



34 Censura das Lusíadas 

3 , Príncipe, que de juro senhoreas 
3y D'hum Polo a outro Polo o mar irado, 
,, Tu, que as gentes da terra toda enfrêas, 
3 , Que não passem o termo limitado: " 

Sendo Neptuno por Direito o Monarca 
absoluto, e independente do mar irado ? 
e do mar que corre de hum Polo a outro 
Polo , e como este mar não seja outro 
mais que o Oceano Atlântico , Pacifi- 
co , e Austral , parece que não devia 
dirigir a palavra ao Império depois de 
a haver dirigido ao Soberano , e se que- 
rem tomar o Oceano, que he o Império 
de Neptuno, por huma coiza separada , 
para que he o auxilio de hum Subalter- 
no , quando se implora o do Monarca , 
e sendo este Monarca Tio do imploran- 
te? Com tudo, invoca-se este Oceano 
que he o Reino de Neptuno , e com o 
qual enfrêa as gentes da terra toda. 

., E tu, Padre Oceano, que rodeas 
,, O Mundo universal, e o tens cercado, 
,, E com justo decreto assim permites 
„ Que dentro vivão só de seus limites." 

Temos três coizas que censurar. A Ter- 
ra não he o Mundo universal; a terra 



Sexto Canto. 35 

he huma parte minima deste Mundo 
universal, que vem a ser a congerie de 
todos os seres. Rodear, e cercar, he o 
mesmo , e no mesmo sentido , ou ac- 
cepção, aqui se deve tomar, e fica hum 
vicioso , e inútil pleonasmo. Viv&o he 
o plural de hum verbo , e não ha aqui 
hum nominativo do plural que reja este 
verbo : he preciso que se vá buscar a 
palavra gentes á Oração precedente. 

Depois de fallar a Neptuno , e ao 
Oceano , dirioe-se aos Numes mais so- 
menos , porque de todos necessita hum 
Deos tão fraco , e pusillanime como Bac- 
cho, que, podendo conquistar a índia, 
fundar cidades , domar o Oriente , não 
se atreve sem braços estranhos a sus- 
pender a navegação de Vasco da Ga- 
ma, e assim falia na Oitava 28.* 

5 , E vós, Deoses do mar, que não soffreis 
,, Injuria alguma em vosso Reino grande, 
„ Que com castigo igual vos não vingueis 
,, De quem quer que por elle corra, e ande: 
3 , Que descuido foi este em que viveis? 
,, Quem pode ser que tanto vos aÍ3rande 
,, Os peitos , com razão endurecidos 
„ Contra os humanos fracos, e atrevidos? " 



C2 



36 Censura das Lusíadas 

Isto não se sabe o que queira dizer; 
Vasco da Gama não era o primeiro Na- 
vegador ; esehe injuria para os Deoses 
do mar o navegar, só este Vasco da 
Gama merece o castigo ? Quantos apoz 
elle e antes delle tinhão navegado ? Aqui 
não se trata da injuria feita a Baccho 
em o intentado descobrimento da índia, 
trata-se da navegação absoluta , e inde- 
terminada. Não constituirão os Deoses 
entre os Astros a Náo Argos ? Em fim 
o ultimo excesso da demência Poética 
está encerrado nos dois últimos versos 
da Oitava 29. a 

3 , Que do mar, e do Ceo, era poucos annos., 
„ Venhão Deoses a ser, e nós humanos." 

Esta mudança, esta troca, esta mutua 
passagem de essência , de condição , e 
natureza, pode ser hum resultado, hum 
efieito de huma causa tão frívola, rela- 
tivamente á Divindade , a navegação 
intentada, e aperfeiçoada pelos homens ? 
Porque os bomens navegão , podem os 
Deoses passar para a natureza de ho- 
mens ? 



Sexto (Janto. 37 

„ Venhão Deoses a ser, e nós humanos? 
Oh! tribus Anticyris caput insanabile f 

Nos dois últimos versos da Oitava 3o.* 
ha a mesma falta de juizo : 

,, Vedes o vosso Reino devassando, 

„ Os vossos Estatutos vão quebrando. " 

Até aqui não tinhão os Deosos prohí- 
bido a navegação , nenhuma Lei se pro- 
mulgou que vedasse tentar nos mares 
hum caminho para se communicarem as 
Nações humas com as outras. Depois 
disto , ainda agora attentão por isso ? 
Não tinha já , como está dito tantas 
vezes , Bartholomeu Dias passado o Ca- 
bo da Boa Esperança ? Onde estava 
Baccho , que o não sentio ? Qual era o 
fim da navegação de Bartholomeu Dias ? 
O mesmo que levava Vasco da Gama, 
-descobrir a índia. Pois só se escanda- 
liza de Vasco da Gama , só se teme 
deste, e deixa passar os mais, tendo to- 
dos o mesmo fim , e sendo todos levados 
do mesmo motivo ? 

A Oitava 32. a contém em si huma 
contradicçâo verdadeiramente pueril , e 
que cada vez me faz conhecer mais a 



38 Censura das Lusíadas 

força, ou o Império das preoccupaçôes 
humanas , e a violência da opinião hu- 
ma vez estabelecida. Esta opinião tem 
feito os erros successivos , e hereditá- 
rios. Os Commentadores de Camões , 
os seus Editores , tem conservado , e 
augmentado esta Idolatria, porque em 
tudo encontrão bellezas. Desce do Olym- 
po este Baccho, filho do Padre sublima- 
do ; entra no Palácio de vidro de Nep- 
tuno, e parece, pelo que até agora tem 
dito , que vem animado de hum verda- 
deiro interesse, e de hum sincero zelo 
pela honra , e pela gloria das Divinda- 
des do Mar, ultrajadas pela audácia dos 
Navegadores Portuguezes : 

)% Vedes o vosso Reino devassando , 
„ Os vossos Estatutos vão quebrando. " 

Mostra que vem unicamente fazer esta 
advertência. 

„ Vós, a quem mais compete esta vingança, 
„ <^ue esperais, porque a pondes em tardança?" 

Até aqui he hum delator dos attenta- 
dos dos Portuguezes contra a Soberania 
marítima de Neptuno j e parece que a 



Sexto Canto. 39 

causa tocava só aos Deoses marinhos, 
porque sendo-lhe a injuria própria, só 
a elles competia a vingança. De repen- 
te muda Baccho de aspecto , e de sen- 
timento . fazendo manifesta zombaria 
dos taes Deoses marinhos : 

„ Eu não consinto, Deoses, que cuideis, 
,, Que por amor de vós do Ceo desci ; 
„ IS em da magoa da injuria que soffreis, 
,, Mas da que se me faz também a mi:" 

Até aqui huma coiza , agora outra , de- 
clarando que o motivo da sua descida, 
lhe era privativo , e nada tinha com 
os outros Deoses ; isto os devia escan- 
dalisar tanto , que no mesmo instante 
devião pôr fora do mar o impertinente 
Baccho. Dá a conhecer, que já lhe não 
importava a injuria que os Portuguezes 
lhe faz ião. O caso era unicamente com 
elle. Oiçamos. 

3 , Que aquellas grandes honras, que sabeis 
,, Que no Mundo ganhei quando venci 
„ As terras Indianas d'Oriente, 
3> Todas vejo abatidas desta gec*e. " 

Pois, Baccho ? (lhe dev^o dizer o? 



40 Censura das Lusíadas 

Deoses, escandalisados) esse caso não 
nos toca a nós , nada temos com isso , 
a tua honra foi adquirida na terra , e 
não no mar. Tu venceste as terras In- 
dianas do Oriente, lá te avenhas, vai pa- 
ra lá, e se podeste vencer terras, e Na- 
ções inteiras, espera este punhado de 
gente na praia, e apenas desembarcar, 
diante dos mesmos índios, que tanto ad- 
mirâo a tua gloria, e celebrào ainda o 
teu nome , posto que os não fizeste di- 
gnos de huma só pinga dos teus dons , 
dá cabo delia. Podeste com exércitos 
inteiros , levando apenas hum Tyrso na 
mào , e não podes com a tripulação de 
três Navios ! 

Depois de huma prova de tantas 
fraqueza em Baccho na solicitação de 
estranho auxilio para coiza tâo peque- 
na, começa Baccho impoliticamente (ou 
começa Luiz de Camões a delirar) a 
invectivar com affronta os Deoses , o 
Grão Senhor , que he irmão de Neptu- 
no , e pai do mesmo Baccho , diante de 
Neptuno eeu tio, e dos outros Deoses 
réus parentes, degradando-os tanto, que 
até os representa consentidores do mal. 



Sexto Canto. 41 

He digna dos olhos da severa critica a 
Oitava 33.* 

„ Que o çrão Senhor , e Fados que de^tináo, 
„ Como lhe bem parece, o baixo Muudo, 
,, Famas mores que nunca, determinão 
,, De dar a este* Barões no mar profunilo: 
_,, Aqui vareis, ó Deuses, como ensinro 
,, mal também os Deoses , que segtmíio 
,, He vê, ninguém já tem menos valia, 
,, Que quem com mais razão valer devia." 

Assim infama hum Deos os Deoses , e 
os Fados ; não se envergonha de se 
confessar desobediente a seus supremos 
decretos ; quer que, assim como elle no 
Olympo lhe desobedecia , também no 
mar lhe desobedeção os outros. Chama- 
Ihes injustos, porque diante delles nin- 
guém tem menos valia do que aquelles 
que mais valem • que vem a ser que 
são regeitados , e condemnado s aquelles 
que tem maiores méritos. Finalmente, 
com o verdadeiro espirito da rebelliào , 
convida os outros a se opporem ás de- 
terminações do grão Senhor , e dos Fa- 
dos, a quem o mesmo qrâo Senhor obe- 
dece. E tudo isto por hum motivo de 
soberba mal fundada, porque a fama 



42 Censura das Lusíadas 

que hum homem adquire ainda com as 
maiores acções, nunca poderá igualar 
a que hum Deos merece. Ainda me pa- 
rece mais reprehensivel a seguinte Oi- 
tava 34. a Oiçamos esta prosa. 

„ E por isso do Olympo já fugi , 

„ Buscando algum remédio a meus pezares ; 

,, Por ver se o preço, que nos Ceos perdi 3 

it Por ventura acharei nos vossos mares. 

9 , Mais quiz dizer, e não passou daqui, 

,, Porque as lagrimas já correndo a pares 

9i Lhe saltarão dos olhos, com que logo 

3i Se accendem as Deidades d'agua em fogo." 

Ainda não sabemos o motivo porque 
Baccho fugio do Ceo; a indeterminada 
opposição que lhe fez Marte , e que 
nenhum eíTeito produzio, porque Mar- 
te nunca mais tornou a apparecer no 
Poema, não estorvou Baccho de fazer 
o que fez em Moçambique, e em Mom- 
baça , nem foi perseguido no Ceo para 
fugir delle. Júpiter, depois de expor o 
que determinavâo os Fados grandes, cal- 
lou-se , e não disse mais huma palavra ; 
e Baccho , como se fora huma criança , 
e não hum Deos , se desata em choros , 
coiza tão indigna, que em tracto nenhum 



Sexto Canto. 43 

do Poema os caracteres estão mais de- 
gradados , ou confundidos. Depois des- 
tas indignidades, calla-se Neptuno, ne- 
nhuma co'za resolve , e são os Deoses 
pequenos os que lomão o caso á sua 
conta. Parece que sendo a queixa . ou 
a proposta feita a Neptuno , se devia 
esperar pela sua determinação , e os 
Deoses , aqui mui abelhudos , sem que 
Neptuno diga hum a palavra , mandão 
recado aos Ventos que se soltem, e for- 
mem huma furiosa tempestade. Oit. 35.* 

>y A ira, com que súbito alterado 
ít O coração dos Deoses foi nhum ponto, 
,, Não soffreo mais conselho bem cuidado, 
„ Nem dilação, nem outro algum desconto. 
^ > Ao grande Eólo maudão já recado 

(Súbito, e rí hum ponto vem a ser a mes- 
ma coiza , e he hum pleonasmo repre- 
hensivel) 

3, Da parte de Neptuno, que sem conto 
,, Solte as fúrias dos ventos repugnantes, 
,, Que não haja uo mar mais navegantes. " 



Conto, e desconto sâo más rimas, porém 
fcisto era mui pouco escrupuloso o Poe- 



44 Censura das Lusíadas 

ta \ e nesta parte , e no metro são as 
Lusíadas o Poema mais defeituoso. Os 
Deoses do mar mentem muito. Depois 
da proposta , e lagrimas de Baccho \ 
não houve mais do que tumulto , e ar- 
ruido ; Neptuno não disse huma pala- 
vra, não determinou coiza alguma, foi 
hum Ente nullo , e são muito atrevidos 
os Deoses em mandar recados da sua 
parte a Eólo , e he de admirar a bon- 
dade de Neptuno, que os deixa fazer 
quanto elles querem. 

3 , Que não haja no mar mais navegantes. " 

Se a navegação he huma injuria , e hu- 
ma offensa dos Deoses marinhos , são 
acaso estes os primeiros navegantes ? 
Ainda agora em 1497 se dão por offen- 
didos ? 

A Oitava 36. a começa com a costu- 
mada prosa : 

„ Bem quizera primeiro alli Protheo 
„ Dizer neste negocio o que sentia." 

Se nem deixarão fallar Neptuno , como 
deixar ião fallar Protheo? O barulho, ou 



Sexto Canto. 45 

tumulto foi tal , que o mesmo Baccho 
nem tempo nem lugar teve de lhe dar 
os agradecimentos ; eclipçou-se de tal 
arte, que apenas em o Canto 8.° do Poe- 
ma torna em Calecut a figurar alguma 
coiza , quando em sonhos se mostra ao 
3Iouro que dormia. 

,,Que Thetis indignada lhe bradou: 
,> Tseptuno sabe bem o que mandou ! " 

Deixemos esta trivial expressão de mu- 
lherinha raivosa , e lembremo-nos que 
Neptuno não mandou coiza nenhuma, 
nem ao menos com hum aceno de ca- 
beça como fizera no Olympo o Padre 
sublimado. Esta mentira de Thetis nada 
he; esta Thetis, que a estupidez dos ai- 
legorizantes Commentadores tomào pela 
Sabedoria Divina, que toma, e segue 
aqui o partido de Baccho, e quer a perda 
da Armada, e o extermínio dos Portu- 
guezes , deve ser a mesma Thetis . que 
proteja, defenda, e instrua Vasco da 
Gama até ao ponto de casar com elle 
na ilha encantada , onde a mesma The- 
tis se introduz sem ser chamada por 
Vénus. Parece na verdade hum Poema 



46 Censura das Lusíadas 

escrito á tôa, não se correspondem en- 
tre si as partes , os caracteres , as si» 
tuações. Os Agentes introduzidos são 
contradictorios. Thetis no Canto 6.° ini- 
miga dos Portuguezes ; Thetis no Can- 
to 9.° amiga dos Portuguezes , e casa- 
da com Vasco da Gama. E tem escuta- 
do os séculos divinizar estas puerilida- 
des ? A reflexão he trabalhosa , e todo 
o exame presuppôe huma certa conten- 
sâo de espirito , de que nem todos os 
homens são capazes , e julgão ter ajui- 
zado muito bem quando se fazem éc- 
cos huns dos outros. Oitava 37. a 

Começa com o nojento bordão — Lá* 

,, Já lá o soberbo Hypothades soltava. " 

E sem necessidade usa de duas palavras 
latinas, onde a penúria de lingua, ou 
faita de termos as não pode admittir, 
ou desculpar : Audaces , e obumbrava. 

Chegamos, na Oitava 40. a , e41. a , 
a hum passo agradável do Poema , quan- 
do se considera separado delle , porém 
o mais digno da censura quando se con- 
sidera como parte integrante do mesmo 



Sexto Canto. 47 

Poema. Servem os Episódios em huma 
Epopéa ou de retardar, ou de accelerar 
a conclusão da acção : mas estes Episó- 
dios . não porque o digão as Artes Poé- 
ticas \ mas porque o persuade a boa ra- 
zão , devem dimanar immediatamente 
da mesma acção , e terem com ella não 
só referencia , porém intima ligação , e 
dependência. Correm da acção ? e refe- 
rem-se á acção. Xesta parte he Luiz de 
Camões o mais imperfeito, e defeituoso 
de todos os Poetas Épicos. Não o digo 
só pelo que nos apresenta o 9.° e 10.° 
Canto , porque como já a acção tinha 
acabado , sendo o seu extremo ponto o 
instante em que leva ferro de Calecut 
na volta para este Reino , nenhuma re- 
lação tem com a acção principal , pois 
tinha acabado ; mas pelo que pertence 
a outros Episódios, sem os quaes po- 
dia passar a acção , sem perder nada 
de sua grandeza e importância. A Aca- 
demia da Crusca , que fez em corpo 
a censura da Jerusalém Libertada do 
Grande Torcato Tasso , nota , e repro- 
va como alheio da acção principal o 
Episodio admirável do 2,' Canto, isto 



48 Censura das Lusíadas 

lie, o caso de Olindo, e Sofronia, coth 
demnados á morte pelo imputado crime 
de haverem escondido a imagem com 
que o Mago ísmeno pretendia fazer o& 
seus sortilégios para defensão da Cida- 
de sitiada pelo exercito de Gofiedo, e 
livres do supplicio pela intervenção , 
e authoridade de Clorinda que apparece 
em Jerusalém para ajudar os sitiados. 
Esta Clorinda , o Ente mais interessan- 
te que em todas as idades , e em todos 
os Livros tem creado , ou fingido a ima- 
ginação Poética, deve figurar muito, e 
figurar sempre até ao fim do Canto 12.° 
do mesmo Poema, na acção principal; 
e convinha , (e isto não podia esconder- 
ia ao grande juizo de Tasso) , e era pre- 
ciso que se desse huma idéa da gran- 
deza , da preponderância , e da authori- 
dade deste ser extraordinário quando, 
só a seu mandado , suspendem os Algo- 
zes o supplicio das duas amantes , e in- 
nocentes victimas , e peia sua influen- 
cia revoga o Rei de Jerusalém a sen- 
tença de morte. Tudo isto conserva re- 
lações com a acção, pois acontece de- 
pois delia principiada ? e com isto co- 



Sexto Canto. 49 

meça a obrar hum dos mais maravilho- 
sos agentes daquelle immortal Poema ; 
por tanto não he escusado, nem ocioso 
o Episodio de Olindo . e Sofronia . nem 
teve razão a Academia da Crusca em o 
censurar, e reconhece-se na censura o 
grande espirito de partido que domina- 
va, ou cegava aquelles illustres Aca- 
démicos pela gloria de Ariosto , a quem 
intentavão dar a preferencia comparan- 
do-o com o Tasso. Ora consideremos nas 
Lusiadas o Episodio dos doze de In- 
glaterra. Em quanto á versiíicação , ás 
imagens , ao andamento , á força icas- 
tica , ou representativa , nada ha mais 
perfeito , apontado , e acabado em todo 
o Poema ; em quanto á Índole de Epi- 
sodio , « á relação que deve conservar 
com a acção principal , nada ha mais 
defeituoso , pois nem delia dimana , nem 
a ella se refere. Não he coiza acontecida 
no tempo da acção, não foi executada 
por nenhum dos seus agentes princi- 
paes , ou accessorios ; em huma pala- 
vra , assim como foi aqueila historia a 
contada , podia ser outra , pois entre os 
contadores e os ouvintes houve sua de- 
Tom. IL d 



50 Censura das Lusíadas 

liberação : Leonardo Ribeiro queria hu- 
ma coiza , Fernão Velloso queria outra, 
e prevaleceo o parecer de Fernão Vel~ 
loso. Seja embora verdadeira, ou fabu- 
losa esta Historia de andante Cavaca- 
ria, porque delia nenhum vestígio ap- 
parece em nossas Historias , e apenas 
nos Ânnaes de Flandres escritos por 
Manoel Sueiro , alias o infeliz índio Ma- 
noel Fernandes de Vil la Real , se acha 
alguma noticia desta aventura ; isso não 
he do caso, e não ha razão que a pos- 
sa unir , ou fazer depender da acção do 
Descobrimento da iidia. He huma par- 
te absolutamente estranha inserida na* 
quelle corpo ; e mais desculpa tem as 
turpitudes da Ilha encantada , e os sen- 
timentos magoados de Thetis no mar- 
tyrio do Apostolo S. Thomé, porque em 
fim tudo isto se refere ao Heroe , e mais 
agentes subalternos da acção , do que 
a destacada Historia dos doze de Ingla- 
terra. Camões infringe todos os dieta* 
mes da boa razão, e falta á suprema 
Lei da unidade da acção . inserindo-lhe 
coizas , que com ella não tem , nem po- 
dem conservar relação alguma. Apezar 



Sexto Canto. 51 

cie ser o tracto do Poema mais correcto 
no estvlo , e versificação, na o está izen- 
to das intermináveis imperfeições de 
todo elle : na Oit. 46. a tem estes versos: 

„ A fazer que em soccorro os Deoses levem 
, 9 De todo o Ceo., por rostos de alabastro 
„ Se vão todas ao Duque d'Àlencastro. " 

Na Oitava 48.* 
„ Do Reino lá das terras Iberinas " 

Na Oitava 54. a 

,, Fortíssimos Consócios eu desejo , " 
Na Oitava 55. a 

5 , "Não for com vosco ao prazo instituído," 

que parece coiza de Prazo em fateosim 
pela sua instituição : a dificuldade de 
rimar torna em Luiz de Camões o sen- 
tido não só obscuro, mas equivoco: na 
Oitava 57. a 

M Para Londres já fazem todos vias. " 

D 2. 



5"2 Censura das Lusíadas 
Na Oitava GL* 

„ Partido desigual, e dissonante.* 9 

Não sei que esta palavra possa expri- 
mir alguma qualidade , ou propriedade 
inherente ao termo — partido, — ou sua 
rigorosa significação. 

Na Oitava 66. a ha hum solecismo 
notável : 

s , Basta por fina de tudo que entendemos. 19 

Pela svntaxe do período este verbo de- 
via estar no conjunctivo, e não no in- 
dicativo ; a tudo obriga a força do con- 
soante. 

Na Oitava 6 7. a ha huma cunha ma- 
nifesta : 

3 , Banquetes mil cada hora , e cada dia. " 

Depois de dizer que os banquetes erão 
a toda a hora, não havia necessidade 
de dizer que erão cada dia. 

No tempo que se gasta em contar 
esta estranha Historia ? se preparão os 



Sexto Caxto. 53 

Ventos para soprarem , e não se sabe 
mais de Baccho : auzenta-se . deixa o 
caso aos Ventos , porque elle por si só 
nada faz; intriga, pede soccorros aos 
homens , e aos Deoses , e desapparece, 
A tempestade descrita até á Oitava 29. a 
he huma copia da tempestade de Virgi- 
ligio ; e João Franco Barreto que tra- 
duzio a Eneida em oitava rima , para 
poupar trabalho transcreve os versos 
de Camões por serem huma rigorosa 
traduccào. Xa Oitava 75. a ha este verso; 

,, Sem aproveitar de homens força, e arte." 

Que eu não sei como se possa ler para 
dizermos que o verso não está duro. 

Chegamos áquelle passo do Poema 
que tem dado lugar á censura mais 
amarga dos Estrangeiros, e entre el!es 
á do atilado Blair. de que já fizemos 
menção . e que dá a conhecer quão 
monstruoso seja o absurdo da mistura 
das Divindades do Paganismo com as 
verdades augustas, e sagradas da Reli- 
gião Christà. Xa Oitava 80. a degrada 
q Poeta o seu Heroe 7 porque o faz sos* 



54 Censura das Lusíadas 

sobrar com huma coiza tão ordinária 
aos navegantes qual he huma tempes- 
tade , e não forão pequenas as do Cabo 
da Boa Esperança , onde o Gama se 
mostrou intrépido, e nesta, que na o era 
a primeira que soffria, o representa 

„ Confuso de temor, da vida incerto." 

Como Christão invoca o divino auxilio, 
e pede a Deos que o livre de perecer 
naqueila espantosa tempestade , assim 
como livrara a S. Paulo de hum naufrá- 
gio , assim como seguramente tinha con- 
duzido o Povo Hebreo por entre as on- 
das do Mar Vermelho , e assim como 
salvara em huma família virtuosa , a es- 
pécie humana em hum diluvio univer- 
sal. A supplica he de hum Christão. 
porque Deos quer que lhe peçamos, 
e elle he o nosso adjutorio nas tribu- 
lações ; até aqui vamos nós bem, por- 
que conserva o Heroe no seu devido 
caracter, e desempenha a lei dos cos- 
tumes , e a Oitava 81. a he digna de hum 
Poeta Christão , que introduz a fallar , 
e a obrar hum Heroe Christão \ porém 



Sexto Caxto." 

na Oitava 82. * começa logo a desman- 
dar-se, porque lembrando a Deos os 
exemplos de hum. e outro Testamento, 
lembra a Deos no resto da sua suppli- 
ca objectos puramente profanos , e gen- 
tílicos : 

3 , Se tenho novos medos perigosos 

,, De outro Seylla, e Caribdis já passados. 

s , Outras svrtes , e baixos arenosos , 

3 , Outros Acroceraunios infamados; 

„ No fim de tantos casos peiigosos, 

,, Porque somos de ti desamparados : " 

Estas lembranças a Deos nem sâo pró- 
prias de hum Christao. nem podem estar 
presentes a hum homem — Confuso de 
temor, cuja alma perturbada em extre- 
mo não podia em sua supplica lembrar- 
se de objectos de erudição da Fabula . 
e Historia antiga. Só por isto he mui 
reprehensivel esta passagem ; porém a 
monstruosidade he mais escandalosa . 
quando vemos , que sendo a supplica 
feita a Deos para obrar hum milagre 
similhante áquelle que livrou S. Paulo 
do naufrágio , ou que o salvou naufrago 
do seio dos mares . o auxilio he trazido 



56 Censura das Lusíadas 

pela mais infame Divindade do Paga- 
nismo, isto he, a Vénus Cytheréa, que 
com torpezas amansa as fúrias dos per- 
sonalisados ventos conforme as idéas do 
Paganismo, dizendo na Oitava 86. a : 

„ Estas obras de Baccho são por certo: " 

E o meio de se lhes oppôr he mandar 
enfeitar as Nynfas , que deve entregar 
aos ventos para nunca mais assoprarem 
tão despropositadamente :■ 

„ Era quauto manda ás Nynfas amorosas 
3 , Capellas na cabeia pôr de rosas." 

E logo na Oitava 87. a :■ 

„ Abrandar determina por amores, 
3 , Dos ventos a nojosa companhia." 

Os ventos y enlevados cada hum em sua 
Nereida , não cuidão mais em cumprir 
com a sua commissão de assoprar rija- 
mente ; e ficou o Baccho illudido , e en- 
ganado, como sempre, sem ninguém fa- 
zer caso delle, pois nem á sua disposi- 



Sexto Canto. 57 

çao , sendo filho do Padre sublimado , e 
Sobrinho do próprio Neptuno , linha 
hum sopro de vento. 

Chea"a pois o Gama felizmente a 
avistar a costa do Malabar pelo auxilio 
de Vénus tendo pedido misericórdia a 
Deos. Este he o absurdo que deo lugar 
e motivo a Blair para dizer, que o Ma- 
quinismo das Lusiadas era ridiculo, e 
extravagante , porque tal mistura só 
podia nascer de hum cérebro que ne- 
cessitasse do helléboro. e de mais de hu- 
ma Anticyra. Oitava 93. a : 

,, Esta he por certo a terra que buscais, 
_,, Da verdadeira índia que apparece ; 
„ E se do Mundo mais não desejais, 
„ Vosso trabalho longo aqui fenece: 
,, Soffrer aqui não pôde o Gama mais. " 

A índia verdadeira presuppõe alguma 
índia fingida ; porém deixemos equívo- 
cos de palavras, aliás seria censura hum 
processo infinito. Com tudo não devo 
omittir o — Gama ?nais. — Se isto appa- 
recesse em hum Poema moderno até 
como hum simples descuido, que dirião 
os da Seita Camoniana , que até as syl- 
labas lhe divinisào? 



58 Censura das Lusíadas 

} , Os giolhos no chão, e as mãos ao Ceo, 
„ A mercê grande a Deos agradeceo. " 

Parece que se deve dar o agradecimen- 
to áquelle de cujas mãos se recebe a 
beneficio. Vénus acodio a Vasco da Ga- 
ma , applacou a fúria dos Ventos, desar- 
mando-lhe a sanha vingativa com os 
agrados , e requebros das Nereidas , o 
Heroe evita o naufrágio com os soccor- 
ros deste Numen tutelar ; ou elle não 
fez o beneficio, ou a elle deve ser dado 
o agradecimento , e he huma incoheren- 
cia manifesta . ou huma mistura sacrí- 
lega do sagrado com o profano. 

As cinco Oitavas que rematao este 
Canto formão huma das costumadas di- 
gressões fóra de propósito, que a cada 
passo interrompem o fio da Fabula Poé- 
tica. Huma acção heróica proposta he 
por si mesmo hum exemplar que exci- 
ta, e move os peitos generosos a em- 
prehenderem outras similhantes , e hu- 
ma tacita reprehensão daquelles que, 
devendo por sangue , e por condição pi- 
zar as Íngremes veredas da virtude pa- 
ra chegarem ao Templo da Fama ; e da 



Sexto Canto. 5£ 

immortalidade , de si mesmos se esque- 
cem , e buscão nas delicias e no ócio 
torpissimo passar huma vida inglória , e 
obscura. São impróprios, deslocados, e 
impertinentes estes sermões com que o 
Poeta vai entresachando seu Poema, de 
maneira que nos faz esquecer da acção 
principal . para nos entreter com reíle- 
xôes moraes. Na Oitava 97. a quiz dei- 
xar-nos os ouvidos , cujo juizo he sober- 
bissimo, como diz Quintiliano, escanda- 
lisados com a rudeza deste Verso — 

,, Vigiando, e vestindo o forjado aço, " 

que com a elisão indispensável das duas 
vogais — o, ea — fica forjudaço. Dizem 
que o Pretor não faz caso de coizas pe- 
quenas ; mas não são coizas pequenas , 
em hum tão grande Poeta , tão grandes 
imperfeições. He verosímil que nestas 
amargas invectivas tivesse o Poeta em 
seu tempo nos Cortezãos de El Rei D. 
Sebastião suas allusões que fazer ; todos 
as podem ter em todos os tempos , por 
que os homens em todas as Épocas são 
os mesmos , ha a diversidade dos tem- 



60 Censura das Lusíadas 

pos , mas ha a identidade dos vicioS , 
porque as paixões são as mesmas , e 
onde vemos identidade de causas he 
precizo que vejamos também identida- 
de de effeitos. He justa, e necessária 
huma reflexão moral , aformosêa os ver- 
sos , e anima o esíylo , mas de tão in- 
tempestivos sermões digamos com Ho-. 
rácio , ou com a boa razão: 

Sed nunc non erat his locus. 



61 



CENSURA 

Das 

lusíadas. 



SÉTIMO CANTO. 

V ista , e descoberta a costa do Mala- 
bar no fim do 6.° Canto, pedia a ordem, 
e o encadeamento dos successos que se 
desse conta do acontecido na chegada : 

1 T / • • • 

o animo do Leitor esta impaciente , isto 
deseja , e isto quer ver annunciado : as- 
sim succede , porque nos diz o Poeta na 
l. a Oitava: 

,, Já se vião checados junto á terra, 
,, Que desejada jcí de tantos fora. 

3 , Ora sus gente forte , que na guerra 
,, Quereis levor a palma vencedora, 
„ Jà sois chegados, já tendes diante 
it A terra de riquezas abundante." 



62 Censura das Lusíadas 

Quatro — jas — tem esta Oitava, e pa* 
rece que o Poeta já nos devia dizer o 
que aconteceo aos que já tinhào chega- 
do; mas não he assim: se o Canto 6.° 
acaba com huma imperfeição , com a 
mesma começa o Canto 7.° Se houve 
sermão á sahida do Canto, também ha 
sermão á entrada , e temos segunda vez 
o fio da narração Poética quebrado, e 
interrompido. Desáta-se o Poeta em in- 
vectivas contra todos os Reinos da Eu- 
ropa, coiza tão estranha, e tão alheia 
da acção ; porque nem ao menos tem 
com ella a relação do tempo : como es- 
te he o maior erro, e o maior de todos 
•os defeitos das Lusiadas , he preciso 
que mais de espaço, e mais claramente 
nos expliquemos. O estado em que o 
Poeta representa os Reinos da Europa, 
não he o estado em que elles estavão 
aio tempo da viagem de Vasco da Ga- 
ma , mas o estado em que se vião no 
tempo do Poeta , isto he nas vizinhan- 
ças do anno de 1572 ; e que tem huma 
coiza com a outra? Em 1497 não tinha 
começado a chamada Reforma. No Pon- 
tificado de Leão X começou a revolta 



Sétimo Canto, 63 

eni Alemanha. E quantos annos depois 
se estendeo em Franca o Calvinismo? 
Não pode achar desculpa similhante ex- 
travagância. He muito justo, e muito 
bem merecido o louvor que na 2. a e 3.* 
Oitava dá aos Portuguezes ; porém lie 
muito escuro o sentido dos quatro últi- 
mos versos da 2. a 

„ Vós a quem não somente algum perigo 
if Estorva conquistar o povo inimundo; 
,, Mas nem cobiça ou pouca obediência, 
„ Da Madre que nos Ceos está em essência.** 

Não se entende como sobre estes an- 
nunciados possa continuar a regência 
do verbo— Estorvar. — A cobiça , ou pou- 
ca obediência tem hum a attribuição no 
genitivo da Madre i o que torna o est y- 
k) aníibologico , e obscuro. Na Oitava 
3. a , onde ha tantas idéas da verdade , 
e santidade da Religião , e que fazem 
hum tão escandaloso contraste com as 
idéas do Paganismo, cuja Alythologia 
forma o maravilhoso , ou sobrenatural 
do Poema , vem , e torna a respeito de 
Portugal o mesmo equivoco Epiíonema 
que já tinha vindo a respeito da ItauV< 



64 Censura das Lusíadas 

3 , Que tanto, óChristo, exaltas a humildade!" 

Quando fallou da Itália, subentendia a 
diminuição de seu poder , e Império ; 
quando falia de Portugal, subentende 
a sua população numérica : 

3> Que vós, por muito poucos que sejais, 

9 , Muito façais na sancta Christandade; 

3 , Que tanto, ó Christo, exaltas a humildade ! ** 

Já se disse , que a humildade que Chri- 
sto exalta , he a humildade do coração, 
como virtude moral ensinada pelo mes- 
mo Christo em o Evangelho: — Discité 
ame , guia mitis sum , et hurnilis cor de. 
Podem os Russos todos , que formão a 
população de tão vasto Império , ser 
anuilo humildes, e nós os Portuguezes 
a quem as conquistas íizerão o favor de 
reduzir a menos de dois milhões de al- 
mas constando sempre pouco mais , ou 
menos a nossa população de três mi- 
lhões de almas ; sermos muito sober- 
bos , e muito orgulhosos; porque a hu- 
mildade que Christo exalta , não está 
em o numero dos indivíduos j ou no 
poder do Império ; está no coração. 



Sétimo Canto. 65 

Começa pois o Príncipe dos Poetas 
a sua invectiva pelos Alemães em geral 
dizendo : 

*« Vedes os Alemães, soberbo gado, 

" Que por tão largos campos se apascenta, 

*' Do Successor de Pedro rebellado. " 

Em primeiro lugar não sabemos a quem 
o Poeta se dirija no — Vedes — ; creio que 
aos Portuguezes , porque neste passo 
falia o Poeta de si mesmo , e por si 
mesmo , sem introduccão de Persona- 
gem alguma do Poema , cuja acção pa- 
rece que acabou , pois delia não ha ? 
nem haverá tão cedo noticia. Eis-aqui 
hum exemplo raro de huma digressão 
no meio de hum Poema sobre coiza que 
com elle não conserva relação alguma , 
nem he delle remota consequência. De- 
pois disto , chama geralmente a todos 
os Alemães, não só gado soberdo, po-. 
rém rebellado do Successor de Pedro. Na 
reforma de Luthero não entrarão todos 
os Alemães; muitos Círculos deste vas- 
to Império permanecerão Catholicos-Ro» 
manos. Mas estas Questões não são pa- 
ra aqui. Quem ler a Historia do Cal- 
Tom, II e 



66 Censura das Lusíadas 

vinismo , e souber que coiza seja a con- 
fissão de Augsburgo , saberá que Rei- 
nos sahírão do grémio da Igreja Ca th o- 
liça Apostólica Romana. Mas que tem 
isto com o Descobrimento da índia , 
para que o Poeta no momento em que 
o Piloto Moalen Cana chega a barra de 
Calecut, deixe lá o Heroe, e mais a 
acção , e salte nas Potencias Européas 
para lhes reprehender os vicios que se 
lhes notavão no tempo do Poeta ? E 
onde deixou Vasco da Gama ? lhe po- 
derião ellas preguntar. Oitava 5. a 

,, Vedes o duro Inglez que se nomêa 
„ Rei da velha, e Santíssima Cidade; 

y, Nova maneira faz de Christandade ; 
i} Para os de Christo tem a espada nua 
,, Não por tomar a terra , que era sua. 

Não só o Rei de Inglaterra assumio o 
titulo de Rei de Jerusalém, também o 
de Castella o tomou , e até de Chypre 
se intulárao Reis. Ainda que Henrique 
VIII se declarou cabeça da Igreja An- 
glicana, não nos consta que os Ingle- 
ses declarassem guerra ao Christianis- 



Sétimo Canto. 67 

mo. Dentro daqueile paiz se fez a guer- 
ra aos Catholicos , e muitas vezes se 
tem perseguido os de Irlanda ; mas isto 
he huma coiza parcial , e não he huma 
guerra universal ao Christianismo. Oi- 
tava 6. a 

„ Guarda-lhe por entanto hum falso Rei 
3 , A Cidade Hierosolyma terreste. " 

Que razão tem o Príncipe dos Poetas 
para chamar falso Rei ao Grão Turco ? 
Os Christãos no tempo da Cruzada se 
apossarão de Jerusalém por direito de 
conquista ? tomando-a aos Sarracenos : 
vierâo os Turcos ? e com o mesmo di- 
reito , e com mais forca se assenhoreá- 
rão da Palestina , da Syria ? e de todo 
o Levante. Se era legitimo o senhorio 
dos Christãos fundado neste direito , 
porque o não será também o dos Tur- 
cos? Aqui não se trata da Lei que pro- 
fessão \ írata-se das conquistas que fa- 
zem. A Paulo Jovio , que escreveo os 
preciosos Livros da Historia do seu 
tempo ? por ser afeiçoado aos Turcos ? 
chamavão por mofa — Bispo Ottomano : 
chamem-me a mim o que quizerem, mas 

E 2 



68 Censura das Lusíadas 

não posso ouvir calumniar os Turcos 
como Conquistadores , e como Políti- 
cos ; talvez seja huma das mais prodi- 
giosas Nações que tem apparecido na 
Terra, mas elles não tem Historiadores. 
Tanto Heroe , tanto Heroe ! Mas o seu 
Império ainda he quasi o maior, e a sua 
Corte ainda he Constantinopla. Tomara 
que se vulgarisasse mais o Veneziano Sa- 
yredi., veja-se a sua Historia dos Turcos. 

" Pois de ti, Gallo indigno, que direi, 
„ Que o nome Christianissimo quizeste, 
„ Não para defendello, nem guardallo, 
„ Mas para ser contra elle , e derriballo?" 

Os Sebastianistas mettem no Canon dos 
seus Profetas Luiz de Camões , e en- 
contrão nestes quatro versos a profe- 
cia da Revolução , e as parvoices do 
Heroe Bonaparte; porque de outra sor- 
te , como se pode entender isto do tem- 
po dos Francezes Christãos, e Catho- 
licos , quaes erâo nos dias do Poeta ? 
As guerras de Francisco I na Itália, 
onde foi vencido por Carlos V na ba- 
talha de Pavia ; não tinhão por objecto , 
ou por motivo o Christianismo ; mas a 



Sétimo Canto. 69 

posse do Ducado de Milão ; nem pôde 
o Poeta entender por perseguição do 
Christianismo a matança dos Calvinis- 
tas ordenada por Carlos IX. Manda o 
Poeta na Oitava 7. a aos mesmos France- 
zes que em lugar de perseguirem o no- 
me Christão , e derriballo vão conquis- 
tar na Africa Occidental o Rio Cyni- 
phio , e na oriental o rio Nilo : 

,, E não contra o Cyniphio, e Nilo rios 

„ Inimigos do antigo nome santo? 

Jt Alli se hão de provar da espada os fios, 

„ Em quem quer reprovar da Igreja o Canto" 

Isto necessita de explicação. Manda o 
Poeta aos Francezes, que vão ao rio Cy- 
niphio, que he habitado pelos Mouros 
occidentaes , e ao Nilo que rega o Egy- 
pto habitado de Árabes, Mamelucos, 
Turcos ; e Mouros. Agora ; que quer 
dizer aqui a palavra — Canto? 

,,Em quem quer reprovar da Igreja o Canto." 

Tomando o Canto por pedra , he S. Pe- 
dro , e os seus Successores — super hanc 
petram 3rc> ; tomando o Canto por en- 



70 Censura das Lusíadas 

toação de voz e vozes, v.g. o Canto-chão 
de que usa a igreja , e que eu sem ser 
Mouro j nem índio reprovo ás vezes pe- 
la horrorosa desaíinação das goelas sar- 
rentas de certos Ministros ; que tem 
com huma, e outra coiza os habitantes 
da Mauritânia , e os do Egypto ? O 
Primado da Igreja Romana, ou a Arte 
de Mafra , também he questão para os 
Mouros ? E depois disto , que direito 
tem os Francezes á conquista do Egy- 
pto, e do Rio Cyniphio? Quer o Poeta 
fazer de Eremita Pedro pregando Cru- 
zadas ? Continuào as invectivas amar- 
gas, e assenta pezadamente a mão nos 
Italianos por toda a Estancia 8. a ; suppo- 
nhamos que o merecem , pois no tempo 
do Poeta erão mui frescas as desordens 
na Itália ; e porque me não compete 
faliar aqui do Papa Alexandre VI , ve- 
ja-se o Inglez Alexandre Gordon na vi- 
da deste Pontifice , e de seu Sobrinho 
César Eorgia. Mas que tem isto com 
o Descobrimento da índia acontecido 
em 1497? 

,, Corntigo fallo, Itália, já submersa 

„ Em vícios mil, e de ti mesma adversa." 



Sétimo Canto. 71 

Oitava 9. a 

,, Oh miseros Christâos , pela ventura 

,, Sois os dentes de Cadmo desparzidos ? " 

(Os dentes não erão de Cadmo, erào 
do Dragão que elle matou.) 

/, Não vedes a divina Sepultura , 
,, Possuída de Caensf 

Expressão baixa, repetida quando falia 
de Mouros: 

„ Andar-lhe os Caens os dentes amostrando;" 

e que forma aqui hum contraste bem 
mal soante com a — divina Sepultura. — 
Estas incorrecções são tão frequentes , 
que parece que o Poeta , não só não 
imposera a ultima, mas nem a primei- 
ra lima em seu Poema. 

Na Oitava 11. a vem as mesmas idéas, 
e até os mesmos consoantes em que era 
pobrissimo Luiz de Camões , e despre- 
za-se neste ponto o abundantíssimo Vas- 
co Mouzinho de Quebedo ! 

,, Se cobiça de grandes senhorios f 
3 , Vos faz ir conquistar terras alhéas 
,, Não vedes que Pactólo , e Hermo rios 
„ Amboi volvem auríferas áreas 9 



72 Censura das Lusíadas 
Oitava 7. a o mesmo: 

„ E não contra o Cyniphio, e Nilo rios." 

E então o Pactolo, e Nilo rios. não erão 
terras estranhas ? Que direito dava Luiz 
de Camões a estas Potencias Européas 
para irem conquistar o que não era 
seu ? He deslocada , e fora de propósito 
esta invectiva , corta pelo meio o tio da 
acção naquelie momento em que se mos- 
trava mais interessante , pois se aproxi- 
mava o Heroe ao termo tão desejado; 
porem ao menos fosse própria do Poeta ; 
mas não he assim : a leitura do A rios- 
to lhe fez mal, gostou da satyra, e a 
copiou toda do Canto 17.° do Furioso, 
Oitava 33. a , e seguintes como adverte 
Ignacio Garcez Ferreira, contentando- 
se em trasladar estes versos : 

Pattòlo , e Ermo , onde si tráe Vorfino 
Miydonia, e Lidia, e quel paese buono. 

E para os dois versos da Oitava 9. a 
ser\io-se do Mário Molza , Poeta pouco 
posterior ao mesmo Ariosto: 



Sétimo Canto. 73 

€he il sepolcro de Christo è in man de'cam\ 

Em fim 14 Oitavas se vão nisto. Fez es- 
quecer a acção para pregar Cruzadas 
com pensamentos , e versos alheios. Na 
Oitava 12. a vem huma redundância pue- 
ril : 

„ Nos muros de Bysancio, e de Turquia." 

Bysancio he Constantinopla , e Cons- 
tantinopla he a Corte da Turquia , pois 
não está fora da Turquia Constantino- 
pla. Chega finalmente a Oitava 15.* 
para nos consolarmos da pena que nos 
causava o nao sabermos mais de Vasco 
da Gama , nem o que lhe acontecera 
na sua chegada a Calecut , e como quem 
está em mui baixa prosa contando hu- 
ma Historia . que enfadado de folha- 
gens diz desta maneira : 

,, E vejamos em tanto o que acontece 
3 , A'quelles táo fumosos navegantes." 

Avivou o nosso desejo , despertou , ou 
desafiou a nossa curiosidade , desejamos 
saber o que lhe aconteceo ; mas o Poe- 
ta assenta que devemos, ter paciência , 



74 Censura das Lusíadas 

porque ainda não he tempo. Não sabe- 
mos o que he feito delles. 

3i Depois que a larga terra lhe apparece, 
„ Fira das suas porfias tão constantes , 
9i Onde vem semear de Christo a Lei, 
3i E dar novo costume , e novo Rei. " 

Antes que passemos a mais, cumpre 
fazer aqui huma ajustada reflexão. Se 
este era o fim do descobrimento, e da 
navegação de Vasco da Gama, devia 
o Poeta ter annunciado isto, e não di- 
zer que o Gama era hum mero desco- 
bridor ; mas se he mudar o culto pú- 
blico no Indostão , e dar novas Leis , e 
novos Monarcas áquella porção da Ásia, 
porque o não faz Vasco da Gama ? Qual 
he o fim da acção ? Não se sabe , por- 
que o Poeta em huma parte diz huma 
coiza , e n'outra diz o contrario. Onde 
está semeada a Lei de Christo por Vas- 
co da Gama ? Onde a mudança da Dy- 
nastia de Calecut ? Escreve á toa , diz 
o que lhe lembra , e onde lhe lembra. 
Toda esta sementeira da Lei de Chri- 
sto , toda estas mudanças de Monarcas 
executadas pelo Heroe , e seus compa- 



Sétimo Canto. 75 

nheiros , annunciadas pelo Poeta nesta 
Oitava, vem a dar na prizào do Gama . 
e no seu resgate por dois rollos de panno: 

,, Pois o Gama soltou pela fazenda. " 

Eis-aqui a acção, eis-aqui o Heroe , e 
eis-aqui as Divinas Lusiadas. 

Vou trasladar como se escreve apre- 
sa a Oitava 16. a para vermos se delia se 
distingue : 



" Tanto que á nova terra se chegarão , 
leves embarcações de pescadores acha- 
rão . que o caminho lhe mostrarão de 
Calecut, onde erão moradores. Para 
lá logo as proas se inclinarão , porque 

" esta era a Cidade das melhores do 

n Malabar melhor , onde vivia o Rei , 

n que a terra toda possuia. ;? 

Aciui não falta hum a virgula , nem 
se altera a collocação e ordem das pa- 
lavras em toda a Oitava. E qual he dos 
nossos Historiadores que em sua mesma 
prosa tão baixamente se explica ? .Não 
he precizo allegar o eloquente João de 



76 Censurdas Lusiadasa 

Barros, exemplar da elegância Portugue- 
za, ou o florido Jacintho Freire, basta 
o pezado , e triste Damião de Góes. 
Tão baixamente deixados os navegan- 
tes ; desapparece a acção , e começa 
huma miúda descripção Geográfica do 
Indostão , cheia de impertinência , e de 
versos errados. Oitava 18. a Depois de 
vir no primeiro verso o bordão — Lá — 
diz o segundo : 

,, Tão larga terra toda a Ásia discorre." 

Com hum hiato enorme nos dá hum ver- 
so errado. Na Oitava 19. a vem outra vez 
larga terra para vir hum verso errado : 

yi Sahe da larga terra huma longa ponta." 

Na Oitava 20. a vem a palavra — Possan- 
£«, de que se não acharão muitos exem- 
plos nos Clássicos, e he gallicismo ; po- 
rém o Poeta escravo da rima , usa sem- 
pre da primeira que se lhe offerece , o 
ponto está que feche o verso, e dê o 
consoante. Na Oitava 21. a vem o borr 
dão— La. — 



Sétimo Canto, 77 

3, Aqui se enxerga lá do mar undoso." 

Na Oitava 22. a outro verso ou errado, 
ou estirado; eu chamarei sempre hum 
erro a falta sensivel de métrica har- 
monia : 

3í Se estende huma fralda estreita que combate." 

Começa a Oitava 23. a com o que já ti- 
nha dito, e repizado na Oitava 16.* 

5J . Chegada a Frota ao rico senhorio, 
'. 3) Hum Portuguez mandado logo parte 
j, A fazer sabedor o Rei gentio 
,, Da vinda sua a táo remota parte." 

Parece que o Portuguez mandado não 
deve dizer ao Rei senão que elle tinha 
alli chegado , pois só lhe dá parte da 
sua vinda , e não da expedição. Parte , 
e parte não são consoantes são unisoan- 
tes , porque ainda que hum signifique 
huma coiza , e outro outra , tem as 
mesmas letras , e as mesmas syllabas. 
Isto he hum grande defeito em hum gran- 
de Poeta. Na Oitava 24. a vem em" dois 
versos successivos dois — Fora — 9 e hum 
Lá do bordão : — 



78 Censura das Lusíadas 

,, Fora na Região da Barbaria, 

„ Lá onde fora Antheo obedecido." 

Huns se fazem escuros por breves ; Luiz 
de Camões por difuso, minucioso, e af- 
fectadamente instruído. Na Oitava 25.* 
vemos hum verso máo, e huma incohe- 
rencia 9 ou parvoice : 

,, Lhe disse; quem te trouxe a estoutro Mundo, 
,, Tão longe da tua Pairia Lusitana? 

Que coiza se entenderá por estoutro 
Mundo? E quer dizer tua pátria Lusi- 
tana ? Dá a entender que tinha outra : 
depois de "tua pátria" parece escusado 
o Lusitana , sendo Lusitano o mesmo 
Gama , e seus companheiros. A respos- 
ta a esta questão , he a mais imprópria: 

„ Yitnos buscar do Indo a grão corrente, 
,, Por onde a Lei Divina se accrescente." 

Em primeiro lugar o rio Indo não des- 
emboca em a iiahia de Calecut, não 
era alli ; em segundo lugar, não saben- 
do quaes erão as disposições do animo 
daquelle Mouro , que conhecia Christão 
o Mensageiro , não devia fallar assim , 
porque sabendo os Mouros que nós cha- 



Sétimo Canto. 79 

mamos Divina a nossa Lei , porque o 
he , e falsa e terrena a sua , porque o 
he \ nâo lhe devia dar a entender que 
vinhào abolir a Religião do paiz, porque 
era desta maneira indispor hum Mouro 
que não conhecia , quando necessitava 
delle, e he huma imprudência dar esta 
resposta a hum Mouro , quem hia só 
para descobrir, e commerciar como de- 
pois se vio» 

„ Pois o Gama soltou pela fazenda." 

Na Oitava 26. a dissimula o Mouro o 
que lhe ouvia \ e lhe dá noticia do Rei 
da terra com dois tão baixos , e tão pro- 
saicos versos , que eu não sei como 
mais baixamente se explicarião dois 
Camponezes se se encontrassem : 

i, Lhe diz que estava fora da Cidade, 
,, Mas de caminho pouca quantidade." 

Ás duas seguintes Oitavas conservão a 
ingenuidade Homérica, parecem coizas 
acontecidas nos tempos Heróicos em 
que tudo se dizia pelo seu nome, e os 
Marechaes Generaes dos Exércitos co- 



8o Censura das Lusíadas 

zinhavão elles mesmos o seu jantar. — 
Para desculparmos Homero, dizem os 
Commentadores , he precizo que nos 
transportemos áquelles ditosos tempos , 
e que nos consideremos com áquelles 
costumes : mas esta regra não pôde ter 
lugar nas Lusiadas, porque forão feitas 
em tempos mais macios , e polidos. Na 
Oitava 28. a ficando o Portuguez em ca- 
sa do Mouro : 

„ Com elle come , e bebe, e lhe obedece; 

>, Ambos se tornão logo da Cidade, 

„ Para a frota, que o Mouro bem conhece; 

„ Sobem á Capitania, e toda a gente 

„ Monçaide recebeo benignamente." 

He huma regra de Horácio , ou da boa 
razão , que se devem nos versos omittir 
aquellas coizas que nos mesmos versos 
não podem brilhar, e ha taes coizas, 
que não devem ser miudamente annun- 
ciadas em huma Epopéa, onde tudo de- 
ve ser magnificência, e esta he incom- 
patível com a baixeza relativa de certos 
objectos. Se o Portuguez ficava, e dor- 
mia em casa do Mouro , bem se pôde 
suppôr que também devia comer algu- 
ma coiza : 



Sétimo Canto. 81 

„ Com elle come, e bebe, e lhe obedece." 

Este obedece a não ser para acabar, e 
rimar o verso, bem ^e pode entender, 
que seria o nosso cumprimento JNacio- 
nal — Estou á sua obediência ; para lhe 
dar gosto etc. Porque eu não pos^o des- 
cobrir que acto de obediência fora este 
do Portuguez para com o Mouro. Na 
Oitava 29. a o primeiro verso he verda- 
deiramente enigmático pi lo seu enfasi : 

„ O Capitão o abraça era Cabo ledo." 

Cabo branco , Cabo verde sabemos nós 
o que he , que são dois cabos assim cha- 
mados, porém — -Cabo ledo — não se sabe 
o que he , se não for palavra para rimar 
com — arvoredo — que ha de vir depois. 
Cabo d'Horn, Cabo Bretão, não cabião, 
veio Caboledo. Talvez quizesse dizer 
que o Gama o abraçara alegre depois 
que todos os outros o abraçarão. Isto 
não se pôde entender com a frase — em 
Caboledo. A oração do Mouro começa , 
Oitava 30. \ com acostumada improprie- 
dade; porque não se encontra por todas 
Tom, 11, f 



82 Censura das Lusíadas 

as Lusíadas hum só caracter bem sus- 
tentado : 

,, Elle começa. . . . &c< 

O 7.° verso he quasi o mesmo, ou re- 
produzido, da l. a Oitava do Poema: 

,, Por mares nunca d'outro lenho arados." 

E na Oitava 31.* o Mouro fora de seu 
próprio caracter, e por isso impropria- 
mente , entra nas vistas da Providencia 
do Deos dos Christãos sobre o estabe- 
lecimento do Christianismo na Ásia , 
porque não podião os Portuguezas fazer 
outro serviço a Deos que não fosse di- 
latar a Religião Christã; e suppôr, ou 
introduzir hum Mouro, ainda no gré- 
mio do Mahometismo, persuadido dis- 
to , he huma impropriedade , porque he 
dar a conhecer que a Religião Christã 
era huma obra de Deos , o que os Mou- 
ros não acreditão. 

„ Deos por certo vos traz, porque pretende 
3, Algum serviço seu por vós obrado j 
,, Foi isso só vos guia, e vus defende. 



Sétimo Canto. 83 

„ Dos imigos, do mar, do vento irado : 
j, Sabei que estais na índia onde s'estende 
„ Diverso povo, rico, e prosperado.. ." 

Estender-se hum povo não he frase 
própria para nos fazer entender , que 
o Indostão era habitado de diversos \ ou 
differentes povos todos elles ricos , e 
abastados. Na Oitava 32. a chama Pro- 
víncia ao Malabar : 

3 , Esta Província cujo porto agora." 

Reduzir a estenaissima região do Mala^- 
bar, que he toda a costa do Indostão da 
parte do norte j ao nome de Provincia ? 
havendo tantos, e tão diversos Reinos 
no mesmo Malabar, he huma incoheren- 
cia, ou huma impropriedade. E como 
pode ser huma Provincia de diversos 
Reis ? 

, t De diversos Reis he— " 

Conta nas Oitavas 33. a , 34. a ? e 35.* o 
que aconteceo a Saramá Perimal quan- 
do se converteo á Lei de Mafoma pela 

F2 



84 Censura das Lusíadas 

efncacia, e eloquência de huns Missio- 
nários que vierão da Arábia: 

3i Fazem-lhe a Lei tomar com fervor tanto, 
„ Que presuppoz de nella morrer santo." 

E continua com a mesma baixeza na 
Oitava 34 a : 

f , Náos arma , e neílas mette curioso 
Jt Mercadoria que oftere^a rica 
,, Para ir nellas a ser Religioso." 

Creio que ninguém deixará de sentir 
hum enjoo invencível ao ler estas bai- 
xezas, onde desapparece o ultimo vis- 
lumbre de Poesia, e muito mais cresce 
o enjoo , quando na Oitava 35. a encon- 
tra este verso errado : 

„ A qual Chalé, a qual a Ilha da Pimenta." 

Ainda na Oitava 36. a continua a histo- 
ria de Saramá Perimal ; porque o Mou- 
ro em lugar de ir com o Mensageiro 
onde o Rei estava, que era em Panane, 
deixou- se disso , e veio coín o mesmo 
Mensageiro para a Náo Capiiaina onde 
se poz a contar a historia antiga do 



Sétimo Canto. 85 

Paiz , e a acção a retardar-se , ou intei- 
ramente esquecer-se. Passa (atropelando 
todos os dictames da boa razão) da his- 
toria do Saramá a dar huma idéa da 
qualidade da gente Malabar, que elle 
divide em duas classes — Naires, e Po- 
leás — contando com muita miudeza , 
que os Poleás conservão a successão 
dos officios ; o filho do Çapateiro entre 
elles , por força ha de ser Çapateiro ; e 
como diz isto em rasteira prosa, não 
importa que os versos vão errados. 

„ Senão o de seus passados até á morte." 

Os da Seita Camoniana que reconhece- 
rem aqui o metro , não tem orelhas, 
Isto he , ás avessas : 

Asinus ad Lyram, 

Oitava 39.* 

j, Desta sorte o Judaico povo antigo 
>9 Náo tocava nas gentes de Samaria." 

Deixemo-nos da quantidade longa, ou 
breve deste nome Samaria , porque com 



86 Censura das Lusíadas 

o i longo sempre o li , e ouvi. He pos- 
sível que hum pobre Mouro cTOurão 
tivesse noticia desta antipathia dos Ju- 
deos, e Samaritanos? Pela Historia o 
nao conheceria, menos pela lição daBi- 
blia , coiza incógnita ao Mouro , e ain- 
da muito menos pela experiência o po- 
dia saber, porque ainda que subsista 
disperso o Povo Judaico , e se conheça 
e distinga o individuo Judeo, nao se 
conhece agora o Samaritano , nação 
acabada, e abolida ou confundida com 
a Judaica na sua dispersão universal. 
NaOit. 4o. a temos nova impropriedade, 
porque se Monçaide não podia ter noti- 
cia dos Samaritanos, menos a podia ter 
dos Filósofos da Grécia, e de suas opi- 
niões , com tudo mostra-se instruído na 
Filosofia Pythagorica , pois dá a conhe- 
cer que Pythagoras deo primeiro o nome 
de Filosofia á Sciencia. 

tt D'hura que primeiro poz nome á Sciencia, 
„ Não matào coiza viva * 

Com efieito, até agora ainda ninguém 
vio matar coizas mortas. 



Sétimo Canto. 87 

Somente no venéreo ajuntamento 

Tem mais licença, e menos regimento." 



Podia, e devia mui bem omittir-se esta 
noticia dos costumes dos Religiosos Bra- 
menes em huma Epopéa, mas parece 
que se empenhara o Príncipe dos Poe- 
tas em tornar fastidioso este 7.° Canto , 
porque a taes miudezas não chega o 
Historiador mais escrupuloso ; e não 
satisfeito do que diz nesta Oitava sobre 
a infâmia dos Religiosos Bramenes \ 
tão imitadores do abstinente Pythago- 
ras, continua na Oit. 41. a com a mais 
baixa prosa a revelar infames turpitu- 
des: 

j, Geraes s|o as mulheres, mas somente 
„ Para os da geração de seus maridos*' 

Se os ouvidos castos se escandalisão com 
tão torpes idéas, e tão escusadas aa 
magestade da acção das Lusiadas . os 
ouvidos poéticos não se escandalisão 
menos com estas prosaicas tiradas, por- 
que com eífeito , eu me persuado , que 
não haverá paixão tão cega que encon- 



88 Censura das Lusíadas 

tre em taes regras accentuadas huma li- 
geira sombra de Poesia. O 5.° verso ap- 
parece livre das Leis do metro : 

„ Estes, e outros costumes variamente" 

A querermos dar a's syllâbas o valor 
que ellas tem, isto não he hum verso, 
ao menos nào tem aquella harmonia , 
que he a de visa de hum Poeta daquel- 
la jerarquia em que a cega pertinácia 
quer constituir Luiz de Camões. 

Já era tempo de vermos o que acon- 
teceo 

5 , A'quelles tão famosos navegantes." 

Devem desembarcar instruídos tão de- 
pressa por hum Mouro nas leis , e nos 
costumes dos Malabares. O Poeta diz 
na Oitava 43. a que o Gama tinha licen- 
ça para desembarcar, e não se pode an- 
nunciar em mais clara prosa : 

„ Mas elle que do Rei já tem licença 
„ Para desembarcar. ..." 

Quem foi pedir esta licença, e quem u 



Sétimo Canto. 89 

trouxe ? He miserável o Poeta em des- 
cuidos ' 

O Portuguez mandado, a meio cami- 
nho voltou , porque o Rei não estava 
em Calecut , mas em Panane , ficou em 
casa do Mouro , e sem tratar de outra 
coiza veio para bordo da Capitaina , e 
eté agora não se fez , nem se cuidou 
n'outra coiza mais que em ouvir as his- 
torias do Mouro. E não he isto hum 
erro ? Não he isto huma falta de conve- 
niência na disposição dos Quadros Poé- 
ticos ? 

Hum Catual espera o Gama na 
praia , para o conduzir , e nesta Oitava 
44. a ha não só hum notável erro de me- 
tro, mas huma indesculpável caeafonia, 
que parece impossível não ser isto hum 
erro de copista desde ai.* Edição de 
1572. 

„ E n'hum portátil Leito huma rica cama." 

Hum escolar com os primeiros rudimen- 
tos , ou regras da versificação não pro- 
duzia hum semilhante disparate. E não 
tem que emendar Camões ? 2.° ver- 
so da Oitava 45. a soa deste geito: 



90 Censura das Lusíadas 

„ Caminhão lá para aonde o Rei o espera*' 

Na Oitava 47. a se conhece, que o Poe- 
ta se podia servir do maravilhoso da 
Religião , porque se aqui introduz o 
Demónio fingindo, ou figurando aos Ma- 
labares as imagens abomináveis de seus 
ídolos , também podia figurar como 
Agente e principio , ou causa do mal 
em a têa maravilhosa do Poema. 

„ Aqui estão das deidades as figuras, 
„ Esculpidas em páo, e em pedra fria; 
j, Vários de gestos, vários de pinturas, 
„ A segundo o Demónio lhes fingia." 

Nesta Oitava está propriamente empre- 
gada a palavra — esculpida: — porque se 
pôde esculpir figuras em páo , e em pe- 
dra, mas na Oitava 48.* está emprega- 
da com notável impropriedade. Toda a 
figura está esculpida na pedra, ou no 
páo, e aqui diz que a figura de Júpiter 
Ammon tinha os cornos esculpidos na 
cabeça , e o diz com huma syntaxe mui- 
to má. 

,, Hum na cabeça cornos esculpidos, 

a Qual Júpiter Ammon na Líbia estava." 



Sétimo Canto. 91 

Esta oração está completa, porque pas- 
sa nos dois seguintes versos a Jiuma 
idéa difierente, ou diverso objecto, e 
não está bem a hum tão grande Poeta 
tanta falta de correcção. O furor de os- 
tentar erudição nunca o abandona. Ne- 
nhuma similhança tem os ídolos mons- 
truosos dos Povos da Ásia com os Deo- 
ses da Mvtholog-ia Grega ; mas o Poeta 
não perde occasião de se mostrar erudi- 
to ; em huma só Oitava , Júpiter Am- 
mon, Jano, Briareo, e Anubis. Seja isto 
o que for; porém o que mais custa he 
encontrar o estylo Poético neste tão ce- 
lebrado, e decantado Poema. Oit. 49. a 

„ Aqui feita do bárbaro Geutio 

9i A supersticiosa adoração, 

,, Direitos vão sem outro algum desvio, 

39 Para onde estava o Rei do povo vão." 

Em quatro versos huma baixa prosa, 
huma cunha , hum epitheto ocioso , e 
huma dissonância. Direitos vão e povo 
vão soa isto muito mal. Sem outro algum 
desvio nada mais quer dizer, que aca- 
bar o verso. Porque razão mereça o po- 
vo de Calecut o sobrenome de vão não 



92 Censura das Lusíadas 

se sabe ; que fez este povo , que notí- 
cias havia delle , que provas tinha dado 
de ser vão , ou vaidoso ? N ao havia mais 
que a rima em ão, que lhe merecesse 
esta descompostura ; não reconheço ver- 
dadeiro Poeta quem não faz da rima 
huma escrava. Nas Oitavas 50. a , 51.% 
52. a , e 53 a pinta, ou descreve o Poeta o 
que os Portuguezes virão esculpido nas 
portas da cerca do Palácio do Rei de 
Calecut. Podia a seu sabor fingir quan- 
to podia ter alguma relação com a His- 
toria , ou fabulosa , ou verdadeira da- 
quelle paiz \ mas com dignidade , e com 
modéstia. Não se pôde saber para que 
dá á testa de Baccho o epitheto de liza , 
creio que a necessidade de rimar, que 
o obriga a fazer o sacrifício da razão 
pela mingua de idéas : 

„ Rege-o hum Capitão de fronte liza," 

E os outros Capitães terão a fronte en= 
rugada ? Dir-me-ha que esta lizura era 
hum necessário attributo da perpetua 
mocidade conservada na cara de Bac- 
cho ; mas o juízo attento não descobre 



Sétimo Canto. 93 

aqui mais que a necessidade imperiosa 
de rimar. Como se podia ver em huma 
peça de Escultura huma cidade que era 
ediíicada pelo Capitão defronte liza que 
alli apparecia? 

,, Por elle edificada estava Nisa." 

Reconhece-se isto em hum Capitão que 
vai commandando hum exercito ? Es- 
tas incoherencias só podem ser desco- 
nhecidas á paixão, mas nunca escapa- 
rão ás indagações de huma Critica il- 
lustrada. ]\a Oitava 53. a ha a pintura 
de Semiramis, que dizem levara suas 
armas victoriosas até ás margens do 
Indo ; mas com culpável indecencia so- 
hum caso duvidoso ; e quando a Histo- 
ria não he clara não devia o Poeta of- 
fender a honestidade com hum quadro 
de tanta torpeza : 

„ Alli tem junto ao lado nunca frio 
,, Esculpido o feroz Ginete ardente, 
} , Com oueru teria o ti lho competência: 
,, Amor nefando, bruta incontinência." 

Fallando de huma Guerreira., era escu- 



94 Censura das Lusíadas 

sado dar a idéa de hum horrendo inces- 
to , e de huma abominável bestialidade. 
A mania de se mostrar erudito o obriga 
a quebrantar todas as Leis da decência, 
e da honestidade em hum Poema cuja 
acção tinha por fim o estabelecimento 
do Christianismo na Ásia. 

Na Oitava 54. a torna huma das cos* 
tumadas indicações da pobreza de rima: 

)> Que já não de Filippo, mas sem falta , 
„ Da progénie de Júpiter se exalta." 

Este exalta trouxe a miserável cunha 
do — sem falta — cuja nullidade, ou ocio- 
sidade não só he aqui patente, mas ir- 
risória. 

Na Oitava 55. a apparece huma syn~ 
taxe tão avessa que põe o ultimo cunho 
á incorrecção do estylo de tao grande 
Poeta : 

„ Os Portuguezes vendo estas memorias, 
,, Dizia o Catual ao Capitão; 
,, Tempo cedo virá que outras vietoria9 
„ Estas que agora olhais abaterão." 

Temos duas orações ? mas a primeira. 



Sétimo Canto. 95 

he incompleta no sentido . e não tem 
verbo, nós ficamos suspensos sem sa- 
bermos o que os Portuguezes devem fa- 
zer , ou farão , vendo estas victorias , 
ou memorias , como diz o Poeta; isto 
aqui acaba , e não ha mais que esperar 
senão que grammaticalmente se an- 
nunciasse o Poeta. O verbo abaterão, 
em a segunda oração he regido pelo no- 
minativo — outras victorias; mas isto já 
não tem relação alguma com o que se 
disse acima. Isto não são argucias gram- 
maticaes , são erros palpáveis nos pri- 
meiros conhecimentos que deve ter hum 
Poeta ? que he annunciar-se correcta- 
mente em sua linguagem. 

jNa Oitava 57. a temos outra notável 
incorrecção grammatical : 

,,, Hum panno (Touro cinge, e na cabeça 
9i De preciosas gemmas se adereça." 

A cabeça he quem se adereça , e o que 
o Poeta pòe em ablativo devia estar em 
nominativo . mas o verso ficava (como 
muitos) minguado , se lhe faltasse a par- 
tícula — na — ; mas primeiro está a boa 



96 Censura das Lusíadas 

grammatica , que o verso sonoro , e 
corrente. Na Oitava 58. a ainda o Poeta 
mostra huma ignorância mais culpável 
que a da Grammatica. Os dois versos 
pariados que íèchâo as Oitavas devem 
rimar mui diversamente ; aqui se des- 
cobre esta infracção da invariável Lei 
seguida por todos os Poetas que escre- 
verão em Oitava rima , antes , e depois 
de Camões. O J.° verso, o 3.°, e o 5.° ri- 
mâo — ente — o 7.°, e 8.° também rimão 
em — ente. — Não serão tão contumazes 
os Sectários da infallibilidade Camonia- 
na , que queirão , ou possâo desculpar 
esta tão sensivel \ e manifesta ignorân- 
cia. O verbo — ruminar — que o Poeta 
emprega no 4.° verso , não exprime a 
acção do Rei mastigando a planta cha- 
mada — Betei — ; diz-se ruminar daquel- 
le animal , que por hum particular mo- 
vimento do ventrículo traz outra vez á 
boca para o mastigar aquelle alimento 
que já tinha engolido. E ruminar não 
he simplesmente mastigar. Na Oitava 
59. a temos hum — rico Leito — e ainda 
mais rico de ignorância o 7.° verso , 
que he errado. 



Sétimo Canto. 97 

„ Na opinião do Rei , e do povo todo. " 

Na Oit. 60. a ha tal obscuridade decons- 
trucção , que ainda he mais espessa , 
e mais densa que a obscuridade natu- 
ral em que o Poeta diz que jaz esta 
porção da Europa que se chama Lu- 
sitânia : 

s , Hum grande Rei de lá das partes onde , 

,, Ceo volulil com perpetua roda , 

j, Da terra a lux, solar co y a terra esconde 

,, Fingindo a que deixou de escura nada. " 

Que Astronomia seja esta • não enten- 
do eu , e creio que todos ficarão na 
mesma perplexidade , e confusão quan- 
do attentamente reflectirem no modo 
porque o Poeta se annuncia para dar 
ao Rei de Calecut a idéa de que Por- 
tugal era hum dos Reinos occidentaes 
da Europa. Esta — escura nada — não 
he propriedade peculiar a Portugal ? 
todas as porções do globo tem hum 
Oriente . e hum Occidente ; todas el- 
las se acclarão quando o Sol lhes nas- 
ce ; todas se obscurecem , quando se 
lhes põe. Começar de hum modo não 
Tom. II, g 



9S Censura das Lusíadas 

só escuro mas inintelligivel quando de- 
ve dar huma idéa clara do que quer 
dizer, e com huma perifrase da posi- 
ção occidental da Lusitânia deixar os 
ouvintes ás escuras he hum grande er- 
ro ! Tem nesta Oit. duas vezes a pa- 
lavra lá. ]Na Oit. 61. a vem outro lá. e 
huma das mais solemnes mentiras , que 
se não devia pôr na boca de tão as- 
signalado Barão. Quer dar huma idéa 
da abundância de Portugal , e dá idéa 
de huma hyperbolica , ou encarecida 
opulência , porque lhe diz que Portu- 
gal possúe todas as riquezas , e tudo 
aquillo que anda sobre o mar, e que 
anda sobre as terras , e tudo aquillo 
que ha desde o Tejo ao Nilo, e des- 
de a Gelandia até á Linha equinocial , 
tudo quanto tem em si huma , e ou- 
tra Ethiopia : melhor he que o Poeta 
o diga em verso , do que eu o expo- 
nha em prosa: 

„ Por te fazer saber que tudo aquillo , 

Jt Que sobre o mar, que sobre as terras anda , 

3) De riquezas de lá do Tejo ao Nilo ; 

„ E desde a fria plaga de Gelanda, 

3y Até bem donde o Sol não muda o estilo 



Sftimo Canto. 99 

9> Nos dias sobre a gente da Edropia , 

„ Tudo tem no seu Reino em grande copia. " 

Para dizer esta mentira he que EIRei 
D. Manoel ih andou á índia VasGO da 
Gama ? 

,, E por longos rodeios a ti manda 
,, Por te fazer saber ' 



Se esta escandalosa exageração pare- 
cesse huma verdade ao Rei de Cale- 
cut , parece também que devia respon- 
der ao Gama : zz se os Portuçriezes 
tem lá tanta coiza como íu dizes , pa- 
rece que era escusado cá vir ; se tem 
lá em tanta abundância as producções 
de toda a terra, para que vem nave- 
gar todos os mares ? — Diz na Oit. 62. a . 
que quer hum Tratado de Commercio 
com ò Rei de Calecut , de hum modo 
tãó baixo como impróprio: — 

j, É se queres com pactos , e lianças , 
3) De paz, e de amizade sncrti e nua, 
,, Commercio consentir das abundanças 
,, Das fazendas das terras sua , e tua, 
,, Porque cresçSo as rendas, e abastanças. " 

He isto hum Heroe Descobridor 

„ A quem Neptuno , e Marte obedecerão \ '! 

G 2 



100 Censura das Lusíadas 

Ou he hum sobre-carga do Navio tal r 
Teria Portugal no tempo de EIRei D. 
Manoel toda a opulência j riquezas , e 
producções do Globo; por certo entre 
tanta fartura parece não tinha hum Poeta 
que fizesse os versos certos , pois Luiz 
de Camões nesta mesma Oit. nos apre- 
senta este : 

„ De vossos Reinos, será certamente. " 

A ultima Oit. da oração da Embaixa- 
da começa desta sorte : 

,, E sendo assim que o nó desta amizade. ' 
E finda: 

„ E da vontade em ti sobre isto posta , 
}i Me dês a mi certíssima resposta. ' 

O Rei he coherente na baixeza da sua 
resposta , e enche-se hum verso com 
huma coiza despropositada , que de ne- 
nhum modo se pôde omittir , ainda que 
omittão a razão , e a verdade , os que 
por huma cega pertinácia querem cons- 
tituir as Lusiadas no ultimo fastigio da 
perfeição Poética. 
„ E que em tanto, podia do trabalho 



}> 



Sétimo Canto. 101 

Passado ir repousar , e em tempo breve , 
Daria a seu despacho hum justo talho. 



Não podemos saber o que o Poeta nos 
queira annunciar pela frase hum jus- 
to talho. Não tenho á mão os Com- 
mentadores ? porque não quiz ter ante 
os olhos nesta Censura mais do que o 
puro , e escarnado texto das Lusiadas , 
e conhecer á luz da boa razão ( facho 
cornmum a todo o ente pensador) o 
que nellas se descobre de imperfeito, 
não para me desafrontar a mim , mas 
para desenganar os outros. 

Quando lemos as magestosas nar- 
rações de muitos Poetas antigos , e mo- 
dernos , especialmente as do T asso . 
não podemos deixar de nos compade- 
cer , por não dizer enjoar , da baixe- 
za 7 e trivialidade a que desce , ou em 
que se precipita Luiz de Camões. Hu- 
ma velha que contasse a outra velha 
no canto de huma chaminé o que suc- 
cedeo a Vasco da Gama depois da em- 
baixada mercantil , que acabamos de 
ouvir , e admirar , não se exprimiria 
em mais rasteira prosa ; e eis-aqui o 
principio da Oit. 66. a : 



102 Censura das Lusíadas 

,, Agazalhados forão juntamente 

3> O Gama , e os Portugueze9 no aposento 

,, Do nobre Regedor 

Não sei que se encontre nestas trovas 
o tom de huma Epopéa , que ainda em 
coizas pequenas deve apparecer qual 
he j grande ; mas tal he a força do er- 
ro j e da preoccupação successiva , que 
nem defeitos tão grandes conhece 5 e 
acclama por bellezas o que são ver- 
dadeiras monstruosidades. Na Oit. 68. a 
continua a mesma prosa , pois eu não 
sei como isto se possa ler de outra ma- 
neira , ou que tom se deva dar a es- 
tas regras desiguaes. 



i I 



Que particularmente alli lhe desse 
Informação mui larga , pois fazia 
iSisso serviço ao Rei , porque soubesse 
O que neste negocio se faria .... 
Monçaide torna : posto que eu quizesse 
, y Dizer-te nisto mais , não saberia ; 
,, Somente sei , que he gente lá da Hespanha 
,, Onde o meu ninho , e o Sol no mar se banha. " 

Então este Mouro , que tão baixamen- 
te se annuncía , era Hespanhol ? As- 
sim o devemos entender destas pala- 
vras — Lá de Hespanha onde o meu 



Sétimo Canto. 103 

ninho, etc. zr Na célebre Oit. 6 9. a ex- 
plica o Mouro o mysterio da Encar- 
nação do Verbo , e constituir isto na 
boca de hum Mouro he o ultimo ex- 
cesso de demência. Oiçamos este Theó- 
logo de Ourão : 

,, Tem a Lei de hum Profeta que gerado 
,, Foi sem fazer na carne detrimento 
,, Da mãi , que por bafo está appxovado , 
,, Do Deos que tem do Mundo o regimento; 
,,, O que entre os meus antigos he vulgado 
,, Delles he que o valor sanguinolento etc. " 

Se desta maneira se explica o santís- 
simo, e incomprehensivel mysterio da 
Encarnação , digamos que he com a 
maior indignidade. O Mouro nem he 
bom Theólogo , nem he bom Gram- 
matíco , porque os dois últimos versos 
da Oit. não fazem sentido algum : 

r>) Das armas no seu braço resplandece , 
„ O que em nosso9 passados se parece. 

Quem poderá dar a isto hum verda- 
deiro sentido grammatical ? Parece que 
não devia dizer em nossos mas a nos- 
sos. Na Oit. 70. a ha huma manifesta con- 
tradicção no caracter deMonçaide, tão 



104 Censura das Lusíadas 

amigo, e apaixonado dos Portuguezes. 
Destróe esta conhecida amizade , dan- 
do dos mesmos Portuguezes huma idéa 
que os fizesse aborrecer , e mui se- 
riamente recear. Vasco da Gama dis- 
se que elle era hum mero explorador, 
mandado pelo seu Rei a entabolar hum 
Tratado de Commercio com o de Ca- 
lecut ; e Monçaide dá a conhecer os 
Portuguezes por conquistadores , que 
expulsarão os Mouros 

,, Do rico Tejo, e fresca Guadiana. ' 

E não satisfeitos com esta expulsão, 
até na mesma Africa, 

,, Nos não qnerem deixar viver seguros , 
si Tomanclo-nos Cidades, e altos muros. : 

" O mesmo nos viráõ fazer a nós , com 
o pé do Commercio , que nos propõem , u 
podiao dizer os Malabares , e desde es- 
te instante olhar de má fé para os Por- 
tuguezes , e podemos dizer que a má 
tenção com que os Malabares , e os 
mesmos Mouros de Calecut tratarão os 
Hospedes, nascera desta deslocada idéa , 
que dera Monçaide do espirito de con- 



Sétimo Canto. 105 

quista , e proezas dos Portuguezes. Na 
Oit. 71. a prosegue no mesmo, amplifi- 
cando a idéa , fazendo-os vencedores 
dos Hespanhoes , e dos Francezes se 
lá do Pyrenne descem : 

3 , Ou lá de alguns que do Pyrene desção , 

E para nos fazer rir a nós , os que 
não pertencemos á Seita pertinacíssi- 
ma . para nos desenganar . que não ti- 
nha a mais ligeira idéa da igualdade , 
e propriedade dos costumes , ou ? como 
dizem . caracteres , põe na boca do 
Mouro Moncaide . e nos ouvidos do 
Catual o nome de Anibal , e de Mar- 
cello ', dizendo , ou querendo dizer , que 
os Portuguezes são huns Anibaes , e 
que para elles ainda não houve hum 
Marcello , que os ensinasse a vencer , 
vencendo-os. Que os Portuguezes são 
muito valorosos sabemos nós , e até em 
não querermos deixar o nosso crédito 
em mãos alhêas ; mas por certo ainda 
que o Mouro soubesse do nosso valor , 
não era tão instruido na Leitura de 
Tito Livio que soubesse quem fora 
Anibal, e quem fora Marcello, e se 



106 Censura das Lusíadas 

elle o não sabia , mais o ignorava ain- 
da o Catual a quem elle o dizia. Aqui 
nos disserão ha aimos as Gazetas que 
se achara em Pvl ai roços o que falta nas 
Décadas de Tito Livio ; mas o Mou- 
ro em Calecut não tinha noticia do 
Historiador Patavino , e isto , que pa- 
rece huma pequena coiza , he em si 
hum grande erro , e huma manifesta 
ignorância dos dictames da boa razão , 
que manda que se facão fallar os su- 
geitos conforme seu estado , profissão , 
jerarquia , e circunstancias. O que se 
conhece, diz Horácio (ou a boa razão, 
que he mais que Horácio ) que não 
pode brilhar em Poesia , omitte-se ; 
nesta cathegoria entrão miudezas de 
circunstancias , e o que se não pôde 
dizer em tom Poético , não se diz , por- 
que fica então muito mais baixo , que 
a prosa : nisto he miserável o Prínci- 
pe 4os Poetas : oiça-se o principio da 
Oit. 72. a : 

„ E se esta informação não for inteira 
„ Tanto quanto convém , delles pretende 
„ Informar-te , que he gente verdadeira. 

Dizem os da Seita pertinaz que isto he 



Sétimo Caxto. 107 

da singeleza do século em que escre- 
veo Camões : porém digo que a Poesia 
não tem século , que sempre deve ser 
o que he . Poesia. A Oit. 73 a he do mes- 
mo jaez : 

j, Ambos partem da praia , a quem seguia 
,, A Kaira geração , que o mar coalhava , 
j, A* Capitaina sobem , furte } e lella , 
,, Onde Paulo os recebe a bordo delia. 

Deixando a cunha — forte , e hella , de- 
vemos notar , que Naira não he adje- 
ctivo. Os Nobres de Calecut , e dados 
á milicia chamão-se Naires , e he hum 
nome substantivo, como entre nós — sol- 
dados — , e quem diria entre nós — A 
geração soldada r Isto he evidente \ po- 
rém os Commentadores . e Sectários am- 
plião demasiadamente o favor de Horá- 
cio : 

Ubi plura nitent in carmine } non ego paucis 
Offendar maculis. 

Por certo quando a boa razão de Horá- 
cio lhe dictou este Canon não se lem- 
brou de tantas incorrecções. Se a Nai- 
ra geração tinha já subido á Capitaina, 



108 Censura das Lusíadas 

era escusado dizer que Paulo a recebe- 
ra — a bordo delia ; mas alguma coiza 
devia apparecer que rimasse com forte. , 
e bella. 

A primeira coiza que se oíferece 
( quer o Poeta que assim seja ) aos olhos 
do Catual , são as bandeiras da Capi- 
taina , que por certo devião ser innu- 
meraveis ; e esta arte de bandeiras per- 
deo-se ; porque ao presente não tem ou- 
tra coiza mais que as armas da Nação 
a que os Vasos pertencem ; então com 
a arte de pintar em seda , como então 
havia a arte de pintar em vidro , se pin- 
tava a Historia geral , e particular da 
Nação , com as mais miúdas attitudes 
dos indivíduos , coiza tão imprópria , e 
inverosimil que passa a irrisória. Fique 
isto para a Censura do Canto 8.° Con- 
sideremos a Oit: 75. a , e veremos onde 
leva a mania de parecer erudito : 

5i Pelo que vê pergunta , mas o Gama 

j, Lhe pedia primeiro , que se assente , 

>y E que aquelle deleite que tanto ama 

„ A Seita Epicurêa experimente. ' 

Se em fim Epicuro era hum Glutão, ou 



Sétimo Canto. 109 

hum Gargantão , como diz Fr. Marcos 
de Lisboa . não he do nosso instituto 
elucidar ; chame-se embora Epicureo 
hum homem dado a Gastronomia, que 
não quer senão comer , e beber ; nada 
disto fazem os Canarins , todos da Seita 
Pythagorica , e não Epicurea , porque 
não comem senão vegetaes ; parece que 
ha meio entre o refresco a bordo de nu- 
ma Xáo , e a Seita Epicurea , cujo de- 
leite faz o Poeta consistir em comer , e 
beber muito. Na Oit. 77. a ha huma da- 
quellas confusões de idéas tão frequen- 
tes nas Lusiadas : 

,, Alça-se em pé , com elle 05 Gamas junto . 
,, Coelho cToutra parte. " 

E depois disto na Oit. 78 começa amais 
indiscreta, e deslocada de todas as di- 
gressões , que he o Poeta fallar de si 
até ao fim deste Canto. Todas as vezes 
que diverge da acção principal sem se 
saber jamais a quem se dirige o discur- 
so, ou se desmanda em queixas ou lou- 
vores próprios , ou em amargas invecti- 
vas contra o Rei , e contra os Ministros ; 
censurando fora de tempo os Grandes 



lio Censura das Lusíadas 

dò Reino , e os abusos do século , e mais 
que tudo os ordinários vicios dos que 
presidem ao Povo. Por mais que destas 
diversões se busque hum exemplo nos 
Épicos antigos , é modernos , não se en- 
contra, porque nenhum fora de propó- 
sito truncando a acção sé converteo ain- 
da em Missionário. Ainda que aos ver- 
sos misturasse huma , ou outra reflexão 
moral , rápida , e breve , não devia , sem 
manifesta infracção dos preceitos da ar- 
te \ conservar por tanto tempo suspen- 
sa a attenção dos Leitores j que lhes fi- 
zesse esquecer o que até alli lhes con- 
tava ; estes longos sermões são mais im- 
próprios que o Episodio dos doze de In- 
glaterra , que nenhuma relação , ou con- 
nexão conservava com a acção do Poe- 
ma , nem a ella accêssoriamente podia 
pertencer. E que se segue destas ver- 
dades ? A maior cegueira do entendi- 
mento com que ao mais defeituoso de 
todos os Poetaá se chama único , Divi- 
no , e inimitável, sendo só possivel o 
traduzillo, e impossível igualallo, ou ain- 
da mesmo existir em segundo lugar de- 
pois delle. — - Par nemò , nemo secundas, 
erit 



Ill 



CENSURA 



DAS 



LUSÍADAS- 



^-ar-iy^— 



OITAVO CANTO. 

A historia geral, e particular do Rei- 
no enche de tal maneira o Poema das 
Lusiadas, que chega a formar a sua to- 
talidade quando se compara com a ex- 
tensão das outras partes do Poema que 
não são historia Portugueza ; por isso 
diz assizadamente Ignacio Garcez Fer- 
reito no Apparato a seus Commenta- 
rios \ que as Lusiadas se devem cha- 
mar — Historia Episódica composta em 
versos — , e que lhe compete mais es- 
te titulo que o de Poema Fpico. Ca- 
mões , alias grande Poeta , via-se obri- 
gado a estender a têa de seu Poema \ 



112 Censura das Lusíadas 

cuja acção, considerada só como huma 
viagem de mar, he estéril , e essencial- 
mente monótona. Na impossibilidade de 
arquitectar huma Fabula que nascesse 
do seio da mesma acção, como fez Tas- 
so da acção , simplicissima em si , da 
tomada de Jerusalém, lançou mão do 
mais fácil recurso , que era coiza que 
estava feita, a Historia da Nação; mas 
esta mesma devia ser entresachada com 
arte , lançando mão deste recurso na- 
quelle momento em que parecesse ema- 
nar naturalmente do seio da acção prin- 
cipal. Infelizmente esta Historia de Por- 
tugal he trazida sempre fora de tempo, 
e contada a quem não devia ser, ajun- 
tando a este defeito essencial outro ac- 
cesorio, e não de menos vulto pela sua 
inverosimilhança , pois consideradas 
bem as circunstancias, e sustentado 
com igualdade o caracter dos sujeitos , 
quando a contou pela primeira vez em 
333 oitavas foi ao Rei de Melinde , a 
quem a Missão do Gama se não diri- 
gia, eeste Régulo da costa de Zangue- 
bar não foi mais que hum caritativo 
aposentador de Vasco da Gama. Se a 



Oitavo Caxto. 113 

elle fosse directamente enviado , justo 
era que lhe desse huma idéa da gran- 
deza do Reino . e do poder do Monar- 
ca que o mandava , e esta idéa nâo po- 
dia ser dada senão apresentando a seus 
olhos o quadro dos Fastos da Nação 
Portugueza : mas sem ser este o Mo- 
narca do Malabar , e não devendo o 
Gama demorar sua viagem , conta to- 
da a Historia Portugueza ; e para au- 
gmentar os erros , e fazer que avultas- 
sem as inverosimilhancas . elle a conta 
sentado em hum batel no meio do mar, 
porque em Melinde não faz a hum Rei ? 
que se mostrava amigo j aquella honra 
que faz a hum Ministro subalterno em 
Calecut, que foi recebello com osten- 
tação a bordo da sua Náo. Se ha inve- 
rosimilhança em Melinde pelo lugar on- 
de se conta a Historia Portugueza ao 
longo ■ e tão miudamente , ha ainda 
maior inverosimilliança em Calecut pe- 
lo modo de representar esta mesma His- 
toria , que he mostralia tecida, ou bor- 
dada nas Bandeiras da pequena frota , 
pois constava de três embarcações. Se 
ao menos a mostrasse em Quadros His~ 
Tom. II h 



U4 Censura das Lusíadas 

• 

íoricos , e que estes enfeitassem , ou 
adornassem a Camará da Náo , seria 
huma impropriedade , mas não seria 
huma manifesta inverosimilhanea ; po- 
rém nas Bandeiras , he hum daquelles 
erros que não podião ter desculpa na 
desordenada fantasia do Ariosto. Don- 
de podia vir tanta copia de Bandeiras , 
e tão grandes que podessem conter em 
si o que o Poeta finge ? 

Qui variare cupit rem prodigiahter unam* 
Delphinum Silvis apingit , fluctibus aprum. 

Toda a Frota devia estar embandeirada, 
mas estas Bandeiras devião estar arrea- 
das , e postas ao alcance da vista do 
Catual que as comtemplava, e de Pau- 
lo da Gama, que pela intervenção de 
Monçaide , que lhe servia de Interpre- 
te, lhas explicava. Lembrárão-se os Poe- 
tas de muitas pinturas , e esculturas ; 
lembro u-se Virgilio de representar o 
Templo de Carthago adornado de Pai- 
néis , que representavão os principaes 
lanços da guerra, e da destruição de 
Tróia: 



Oitavo Caxto. 11* 

Ilíacas ex ordine pugnas. 

Lembrou-se de effigiar na escultura das 
portas do Palácio d^lRei Latino gran- 
des imagens allusivas á futura grande- 
za do Império Romano. Lembrou-se o 
facundissimo Ovidio de representar as 
portas do Palácio do Sol, maravilhosa- 
mente entalhadas , com admiráveis al- 
lusões á marcha , e aos effeitos daquel- 
le Astro na ordem da Xatureza, Lenir 
brou-se divinamente o grande Torcato 
Tasso , como lhe costumão lembrar to- 
das as coizas. de esculpir nas portas do 
Palácio dos Jardins de Armida a his- 
toria dos amores de Marco António ? 
e Cleópatra. Mas a Historia de hum 
Reino bordada em Bandeiras . e nas 
Bandeiras de três Navios . he coiza tâo 
singular pela sua extravagância, queda 
bem a conhecer em Luiz de Camões, 
ou muita mingua de sizo, ou muita fal- 
ta de gosto. Tudo vai mal , quando a 
razão nàp segue a Poesia. 

Faz pois o Catual a primeira per- 
gunta sobre a primeira figura em que 

H 2 " 



r 1B Censura das Lusíadas 

repara na primeira Bandeira. Era Luso. 
Oitava 2. a : 

„ Este que ve2, he Luso, donde a fama 
„ Ao nosso Reino Lusitânia chama." 

Lança-se aos tempos fabulosos para con- 
tar a Historia de Portugal ; mas a His- 
toria de Portugal assim chamada não 
começa com o filho de Baccho , e pa- 
rece que se não devia lembrar de tal 
filho dando a conhecer que Baccho era 
o maior inimigo dos Portuguezes , e o 
mais empenhado em empecer aquella 
acção, pois não era verosimil que hum 
pai perseguisse hum Reino fundado por 
hum filho seu. 






Foi filho, e companheiro de Thebano," 



Porque razão perseguiria Baccho hum 
Reino , que era coiza tão sua ? Porque 
Luiz de Camões não se lembra do que 
diz, nem do que emprega no seu Poe- 
ma. A razão da perseguição he frívola, 
não quer os Portuguezes grandes na 
Ásia, e consente os Portuguezes, a 
quem dera principio por hum filho seu, 



Oitavo Canto. 117 

grandes na Europa ? Parece que a glo- 
ria dos fundados , era a mesma gloria 
do Fundador. 

Na oitava 4. a se descobre Ulysses 
pintado na mesma Bandeira a par de 
Luso. Que intervallo entre a existência 
de Baccho , e a existência de Ulysses ! 
Como se podia ver na pintura que Ulys- 
ses tinha corrido longos mares ? Que 
Symbolo podia dar a conhecer > e fazer 
alli sentir largas navegações ? 

„ Depois de ter tão iongo mar arado." 

Isto que se não diz nem pode dizer 
em pintura . dá a conhecer a mons- 
truosa inverosimilhanca deste recurso 

3 

de que o Poeta lança mão para se lhe 
não acabar o Poema , pois não tinha já 
que dizer. Na oitava 5. a ha huma caco- 
fonia 3 que he a mais saliente entre to- 
das : 

„ Quem será estoutro cá quo campo arraza ? " 

O Gama lhe responde em prosa na Oi- 
tava 6. a : 



118 Censura das Lusíadas 

,, Assim o Gentio diz, responde o Gama." 

Outro intervallo immenso de Ulysses a 
Viriato. Tudo isto, reduzido a tantas 
particularisações , erão outros tantos 
enigmas para o Catual , que ouvia ? e 
para o Mouro \ que interpretava , pela 
absoluta ignorância em que ambos per- 
manecião dos factos particulares da His- 
toria Romana . e Portugueza. Séneca 
com toda a sua virtude chama ladrão a 
Viriato : 

JVon Lusitanus quateret cum nicenia Latro. 

Com todos estes títulos era huma per- 
sonagem desconhecida para aquelles a 
quem se mostrava ; e he impossivel j 
que lhe podesse prender a attenção o 
que lhe era por todos os aspectos incó- 
gnito. As mesmas reflexões temos que 
fazer sobre Sertório, e a Corsa, ou Cer- 
va , sua devisa , e como se nada mais 
houvera que dizer des de Sertório até 
ao Conde D. Henrique , vem este Prín- 
cipe , e a sua incerta , e controvertida 
origem na Oitava 9. a pintado n'outra 
Bandeira. 



Oitavo Canto. 119 

,, Nos Húngaro o fazemos, porém nado 

„ Crem ser em Lotharingia os estrangeiros." 

Lotharingia he puro Latim , mas não 
viria, se no verso coubesse Lorena. Não 
me posso conformar com o abuso de 
usar, ou servir-se de palavras Latinas 
quando em Portuguez ha o termo pró- 
prio. Nesta mesma Oitava 9. a vem ou- 
tro termo Latina com a mudança de 
huma só letra, mas já este passou a con- 
signar-se como Portuguez até na prosa : 

,, Depois de ter os Mouros superado." 

A acção do Conde D. Henrique que 
fecha a Oitava devia ser não só muito 
intelligivel , mas muito ediíicativa para 
o Catual , e para o Mouro : 

,, A' Caza sancta passa o sancto Henrique, 
i3 Porque o tronco dos Reis se sanctirlque." 

Como pôde ser motivo da sanctificação 
dos Reis Portuguezes a hida deste Es- 
trangeiro á Syria, e Palestina alistado 
nos exércitos dos Cruzados cujas ex- 
pedições forão tão funestas á Europa r 
„ Porque o tronco do* Reis se sanctifique.'' 



120 Censura das Lusíadas 

Se a palavra pôde rimar, leve embora 
o pensamento , ou o conceito onde qui- 
zer; huma vez que rimou está o verso 
acabado. A hida de hum Húngaro, ou 
de hum Francez a Palestina , não po- 
derá nunca ser motivo da sanctificação 
de seus Descendentes. Que influencia po- 
de huma coiza ter na outra ? Na Oita- 
va ll. a faíla o Poeta d'ElRei D. Affon- 
so Henriques, e ainda que se saiba que 
as suas conquistas não s' estenderão a 
tudo o que se chama Portugal , pode- 
mos aqui dizer, que se toma huma gran- 
de parte pelo todo. Nos quatro últimos 
versos ha hum nominativo , que na or- 
dem grammatical delles rege , e gover- 
na tudo. 

_,, Este he aquelle zeloso a quem Deos ama, 
s , Com cujo braço o Mouro imigo doma, 
a , Pdra quem de seu Reino abaixa oa muros, 
„ Nada deixando já para os futuros." 

O sentido obvio desta enunciação pa~ 
parece que nos diz que Deos , que he o 
nominativo regente, abaixa os muros 
de seu Reino para A Afonso. Isto não se 
entende se Aflònso não deixou nada pa- 



Oitavo Canto. 121 

ra conquistar a seus successores futu- 
ros , ainda relativamente aos Mouros 
Senhores de Portugal, Sancho 1.° que 
fora cercado em Santarém em vida de 
seu Pai pelos Mouros, que possuião ain- 
da huma grande parte do Alemtejo, re- 
tomou Beja aos mesmos Mouros , e Af- 
fonso 2.° tomou aos Mouros o Algarve, 
e delle os expulsou de todo. Logo men- 
te Luiz de Camões quando diz que D. 
AfFonso Henriques nada deixa para con- 
quistar aos futuros. Deixemos ao lou- 
vável amor da Pátria que dominava o 
Poeta o encarecimento de antepor D. 
Aífonso Henriques á César, e a Ale- 
xandre Rei, como se vê na Oitava 12. a 
O exercito com que Alexandre passou 
o Hellesponto, conquistou a Pérsia, sub- 
jugou a Mesopotâmia, e penetrou até 
ás ribeiras do Indo vencendo a Poro 
Rei soberbissimo de Cambaia, não era 
muito numeroso , pois elle não sahio 
com trinta mil homens da Macedónia, 
e á vista disto não se deve faltar á ver- 
dade nem para engrandecer os próprios 
Monarcas. Deixa estes , porque mais 
não apparecem nas Bandeiras , e passa 



122 Censura das Lusíadas * 

na Oitava 13. a a fallar de Egas Moniz' 
Aio deste Principe : 

,. Este que vêz olhar com gesto irado 

,, Para o rompido Alumno mal sofrido, 

,, Dizenc/o-/he que o exercito espalhado 

„ Recolha. . . ." 

Yóàe a pintura representar hum rosto 
em que se veja expressa a ira , e a in- 
dignação , e nisto temos exemplos até 
nos desenhos do immortal Le Brifh; 
mas que na pintura se possa exprimir 
o que este homem irado está dizendo , 



„ Dizendo-lhe que o exercito espalhado 
,,' Recolha. . . ." 



he a maior impropriedade que se pode 
imaginar ! Se o Catual perguntasse, que 
está fazendo este velho com huma cara 
irada e de arremeter, então responde- 
ria bem o Gama se dissesse : — Está 
dizendo ao Alumno , e este Alumno he 
este mancebo que está ao pé delle, que 
recolha o exercito espalhado. Na Oita- 
va I4. a vem a celebre pintura deste bom 
velho, quando se foi entregar a El Rei 



Oitavo Canto. 123 

de Leão, e ofterecer-se ao castigo que 
merecia o perjúrio do Alumno : 

„ Vello cá vai com os filhos a entragar-se, 
,, A corda ao collo ?iú de seda, e panno." 

Se não vestia ou seda , ou panno , en- 
tão que levava vestido ? Para não di- 
zermos que hia inteiramente nu . diga- 
mos que hia vertido de linho , por tan- 
to hia em camiza, isto he ridiculo. En- 
trar huma Villa acastellada como Porto 
de Moz , e obrigar os inimigos a levan- 
tar o cerco não he hum feito d'armas tão 
estremado , e singular , que seja só di- 
gno de Mavorte : Oitava 16. a : 

„ Illustre feito digno de Mavorte." 

E quem nos diz que Fuás Roupinho não 
levava forças superiores ? O primeiro 
verso da Oitava 18. a he dos mui fre- 
quentes , i. e. errados , nas Lusiadas, 

„ Não vez hum ajuntamento de estrangeiros. . . ." 

Na mesma Oit. 18.* ha hum daquelles 
sentidos anfibologicos que a cada passo 



124 Censura das Lusíadas 

olhos da boa razão descobrem nas Lu- 
síadas , 

i} Não vez hum ajuntamento de estrangeiro 
„ Trajo sahir da grande Armada nova, 
„ Que ajuda a combater o Rei primeiro 
„ Lisboa, de si dando sancta prova ? 7 

Que idéa podia formar o paciente, e 
estúpido Catual disto que se lhe mos- 
trava? Que distinctivo, ou que sinal 
trazia em si a Armada para se conhe- 
cer que era nova ? A Armada nova ? 
Parece que esta ajuda Lisboa a comba- 
ter o Rei primeiro, numero que não 
podia ter referencia nenhuma com idéa 
de Rei de Portugal que o Gentio tives- 
se, pois ainda se lhe não tinha dito que 
Affònso Henriques era o primeiro Rei 
de Portugal , e que tomara Lisboa aos 
Mouros. Cança o entendimento em no- 
tar tantas impropriedades , que ainda 
mais se devisão na Oitava 19. a com o 
Theotonio Prior. No acto da chegada 
á índia fallar a hum Gentio do Prior 
de Santa Cruz de Coimbra, na tomada 
de Arronches por despique da retoma- 
da de Leiria ! Como se pode conhecer 



Oitavo Canto 125 

pintado em huma Bandeira o que he 
Arronches , o que he Leiria , o que he 
Santarém ? 

Incredulus odi. 

He tão fora dos dictames da boa razão, 
oiv-mto se nos diz nesta desdichada fic- 
< das Bandeiras , que apenas merece 
o sprezo da Censura, e não os seus 
repai>os. Tinha mil coizas com que en- 
cher este fastidioso Oitavo Canto , sem 
recorrer ao infeliz meio de huma His- 
toria pintada. 

Continua o Catual na Oitava 21.* 
a não vêr outra coiza a bordo da Náo 
mais do que pinturas , e Bandeiras , e 
a ouvir fallar deindividuos que para el- 
le erao mysterios indecifráveis. Depois 
de haver fallado na Oitava 20. a d'EÍRei 
D. Sancho 1.°, que he posterior a Gi- 
raldo sem pavor, falia na acção de Gi- 
raldo com hum trocadilho que parece 
adiantar-se até a Época do seiscentis- 
mo : 

„ Do Cavalleiro que as cabeças frias 
„ Na mão levava, feito nunca feito, 



126 Censura das Lusíadas 

,, Giraldo sem pavor he o forte peito." 

Feito que nunca foi feito, não se pode 
conceber que coiza seja , a não ser hu- 
ma daquellas coizas que os Peripateti- 
cos, com cuja Filosofia me embalarão 
em moço , dizem que são impossíveis , 
porque implicão nos termos. Se elle está 
feito, foi feito, e se não foi feito, não es- 
tá feito. 

)t Giraldo sem pavor lie o forte peito." 

Parece que o forte peito he Giraldo j 
porque Giraldo he o forte peito. A ri- 
ma lie para Luiz de Camões hum jugo 
de ferro , que o opprime e tiranni- 
sa. Fique embora o sentido anfibologi- 
co, venha, ou não venha a coiza para 
alli, huma vez que rime , de nada mais 
se trata. 

Na Oitava 22. a pergunta o Gama 
ao Catual se não via hum Castelhano ? 

„ Não vez hum Castelhano, que agravado. . . /' 

Ora que resposta .podia dar a esta per- 



Oitavo Canto. 127 

£•; -ía o paciente Canarim ? Pois elle 
sa]a a que coiza era hum Castelhano, 
ou tinha já visto os Castelhanos para 
os conhecer pela montera, ou sombre- 
ro gacho ? Estas pueris ficções, não me- 
recem mais que o sorriso da compai- 
xão. Se o Catual não conhecia o Cas- 
telhano da Oitava 22. a , menos conhe- 
cia Martim Lopes da Oitava 23. a : 

„ Martim Lopes se chama o Cavalleiro." 

Ainda descubro maiores, e mais mons- 
truosas incoherencias na Oitava 24. a : 
basta ler esta Oitava para conhecermos 
até que extremo leva a irreílexão hum 
grande génio. 

r 

„ Vez ? Vào os "Reis de Córdova, e Sevilha, 
, } Rotos, com outros dous, e não de espaço 
„ Rotos, mas antes mortos. ..." 

Em primeiro lugar , como os pode o 
Catual ver andar se elles estavâo pin- 
tados? E como podem elles andar, se 
estão mortos ? 

3i Rotos, mas antes mortos ? " 



128 Cexsura das Lusíadas. 

Na mesma Oitava vê o Catual a D. Ma- 
theus Bispo de Lisboa tomando aos 
Mouros Alcácer do Sal. Como se pô- 
de isto ver em pintura ? Seja como for, 
lambem o Bispo estava pintado , mas 
o ultimo verso da Oitava he o mais ri- 
dículo jogo de palavras : 

„ Que a coroa de palma alli coroa." 

Pois a palma cobria só a coroa do Bis- 
po? Assim parece, porque o Poeta diz 
que só a coroa era coroada. 

Na Oitava 25. a temos a mesma im- 
propriedade , ou impossivel verosimi- 
lhança : 

,, Olha hum Mestre que desce de Castella." 

Como se poderia ver esta acção de des- 
cida em hum pintura ? Apenas em pin- 
tura se poderia fazer idéa de hum ho- 
mem que desce , representando-o de- 
pendurado de alguma escada. E que 
coiza he descer de Castella? 

s , Vez Tavilla tomada aos moradores 
3) Em vingança dos sete Caçadores?" 

He preciso ser mui visto \ e lido nas 



Oitavo Canto. 129 

Historias antigas de Portugal para se 
entender o que significão estes dois ver- 
sos. E poderia o Catual fazer idéa dos 
motivos que obrigarão D. Paio Peres a 
entrar de volta com os Mouros em Ta- 
vira? São isto coizas que se digão as- 
sim a hum Gentio ignorantíssimo, e a 
primeira vez que com elle se falia ? Não 
seria mais próprio tratar do Commercio 
que Portugal podia fazer com a índia , 
e informar-se deste Malabar nobre do 
estado Politico , Militar , e Religioso 
daquella notável porção do Globo que 
se chama do Indostão ? Não era isto 
mais adaptado ás circunstancias do tem- 
po , e do lugar , e aos motivos da mes- 
ma viagem , ou expedição de Vasco da 
Gama ? Era , sim , mas Luiz de Ca- 
mões não sabia fazer hum Poema Épi- 
co , ou lhe fez hum plano , ou planta , 
tão defeituoso, que não tinha com que 
o enchesse. Pelo que se passou em Me- 
linde , pelo que se passa em Calecut ? 
vemos, que Vasco da Gama não embar- 
cou senão para hir contar á Africa, e 
á Ásia o que os Portuguezes tinhão fei- 
to na Europa. 

Tom. II i 



130 Censura das Lusíadas. 

Eu mesmo não sei quem sejão os 
três de que se faz menção na Oit. 26. a : 

„ Mas não passes os três que em França e Hespanha 

„ Se fazem conhecer perpetuamente, 
' ,, Em dezafios , justas, e torneos, 
. „ Ne! las deixando públicos trofeos." 

E três figuras pintadas em huma Ban- 
deira, podem acaso dar a conhecer que 
erão Cavalleiros andantes í e saber-se 
quaes erão os paizes theatros das suas 
cavailarias ? Destas andantes cavallarias 
alguma noticia se acha na Chronica de 
D. A Afonso 4.° O Poeta diz que hum 
destes ires Justadores se chamava Gon- 
çalo Ribeiro, mas nem pelo nome, nem 
pela pessoa podia ser conhecido do Ca- 
tual, aquém estas figuras se mostravão, 
e he huma incoherencia estar fali ando 
a hum homem de coizas que elle não 
conhece nem pode conhecer. Nas qua- 
tro Oitavas seguintes 28, 29, 30 , e 31 
parece que se descreve o Condestavel; 
e diz o Gama ao Catual que o veja— - 
tinto de ira. 

„ Não o vês tinto de ira, que reprende ? " 

----- 



Oitavo Canto. 131 

Não se pode saber que cores dê a pin* 
lura a esta perturbação de animo , que 
se chama ira ; para se conhecer , que 
hum homem está tinto de ira : possuído 
de ira, arrebatado, inflammado de ira, 
pôde ser , porque tudo isto são disposi- 
ções de hum animo irado; mas tinto de 
ira, nunca se poderá dizer de hum ho- 
mem tomado , ou agitado de hum sen- 
timento moral. O segundo verso da Oi- 
tava 29. a he notável pelo seu tamanho 
e sentido. 

,, De Deos guiado só, e de santa Estrella." 

Santa Estrella parece santa que se cha- 
ma assim , e he coiza inteiramente no- 
va, se o Poeta queria mostrar que se- 
guia a vulgar opinião sobre o influxo 
dos astros, dissesse propicia , favorável, 
ou benigna Estrella; mas santa Estrel- 
la, ninguém saberá jamais o que quer 
dizer, nem mesmo os seus Commenta- 
dores , e menos o saberão os seus Edi- 
tores. Na Oitava 30. a falia o Poeta do 
augusto Mysterio da Trindade em ter- 
mos taes ; que parece que oCatual está 

I 2 



132 Censura das Lusíadas 

conhecedor das formulas da Theologia 
Dogmática. — 

„ Orando invoca a sumroa, e trina Essência." 

Pode ser esta a linguagem que se te- 
nha a hum Gentio , e Idolatra, a quem 
o Evangelho era desconhecido , e a Re- 
ligião verdadeira absolutamente ignora- 
da ? Seja isto como for , porque me po- 
dem dizer, que o Gama era hum Chris- 
tão ? e que como tal fallava o que en- 
tendia , fosse , ou não fosse entendido 
daquelles que o escutavão , e que se 
gastava em vão palavras , a perda era 
sua. Seja isto assim ; mas que respon- 
derão ao que se vái a seguir? Oitava 
31. a : 

„Mas olha com que santa confiança, 
„ Que inda não era tempo respondia." 

Pode acaso conhecer-se, ou ouvir-se em 
huma figura pintada o que diz, e o que 
respondia ? Isto não tem , nem pôde 
achar desculpa no mais exaltado fana- 
tismo dos adoradores das Lusiadas. Com- 
para depois o Condestavel orando com 






Oitavo Canto 133 

o Romano Pompilio sacrificando: — As- 
sim Pompilio. — Pois então ambos erão 
animados de hum mesmo espirito? Tão 
milagrosa foi a victoria de Pompilio, 
como a do Condestavel ? Os quatro úl- 
timos versos da Oitava 32. a são por ex- 
tremo bellos : 

,, Ditosa Pátria que tal íilho teve ! " 

Mas não era esta apostrofe á Pátria 
para o Catual a quem fallava. Na Oi- 
tava 33. a continua o catálogo das pes- 
soas incógnitas ao Catual, que por cer- 
to chamaria mofina á sua sorte na reso- 
lução que tomou de vir com o calado 
Mouro a bordo da tal Capitaina, pelo 
muito que vai sendo comprida, e inin- 
telligivel a tal arenga. 

,,0 prezo amigo, prezo per leal, 
,, Pêro Rodrigues he do Landroal." 

Com efTeito será Pêro Rodigues hum 
mui fiel Vassallo de EIRei D. João o 1.°, 
mas Pêro Rodrigues não hc hum nome 
para huma Epopéa . que não he huma 
rigorosa historia que diga as coizas de- 



134 Censura das Lusíadas 

baixo do jurado depoimento de fieis tes- 
temunhas : — Ut magis animi vaticina- 
tio appareat , quam religiosos orationis 
sub testibus fides. Até agora ainda não 
descubrimos o mais passageiro vislum- 
bre de hum tracto de boa Poesia neste 
estéril , e forçado oitavo Canto das Lu* 
siadas. Tudo traz o cunho da rasteira 
prosa, e assim começa a Oitava 34. a 

„ Olha este desleal o como paga." 

Como se pode ver em pintura a manei- 
ra porque Gil Fernandes pagou o que 
devia ? 



3i 



Gil Fernandes he de Elvas quem o estraga." 



Tempo estragava o Poeta em tào so- 
rri nifera relação ! Como he possível que os 
nomes de Pêro Rodrigues , de Gil Fer- 
nandes , e de Rui Pereira prendão a at- 
tenção do Catual ? Eneas he verdade 
conta á Rainha Dido, que o recebe náu- 
frago, e o hospeda benigna, toda a his- 
toria (como já reflecti) do cerco, toma- 
da, e incêndio de Tróia: mas a Rainha 



Oitavo Canto. 135 

Dido tinha vindo lá das vizinhanças de 
Tróia j era hum facto do tempo . e oc- 
cupava o conhecimento do Mundo. Mas» 
Gil Fernandes , e o Governador de Ca- 
lecut são antípodas que não tem con- 
tacto. 

Não sou eu o primeiro . que cen- 
sura Luiz de Camões , e reprehende de 
usar de contínuos contrapostos , e josfos 
de palavras. Ignacio Garcez Ferreira o 
tinha feito todas as vezes que a elles 
chega em seus Commentarios. Na Oi- 
tava 35. a v. 6 : 

,, Que não só se defendem mas ojfihiQcm.'** 

Na Oitava 36, v. 3 , e 5 : 

„No tempo qne os viris atrevimentos 
,, De Viriato.'" 

Chega ao seu termo este cançasso das 
pintadas Bandeiras, e remata com o In 
lante D. Pedro , e D. Henrique filhos 
d'ElEei D. João l.° Falia da tomada, ã 
entrada de Ceuta de hum modo indeco- 
roso ao Mouro que estava presente , e 
do qual o Gama dependia para os bons 
officios que nelle experimentou depois , 



■T 



136 Censura das Lusíadas 

e como se ainda o Catual não estivesse 
farto depois de fallar nos Infantes , fal- 
ia no Conde de Vianna D. Pedro de 
Menezes, primeiro Governador de Ceuta. 
Até aqui tem enjoado o Catual , agora 
começa a escandalisallo com huma amar- 
ga invectiva contra os Grandes , e con- 
tra os Soberanos de Portugal , e nunca 
o Poeta perdeo occasião de se mostrar 
hum verdugo contra elles, talvez mais 
por algum ressentimento particular, que 
por hum sincero zelo da gloria , e da 
felicidade da Pátria : mas fosse qual fos- 
se o motivo , elie o devia dissimular fal- 
lando diante de Grandes , e de Sobera- 
ranos: 

„ Culpa dos viciosos successores, 
,,Que degenerão, certo, e se desvião, 
,,Do lustre, e do valor de seus passados, 
„Era gostos, e vaidades atolados." 

Não devia o Gama diante de hum Gen- 
tio, e tão estranho, vilipendiar os seus 
nacionaes. Queria dispor aquelles Bár- 
baros a seu favor, e a favor da Nação 
Portugueza, não devia notar, nem re- 
prehender seus vícios, e menos os de- 



Oitavo Canto. 137 

feitos dos Reis , e isto na presença de 
Ministros , e Monarcas Asiáticos , que 
são obedecidos , e respeitados como ou- 
tros tantos Numes. He com efteito es- 
candalosa a Oitava 41. a : 

„ Outros também ha grandes, e abastados, 

,, Sem nenhum tronco illustre donde venhão ; 

„ Culpa de Reis, que ás vezes a Privados 

, , Dáo mais que a mil que esforço, e saber tenhao." 

Isto he huma perfeita inconfidência, e 
hum insulto ao procedimento dos Mo- 
narcas , que sem injuria de ninguém 
podem fazer Grandes aquelles que o 
servem e lhe aprazem , ainda que não 
venhão de longe, nem de huma estirpe 
illustre. Na Oitava 43. a nos representa 
o Poeta a attitude do Catual ao escutar 
estas coizas, que não podia entender, 
nem lhe era possivel por mais largos 
commentarios, que o Gama lhe fizessc- 
^Os olhos tinha prontos, e direitos 
,,0 Catual na historia bem distincta j 
„ Mil vezes perguntava, e mil ouvia 
„ As gostosas batalhas que alli via." 

Não sei como as batalhas podião ser 



138 Censura das Lusíadas 

gostosas para o Catual d'olhos direitos, 
que com effeito nos dá a entender , que 
não tinha senão nos olhos. Fez-se noite y 
e foi-se embora o Catual sem dizer a 
que vinha, nada mais vio que as Ban- 
deiras , está preenchida a sua missão , 
e satisfeita a sua curiosidade. He tem- 
po de apparecer algum maravilhoso nas 
Lusiadas y porque o Gama des de que 
chegou a Melinde até ao presente mo- 
mento da hida do Catual para terra, 
não fez mais do que faliar. Aparece este 
maravilhoso na Oitava 45. a : veja-se com 
attenção. 

„ Entre tanto 05 Aurúspices famosos 
3 , Na falsa opinião, que em sacrifícios 
í9 Antevém sempre os casos duvidosos 
,, Por sinaes Diabólicos, e indícios." 

O Poeta comette hum erro palmar , em 
dar a entender que accreditava os va- 
ticínios dos Agoireiros Gentios , e Ido- 
latras , que pela inspecção das entra- 
nhas das victimas nenhum conheci- 
mento podem ter dos acontecimentos 
futuros , e duvidosos. Note-se o falso 
principio em que elle está sobre estas 






Oitavo Canto. 139 

infames superstições da Gentilidade. Oi- 
tava 46. a 

j, Sinal lhes mostra o Demo verdadeiro. " 

O Diabo não tem conhecimento claro 
dos futuros. contingentes , nem pode so- 
bre elles dar hum sinal verdadeiro . co- 
mo diz o Poeta : isto he hum absurdo 
nos infailiveis princípios da Theologia 
Christã. Depois deste rasgo em que o 
Poeta introduzindo o Diabo , que isso 
quer dizer Demo, se serve do mara- 
vilhoso da Religião Christã. vem a ri-. 
dicula , e infame mistura do Paganis- 
mo , nas mais baixas expressões , que 
huma desleixada prosa pode ordenar. 

„ A isto mais se ajunta, que a hum devoto 
,, Sacerdote da Lei de Mafamede, 
,, Dos ódios concebidos não remoto 
,, Contra a Divina Fé, que tudo excede; 
,, Em forma de Piefet3 falso e noto, 
„Que do filho da escrava Agar procede ; 
_,,Baccho odioso, em senhos lhe apparece, 
,,Que de seus ódios inda se não dece." 

Pois parecia , e dava a entender . que 
se tinha descido, porque ha muito tem- 



140 Censura das Lusíadas 

po que se não deixa ver. Verdade se- 
ja que ellenâoquer apparecer senão em 
sonhos. Apparece em sonhos em Moçam- 
bique , em sonhos em Mombaça , em 
sonhos em Calecut. Des de que o Ga- 
ma chegou a Melinde , nunca mais foi 
perseguido por Baccho ; talvez fosse 
cortezia neste Numen , que não quiz 
interromper alonga narração do Gama, 
porque só agora se calou. Mas isto me- 
rece hum tom serio. Toma Baccho a 
figura de Mafoma, que foi hum jurado 
inimigo , e perseguidor do Polytheismo. 
Parece que oThyoneo devia antes cui- 
dar na expulsão dos Mahometanos da 
índia , que erão seus inimigos por prin- 
cipio de Religião , e não em vedar o 
estabelecimento dos Portuguezes , só 
com o medo de que assombrarião aquel- 
la gloria, que elle tinha adquirido quan- 
do foi conquistador. He aqui bem ocio- 
sa a intervenção do filho de duas mais ! 
Se o Demo já tinha manifestado com 
sínaes verdadeiros aos Auruspices que 
esta gente novamente vinda trazia á 
Ásia 
3 , Jugo perpetuo, eterno cativeiro," 



Oitavo Canto 141 

e se isto era mais que sufficiente para 
indispor o Rei , pois o escutava da bo- 
ca dos mesmos Ministros da sua Reli- 
gião a quem elle dava inteiro credito; 
que necessidade havia das visagens de 
Thyoneo, ou Bassareo, tomando a figu- 
ra de Mafoma , e apparecendo em so- 
nhos a hum devoto Sacerdote da Lei de 
Mafamede como diz o Poeta 5 e que 
devia ser menos acreditado do Rei que 
seus próprios Agoireiros ? O Mouro Sa- 
cerdote acorda com o sonho , mas não 
crendo em sonhos torna a dormir, diz 
o Poeta na Oitava 47 a : 

,, Cuida que não he mais que sonho usado, 
„ Torna a dormir quieto, e socegado." 

Devia fazer mais caso da vista, e das 
vozes do Legislador , e Profeta , não 
foi assim . deixou-se dormir. Não sei 
para que he esta coiza feita por duas 
vezes podendo só de huma vez concluir- 
se ! Hum agente sobrenatural não tem 
estes vagares. Nem Baccho feito Ma- 
foma devia deixar dormir outra vez o 
Mouro j huma vez que o acordou , e se 
lhe manifestou, devia dizer a que vi- 



142 Censura das Lusíadas 

nha, e não esperar que o Mouro tor- 
nasse a dormir para lhe dizer o que se 
segue na Oitava 49. a 

„ Torna Baccho dizendo, não conheces 
9} O Grão Legislador que a. teus pasmados 
,, Tem mostrado o preceito a que obedeces, 
,, Sem o qual fôreis muitos baptizados ? " 

Não pedia a modéstia de homem tal co- 
mo Mafamede, que se chamasse a si 
mesmo Grande. Que a teus passados tem 
mostrado o preceito a que obedeces , tem 
huma construecão muito dura, e mal 
se entende que he huma peri frase da 
publicação da Lei Mahometana ; porque 
por hum só preceito não se pode en- 
tender toda huma Lei. 

„ Sem o qual fôreis muitos baptizados } " 

Nem os mesmos Mouros se persuadiriâo 
que isto era huma desgraça - nem era 
huma consequência immediata de não 
ser Mouro , o ser Christão , podião ser 
outra coiza, porque não são estas as 
duas únicas Religiões conhecidas no 
Mundo j que só neste caso ? he que se- 



Oitavo Cakto. 143 

ria de hum a o que deixasse de ser de 
outra. He hum grande erro em tão 
grande Poeta o não se saber annunciar 
bem ! 

,, £u por ti, rudo, velo, e ta adormeces r " 

Esta arguição, além de ser pueril, pa- 
rece-me injusta ; o Mouro não merecia 
a descompostura de rudo por se deixar 
dormir, isto faria o homem de maior 
talento , dormir , e não fazer caso de 
sonho ; e como elle ainda lhe não tinha 
dito a que vinha , não o devia arguir 
pelo não attender . e querer antes ron- 
car j que escutallo. — E tu adormeces $ 
— Se Mafoma queria velar , o Mouro 
queria dormir, e não tem Mafoma de 
que se queixar. Mas oiçamos o que lhe 
diz Mafoma, ou oNiclileu por elle, que 
he hum Deos de tão pouca monta e de 
tão limitado poder que não dá hum pas- 
so nas Lusíadas que não seja por in- 
terposta pessoa. 

,, Pois saberás que aquelles que chegados 

,, De oovo são serão mui grande dano 

„ Da Lei qne eu dei ao néscio povo humano " 



144 Censura das Lusíadas 

E para isto vem acordar o Mouro devo~ 
to sacerdote o impertinente Mafoma ? O 
são serão he coiza digníssima em Poe- 
sia ! E o néscio povo humano ? Tem ra- 
zão, pois elle merecia lá a lei de Ma- 
foma ? Povo humano não se pôde dizer 
em sentido natural , diz-se género hu- 
mano, espécie humana. Em sentido mo- 
ral pode dizer-se, em qnanto se dá a 
conhecer que conserva, ou pratica a 
virtude da humanidade. — Mostrou-se — 
o povo humano , nisto , ou naquillo ; 
foi humano o povo para com este, ou 
para com aqueíle. 

O recado de Mafoma com que o 
Padre Lyeo faz huma figura ridícula, 
continua o insipido , e moribundo re- 
cado na Oitava 50. a 

„ Em quanto he fraca a força desta gente, 

„ Ordena como em tudo se resista, 

,, Porque quando o Sol suhe faci 'mente etc. 

Baccho hetão curto em suas idéas, que 
nem ao menos lembra o modo de trans- 
tornar a vinda da Armada . e para em 
tudo ser curto, até deixa curto o ter- 
ceiro verso. Continua a dizer ao Mouro, 



Oitavo Canto. 145 

que assim como a visía se deslumbra 
quando encara o Sol que se empina, e 
arde , assim ficarão os Mouros cegos , 

,, Se raizes crear lhe não toiheis. 

He a comparação mais fora de propó- 
sito que ao mais extravagante Poeta 
podia lembrar . porque não reforça , nem 
aclara a idéa do que se quer dizer. As- 
sim como quem olha para o Sol fica 
cego , assim ficarão os Mouros cegos 
se deixarem estabelecer no Indostão os 
Portuguezes. Está dito tudo. Oit. 51. a : 

„ Isto dito , elle , e o somno se despede ! " 

Se para sonhar he preciso estar dor- 
mindo , para que o argúe Mafoma de 
adormecer, quando quer que elle dur- 
ma para sonhar? 

,, Eu por ti , rudo , velo , e tu adormeces ? " 

Então quer que sonhe acordado? Mas 
em fim o Mouro estava sonhando acor- 
dado ; porque 

,, Salta da cama , lume aos servos pede. " 

Tragão luz , que está cá Mafoma ! Que 
Tom. II k 



146 Censura das Lusíadas 

puerilidade ! E Baccho sempre escon- 
dido ! Vejamos pois o que o Mouro faz 
com a luz acceza: 

„ Convoca os principaes da torpe Seita , 

, 9 Aos quaes cio que sonhou dá conta estreita, " 

Esta estreita conta devia dar Luiz de 
Camões no Tribunal da Posteridade, 
quando os seus cegos Idólatras com 
seu acintoso fanatismo obrigarão a crí- 
tica luminosa a olhar como devia pa- 
ra as Divinas Lusiadas. A resolução 
tomada no Conselho da Seita se decla- 
ra nos tlois últimos versos da Oit. 52.% 
e na mais caseira prosa : 

_,, Por manhas mais sultiz , c ardiz melhores 
,, Corn peitas adquirindo os Regedores. " 

Amplifica o Poeta na Oit. 53. a esta su- 
hlime idéa com a mesma prosa chã, e 
corrente : 

_,, Com peitas, ouro, e dadivas secretas 
í? Conciliao da terra os principaes ; 
„ E com razões notáveis, e discretas, 
„ Mostrão ser perdição dos naturaes, 

O ouro , e as dadivas secretas são as 



Oitavo Canto. 147 

peitas . 011 sobornos , e o Poeta divide , 
e separa hum a coiza da outra com hu- 
ma pueril redundância. Todas as ve- 
zes que em hum escrito tal como hum 
Poema Épico se não descobre huma es- 
crupulosa correcção, na maneira de se 
annunciar j não se pôde chamar gran- 
de nem perfeito o seu author. Os prin- 
cipaes da terra forão 'peitados com ou- 
ro , e dadivas secretas : eis-aqui o que 
os peitou \ ou conciliou. ísío são peque- 
nos reparos \ quando tenho lugar para 
huma profunda reflexão. 

Os Mouros residentes em Calecut 
e espalhados , como ainda hoje vivem 
pôí todos os Impérios mercantis do In- 
dostão , e de toda a Ásia . fazendo al- 
li seu lucrativo commercio , pois as dro- 
gas orientaes erão mandadas por elles 
ao Estreito de Suez ; e dalli ao Cai- 
ro j e Alexandria, onde os Venezianos, 
e Genovezes as hião buscar para as 
derramarem na Europa , devião de ne- 
cessidade sentir hum grande cinme na 
chegada dos Portuguezes , vendo que 
pelo Oceano se podia fazer o commercio , 
que elles até alli exclusivamente íazião, 

£ 2 



148 Censura das Lusíadas 

por tanto o primeiro passo da sua pru- 
dência , ou avareza , era vedar os pro- 
gressos do descobrimento que viâo fa- 
zer , e o modo ou caminho mais com- 
pendioso era malquistar os novos vin- 
dos com os naturaes da terra ; porque 
exterminados aquelles Portuguezes , tar- 
de , ou nunca tornarião lá outros. Pa- 
ra isto bastavâo os meios humanos , e 
os recursos da malícia , ou da vingan- 
ça não transcendem a esfera da huma- 
nidade. E se isto se descobre pela boa 
razão , Horácio a teve em dizer : 

iVec Deus intersit , nisi dignus vzn4ice nodus. 

Nenhuma necessidade havia da iníro- 
ducção do maravilhoso , ou sobrenatu- 
ral, eo que podia fazer hum Mouro, 
não era precizo que o fizesse hum Deos , 
e para este fim não só he ociosa mas 
inútil a introducção de Baccho, nem 
que este Deos sugerisse por hum so- 
nho aos Mouros aquillo mesmo, que el- 
les sem sonhar podião , e até devião fa- 
zer , se consultassem os seus interes- 
ses como Commerciantes , tão avaros , 
e tão sórdidos como os Mouros. Bac- 



Oitavo Canto. 149 

cho desapparece , e esta he a ultima 
laçada que elle dá , sem que para a 
desatar seja preciso o concurso , ou a 
intervenção de outra Divindade. The- 
tis que apparece depois de lindada de 
todo a- accào do Poema , nâo vem ti- 
rar o Heroe destes aparos , vem refres- 
car, e divertir na volta para Portugal 
a marinhagem dos três INavios. Em tu- 
do he miserável este oitavo Canto do 
Poema . e torno a dizer com o erudi- 
to Ignacio Garcez Ferreira , que elle 
só basta para lançar por terra todo o 
edifício do Poema. 

Esta natural trama dos Mouros de 
Calecut, coiza que era bem de presu- 
mir, e de esperar, deo lugar, e azo 
ao Poeta . para invectivar os Reis , e 
os do seu Conselho . coiza para que 
Luiz de Camões sempre está prompto , 
e para a qual se lhe conhece a mais 
bem disposta vontade. He precizo co- 
piar toda esta Oitava 54. a , porque até 
se lhe descobre huma notável falta de 
Sintaxe. 

„ Oh ! quanto deve o Rei que bem governa , 
,, Olhar que os Conselheiros , ou privados , 



150 Censura das Lusíadas 

,, De consciência , e de virtude interna , 

„ E de sincero amor sejão dotados : 

J} Porque corno este posto na superna 

f) Cadeira , pôde mal dos apartados 

9) Negócios ter noticia mais inteira 

„ Da que lhe der a lingua conselheira. " 

E acabou a Oitava sem nos annunci- 
ar o que esperamos desde que no quin- 
to verso , ouvimos : " Porque , como es- 
te posto na superna cadeira , pode mal 
dos apartados negócios ter noticia mais 
inteira da que lhe der a lingua con- 
selheira . . . " O que a o que deve fa- 
zer , ter , dispor , ordenar , escolher , 
determinar, querer, ou alguma coiza 
destas que ultime esta oração , e a fe- 
che para Mear com hum sentido com- 
pleto 3 o que não ap parece , porque pas- 
sa na Oitava seguinte a coiza mui di- 
versa : 

}i Nem tão pouco direi que tome tanto 
j, Em grosso a consciência limpa , e certa , 
„ Que se enleve em hum pobre , e humilde manto , 
3) Onde a ambição acaso anda encoberta. 

£e isto nao he sotaque á Regência da 
Rainha D. Catharina , não sei que ou- 



Oitavo Ca?, to. 151 

tra coiza seja, e aqui ha allusão a Fr. 
Bartholoineu dos Martyres . a Fr. Luiz 
de Montoya ; e se o Poeta compòz is- 
to depois que veio da índia como he 
de presumir, allude aos Jesuitas Leão 
Henriques, Nuno da Cunha, Luiz da 
Silveira • irmão do Conde da Sortelha , 
que tanto illudírão EIRei D. Sebastião. 
No quinto , e sexto verso faz o Poeta 
hunia reflexão verdadeiramente politi- 
ca , e de homem que conhecia os ho- 
mens , que se não podem governar bem 
sem huma prudente malicia repulsiva , 
e huma boa Forca compulsiva. Nem os 
Beatos verdadeiros , nem os que o fin- 
dem . são bons para Conselheiros de 
Príncipes , huns são simplices ; e jul- 
ga o que este Mundo he huma perfei- 
ção ; outros são desavergonhados , e só 
buscão a sua conveniência. Nisto tem 
razão Luiz de Ca metes , mas tem razão 
fora do Poema ; porque servir-se daoc- 
casião das tramóias dos Mouros para 
mallograrem a Expedição Põrtu^ueza 
para saltar nos Monarcas , que se dei- 
xâo embair por Hypocritas , he muito 
fóra de propósito 3 posto que o Reino es- 



152 Censura das Lusíadas 

tivesse no seu tempo muito escandali- 
sado com os estragos que Simão Rodri- 
gues , e Companhia , tinhão feito na 
Universidade , tirando-se a cadeira a 
Diogo de Teive , e sobre tudo com a 
preponderância que no Reinado de El- 
Rei D. Sebastião tinhão os taes Jesui- 
tas nos Conselhos de Estado , contra 
as instrucções , que ao Alumno tinha 
deixado D. Aleixo de Menezes , e lu- 
zes ainda conservadas de Pêro de Al- 
cáçova Carneiro. Deixemos estas inú- 
teis lamentações , que não são da mi- 
nha repartição, e tornemos aos vers*** 
do nosso Poeta , infelicissimo neste oi- 
tavo Canto , que , como bem diz Igna- 
cio Garcez Ferreira , que , sendo Com- 
mentador , ouvio huma vez a voz da 
verdade , não he mais que hum tecido 
de insípidas repetições. Na Oitava 56. a 
temos outra falta de Sintaxe , deixan- 
do-nos suspensos , esperando alguma 
coiza mais , que acabasse o sentido da 
oração. Eis-aqui os quatro últimos ver- 
sos : 

,i Mas o Gama , que não pretende mais 
„ De tudo quanto os Mouros ordenavão 



Oitavo Canto. 153 

i} Que levar ao seu Rei hum sinal certo 
,, Do Mundo que deixava descoberto. " 

Ponto íinal , e acabou-se a Oitava , e 
nào me dição que o — Gama — he 
nominativo do verbo que appareça na 
Oitava seguinte, Xicio trabalha, por- 
que em qualquer Oitava deve ficar o 
sentido completo sem dependência gram- 
matical de qualquer outra que se siga, 
e o ponto indica fim de período. Na Oi- 
tava 5 7. a se faz memoria de EIRei D. 
Manoel , e para dar huma idea da au- 
thoridade Real . julgo bem fora de pro- 
pósito a seguinte frase ; ou perifrase : — 

3 , Manoel , que exercita a summa alteza. 

Segue-se huma daquellas hypérboles , 
que longe de darem maior força á idéa 
proposta a fazem ridicuia pelo encare- 
cimento : 

„ Com que a seu jugo , e lei submetteria , 
j, Das terras, e do mar a redondeza. " 

Foi grande o poder , e respeitáveis as 
forças de EIRei D. Manoel , mas para 
conseguir o dominio Universal com ef- 
feito não erão bastantes. O Gama nes- 



154 Censura das Lusíadas 

te passo deo em dois extremos , hum 
para cima , e outro para baixo : mas 
não culpemos o Heròe , quando o de- 
licto he do Poeta. Depois de engran- 
decer mais do que devera o Monarca , 
abate o Heroe fazendo-o o que diz i 

,, Que elle não era mais que hum diligente 
3i Descobridor das terras do Oriente. " 

Temos chegado ao mais fastidioso 
tracto do Poema , em que a marcha 
magesiosa , e augusta de huma Epo- 
péa se transforma em dares, e tomates 
( até assim o diz o mesmo Manoel de 
Faria e Sousa) que vem a ser duvi- 
das , cavilações , e debates ordinários 
de Capitães de Navios com Oííiciaes 
das Alfandegas , com despachos do Con- 
sulado , com visitas da Saúde ? etc. Oi- 
tava 58. a : 

„ Fallar ao Rei Gentio determina , 

3i Porque com seu despacho se tornasse. 

Não se pode conhecer o motivo desta 
demora , nem a Epopéa entra em de- 
bates tão particulares em hum Heroe j 
que em ^udo deve parecer grande ? com 



Oitavo Canto. 155 

o despacho da fazenda , com a troca 
dos géneros , como se o Gama fosse 
hum sobre-carga de Navio que na vol- 
ta houvesse de dar conta ao Patrão, 
e aos interessados. A Oitava acaba co- 
mo muitas outras . sem sentido aram- 
matical . e não he preciso que o diga 
a censura , basta lèr estes quatro úl- 
timos versos : 

,, O Rei que da noticia falsa, indigna, 
„ Xão era de espantar se se espantasse ; 
j, Que tão crédulo era em seus agouros, 
., £ mais sendo arnrmados pelos Mouros. 

Aqui acaba \ mas não acabou a oração 
para formar hum sentido completo . er- 
ro tão visivel que não necessita de ex^ 
posições. Na Oitava 61. a assim se ex- 
prime indignamente : 

,, Eu sou bem informado , que a emhaixada. , 
,, Que de teu Rei me deste , que he fingida. " 

Este segundo — que — he ocioso . e 
o Poeta exprime-se tão incorrectamen- 
te como o vulgo. 

• 
„ Porque nero tu tens Rei , nem Pátria amada. " 



156 Censura das Lusíadas 

O que o Çamorim exige para conhe- 
cer com efieito que o Gama era man- 
dado pelo seu Rei, não provava a ver- 
dade desta Missão. O que o Rei Gen- 
tio queria era algum presente que en- 
chesse o olho, isto podia o Gama of- 
ferecer-lhe se fosse hum Pirata que hou- 
vesse feito huma grande preza, e po- 
dia dizer que era mandado por hum 
Rei , sem tal coiza haver acontecido, 
por tanto a falta de riqueza no pre- 
sente nada prova , e nunca mais se tra- 
tou disso i porque logo veremos que o 
Catual não exigio delle senão que man- 
dasse para a terra — toda a fazenda 
vendihil — , que trazia. Ora , sendo o 
Rei Mouro , e todos Mouros em Me- 
linde , porque razão Raccho não fez al- 
li o mesmo que faz com os poucos Mou- 
ros de Calecut ? Não poupava trabalho ? 
Não vedava a chegada do Heroe á ín- 
dia ? Nada disto , desde que a Frota 
sahio de Mombaça , que se não sabe 
de Baccho. 

Era precizo que o Gama respondes- 
se , e erão taes as futilidades que o 
Rei tinha dito , que para lhe respon- 



Oitavo Canto. 157 

der, não era precizo que o Gama fos- 
se inspirado com a intervenção de al- 
guma Divindade. Não o iul^ou assim 
Luiz de Camões , he preciso que hum 
JVumen ensine o recado ao Gama ; e 
quem he este Numen ? Vénus Acida- 
lia ; porque o que Baccho faz , he pre- 
ciso que Vénus desmanche. Vejamos o 
que Vénus Acidalia ensina ao Gama, 
ou oiçamos as palavras que põe na sua 
boca. Oitava 64. a : 

,, Que Vénus Acidalia lhe influía , 

,, Tâes palavras do sábio peito abria. " 

Abrir pala-vras do peito he expressão 
imprópria. Abrir o peito, sim; e diz- 
se ordinariamente de quem comm úni- 
ca alguma coiza em confidencia a ou- 
tro , abrio o seu peito. Vamos ao que 
Vénus Acidalia faz dizer ao Gama: 

,, Se os antigos delictos , que a malícia 

,, Humana commetteo na prisca idade 

_,, Não causarão que o vaso da iniquicia , 

,, Açoute tao cruel da Christandade , 

,, Viera por perpetua inimicícia 

,, Na geração de Adão com a falsidade ', etc. " 

A estas palavras meias Latinas meias 



158 Censura das Lusíadas 

Portuguezas \ a esta confusão de idéas , 
a estes termos idênticos prisca , e an- 
tiga \ chamarião os Francezes hum com- 
pleto , e acabado Galimathias , porque 
na verdade, nada se entende. Os de- 
lictos he que causarão que o vaso da 
iniquicia , que he o açoute da Chris- 
tandade , viera por inimicícia na gera- 
ção de Adão: he hum enigma da Es- 
finge de Édipo. Não se pôde expor o 
que se não entende. O que mais nos 
admira he a imprudência . e atrevimen- 
to em que o Poeta faz cahir o seu He- 
roe no momento em que apparece a 
maior precizão da benevolência do Rei 
Gentio, descompondo-o desta maneira : 

,, O' poderoso Rei da torpe seita , 

„ Não conceberas tu , tão má suspeita. " 

Isto passa ao ridiculo ! Pois o Gama 
devia chamar torpe seita á mesma Re- 
ligião publica do mesmo Rei com quem 
estava fallando , e de quem dependia 
para o seu despacho ? He verdade que 
são torpissimas todas as Seitas Genti- 
licas , são barbaras , e monstruosas as 
suas superstições; mas o tempo, e as 



Oitavo Canto. 159 

circunsianeias do Gama pedião que el- 
le dissimulasse esta verdade , porque 
elle era hum Negociador , e nâo hum 
Missionário. As dez Oitavas que se se- 
sruem pela matéria . e pela forma . são 
beliissimas : em lodos os dez Cantos 
que formão o Poema não ha hum trá- 
cio que com mais força sustente . e 
conserve a magestade da Poesia Épi- 
ca : só em a Oitava 73. a ha hum ver- 
so, que se não quizerem dizer que es- 
tá errado , não poderão negar que es- 
tá mal accentuado : 

,, Rompendo a força do líquido estanho. " 

Prescindamos se a metáfora he ajusta- 
da . e se ao mar se pode chamar esta- 
nho derretido. Na Oitava 74. a se acha 
outro verso com içuaes defeitos . que 
escandalisão . ou arripião os ouvidos : 

,, Qual não sendo isto assim esperar podia. " 

Luiz de Camões foi hum dos Escri- 
ptores Portugriezes que mais contributo 
para o polimento j e perfeição de nos- 
sa riquissima . e harmoniosa liiiffuaeem ; 
mas em certos passos não sabia es- 



160 Censura das Lusíadas 

trem ar a prosa do verso senão pelas 
similcadencias, ou simildesinencias, que 
se chamão rimas , e nellas não consis- 
te a essência da Poesia, nem com el- 
las se pode supprír a mingoa do espi- 
rito, ou daquelie tom . e ímpeto que 
se sente , e mal se pódé definir , a que 
verdadeiramente se pode chamar Poe- 
sia , que difere da prosa ainda a mais 
levantada como difere a musica do sim- 
ples , e ordinário modo de fali ar. 

Na Oitava 78. a começa o ultimo apu- 
ro da impertinência , e o ultimo exces- 
so da degradação do Heroe na boca do 
Poeta : ainda que iodo o Poema fosse , 
qual devia ser , magestoso , e sublime , 
segundo o pensamento do Commenta- 
dor Ferreira , este resto do Canto oi- 
tavo deita a perder, e arruina tudo. 

„ Que -mande da fazenda em fira lhe manda. *' 

s> Se parte o Capitão para aonde peça , 

• Ao Catual qne delle tinha cargo , 
„ Embarcação , que a sua está de largo. " 

Neste tom moribundo , ou somnifero, 
vai chegando ao tumulo este oitavo Can- 
to, que bem se sente dos trabalhos, e 



Oitavo Caxto. 16 i 

misérias em que andava o Poeta, que 
bem parece . que lhe apaga vão o fogo 
da imaginação. Oitava 79. a : 

,, Embarcação que o leve ás Náos lhe pede. . . " 

„ Com elle parte ao Cáes , porque o arrede 
j, Longe quanto poder dos Régios Paços ; 
,, Onde, sem que o seu Rei tenha noticia, 
,, Faça o que ihe ensinar sua malicia. " 

Destes versos só posso dizer o que dis- 
se o Commentador Garcez Ferreira dos 
versos 5 , e 6 da Oitava 7 7. a : 

j, Em fim ao Gama manda que direito 
,, As Náos se vá * . . " 

Com estylo menos rasteiro tinha dito 
" Barros : — Despedio o Gama , man- 
" dando-lhe que se tornasse aos Na~ 

Oitava 80: 

„ Lá bem longe lhe diz , que lhe daria 

,, Embarcação bastante em que partisse, 

„ Ou que para a luz crástina do dia 

,, Futuro sua partida deferisse. " 

Se o dia de amanhã he para nós futuro , 
e luz crástina^ em Latim 7 he o dia de áma- 
Tom. II jl, 



l$% Censura das Lusíadas 

nhã 3 temos aqui hum a redundância pue- 
ril , e inútil. He mui notável a Oitava 
81. a pelo ingénuo tom de prosa em que 
he concebida , e pela significação que o 
Poeta dá ao verbo — Delirar — , que se- 
gundo a commum- accepção he hum des- 
concerto , ou natural , ou accidental do 
entendimento. 



Era este Catual hum dos que estavão 
Corruptos pela Mahometana Gente , 
O Principal porque se governavão 
As Cidades do Samori potente : 
Deste somente os Mouros esperavão 
ErTeito a seus enganos torpemente : 
Elle , que no concerto vil conspira , 
De suas esperanças não ojelira. ' 



Por mais que se afadiguem os Commen- 
tadores em dar aqui ao verbo — Deli- 
rar — a significação de desvio, ou dis- 
cordancia, não he possível conceber ou- 
tra idéa diíferente daquella que á pri- 
meira intuição se nos cflèrece. — Deli- 
rar — nunca será mais que delirar. De- 
lírio , tresvalio , loucura , alienação de 
entendimento occasionada por febre \ ou 
outro accidente . e tudo isto nunca po- 
derá dizer ^ que o Catual não estava con* 



Oitavo Caisto, J£B 

trario , ou não hia longe em seus proce- 
dimentos das concebidas esperanças doe 
Mouros j que era destruir as JNáos Por- 
tuguezas . temendo com aquella navega- 
ção huma infallivel quebra no seu Com- 
mercio com a Arábia. Pérsia , e Egy- 
pto , e por conseguinte com a Europa. 
Mas que he tudo isto quando a imperio- 
sa necessidade da rima tyrannisa hum 
pobre Poeta . que só por acabar o seu 
verso dirá huma heresia , e huma blas- 
fémia ? Na Oitava 84. a depois da nojen- 
ta prosa das Oitavas 82. a , e 83. a con- 
tém huma indignidade. Okâo-se os úl- 
timos 4 versos : 

9 , Não parte o Gama era íim , que lho defende 

3> O Regedor dos Bárbaros profanos ; 

,, Nem sem licença sua ir-se podia; 

>s Que as almadias todas lhe tolhia. " 

Vio-se semelhante aperto , nem em hum 
Contra-Mestre de Navio que ficasse em 
terra ? 

j, Nem sem licença sua ir-se podia. * 

Parece-me que fazem do Gama hum Fra- 
de . que não pôde sahir do Convento sei» 

jl 2 



164 Censura das Lusíadas 

licença do Guardião , ou do Abbade , ou 
como quer que cliamâo os Frades ao que 
governa lá dentro. Osqueestavão abor- 
do das Náos não sabião que o Gama es- 
tava só em terra , não viâo que tardava ? 
não podiâo mandar a lancha a terra ? 
Deixão só o Commandante , e não vão 
tratar da sua soltura , se está prezo , ou 
mandar-lhe embarcação em que venha 
para bordo ? Nada disto se faz ; pare- 
ce que estão mortos. O que continua 
a viver , e a reinar he a prosa casei- 
ra de Luiz de Camões como se vê , e 
se admira na Oitava 85. a : 

j, Aos Irados, e razões do Capitão 

)t Responde o Idolatra que mandasse 

,, Chegar á terra as Náos, que longe estão, 

„ Porque melhor dalíi fosse, e tornasse: 

„ Sinal he de inimigo , e de latfrão , 

„ Que lá tão longe a frota se alargasse 

3J Lbe diz 

Não traslado mais , pasmado da humil- 
dade , ou insensibilidade do Gama. Cha- 
mão-ihe ladrão na sua mesma cara , e 
Uca enxuto ? e calado ? Que Heroe he 
este ? He hum Santo , e he Heroe , mas 
no perdão das injurias. Mas que sen- 



Oitavo Canto. 165 

timentos de honra Cavalheiresca pôde 
ter hum homem que he chamado He- 
roe , mas que não ha coiza que não 
tema, e não ha têa de aranha , que o 
não atemorize ? Oitava 86.* : 

„ Tudo temia, tudo em fim cuidava. " 

He este aquelle forte, e illustre peito 
Lusitano 

,, A quem Neptuno , e Marte obedecerão ? " 

Se Camões canta , como diz — o pei- 
to illustre Lusitano — , por certo não can- 
tou Vasco cia Gama , porque hum co- 
ração que tudo teme , como o de Vas- 
co da Gama , não he muito illustre, 
nem muito Lusitano. 

Na Oitava 87. a vem huma compa- 
ração muito arrastrada , mas assim mes- 
mo não he invenção do Poeta , he co- 
pia , he traslado de Virgílio. Eneid. Liv. 
8.° v. 22 , e do Ariosto Canto 8.° Est. 
71. a Todas estas triviaes miudezas com 
que o Poeta vai enchendo somniferas 
Oitavas , todas estas comparações em- 
prestadas são hum argumento eviden- 
te da falta de invenção , e originali- 



166 Censura das Lusíadas 

dade. Na Oitava S8. a ainda he mais 
rasteira a prosa, e o abatimento a que 
se reduz o Heroe : 

„ Tal o vago juízo fl actuava 

,, Do Gama ■ prezo , quando lhe lembrara 

„ Coelho , se por acaso o esperava 

j, Na praia com os batéis como ordenara. ' 

São pobrissimas estas rimas na sua tra- 
vação — ava e ara — , e he mui in- 
jurioso para o Heroe o abatimento de 
huma Cadêa em que o mette o Poeta. 
E na Oitava 30. a ainda continua a pri- 
zao a que se nào dá remédio cem a 
força, pois veremos que não- apparece 
ordem de soltura senão depois de pa- 
gar com a fazenda a somma , e impor- 
te da coima (jue o Catual lhe deitara : 

a , Insiste o Malabar em tello preio. : ' 






Estou desejoso de acabar a censura des- 
te oitavo Canto, porque o enjoo cres- 
ce cada vez mais. Oitava £1. 3 : 

j, Aquella noite esteve alli detido, 
,, E parte do outro dia 

Não se pôde enxergar aletas rasteiras 



Oitavo Canto. 167 

frases o mais pequeno , e ligeiro vM* 
lunibre de Poesia. Se os marujos da 
frota de Vasco da Gama contassem es- 
tas miudezas , por certo as não contar 
riao mais rasteiramente , e apezar do 
estylo medíocre dos nossos Historiado- 
res jj alli as vemos escritas com mais 
elevação . e dignidade. Vamos admiran- 
do os rasgos Poéticos de hum a Epo- 
péa que se vai aproximando á catás- 
trofe , onde devia caminhar com mais 
forca, e maior majestade. Oitava 92. a ': 

,, Dii-lhe , que mande vir toda a fazenda 

,, VendibiL, que trazia, para a terra, 

} , Para que de vagar se troque , e venda . . . , 

,, O Gama, que o danado peito encerra, 

„ Consente, porque sabe por verdade , 

}i Que compra com a fazenda a liberdade. " 

Isto não necessita de Commentario . por- 
que tudo dizem , e tudo explicão os 
dois últimos versos da Oitava memo- 
rável 93. a : 

,, Escreve a seu irmão, que lhe mandasse 
,, A fazenda com que se resgatasse. " 

Temos visto o laço tramado por huma 
Divindade, qual he Baccho , apparecen- 



168 Censura das Lusíadas 

do ao Mouro em sonhos em trage de 
Mafoma , e he este hum meio sobre- 
natural , que por outro também sobre- 
natural se devia destruir , porque es- 
ta força agressiva pedia outra igual re- 
pulsiva. Mas aqui está o maior defei- 
to das Lusiadas , e hum erro que ar- 
gúe no Principe dos Poetas a falta de 
conhecimento dos principios da sua ar- 
te , e dos naturaes dictames da boa ra- 
zão. Todo este esforço de Baccho he 
destruído por meios puramente huma- 
nos , e o empenho de hum Deos he 
mallogrado por huma pouca de fazen- 
da. O Heroe he prezo por Baccho , o 
Heroe he posto na rua por hum rollo 
de panno. Se hum homem o podia res- 
gatar , não era preciso , que hum Deos 
o captivasse. A indignidade continua, 
e quanto mais o Poeta particulariza as 
coizas , mais se abate. Oitava 94. a : 



,, Vem a fazenda a terra , aonde logo 

,, A agazalbou o infame Catual ; 

9 , Com ella ficão Álvaro , e Diogo , 

„ Q.ue a podessem vender pelo que vai: 

„ Se mais que obrigação que mando , e rogo 

„ No peito vil o premio pôde, e vai, . . . " 



Oitavo Canto. 16$ 

Vai e vai não são consoantes , e isto 
he hum erro de Aprendiz. Estávamos 
cançados de vêr o estado miserável , e 
o abatimento a que chegou o Gama 
mettido em trabaJhos dentro de huma 
Cadêa. E que admiração nos deve cau- 
sar vermos os Heroes de Homero fa- 
zerem pela sua mão o seu próprio jan- 
tar ? ou vermos as rilhas de EIRei Al- 
cinoo lavando a sua roupa no rio, co- 
mo nos diz com tanta singeleza a 
Odysséa, Vasco da Gama , deixado dos 
seus , porque o não buscavão , esque- 
cido do próprio Coelho, de quem elle 
se lembrava em suas afflicções , e mi- 
sérias , Vasco da Gama sem fazer bom- 
bardear a Cidade de Calecut , não con- 
segue vêr-se fora da Cadêa senão pa- 
gando a quantia em que fora encoi- 
mado ; assim o declara o Principe dos 
Poetas : 

„ Bem o mostra o Gentio a quem o entenda. 
„ Pois o Gama soltou pela fazenda. " 

Conseguida por este decoroso modo a 
sua liberdade , tem concluido a sua 
acção, tem sido, até á custa de Ca- 



I7ó Censura das Lusíadas 

dêa hum mero Descobridor ; pode ir 
com Deos , que nada mais tem que fa- 
zer. Assim parece que o devia fazer; 
porém o Poeta assenta que ainda não 
temos laudano bastante para cahirmos 
em perfeita lethargía , e continua nes- 
ta levantada Oitava 95. a : 

3i Por ella o solta, crendo, que alíi tinha 
,, Penhor bastante donde recebesse , 
i} Interesse maior do que lhe vinha, 
3 , Se o Capitão mais tempo detivesse : 
,, Eile, vendo que já lhe não convinha 
,, Tornar á terra, porque não podesse 



' 



s , Ser mais retido , sendo ás Nãos chegado , 
„ Nellas estar se deixa descançado, " 



Eu repetirei aqui as mesmas palavras 
que escreve Ignacio Garcez Ferreira 
no Tom. 2.° do seu Commentario pag. 
175 Not. 250 : 

„ Estar se deixa descançndo. 

99 O mesmo poderá fazer o Poeta com 
79 estas suas insípidas repetições : mas 
99 ainda prosegue na seguinte Estancia 



„ Nas Náos estar se deixa vagaroso , 
,i Até vêr o que o tempo lhe descobre, " 



Oitavo Caxto. 171 

Ora na verdade , he da prudência espe* 
rar a oecasiào das coizas , porque o tem- 
po tudo descobre : masesta paxorra 5 
na o só na o he de hum Heroe , mas 
nem de hum Marujo Porta guez . e com 
muita especialidade quando se trata de 
hum punhado de Canarins, que depois 
os Portuguezes , até em menos numera 
que os que compimhào a tripulação dos 
Xavios do Gama . tantas vezes comba 
rao . e destroçarão. Acabou-se verdadei- 
ramente a Acção das Lusíadas, em que 
na verdade os Agentes sobrenaturaes 
tem feito ridiculas Personagens : as que 
protegerão o Gama em sua navegação } 
nunca lhe apparecèrào ; as que o em- 
pecerão . nunca se descobrirão. As ci- 
ladas dos Mouros de Mombaça não 
erào menos perigosas que as dos Mou- 
ros de Calecut : em Mombaça manda 
Vénus as Nereidas que empurrem as 
Náos para trás: em Calecut, onde o 
Gama está em ferros . náo apparece 
Vénus a arrombar a Cadêa. Quanto 
melhor faria Luiz de Camões em imi- 
tar Lucano . que majestosamente can- 
tou as guerras civis dos Romanos , des- 



172 Censura das Lusíadas 

cre vendo a (Catão em marcha pelos are- 
aes da Africa , sem intervenção de Di- 
vindades, com tanta pompa Poética , que 
á vista deste quadro, desapparece tu- 
do quanto de grande íizerão os Deo- 
ses de Homero ; e se seria coiza ridí- 
cula fazer na Farsalia apparecer Vé- 
nus que desse a César huma espada 
forjada por Vulcano , porque já no tem- 
po de César a Filosofia receitava , e 
escarnecia estas quimeras , quanto mais 
ridiculo será apresentar-nos hum Poe- 
ta em 1497 hum Heroe Christão , e 
Catholico Romano, ajudado por Vénus, 
e perseguido por Baccho , sempre es- 
condido , e sempre cobarde , e que no 
ponto em que o mesmo Heroe mais 
necessitava do soccorro celeste , pois 
se via abandonado, e prezo entre Bár- 
baros , fazer desatar este nó , por meio 
de instrumentos tão ordinários , ou di- 
gamos melhor , tão vis , sendo resga- 
tado por dois fardos de fazenda ! 



3 , Escreve a seu irmão que lhe mandasse 
,, A fazenda com que se resgatasse. " 



Oitavo Canto. 173 

Acaba-se este oitavo Canto com hu- 
ma das costumadas digressões moraes , 
que nunca se sabe a quem se dirigem. 
He o Poeta que falia , e huma vez que 
ostente erudição, venha ou não venha 
a propósito. Corrompe o oiro , isso he 
verdade , e o Poeta o prova com mil 
exemplos que allega tirados da Histo- 
ria , e da Mythoiogia ; mas o resgate 
do Gama não pôde entrar na cathego- 
ria dos sobornos . porque foi huma con- 
venção , ajuste , troca . ou resgate. Pe- 
la instigação dos Mouros , o Navega- 
dor estrangeiro se fazia hum homem 
de suspeita , e neste caso deixalio em- 
barcar sem despacho , sem passaporte , 
sempre era hum favor; e como o Sa- 
morim o tinha entregado ao Catual sem 
resolver coiza alguma , sem assignar 
estipulação alguma, ou tratado de al- 
lianca , e commercio entre as duas co- 
roas contratantes Calecutense . e Por- 
tugueza , não era muito que se un- 
tassem as mãos áquelle Regedor de 
Justiças . ou intendente de Policia de 
Calecut , para deixar partir o Gama. 
He comtudo verdade o que diz o Poe- 



174 Censura das Lusíadas 

ta na ultima Oitava 99. a sobre o po- 
der do o aro: 



; , Este interpreta mais que subtilmente 
t, Os textos: este faz , e desfaz leis. " 



' 









: 



175 



CENSURA 



DAS 



lusíadas. 



NONO CANTO. 

X^arece que depois de se haver res- 
gatado o Gama com aquella porção de 
fazenda que se deo ao Caíual por sua 
soltura , que se deviâo acabar de hu« 
ma vez as contendas $ e os debates com 
os Oínciaes da Alfandega, com os cor- 
retores do numero, com os Despachan- 
tes j e Mercadores , e esperávamos que 
tudo isto findasse com o eterno Can- 
to oitavo , e com o sermão com que 
o Poeta o fecha. Solto o Gama , vis- 
ta a índia , estava tudo concluido \ e 
bem concluido com estas baixezas hum 
Poema Epíco : não he assim ? conti- 



176 Censura das Lusíadas 

nuão as desordens mercantis muito di- 
gnas da Epopéa em o Canto nono. 
Oitava 1/ : 

„ Tiveráo longamente na Cidade 

„ Sem venJer-se a fazenda os dois Feitores. " 

Não se sabe se este — Tiverão se re- 
fere á fazenda , se aos dois Feitores ; 
ou se — tiverão , he o mesmo que es- 
tiverão. O verso 6 ° he deste som har- 
mónico , e retumbante , ou como o Po- 
eta quer — Hum som alto , e sublimado : 

„ Era deter alJí os Descobridores. " 

O Poeta muito escrupuloso em pontos , 
e matérias de verdade , nos expõe his- 
toricamente qual era a tenção dos Mou- 
ros na demora dos Feitores Álvaro de 
Braaa , e Diogo Martins , porque acin- 
te lhe não chegavão ao preço ainda 
que elles já a dessem pela factura • 
apresentando os conhecimentos em for- 
ma : 

„ Fazem que não lha comprem Mercadores ; " 

que vinha a ser , esperarem a monção 
em que vinhão as Náos de Meca ; por- 



Nono Canto. 177 

que com os soccorros destas esperavão 
dar cabo da Frota Portugueza , dizen- 
do-nos com a singeleza daquelles he- 
róicos tempos na "Oitava 4. a : 

,, Neste soccorro tanto contiavãò, 

„ Que já não querem mais dos navegantes „ 

,, Se não quê tanto tempo alli tardassem, 

,, Que da ramosa Meca as Náos chegassem. " 

Temos huma lacada mais no Poema , 
que retarda o acabamento da acção ; 
e esta laçada he feita por meios pura- 
mente humanos , qual era a natural 
lembrança que os Mouros tiverão da 
superioridade da força das Náos de Me- 
ca : 

,, Que como fossem grandes , e possantes , 
5 , Aquellas que o commercio lhe tomavão 
>y Com flammas abrazassem crepitantes. '* 

Até aqui temos huma lembrança hu- 
mana excitada pelo ciúme do interes- 
se mercantil , porque os Mouros que- 
rião o commercio exclusivo de Calecut. 
Para isto não he preciso Baccho , por- 
que os negociantes não precisão inspi- 
rados para a sua conveniência ; mas 
Tom. IL M 



178 Censctrà das Lusíadas 

jembra-se o Poeta de desatar este .nó 
por meios sobrenaturaes , e se eile se 
persuadia que esta lembrança dos Mou- 
ros ainda era hurna consequência do 
sonho do Sacerdote que vira Baccho na 
figura de Mafoma , parece que lhe de- 
via oppôr Vénus que até aqui , em to- 
dos os apuros em que se vio Vasco da 
Gama, se mostrou inimiga do Thyoneo ; 
mas não he assim ; vai buscar o so- 
brenatural da Religião , para obrar o 
prodígio de livrar Vasco da Gama da 
danada tenção dos Mouros. Oitava 5. a : 

„ Mas o Governador dos Ceos , e gentes, 

,, Qae, pura quanto tem determinado, 

„ De longe os meios dá convenientes 

„ Por onde vem o eíTeito ao fim fadado : . . . " 

Ora assim como o Poeta tem aqui tão 
ajustada lembrança do maravilhoso da 
Religião , porque se não sérvio delle 
em todo o Poema ? Se pôde ter lugar 
em huma parte delle , também o podia 
ter em todos. E se Vénus lhe bas- 
tou até aqui [ porque lhe não basta ago- 
ra ? Porque tudo são incoherencias . e 
imperfeições neste tão preconizado Poe- 



Nono CAtffô. ín 

ma. Os Mouros de Calecut sâo Mouros 
instigados por Baccho para fazerem mal 
aos Poríuguezes ; Monçaide he cutro 
Mouro de Calecut, que quer fazer bem 
aos Poríuguezes ; e porque nao he ins- 
pirado por Vénus ? O mal he feito por 
Baccho, e o remédio he trazido e dado 
— pelo Governador dos Ceos, e gentes.— - 
Em Monçaide foi hum acto de benefi- 
cência natural avizar os Portuguezes , 
e assim como foi outro acto natural af- 
feiçoar-se a eíles 9 porque os conhecia 
de Orão. Oitava 7. a : 

,, Informa-G-eauto Gama das armadas, 
,, Que cTArabica Meca vem cada anno, 
„ Que agora são dos seus tão dezejadas, 
j, Para ser instrumento deste damno : " 

Ora, como diz o Poeta, juntando-se a 
este aviso do amigo Monçaide a aproxi- 
mação do ensejo para se fazer a Arma- 
da á Vela, Oitava 8. a , 

,, O Gama, que também considerava 
,, O tempo que para a partida o chama," 

sem ser precisa, nem para huma, nem 
para outra coiza a concurrencia do Re- 

M 2 



180 Censura das Lusíadas 

gedor dos Ceos , e Gentes , usando de 
represálias para haver os dois Sobrecar- 
gas , ou Feitores , o que tudo se fez por 
meios humanos i e o que tudo faria 
qualquer Capitão de Navios , negocian- 
do com povos bárbaros, e que não co- 
nhecessem o Direito das Gentes, nem o 
— Maré liberum — de Hugo G rocio ,. 
fez o que se diz sinceramente na Oita- 
va 12.*: 

„ Recebe o Capitão de melhor mente 

„ Os prezos, que as desculpas, e tomando 

„ Alguns negros, se parte as velas dando." 

Esta acção por despedida não accredi- 
ta muito nisto a boa fé , e a probidade 
do Gama , porque ou fossem prelos , ou 
fossem brancos , erão homens livres , e 
nenhum direito tinha mais que o da for- 
<^a para os cativar no seu paiz. Mas em 
fim , ou com justiça, ou sem ella, por 
mais que os negros chorassem , ou se 
callassem , volta o Gama para Portugal, 
como diz o Poeta na Oitava 13. a 

,, Parte-se costa abaixo, porque entende 
,, Que em vão co' o Rei Gentio trabalhava 



Nono Canto. 181 

„Ccm estas novas torna a Pátria cara 
,, Certos sinaes levando do que achara." 

Nesta Oitava acaba naturalmente a ac- 
ção do Poema, e acaba o Poema ; porque 
este he o seu fim. Nada mais resta , 
acabou-se tudo. Veio de Portugal , eis- 
aqui o principio ; chegou á índia , ten- 
do encontrado o caminho para a índia, 
eis-aqui o meio ; ajunta os testemunhos 
de que lá fora. e volta para Portugal, eis- 
aqui o fim. Depois do fim de huma ac- 
ção não ha mais nada, porque depois 
do rim de huma coiza não sei que ha- 
ja mais nada para a mesma coiza. Co- 
mo em hum Postescriptum diz o Poeta 
na Oitava 14. a : 

)y Leva ajguns Malabares que tomou 
„ Com força dos que o Samori mandara 
}) Quando os prezos Feitores lhe tornou: 
„ Leva pimenta ardente que comprara. . . •" 

Fez a sua preza , e a sua carregação 
de pimenta que achou em conta, e veio 
o Heroe para a sua terra. Depois de ter 
a pimenta a bordo, sinal de que estive- 
ra onde havia o Rei da Pimenta , co- 
mo o Poeta diz em outra composição, 



182 Censvra das Lusíadas 

tinha concluído a sua negociação, e 
com este desfecho , a acção do descu- 
brimento da índia mais parece especu- 
lução de Mercador em aperto, que fa- 
çanha de hum Heroe. Para que não nos 
esquecesse que o Gama tinha acaba- 
do a sua comnqissão , e que partira da 
índia porque não tinha \á mais nada 
que fazer, na Oitava 16. a nos torna a 
dizer que o Gama partira da índia em 
demanda do Cabo da Boa Esperança : 

,, Apartadas assim da ardente costa 
j, As venturosas Náos, levando a proa 
„ Para onde a Natureza tinha posta 
J} A meta Austrina da esperança boa, 
,, Levando alegres novas, e resposta 
,,Da parte Oriental para Lisboa, 
., Outra vez comettendo os duros medos 
,,Do mar incerto, timidos, e ledos." 

Aqui faJtão duas coizas , a primeira o 
substantivo com quem concordem estes 
çlois adjectivos — timidos, e ledos — , a 
çegunda o verbo que denote a acção 
destes nominativos ; isto não são elipses, 
são imperfeições, tanto maiores, quan- 
to maior se julga o Poeta. Se nós nos 

damos pox satisfeitos , se já sabemos 3 e 

/ 



Nos o Canto. 13% 

confessamos , que o Gama partira da 
índia acabando a sua acção ; se já nos 
doe a cabeça com a teima da repetição ; 
se já nos não resta outra coiza mais \ 
que dizer — Pois boa viagem : — o Poe- 
ta ainda não está satisfeito , e nos tor- 
na a dizer não só que vierão, mas a 
que vierão. Oitava J7. a : 

}) O prazer de chegar á pátria cara, 
„ A seus penates caros, e parentes." 

Tudo isto he caro . se se considera a. 
grande dose de paciência , que com ef- 
feito he precisa para comprarmos , e 
supportarinos esta nojosa, e interminá- 
vel arenga ! O Poeta abrange tudo, 
porque não só nos diz o que os nave- 
gantes devião fazer quando checarem a 
Lisboa, mas o que devião contar: 

,j Para contar a peregrina, e rara 

,, Navegação, os vários Ceos, e gentes." 

Pátria cara na Oitava 12.\ outra vez 
Pátria cara na Oitava 17. a Acabou-se 
pois o Poema das Lusiadas . e as con- 
sequências admiráveis desta grande Ac- 
ção vem a ser os contos que os nave* 



184 Censura das Lusíadas 

gantes vem fazer á Pátria cara , aos 
caros Penates , e aos parentes do que 
tinhão visto em quanto por lá andarão. 
Agora lemos outra coiza , muito diffe- 
rente , e muito alheia da acção princi- 
pal , porque esta já se tinha acabado , 
e ultimado de tal sorte que já não havia 
que fazer. O mesmo Baccho que tanto 
se empenhou á hida para dar cabo dos 
Portuguezes , como se houvera conse- 
guido isto , não torna a apparecer , ou 
reconciliado com elles os deixa passar 
seguramente. 

Depois da morte de Heitor, e in- 
cêndio de Tróia, acabou-se a Iliada , 
e não ha mais que fazer ; depois da che- 
gada de Ulysses a Ithaca , e chacina 
que fez nos arrojados de Penélope, aca- 
bou-se a Odysséa, e não ha mais que 
tratar; depois da injustíssima morte de 
Turno, e pérfida usurpação do Reino 
do Lacio , acabou-se a Eneada , e não 
tem Eneas mais que roubar; depois da 
escalada e tomada de Jerusalém , morto 
Emireno, Generalíssimo do Exercito al- 
liado que viera sobre os sitiadores, aca- 
bou-se o Gofrego , ou Jerusalém liber- 



Nono Canto. 185 

tada , não ha mais que requerer , nem 
que esperar. Depois do descubrimento 
da índia que era o fim da acçào das 
Lusiadas , não ha mais que accrescen- 
tar : tudo o que daqui se seguir . he 
fora da acçào , e he alheio do Poema. 
Luiz de Camões, como nào soube passar 
a verdade histórica para o verosimil 
poético . em lugar de estender a têa 
dentro dos limites da acção faz hum es- 
tranho additamento ao seu Poema, que 
vem a ser huma nova acção de Vasco 
da Gama depois que descobrio a índia. 
Sem as Deosas , e Deoses do Paganis- 
mo , não faz nada Luiz de Camões ; 
mas como era homem de pouca memo- 
ria, introduz Thetis no seu additamento, 
mudada de tenção : o que são mulhe- 
res ! Qando se tratou na Corte , e Paço 
de vidro de Neptuno da destruição do 
Gama, e seus companheiros, no Canto 
6.° das Lusiadas, Thetis he huma das 
votantes , que approva este extermínio , 
com hum daquelles sutaques acintosos 
tão próprios das Senhoras mulheres : 

i 

„ Neptuno sabe bem o que mandou." 



186- Censura das Lusíadas. 

Pois esta mesma Thetis vem figurar tan- 
to nesta nova acção das Lusíadas , que 
chega a casar com aq.uelle mesmo Ga- 
nia que no 6° Canto do outro Poema 
que se acabou, queria afogado. O Agen- 
te principal deste novo , e segundo Poe- 
ma, que começa na Oitava 18. a do 9.° 
Canto, lie a Deosa Vénus , bem conhe- 
cida pela sua vida , costumes , e patro- 
cínio ; ella tem diversos sobrenomes , 
Amathunta J Paphia , Cytheréa p e Cy- 
pria ; mas ella he a mesma, porque he Vé- 
nus , a Mãi de Cupido , e a mãi dos 
amores; o Poeta explica-se melhor, e 
oiçamos o Poeta no principio deste Poe- 
ma i 

jy Porém a Deosa Cypria., que ordenada 
,, Era para favor dos Lusitanos 
3 , Do Padre Eterno. , . ." 

O Poeta era Christão, nós somos Chris- 
tâos , o Heroe era Cristão , e todos Ca- 
tholicos Romanos pela graça de Deos , 
ç quando falíamos no Padre Eterno, sa- 
bemos y e confessamos que he a primei- 
ra Pessoa da Santíssima Trindade ; e se 
não que no& dig&oy que devemos enten- 



Nono Canto. 187 

der aqui pelo Padre Eterno ? Dirão que 
o Deos Júpiter; peor ainda, e maior 
culpa do Poeta; porque este como Chris- 
tão, ainda que huma vez resolvido a in- 
troduzir os Deoses do Paganismo, devia 
servir-se de termos que removessem to- 
dos os equivocos ; nem seus mais pertina- 
zes idolatras poderão negar aqui que a 
primeira intuição , e a primeira idéa 
que esta palavra — Padre Eterno — nos 
excita ivalma , lie a que a Religião nos 
desperta quando nos diz quaes, e quan- 
tas sejão as pessoas da Santíssima Trin- 
dade. O Padre Eterno . pois . he quem 
ordena Vénus , e quem a dispõe para 
favorecer com suas graças , e mimos os 
Lusitanos . 

„ Que sempre os guia já de longos annos." 

Poucos Portuguezes saberão que este 
tinha sido seu Anjo tutelar em suas 
emprezas , e muito mais admirados fi- 
carão agora em sabendo que estes fa- 
vores que lhes deve fezer Vénus, orde-. 
nada pelo Padre Eterno > são huma en- 
fiada de torpezas em huma . Ilha trazi-. 



188 Censura das Lusíadas 

da aos empurrões pela mesma Vénus a 
huma paragem determinada do Oceano 
por onde as Náos devião passar ; Oita- 
va 19. a : 

„ Buscar-lhe algum deleite, algum descanso 
,,No Reino de cristal liquido, e manso." 

E para que não ficássemos em duvida 
sobre a qualidade do deleite ; que de- 
vião sentir os Portuguezes nesta arri- 
bada á ilha encoberta, o Poeta o de- 
clara na Oitava 20. a : 

„ Algum repouso em fim, com que podesse 
„ Refocilar a lassa humanidade." 

Os fins não se elcanção sem huma ex- 
acta proporção de meios , e na escolha, 
e appli cação destes meios se conhe- 
ce a penetração, e habilidade do Agen- 
te 3 ou do Artífice : 

,, Parece-lhe razão que conta desse 
,, A seu filho, . . ," 

Este era o Ministro escolhido para a 
diligencia , mas o lugar da acção ainda 
estava por determinar ; ella já sabia o 
que devia fazer , para cumprir com as 



Nono Caxto. 189 

apertadas ordens do Padre Eterno: 
Oitava 21. s 

,, Isto bem resolvido determina 
,,í)e ter-lhe aparelhada Tá no meio 
,-, Das aguas alguma Insula Divina.'" 

A Geografia com seus teimosos traba- 
lhos nos tem descrito até agora quasi 
todas as Ilhas existentes em hum , e 
outro Oceano , Atlântico , e Pacifico , 
mas ainda não marcou em suas Cartas 
Hydrograficas Ilha alguma chamada a 
Divina: — Insula Divina. — Seja isto 
como for : como Vénus fazia a Ilha , 
podia-lhe dar o nome que quizesse, ve- 
jamos o que faz na Oitava 22. a 

„ Alli quer que as aqoaticas Donzellas 
,, Esperem os fostissimos Varões." 

••«••••••••••••••••• •••••••••••...»» 

,,Com danças, e coréas porque nellas. 

„ Influirá secretas afTeições 

,, Para com mais vontade trabalharem." 

Creio que danças, e coréas, quer di- 
zer — Danças , e danças , — porque 
dança em Latim he coréa , e coréa em 
Portue-uez quer dizer dança. Oitava 
23/ 



íâó CensuHa das Lusíadas 
í 

„ Séu filho vai buscar, porque só nellè 
,,Tem todo o seu poder, fero Cupido," 

He preciso hir em demanda deste fi- 
lho , porque sem elle nada se fazia , 
nem sem Cupido se podia refocilar a 
làssâ humanidade, que he o premio 
quê Vénus ordenada pelo Padre Eterno 
íjuer dar aos Keroés Portuguezes. A 
Oitava 25. a he huma das mais notáveis 
de todo ó Poema, não por começar 
por hum verso errado , mas pelo que 
em si contem. 

j, Já sobre os Idálios montes pende, 

,, Onde o filho frecheiro estava então 

„ Ajuntando outros muitos; que pertende 

,, Fazer huma famosa expedição 

_,, Contra o Mundo rebelde, porque entende 

í5 Erros grandes que ha dias nelle estão, 

„ Amando cousas que nos forão dadas 

,, Não para ser amadas, mas usadas." 

Idéa mais extravagante ainda não en- 
trou em miolos Poéticos , fossem os de 
Ariosto quando sobe com Astolfo ao 
concavo da Lua, ou fossem os de Mil- 
ton quando inventa o Paraizo dos Lou- 
cos , ou Fátuos ; e a fatuidade não pó* 



Nono Canto. l&í 

de ser maior que a de Luiz de Camões 
neste passo: cOmmette-se a reformação 
ou recolleição do Mundo moral áquel- 
le mesmo , que no Mundo moral fez, 
e faz as maiores desordens . e os mais 
solemnes desíemperos : pois este hê o 
reformador ( este lie o que deve desar- 
reigar abusos , extirpar relaxações , e 
conter os homens nos limites do j«s- 
to . e do honesto ; a tudo se estende o 
poder do Reformador Geral ; não sei 
como lhe não foi também commettido 
reformar as ordens Monacaes , e Men- 
dicantes. A primeira coiza que se ofe- 
rece na reforma universal dos costumes^ 
he o exercicio da caça ; mas se neste 
ha algum crime \ bem o pagão as per- 
nas dos que correm atraz das perdizes,, 
e os que consomem a paciência á espe- 
ra de hum Coelho j quando com huma 
cajadada se não matão dois. He pois a 
caça hum abuso que Cupido deve re- 
formar , deixando os homens sem hum a 
Galinholà para eterna desconsolação do 
arroz. A Oitava em que esie primeiro 
crime se pinta be inintelligivel . e não 
se sabe o que o Poeta quer dizer. Vem 
pois Cupido, e 



192 Censura das Lusíadas 

; 
„ Vio Acteon na caça tão austero 

„De cego n' alegria bruta insana, 

„ Q.ue por seguir hum feio animal faro 

j, Foge da gente e bella forma humana ; 

„ E por castigo quer doce e severn, 

„ Mostrar-lhe a formosura de Diana; 

,, E gúarde-sft hSo jeja nula comido 

„ Desses cães que agora amá, e consumido." 

Nos seis primeiros versos nos conta o 
Poeta a fabula de Acteon, — Vio Acteon 
— , e vendo-o enlevado, embebido no 
exercício da caça; eo castigo que Amor 
lhe deo foi mostrar-lhe a Diana , que 
ainda era mais taful neste exercício que 
o mesmo Acteon, nua em hum banho. O 
castigo não parece muito rigoroso, e 
devia obrigar Acíeon a caçar ainda mais 
para ser castigado desta sorte: se a cas- 
ta Diana (que o não foi muito com En- 
dimiao) se estimulou desta vista casual 
em que ella mesma devia ser mais acau- 
tellada ; e o transformou em Viado , is- 
to já não lie obra do Reformador, foi 
vingança de mulher, a qual nos não 
espanta. Quantas Dianas, mui presumi- 
das de castas, fazem os homens Via- 
dos? Seja isto como for, eu não me que- 



Nono Canto. 193 

ro metter a reformador como Cupido; 
a quem se referem os dois últimos ver- 
sos da Oitava ? 

,.E guarde-se não seja inda comido 

3y Desses cães que agora ama, e consumido." 

A Aeteon não pode ser , porque elle 
feito Viado foi comido dos càes , e já se 
não podia guardar , huma vez que os 
cães o tivessem engolido, como engo- 
lirão. Talvez que o Poeta tivesse em 
vista algumas excessivas caçadas de Al- 
meirino, e não perde occasião 

„De olar neste negocio hum justo talho," 

como elle mesmo diz a outro propósito. 
A^ora seguem-se objectos de maior pon- 
deração na Oitava 27. a Cupido deve vir 
reformar a prepotência dos validos , a 
ambição \ e as injustiças dos Ministros 
de Estado , os Instituidores , Mestres 9 
e Aios dos Reis em sua menoridade, e 
bem entendemos nós agora que tudo is- 
to se refere a EIRei D. Sebastião ; (hoje 
31 de Dezembro de 1819 oesperão che- 
gado os Sabastianistas , e não he fera 
Tom. IL n 



194 Censura das Lusíadas 

de propósito este parenthesis contra tãc 
pertinazes mentecaptos.) 

„ Vendem adulação, que mal consente, 
3 , Mondar-se o novo trigo ílorecente." 

Isto he , não deixavão chegar a elle , 
nem os conselhos da Avó , nem o pare- 
cer de Pêro de Alcáçova Carneiro, que 
o dissuadissem da mal intentada 2. a jor- 
nada d' Africa, alentando-lhe os fumos 
de guerreiro , e de conquistador. Nas 
taes dissensões do Imperador de Mar- 
rocos com seu sobrinho, e parentes, 
qual dos Monarcas Europeos se foi Já 
ingerir ? — A Oitava 28. a he para sempre 
memorável ; tem dois objectos ; o pri- 
meiro são os Jesuitas , e os Frades de 
todos os tempos ; o segundo são as Leis 
deste Reino, ou algumas particulares 
que enlão se promulgarão : no primeiro 
objecto não sei se ha razão, no segun- 
do por certo ha atrevimento, espirito 
de revolução , e inconfidência , e estou 
bem certo que, se Luiz de Camões o 
dissesse açora, não seria D. Gonçalo 
Coutinho quem lhe mandasse hum len- 
çol para se enterrar ; mas a Misericor- 



Nono Canto. 195 

dia. Vejamos por inteiro a Oitava , e se 
Cupido no Poema he o reformador do 
Mundo , também eu posso ser o refor- 
mador do Poema. Não he licito , diz o 
Padre Mestre autor do Epitaíio, igua- 
lalio na valentia Poética. JEquare nefas\ 
mas nâo dirá que nào he licito á boa 
razão censurallo. 

,, Vê que aqnelles que devem á pobreza 
3) Amor Divino, e ao povo caridade, 
,, Amão somente mandos, e riquezas, 
„ Simulando justiça, e integridade: 
„ Da feia tyrannia, e da aspereza, 
Jt Fazem direito, e và severidade: 
„ Leis em favor do Rei se estai elecern, 
„ As em Javor 4o povo só perecem." 

O quadro dos Jesuítas e Frades de en= 
tâo parece tirado ao natural, e se Luiz 
de Camões o pode dizer em versos taes 
e quaes naquelle (empo, quem nos ve- 
da que o repitamos agora em prosa? 
JVunca se deve poupar o vicio, e os dois 
vicios capitães do Século sâo a Hyrocri- 
sia, e a Impostura. Mas isto nào he do 
ministério, e missão de Cupido, refor- 
mador do Mundo, conforme a imagi- 
nação poética de Luiz de Camões. Pe- 

N 2 



196 Censura das Lusíadas 

3õ que pertence aos dois últimos versos^ 
creio que ainda que algumas vezes por 
malícia, ou interesse de Ministros, e 
Julgadores , se appliquem , ou interpre- 
tem mal algumas Leis a beneficio do 
povo , nunca em Portugal se abrogárão, 
ou perecerão : isto he audácia , e não 
zelo patriótico , nem tamanha injuria 
merece a Legislação Portugueza. 

Parece que se apurarão os destem- 
peros nesta idéa da reforma do Mundo 
com met tida a Cupido, e aos outros Amo- 
rinhos seus Ministros ; assim o vemos 
na Oitava 29. a , que respira prosa bai- 
xa, e trivial. 

i} Vê em fim que ninguém ama o que deve 
S} Senão o que somente mal dezeja, 
,, Não quer que tanto tempo se releve 
„0 castigo que duro, e justo seja: 
„ Seus ministros ajunta, porque leve 
9 , Exércitos conformes á peleja, 
,,Que espera ter co'a mal regida gente, 
„ Que lhe não for agora obediente." 

Que conformidade podem ter para a 
emenda , e reforma dos costumes cor- 
rompidos , ou immoralidade dos homens 
os Amores lascivos, incastos, ou des- 



Nono Canto. 197 

honestos filhos de Vénus? Na o me di- 
ga o os testarudos Idolatras das Lusía- 
das , que o Poeta falia da Vénus Ce- 
leste , isto he hum recurso da mentira 7 
porque o Poeta bem claro falia , e bem 
perspicuamente explica , e dá a en- 
tender quem seja esta Vénus que foi 
em demanda do íilho . oue achou occu- 
pado na expedição da reforma do Mun- 
do . pois nos diz na Oitava 23. a , 

,,Tal manha buscou já para que aquelle 
,, Que de Anchiscs pario. . . ," 

Quem pario de Anchises foi a Vénus 
impudica, e quem delle pario foi Eneas, 
e esta Vénus , que pario de Anchises 3 
he a que busca Cupido , para infla m- 
mar as Nereidas no amor dos marinhei- 
ros de Vasco da Cama. He peor oue- 
rer dar interpretações favoráveis aos 
textos manifestos do Príncipe dos Poe- 
tas ; porque mui lo mais se descobrem 
pela analyse suas incoherencias, e pue- 
rilidades. E para mais conhecermos a 
proporção que havia entre o Mundo 
reformando e os Reformadores, nos des- 
cobre o Poeta na Oitava 3o. a os ensaios 



198 Censura das Lusíadas 

em que se occupavão estes Missionários 
para a grande obra de desterrar o furor 
da caça d'entre os filhos dos homens, e 
de fazer que os validos , e Ministros 
dos Reis se conduzissem pelos princí- 
pios de justiça 5 e desinteresse , e obri- 
gar os Frades a depor a máscara da 
Eypocrisia : 

9) Muitos destes meninos voadores 
,, Estão em varias obras trabalhando, 
3 , Huns amolando ferros passadores, 
,, Outros hasteas de settas delgaçando: 
} , Trabalhando cantando estão de amores 
,, Vários casos em verso modulando." 

Não seria mais accertado , que se dei- 
xassem disso, e que se reformassem a 
si antes que viessem reformar o Mun- 
do? 

Singula quczque locum teneant sortita decenter , 

diz Horácio , e ainda melhor que Ho- 
rácio o diz a boa razão. A escolha dos 
meios upo podia ser mais extravagante, 
e mais fóra de propósito. Isto não he 
pôr, isto he tirar as coízas de seu lu- 
gar, Admiremos em Camões os agigan- 



iNoxo Canto. 199 

tados passos que fez dar á língua Por^ 
tugueza para o seu estado de perfeição, 
pois sem controvérsia se avantaja a to- 
dos os escritores do seu século , mas 
demos-lhe sem prevenção, sem amor, 
e sem ódio o seu valor como Poeta Épi- 
co, e reconheçamo-lo desprovido daquel- 
le espirito íilosoíico ? que' anima tudo , 
dirige tudo, e não conhece outra regra, 
que não seja a da razão , e da Nature- 
za. Como pode aspirar ao belío ideal 
quem não conhece as proporções entre 
os meios, e os fins , entre os instrumen- 
tos, e as obras? Deixemos a imitação í« 
Cote cruenta de Horácio , e outras , da 
Oitava 3i.% contemplemos a idéa inde- 
cente que nos desperíào os dois últimos 
versos da Oitava 32. a : 

,, Não somente dá vida aos mal feridos, 
,, Mas põe em vida os inda não nascidos." 

Esta obra d'às formosas Ninfas, feridas 
pelos Cupidinhos , poupa por si mesmo 
o amplo commentario. De todo me en- 
fureço quando contemplo a Oitava 34. a 
Estes amores , que Cupido prepara para 
a reforma do Mundo, são os mesmos 



200 Censura das Lusíadas. 

que no Mundo causão maiores escân- 
dalos, ou desaforos. J\ao sou f>u o que 
lhos atíribue , he o Príncipe dos Poetas 
que lhos conta a lhos aponta , e lhos de^ 
clara. 

j, Destes tiros assim desordenados, 

„ Que estes moços mal destros vão tirando, 

a , Nascem amores mil desconcertados 

„ Entre o povo ferido, miserando ; 

„ E também nos Heroes d'altos estados 

í} Exemplos mil se vem de amor nefando, 

}J Qual o das moças Bibli, e Cyneréa, 

,, Hum mancebo d'Assyria, hum de Judéa." 

Os auíhores destas desordens monstruo- 
sas sao os commissionados para a gran- 
de reforma do Mundo moral ! Não po- 
de ser assaz ponderado este desconcer- 
to da razão. Segue-se na Oitava 35. a 
huma apostrofe , que interrompe o fio 
da acção , e a grande obra da reforma- 
ção ; não sabemos quem seja o apostro- 
fador, se he o Poeía, he a coiza mais 
ridicula que tem apparecido ! He indis- 
pensável trasladar a Oitava por inteiro : 

„ E vós, ó poderosos, por pastoras 
„ Muitas vezes ferido o peito vedes : 
*, E por baixos, e rudos, vós senhoras, 



Nono Canto. 201 

3) Também vos tornão nas Vulcaneas redes, 

,, Huns esperando andais nocturnas horas, 

,, Outros subis telhados, e paredes : 

„ Mas eu creio que desic amor indino 

,, He mais culpa 3 da mãi, que a do menino. 

Telhados, e paredes escalados por aman- 
tes nocturnos he coiza bem indigna da 
Poesia Épica. A apóstrofe he a mais 
deslocada, e a sem razão de culpar mais 
a mâi , que o menino , como hum epi- 
fonema sentencioso , he huma completa 
puerilidade , e quem delia seja o culpa- 
do não sabemos nos. Apparece a viagem 
de Vénus aos montes Idalios , e na Oi- 
tava 37. a huma servil imitação, ou co- 
pia de Virgílio : 

Nate mea3 vires , et mea potentia solus. 

)y Filho em quem minhas forças sempre estão." 

A supplica que lhe faz, he mais chora- 
deira de pedinte , e usado aranzel de 
mendigo , que dignidade de tal mãi , 
que se annuncia : 

,, A soccorrer-me á tua potestadej 
„ Me traz especial necessidade»" 



202 Censura das Lusíadas 

A baixeza prosaica do segundo verso, 
fique para os ouvidos dos que lerem. 
Depois de expor a sua especial necessi- 
dade , diz ao íilho o que quer, que he 
favorecer com manifestas torpezas os 
Lusitanos. Oitava 38 a : 

„ E porque tanto imitão as antigas 
„ Obras dos meus Romanos, , . ." 

Vamos a ver hum premio proporciona- 
do ás grandes acções , e obras dos Ro- 
manos imitadas pelos Portuguezes na 
viagem que hia fazendo Vasco da Ga- 
ma , na sua hida á índia, e volta a Por- 
tugal ; o premio digno dos feitos Roma- 
nos , he este , Oitava 40. a : 

9> E para isso queria que feridas 

3 , As rilhas de Nereo no Ponto funefo, 

„ De amor dos Lusitanos incendidas." 

Ponto fundo , parece mais questão dif- 
ficii de resolver , que Oceano. Será 
em Latim Ponto o mar, em Portuguez 
o mar não he Ponto. Neste ponto diz 

Vénus, Oitava 42. a , 

3> Quero, que haja no Reino Neptunino, 
., Onde eu nasci, porgenie- forte, e bella. 



Nono Canto 203 

,,E tome exemplo o Mundo vil, malino, 
,, Que contra tua potencia se rebella /' 

O premio he o aj> ento das filhas 

de Aéreo com os marinheiros, — -(co- 
mo o Poeta diz na iva precedente) 
formosos leitos, cr 1 iis formosas. — 

Até aquii ainda que n o vamos bem 
com estas indecentíssimas imagens, tào 
impróprias de boa moral , como da boa 
Poesia, não imo os marinheiros tb ai , 
e lie neste Ponto onde diz Voltaire que 
lhe parece este passo das Lusíadas rnais 
próprio de hum Alcoice de Amsterdão, 
que de hum a Epopéa. Isto pertence á 
Censura dos costumes , eu limito-me á 
censura da Poesia. Tinha annunciado o 
Poeta que o Mundo hiá a ser reforma- 
do peíos Cupidinhos , companheiros . e 
Ministros do Cupido Principal , e como 
as reformas em tudo mais se conseguem 
pelos exemplos que pelas exhortaçees, 
ou rela violência , o exemplo de reforma 
de costumes que se deve dar ao Mundo, 
sao as torpezas da Ilha de Vénus. As- 
sim o faz . e assim o diz o Poeta : 

}i E tome exemplo o Mundo vil, malino, 
if Que contra a tua potencia se rebella." 



204 Censura das Lusíadas 

O Mundo reformado he aquelle que 
obedece a Cupido ; o Mundo relaxado 
he aquelle que resiste a seus prazeres 3 
e se rebella contra seu poder. Ora olhe 
o Mundo para a Ilha de Vénus , e po- 
nha os olhos naquelle exemplo ! 

Temos na Oitava 44. a hum a seria 
reflexão que fazer sobre as continuadas 
incoherencias de tão grande Poeta. A' 
proposta de Vénus . faz Cupido numa 
advertência digna delle , e também da 
mãi : 

,, Mas diz Cupido que era necessária 
3 , Huma famosa, e celebre terceira" 

Nós bem sabemos o cjue isto quer dizer, 
e Diogo de Paiva d' Andrade, querendo 
em hum Sermão cohonestar este termo , 
lhe chamou — intervenideira ; — porí:m 
como a Ordenação do Reino falia Por- 
íuguez mais claro, chama a estas Se- 
nhoras — Alcoviteiras— ; e aqui nas Lu- 
síadas ficará assentada com mais justi- 
ça a commum Sentença do vuliro, que 
se não houvesse alcoviteiras , não have- 
ria más mulheres ; do oíficio não duvi- 
do eu, porque até o vejo em homens; 



Nono Canto. 205 

da necessidade delle he que eu não con- 
venho neste lanço da Epopéa Nacional, 
obra do Grande Camões. Que necessi- 
dade havia deste passo de alcovitice, 
quando as filhas de Nereo também cha- 
madas a conselho no grande Palácio de 
vidro de Neptuno , sabia o muito bem 
quem erão os Portuguezes , o que hião 
fazer , e como havião de tornar ? Inte- 
ressárão-se por Baccho , e decretarão a 
ruina dos Portuguezes , temendo o que 
Baccho lhes disse na Oitava 29. a do 
Canto b\° : 

,, Que do mar, e da terra em poucos annos 
„ Venhão Deoses a ser e nós humanos." 

Este medo já lhes passou, e não era 
preciso que a Fama ( alcoviteira ) lhes 
dissesse quem erão aquelles que el- 
las conhecião tão bem. Mas em fim 
seria precisa a relação , e necessário o 
conhecimento de algumas particularida- 
des a respeito dos Portuguezes , que as 
Nereidas ignorassem, e de que previa- 
mente devião ser instruidas. Oitava 45. \* 

>t Vão-na buscar, e manuão-na diante." 



206 Censura das Lusíadas 

Bom seria que o Poeta nos apontasse o 
lugar em que a Fama mora, ou se apo- 
senta ; porque sendo preciso ma-ndarem- 
na buscar, se soubesse aonde, isto he 
ridículo , porem muito peor he o verso 
errado da Oitava seguinte 45. a : 

3 ,0 louvor grande, o rumor excellente." 

Se nestas regras senão infringem as re- 
gras do metro enclecasyiiabo , então não 
tenho eu idea de versos. À grande ope- 
ração he feita na Oitava 47. a : 

i} Cabem as Nynías. lanção das secretas 

3> Entranhas ardentíssimos suspiros; 

3 , Cahe qualquer sem ver o vulto que ama :" 

He preciso estirar muito as duas sylla- 
bas do quasi monosylJabo — Cahe — 
para darmos algum tom de harmonia mé- 
trica a esta regra onde se nos apresen- 
ta amor digno dos Latinistas , e Plato- 
nistas da Escola de Marcilio Ficino 
no Século de Leão 10.° — Amar sem ver 
o vulto que se ama ! Estas questões fa- 
zem rir, e muito mais quando se nos 
diz, que este fogo gregoriano de amor 



Nono Canto 207 

pega debaixo da aj^ua , e que as Ne- 
reidas eomeçào a dar com a cabeça pe- 
las paredes das suas competentes lapas, 
sem saberem porque , nem por quem , 
sendo para sentir que a reforma do 
Mundo , que se estava a fazer por 
momentos, se interrompesse por amor da 
refocilacâo da lassa humanidade dos ma- 
rinheiros de Vasco da Gama. 

A Oitava 48. a nos apresenta huma 
bella imagem . e verdadeiramente Poé- 
tica no tiro disparado contra Theíis : 



„Os cornos ajamou da ebúrnea Lua 
,, Com força o moço indómito excessiva ; 
,, Que Thetis quer ferir mais que nenhiía, 
„ Porque mais que nenhuma lhe era esquiva." 



Esta Thetis , tâo bem , ou tào mal fe- 
rida . não conserva a igualdade de ca- 
racler próprio de huma Divindade, por- 
que devia estar lembrada da resolução 
que tomou contra Vasco da Gama no 
conselho marítimo naquelle seu enfada- 
do verso ; 



Neptuno sabe bem o que mandou." 



208 Censura das Lusíadas 

Nâo tem desculpa senão na inconstân- 
cia de mulher ; porque vem a ser a mais 
apaixonada de Vasco da Gama. Luiz 
de Camões faz o que quer, e não lhe 
importão as regras da boa razão apon- 
tadas por Horácio: 

Servetur ad imum. m 

Seja o Poeta igual até ao fim , e pro- 
nunciado que seja hum caracter , con- 
serve-o com uniformidade. Com tanta 
força foi esta descarga de Cupido, que 
morreo tudo : 

t, Já não fica na aljava setta algama, 

,, Nem nos equoreos campos Ninfa viva." 

Nâo nos diz porque artes Vénus as re- 
suscita; tornão a apparecer vivas na 
Oitava 50.* Vivas, sãs, e escorreitas 
caminhão 

3 , Para a Ilha a que Vénus as guiava ; 
_,, Alli a formosa Deosa lhe aconselha 
, t O qae ella fez mil vezes quando amava." 

Assim he que o Mundo se reforma , e 
edifica com a moral das Lusíadas, e com 



Nono Canto. 209 

a famosa expedição dos Cupidinhos. 
( om efleito , o Canto 9° he o apuro 
da indecencia. Não lorma huma parte 
integrante da acção, porque esta já aca- 
bou s lie hum additamento sem o qual 
podia passar o Poema. Seguem-se ás 
indecencias as incoherencias ; na Oi- 
tava 52. a vemos hum pensamento ver- 
dadeiramente romanesco : Vénus em- 
purrando pelo Oceano a Ilha das tor- 
pezas na alheta das Náos de Vasco da 
Gama , pois para onde quer que se 
aproavão , para qualquer rumo que se- 
guião hia Vénus acarretando a Ilha > 
sem se saber aonde a foi buscar , nem 
porque razào senão servia de huma das 
muitas de que o mar Oceano está la- 
geado na carreira da índia : parece que 
era menos incómmodo para Vénus di- 
rigir a Armada para huma das Mal- 
divas , para a Anchediva, ou dobrado 
o Cabo da Boa Esperança , para a de 
Santa Helena. ( tão célebre depois pela 
sua agua , pelos seus agriões , e pelo 
seu hospede) , que andar atrás das Náos 
com huma Ilha a reboque , e as Ne- 
reidas também a nado esperando que 
Tom. II o 



210 "Censura das Lusíadas 

a Ilha parasse para lhe saltarem em 
cirna. 

„ Para onde as Náos navegão a movia 
„ Acidalia, que tado em rim podia. " 

Finalmente na Oitava 53. a parou a ílha ? 
porque Vénus vio , que os navegantes 
a tinhão descoberto, que muito havia 
de correr se as Náos se levassem com 
vento fresco : 

S} Mas firme a fez , e immúbil , como vio 
,, Que era dos Nautas vista, e demandada. " 

Estas Oitavas até a 60 inclusive sao 
muito bellas, e he hum tracto formo- 
síssimo de Poesia descriptiva; esta pin- 
tura da Ilha movediça dá bem a co- 
nhecer que se o Poeta se deixasse de 
serviz imitações , e se entregasse á for- 
ça da sua fantasia , emprehendêra , e 
acabara hum Poema muito mais per- 
feito. Aqui também imitou, mas ven- 
cendo com a copia o original, que he 
Ariosto na pintura da Ilha de Alcina, 
tao victoriosamente excedida pelo Tas- 
so na magestosa descripção da Ilha de 
Armida. Na Oitava 61. a apparece hum 



Nono Canto. 211 

íaqueBes Contrapostos como lhe chama 
ígnacio Garcez Ferreira , ou trocadi- 
lhos , como nós )he devemos chamar , 
que tão frequentemente deslustrâo o 
Poema : 



„ Para julgar difficil coaza fora , 

3) No Ceo vendo , e na terra as mesmas cores , 

„ Se dava ás flores cor a hella Aurora, 

9J Ou se iha dão a ella as bellas flores. " 

Isto aproxima-se ao seiscentismo , e tem 
hum ressaibo ou de Romance do Cha- 
gas , ou de hum Auto Sacramental de 
Violante do Ceo. A Oitava 65. a deita 
tudo a perder , quando o Poeta nos de- 
clara , qual era o digno premio que 
Vénus preparava aos trabalhos , e fa- 
digas dos Portuguezes no descobrimen- 
to da índia. 

„ Assim lho aconselhara a mestra experta . 
,, Que andassem pelos campos espalhadas , 
,, Que vista dos Barões a preza incerta 
} , Se fizessem primeiro desejadas: 
,, Algumas que na forma descoberta 
„ Do bello corpo estavão confiadas, 
9i Deposta a artificiosa formosura , 
j, Nuas lavar se deixão na agua pura, " 

O 2 



212 Censura das Lusíadas 

Temos o passo aberto ás torpezas que 
elevem servir de premio ás virtudes ; 
este absurdo he tão palpável , que o 
mesmo Poeta o conhece muitas vezes, 
e por isso forceja muitas vezes por lhe 
dar hum sentido allegorico; mas como 
as primeiras impressões vem do senti- 
do litteral que he o mais obvio . e o 
mais próximo , tarde vem o remédio . 
quando o mal vai tanto em progresso. 
Que sentido se pode dar a estes ver- 
sos da Oitava 66.*, e se irá dando a 
muitos das seguintes ? 

} , ISão cuidão , que sem laço , ou rede , caia 
5 , Caça naquelles montes deleitosos, 
Jt Tão suave, domestica , e benina , 
„ Qual ferida lha tinha já Ereeina. " 

Não erão lebres , ou galinholas , ei ao 
mulheres , e mulheres dispostas , e en= 
sinadas por mestra esperta , como diz 
o Poeta, e tanto que na Oitava 69, a 

9 , Dá Velloso espantado hum grande grito , 
,, Senhores , caça estranha (disse) he esta ! " 

Os Caçadores não se descuidão , nem 
isso era de presumir , ou esperar de Ma- 



Nono Cauto. 213 

s Portucuezes. A Censura deste 
( lo do Poema he fácil , porque bas- 
ta transcrever as Oitavas, e oíierecellas 
ás reflexões da boa razão. Pouco melin- 
dre havia nos Qualificadores daquelle 
tempo, e o lapso dos séculos, aturdidos 
com os maquinaes applausos , e a que 
ainda tazern écco os actuaes admirado- 
res , deixa passar o que em todos os tem- 
pos , e em todas as idades devia ser o 
escândalo da modéstia . e da decência 
pública. A caça vista , e a caça segui- 
da , foi huma mesma coiza. Oitava 70.* : 

„ Isto dito; velozes mais que Gamos 
3 , Se lançáo a correr pelas ribeiras. 



J} Pouco a pouco surrindo , e gritos dando, 
,, Se deixão ir dos Galgos apanh.ar.do. 

Isto sào mais pinturas do Aretino, que 
imagens de huma Epopéa. Toda a lu- 
bricidade que se nota em o Canto 16.° 
da Jerusalém , não ofierece similhantes 
quadros : apenas nos representa Rainal- 
do recostado no collo de Armida á som- 
bra de huns mvrtos , e nesta acção se 
lhe apresenta Ubaldo , e seu companhei- 
ro que oíierecem ao novo Hercules em 



214 Censura das Lusíadas 

o regaço de Onfale hum espelho em que 
eile mesmo descubra o aviltamento a que 
o reduzira o Amor : e pareee-se isto com 
o que se diz na Oitava 7J. a ? 

., Accende-se o desejo , que se ceva 
„ Nas alvas carnes súbito mostradas. " 



Parece que o Principe dos Poetas está 
no seu elemento. O mais pio Leitor for- 
ma com o que até aqui se lha disse hu- 
ma cabal idéa do que se lhe quer dizer ; 
mas o Poeta não se farta de amplifica- 
ções ; e devo-me eu cançar da Cen- 
sura, quando os versos do Poeta são por 
si mesmos o mais amplo commentario, 
como estes quatro últimos da Oitava 72. a ? 

si Humas fingindo menos estimar 
, s A vergonha que a torça, se lançavao 
„ Nuas por entre o mato , aos olhos dando 
; 9 , O que ás mãos cuôiçosas vão negando. 

Não está ainda farto Luiz de Camões, 
e sendo estas as primeiras razões , pare- 
cem as ultimas ; pois ainda vem mais 
na Oitava 73. a : 

„ Tal dos mancebos ha, que se arremessa 
„ Vestido assim , e calçado que co' a mora 






Xoxo Canto. 215 

,, De se despir , ha medo que inda tarde 
,, A matar n'agua o fogo que nelle arde. " 

Segundo o piedoso , e contemplativo Ma- 
noel de Faria e Sousa , estas Senhoras 
erâo puramente allegorias, e produzin- 
do hum grande rol de nomes de virtu- 
des , diz, que erão as Virtudes Theolo- 
gaes , Cardeaes , e Moraes , que esta vão 
tomando banhos de agua doce com mo- 
léstia de pelle. — A imagem do mancebo 
que atira comsigo á agua vestido e cal- 
cado he muito hycastica . está a sente 
vendo a filantropia do marujo que não 
soífre j por humanidade , que se afogue 
alguma daquellas senhoras : o Procubuit 
humi Bos de Virgilio , não he mais ex- 
pressivo. A comparação que vem na 
Oitava 74. a já se disse que era empres- 
tada , em outro lugar , porém. como quem 
empresta não melhora , o quarto verso 
he infeliz 

„ Para a garcenha , oa pata conhecida. " 

Como também na Oitava 75. a o 

,, Leonardo soldado bem disposto. " 

Talvez que o Poeta nos queira dizer 



216 Censura das Lusíadas 

que gozava de muito boa , e vigorosa 
saúde. Estimo vello tão bem disposto, 
com tão boa disposição 5 está muito bem 
conservado ! Nesta mesma Oitava hahu- 
ma expressão tão ambigua a respeito 
deste tão bem disposto Leonardo , que 
se não pôde taxar de maliciosa a cen- 
sura se a toma no seu mais obvio sen- 
tido : — era pois o Leonardo , 

Jt Manhoso, Cavalleiro , e namorado 

,, A quem Amor não dera hum só desgosto, 

„ Mas sempre fora delle maltratado. " 

Pois se nem hum só desgosto lhe deo 
Amor como se diz que fora mal tratado 
de amor ? Isto he huma manifesta con- 
tradição com que a primeira vista se 
não engana , e he preciso converter mui- 
to o sentido grammatical para chegar á 
verdadeira intelligencia , e salvar a con- 
tradição. Na Oitava seguinte 76. a he in- 
desculpável o erro de Sintaxe , alteran- 
do os tempos dos verbos : — o verbo 
" correr " não devia aqui estar no in- 
dicativo , mas sim no conjunctivo , por- 
que o verbo — querer — no indicati- 
vo, designava, e determinava o verbo 



Nono Casto. 217 

correr no conjunctivo , devendo di- 
zer: 

,, Qtdz aqui sua ventura, que corresse 

E não — corria. — E os seguintes? 

„ Que mais caro que as outras dar queria 
„ O qae deo para dar-se a Natureza. " 

Isto he torpe, ehe irrisório. E que cus- 
tava ao senhor Leonardo , sendo tào ma- 
nhoso , e bem disposto, dar mais quatro 
passos atrás de Luma mulher sem gas- 
tar nem cinco réis ! 

Temos a Leonardo correndo a per- 
der o folgo atrás de Eíire na Oitava 
77. a ; e como he possivel que hum ho- 
mem a correr , e a deitar os bofes pela 
boca fora , e quando apenas ha tempo 
para gritar v. g. — pega nesse ladrão, — 
possa ir derramando finezas , e seme- 
ando conceitos dignos degradei de Frei- 
ras velhas ? 

,, Tu sé de mim só foges na espessura ; 

,, Quem te disse que eu era o que te sigo ? " 

Isto não o diz hum homem a correr , 
e isto excede os términos da verosi- 
milhança, e ainda mais o trocadilho que 



218 Censura das Lusíadas 

no commenlo a esta Oitava tanto no- 
ta Ignacio Garcez Ferreira : 

Si Não cances , que me cancãs , e se queres 
3} Fugir- me porque não possa tocar-te , 
S} Minha ventura he tal que inda que esperes , 
}> Eila fará que não possa alcançar-te. " 

Então esperava morrer de repente , ape- 
nas a N) nfa parasse ? Em fim Leonar- 
do eslava tio estafado, que esquecen- 
do-lhe o que devia dizer á Nynfa, ou 
persuadido que ,elia não entendia Por- 
tuguez , e que por isso não parava , ati- 
ra-lhe aos calcanhares com hum verso 
Italiano, creio que de Petrarca, hum 
dos amantes mais chorões de que fazem 
gloriosa , e edificante memoria os An- 
naes de Gnido : 

,, Tra la spica e la man qual muro é messo. " 

Vejo que nem assim a mulher deixa 
de correr , e talvez que com mais pres- 
sa , porque ouvindo fallar Italiano lhe 
cheiraria a pobreza ; porque ainda na 
Oitava 79. a nem acaba a carreira, nem 
se acabào os conceitos : 



Nono Caim o. 219 

j, Oh não me fujas ; assim puoca o breve 
ít Tempo fuja da tua formosura. 



Ou o LeoDardo não sabia com quem 
fallava , ou o Príncipe dos Poetas se 
esqueceo do que méttia em acena. As 

Nereidas filhas de Doris , e iSerêo, 
erão Divindades , segundo os princípios 
da lUvthologia, eslas não se laziào ve- 
lhas ; se Baccho como filho de Semel- 
le. e de mais outra mai, pois te\e duas, 
tinha na frente perpetua mocidade , co- 
mo diz o mesmo Poeta , não devia su- 
geitar os outros Numes ás vicissitudes 
do tempo. Isto he hum erro , asrora te- 

I 7 O p 

mos nos quatro últimos versos da Oi- 
tava huma impenetrável obscuridade : 

,, Qne Imperador, que exercito se atreve 
,, A quebrantar a fúria da ventura , 
j, Q.uc em quanto desejei rtié vai seguindo, 
,, O que tu só farás náo me fugindo. 

Se a ventura ( a não se tomar aqui 
pela desgraça ) o vai seguindo , paran- 
do a mulher, deixava a ventura de o 
seguir I A ventura quando se apresen- 
ta nua . e crua . toma-se pela ventura , 



220 Censura das Lusíadas 

e quando com esta palavra se quer dar 
a conhecer a desgraça, ajunta-se-lhe o 
adjectivo — má. — Se não cabe no ver- 
so tanta coiza , menos cabem nos limi- 
tes da boa razão tantas incoherencias. 
Temos ainda mais conceitos , e mais 
finos na Oitava 80 ; isto lie tanto cor- 
rer , que he preciso que já andem á 
roda , porque parece que não tinha a 
Ilha espaço para tão grande carreira. 
Leonardo estafadissimo parece que já 
não sabe o que diz : 

,, Não te carrega essa alma tão mesquinha, 
„ Q,ue nesses fios de ouro reluzente 
„ Atada levas ? " 

Nunca o seiscentismo alambicou tanto ! 
Fugir huma mulher de hum homem , e 
levar a alma deste homem atada , e de- 
pendurada dos cabellos ! Suppòr na al- 
ma hum pezo fysico que embaraça a 
carreira como se levasse hum costal ás 
costas ! E queixão-se do Gongora Hes- 
panhol ! Ainda na Oitava 81. a o ponto 
deste assucarado queixume deste Hip- 
pómanes , que corre apoz desta corri- 
da ? ou corredeira Atalanta ? sobe mais 



Nono Canto. 221 

alto. Todos os Diálogos , Tratados , e 
Livros inteiros De amore , que sahírão 
da Escola Platónica de Florença em 
que ensinava Marcilio Ficino no tem- 
po dos Medicis , e dos Latinistas , não 
produzirão mais alambicada Metafísi- 
ca, que a desta Oitava 81. a digna do 
lugar , das Personagens , e da acção 
de hum homem a correr, que dá bem 
pouco folgo , e menos tempo ainda pa- 
ra tão abstractas subtilezas : 

,, Nesta esperança só te vou seguindo, 

3 , Que , ou tu não sofrerás o pczo delia, 

3 , Ou na virtude de teu gesto lindo, 

:) Se lhe mudará a triste, e dura esírella: 

„ E se se lhe mudar, não vás fugindo, 

,, Que amor te ferirá , gentil donzella; 

., E tu me esperarás, se amor te fere; 

,, E se me esperas, não ha mais que espere. " 

Se para dizer isto he preciso hum gran- 
de engenho, muito maior he necessá- 
rio á primeira intuição para o enten- 
der. Esta fineza — se me esperas, não ha 
mais que espere — he o ultimo apuro 
do seiscentismo Gongoriano. E se em 
o dizer, e em o perceber ha difficul- 
dade, qual será o idolatra Camoniano 



222 Censura das Lusíadas 

que não julgue impossível poder-se is- 
to dizer em galope aberto ? Isto já me 
parecia muito extravagante, mas ain- 
da me parece mais o que se diz na 
Oitava 82. a : 

,, Já não fugia a bella Ninfa tanto 

3 , Por se dar cara ao triste que a seguia , 

,, Como por ir ouvindo o doce canto. " 

De mais a mais hia cantando o bom do 
Leonardo ! Se a acção de correr se oppõe 
ao discurso , e á palavra , como he pos- 
sível que dê lugar ao canto ? Ainda 
quando os Músicos cantão em fuga , 
ás vezes , para mal de muitos , estão pa- 
rados, porque correr, e cantar, nem 
os Músicos íizerão ainda. 

A severa Lei da decência me dis- 
pensa da censura da Oitava 83. a Em 
leira redonda , e em Portuguez ainda 
se não vio , nem leo torpeza similhan- 
te, salvo algumas infâmias que neste 
Reino, e em nossos dias tem appare- 
eido impressas em paizes estrangeiros. 
Hum Revisor de bom estômago deixou 
passar isto em 1572 , e até agora ve- 
jo, que também ha cegueiras sueces- 



Nono Canto. 223 

sivas . e hereditárias , basta o primei- 
ro verso : 

,, Oh ! que famintos beijos na floresta ! " 

Correspondem- lhe bem os dois últimos 
cheios de tallos , e de estallos : 

,, Melhor he experimentado , que julgallo 

,, Mas juigue*o quem não pode experimentallo. *' 

Se nesta erande sentença nao se en- 
cerrào as ideas mais lúbricas , e inde- 
centes. jul.guem-no. e experimentem- 
no os idolatras Camonianos. Depois 
deste honesto matrimonio censumma- 
do . se^ue-se a sua ridícula ratificação 
na Oitava 84. % amais irrisória de to- 
do o Poema. Sem ore foi o desterro da 
minha habitual melancolia , e creio que 
■i ' ■ haverá Timão Atheniense tão hy- 
pocondriaco , que se nao ria com os 
quatro til timos versos: 

,, As mãos alvas lhes davão como esposas, 

,, Com palavras formaes , e estipulantes 

,, Se promettem eterna companhia , 

,, Em vida, e morte, de honra, e <\? alegria. " 

Podemos dizer que era o promessas de 



224 Censura das Lusíadas 

mulheres que não durão senão em quan- 
to se fazem , porque nos nâo consta 
que nenhuma delias acompanhasse o 
Marido para Portugal ; e he de presu- 
mir que nenhum casasse depois de vol- 
tar a este Reino sendo de boa consci- 
ência. Não sei se o Poeta mente anui, 
se mente na Oitava 143 do Canto Í0.° ? 
porque affirma que os marinheiros trou- 
xerào na sua companhia as taes Nyn- 
fas , pois não ha memoria daquelles 
tempos que nos diga se vira neste Rei- 
no aquella droga , ou especiaria orien- 
tal. 

A pessoa , e a geneaologia de The- 
tis ? e a sua soberania se nos descrevem , 
e muito bem, na Oitava 85. a , que po- 
demos classificar entre algumas bem 
torneadas do Poema , mas esta mesma , 

j, Que dizem ser de Célo, e Vesta filha , " 

apezar de sua alta prosápia , se desco- 
bre hum a mentirosa na Oitava 86 , e 
quem mente não vem de boa gente. 
Oiçamo-la mentir a ella para não di- 
zerem que lhe levanto falsos testemu- 
nhos : 



Nono Caxto. 225 

„ Qne depois de lhe ter dito qaem era, 
,, Chum alto exórdio, de alta graça ornado, 
,, Dando-lhe a entender, que alli viera 
„ Por alta influição de im móbil Fado. " 

Toda esta manobra da Ilha foi obra 
do Vénus — mestra experta — , foi des- 
forra que a Deosa dos amores quiz ti- 
rar de algumas pequenas pirraças que 
Baccho tinha feito aos Portuguezes ., 
naquellas foscas que vimos , e admirá- 
mos em Moçambique , em Mombaça 5 
e no sonho do Sacerdote Mouro em Ca- 
lecut. O filho , a rogos da mài , ferio as 
Nereidas para a tripulação, e ferio The- 
tis para o Comm andante em Chefe. Foi 
Vénus, foi Cupido, foi a desordenada 
imaginação do Poeta quem forjou esta 
quimera da Ilha dos prazeres , não hou- 
ve intervenção alguma do Fado , nem 
o Poeta o deo a entender , nem Vénus 
o declarou quando se resolveo a dar 
aos Portuguezes enjoados , e enfastia- 
dos da longa navegação hum premio 
digno delia, sem izentar do mais im- 
portante quinhão a Vasco da Gama , 
e não era justo que elle tivesse me- 
nos que os outros, e Vénus lhe sou- 
Tonu 1L p 



226 Censura das Lusíadas 

be proporcionar o soldo a Patente. O 
Poeta assim o diz , porque em quanto 
os outros ficarão ao bivac pelos cam- 
pos ; Oitava 87. a : 

„ Ella nos Paços logra seus amores , 

s , As outras pelas sombras entre as flores. " 

Se as palavras se dizem para se en- 
tenderem, e querem dizer o que sòâo , 
não se declarara em termos menos am- 
bíguos o exercicio de hum alcoice ; que 
isto quer dizer a frase com que Vol- 
taire qualifica as funcções desta Ilha , 
como já advertimos ; " Hum Musico (i. e. 
Alcoice) de Amsterdam. " Este resfoi- 
guedo com as Nereidas he, diz o Poeta, 
o preludio da fama, e immortalidade que 
os taes navegantes devem conseguir no 
íim da vida , na Oitava 88 : 

„ O premio lá no fim bem merecido, 

,, Com fama grande, e nome alto, e subido. " 

Só a extravagância da fantasia de Luiz 
de Camões podia encontrar alliança en- 
tre as infâmias , e obscenidades da Ilha 
deliciosa , e a perpetuidade daquella Fa- 
ma, que só tem , e pode ter por funda- 



No>jg Canto. 22? 

mento a virtude. O objecto principal 
desta ficção da ilha fora do quadro da 
acção, pois se havia ultimado, era dar 
a Vasco da Gama numa lição de As- 
tronomia segundo os principios do sys- 
tema de Ptolomeo, que era a que en- 
tão se sabia , e algumas noções de Geo- 
graíia secundo os conhecimentos até 
áqueile tempo adquiridos : para isto não 
era preciso que Thetis dormisse a ses- 
ta com Vasco da Gama , nem os pre- 
liminares da lição devião ser tão ma- 
nifestas turpitudes. 

Quando o Poeta oífereceo á censu- 
ra o seu m. s. , o Censor deputado foi 
o Doutor Fr. Bartholomeu Ferreira. Fra- 
de de S. Domingos , o qual para lhe 
dar a licença lhe mandou ? diz Maneei 
de Faria . riscar no secundo Canto a 
Oitava em que o Poeta introduzia Bac- 
cho dizendo Missa na Capella de Mo- 
çambique para enganar os dois degra- 
dados exploradores , contentando- se de 
o representar deThuribulo. e também 
fazer no Canto nono a declaração que 
-vai nesta Oitava 89 , que destròe de 
cabo a rabo todo o eíTeito da illusão, 

P 2 



228 Censura das Lusíadas 

que podia fazer o maravilhoso destas 
ficções. 

„ Que as Ninfas do Oceano tão formosas,, 
}i Thetis, e a Ilha Angélica pintada, 
s> Outra coiza não he, que as deleitosas , 
„ Honras que a vida fazem sublimada. " 

Bem se vê que a desculpa vem fora 
de tempo 5 e eu fico, que o seguinte 
Dilemma nunca tenha resposta. Ou Ca- 
mões entendia que estas Divindades 
existião , ou entendia que não existião. 
Se entendia que não existido, não se 
devia servir delias, porque o que não 
existe, não pode obrar : se entendia 
que existião, então não se devia con- 
tradizer, e devia sustentar até ao fim 
o caracter , e a realidade de taes Perso- 
nagens , sem declarar que erâo suppos- 
tas , e puramente allegoricas. Declara 
que os Deoses do Paganismo \ de que 
se tem servido como Agentes no Poe- 
ma , não existem , porque esses a quem 
a Gentilidade reconhecia Deoses immor- 
taes , não erão mais , ou não forão mais 
que homens ; não fiquemos em dúvida 
porque Camões bem claro falia \ Oita- 
va 91. a : 



líolfo Canto. 229 

}i Ceres , Palias , e Juno , com Diana 
,, Todos foráo da fraca carne humana. 

As quatro Oitavas que rema tão este 
nono Canto sào h unias daquellas após- 
trofes com que lerminao os outros , is- 
to be , aquellas amargas invectivas aos 
Grandes. Poderosos, e 3Lnistros, de 
que está pespontado todo o Poema , que 
não são mais que o efieito daquelie jus- 
to ressentimento , que o Poeta conser- 
vava contra os descendentes . e succes- 
sores da grande Casa de Vasco da Ga- 
ma , depois entroncada com muitas que 
hoje se reúnem na de Niza, que ne- 
nhum caso íizerão do Poeta , pois ha- 
vendo-lhe itnmortalisado seu glorioso 
Avoengo , deixavâo que a sua vista mor- 
resse de fome , de miséria , e em abso- 
luto desamparo hum homem tão bene- 
mérito da Pátria , tão zeloso da sua 
gloria j e de tantos talentos como Luiz 
de Camões, cuja erudição era pasmo- 
sa . pois sabia o que se sabia no seu 
tempo, sendo isto muito mais para admi- 
rar em hum soldado que se pôde cha- 
mar de leva , pois se alistara na Casa 
da índia por dois mil réis para ir ser- 



230 Censura das Lusíadas 

vir em pajzes tão remotos. Boa lição 
para todos os séculos , e para todos ós 
homens dados ao estudo \ e á cultura 
das boas artes ; por mais que sé a van- 
tagem em conhecimentos , se não mis- 
turarem ao que compõem o profano in- 
tíenso da vilissima lisonja , nada espe- 
rem. Os que são allumiados ao clarão 
da Filosofia , não necessitão deste exem- 
plo , basta-lhes a razão , e a experiên- 
cia , para castigarem a soberba , ou a 
indolência destes insensatos com hum 
desprezo ainda maior. Nada esperem 
delles > busquem antes com o trabalho 
de suas mãos ainda nas obras maia 
serviz , hum bocado de pão negro , se- 
co ] e duro , e com a agua que publi- 
camente corre , disputem a felicidade 
a Jove. Tenha eu o testemunho d apro- 
pria consciência , escute-me , e appro- 
ve-me hum, ou outro Platão, terei a 
ventura, porque terei a satisfação. Quem 
se occupa do termo da vida , ou do lu- 
gar da sepultura, nem conhece a vi- 
da , nem sabe desprezar a morte. Se 
isto não tem lugar com a censura do 
Poema , tem muito lugar com a condi- 



Nono Canto. 231 

cão do Poeta. Eu não sei agoirar, sei 
discorrer ; o fogo do génio está arn fa- 
do, e o gosto das Letras perdido, a igno- 
rância estende-se , a barbaridade apro- 
xima-se , a boa moral desconhece-se ; 
cedo, ou tarde, a surda fermentação 
de princípios anti-sociaes , aníi-politi- 
cos , anti-religiosos , exporá o Jiundo a 
huma explosão irremediável ; e saibao 
os mais profundos pensadores , que se 
as oscilações da montanha volcanica se 
não fazem visíveis, não he menos acti- 
vo, e menos violento o incêndio, que 
lhe despedaça , e devora as entranhas. 
O amor das s ciências , e o apreço de 
quem as cultiva , foi substituído pelo 
furor das innovacões , e são tão céo-os 
os homens que exultão nos males pró- 
prios com a quim eriça esperança de 
melhoramentos futuros. Chamem-me em- 
bora hum Jeremias, que de antemão 
derramo lagrimas sobre as ruinas da 
humana sociedade. 



232 



CENSURA 

DAS 

lusíadas. 



DECIMO CANTO. 

Começa este decimo canto com hum 
quadro que parece ter sido traçado 
pelo Poeta para tormento de seus Lei° 
tores, propondo-lhes mais hum enigma 
do que huma imagem , e em tão escu- 
ros versos que não são menos inintel- 
ligiveis os do antigo Lycofronte. Quer 
o Poeta com aflectadissima erudição 
recôndita dizer-nos, que quando os na- 
vegantes acabarão de dormir a sesta 
era quasi So] posto , e ainda até agora 
nenhum Poeta usou de similhante pe- 
rifrase. Oiçamo-lo a elle para vêr se 



Decimo Ca:; to. 233 

entendemos o que nos quer dizer. Oi- 
tava li" 

,, Mas já o claro 2mador de Larissêa 
„ Adulteaa inclinava osaniraaes, 
,, Lá para o grande lago que rouèa 
„ Themistião nos lins occidentaes. " 

Se os trabalhos de vinte cinco annos 
nos não dessem oCommentaric em que 
Manoel de Faria e Souza aiTogou o 
Príncipe dos Poetas , não se poderia 
entender este oráculo Dodoneo, e por 
elle sabemos, que o claro amador he o 
Sol, que Larissêa he a Nynía Coróuis , 
que se lhe chama adultera, porque dei- 
xou o Sol , e se voltou para outro de 
quem mais gostou, e que o Sol enfa- 
dado com esta preferencia matou a po- 
bre mulher. Ora, que precisão havia 
disto para se nos dar a entender, ou 
para se nomear e proferir a palavra 
Sol ? O Poeta seguindo aqui a opinião 
de alguns iMythoiogislas confunde o Sol 
com Apollo que he o filho de Latona ; 
seria mais bem conhecido pelo ama- 
dor de Dafne, ou de outra mais nomea- 
da. Quem o podia conhecer pelo aman- 



234 Censura das Lusíadas 

te de Corónis , fali ando o Poeta da Ci- 
dade em que Corónis nasceo , que foi 
a de Larissa? Larisséa ? He impróprio 
o nome de adultera, porque nao cons- 
ta que o claro amador tivesse casado 
com ella. Tanta allusão, tantas idéas 
remotas, e tâo difficeis de se aproxima- 
rem , e de se corresponderem entre si, 
são precisas para se dizer — Sol. — 
Tomem-se em mão as innumeraveis 
Polyanthéas Poéticas, veja-se o grosso 
volume de Ganduoci , Jesuíta, que se 
intitula — DescripçÓes Poéticas, veja-se 
no fim do Poema de Graciani — A 
Conquista de Granada — ■ hum catálo- 
go das descripções que este facundo 
Poeta fez de todas as horas do dia. e 
da noite, ninguém encontrará coiza si- 
milhante , e isto para exprimir a mais 
simples de todas as idéas — Sol — . 
Mas vejamos o que faz o claro ama- 
dor — 

,, Inclinava os animaes 
„ Lá para o grande lago que rodêa 
jí Themistiao nos fins occidentaes. '• 

Inclinar os animaes lie tão genérico ? 



Decimo Ca ato. 235 

que eu digo, que he impossível conhe- 
cer por esta frase que se trata dos ca- 
vallos doSoJ. e que inclinar osanimaes 
significa, que o Sol declinava , ou que 
estava próximo a esconder-se debaixo 
do horisonte. Em quatro versos só não 
se podem dizer coizas mais obscuras > 
nem mais extravagantes. Tudo he sm- 
guiar! O sugeito , a acção, os instru- 
mentos, e depois o lugar. O sugeito 
he o Sol ; pois chame se — O claro 
amador de Larissea adultera: a acção 
he o occaso; pois cbame-se — incli- 
itar : os instrumentos desta acção , ^m 
fraze poética, são os cavallos do seu 
coche ; pois chamem-se genericamente 
— os animaes : o lugar he o ponto do 
horisonte , em que a nossos olhos ap- 
parentemente se esconde o Sol ; pois 
chame-se — o grande lac/o que rodea 
Thcmistiâo , nos fins occidentaes : pala- 
vra que bastava só para designar o 
Occidente. Como se poderá saber que 
o (jrande Lano he o Mar do Sul , ou o 
Oceano Pacifico , e que Themistião 
que parece hum nome Grego, he o 
iiome da Cidade do México nas índias 



236 Censura das Lusíadas 

de Castella, e que esta Cidade he ro- 
deada pelo mar do Sul , a que o Poeta 
chama— grande Lago? Esta inintel- 
ligivel arenga se torna absolutamente 
escuzada, quando vemos que nos qua- 
tro últimos versos da oitava se descre- 
ve maravilhosamente, e se dá a enten- 
der o ultimo periodo da tarde: 

„ O grande ardor do Sol Favonio enfrêa 

3 , Co' o sopro que nos tanques naluraes 

,, Encrespa a agua serena , e despertava 

,, Os Lyrios , e Jasmins que a calma agrava. " 

A frescura do ar. a reanimação das 
flores , cujas folhas se dobrarão, e des- 
corarão com a vehemencia do calor so- 
lar, a superfície da agua dos lagos, e 
dos tanques até alli espelhada, e liza, 
agora crespa, e brandamente agitada, 
dão muito melhor a conhecer que se 
moderara o fervor do dia , e que o Sol 
depois de haver chegado ao seu zenith, 
declinava para o occaso. Para que he 
dizer isto de hum modo tão inintelligi- 
vel, se depois se ha de dizer de huma 
maneira tão clara? Tenho-me demora- 
do tanto em huma só Oitava, porque 



Decimo Canto. 237 

na verdade he este hum dos passos do 
Poema mais reprehensivel , e mais di- 
gnos de censura. 

Depois de dormirem a sesta , se- 
gue-se a merenda ; a Ilha era bem pro- 
vida de tudo, e tem o Poeta razão em 
se não esquecer de comer, e beber, 
porque como se devia seguir huma , 
não só longa, mas eterna musica, não 
a poderião aturar em jejum. A alegria 
he falladora , e palreira , por isso , na 
Oitava 5 ,a , 

}) Mil praticas alegres se tocavão, 

,, Risos doces, subtiz , e argutos ditos, 

3) Que entre lium , e outro manjar se alevantavão, 

,, Despertando os alegres apetitos. " 

Esta terminação dada a palavra apeti- 
tes , dá a conhecer pobreza de rima. 
He certo, que a necessidade não tem 
Lei, mas também he certo, que quan- 
do se não pode rimar bem de hum mo- 
do , rima-se de outro modo. 

. . . Sudet multum , frustraque laborei, 
Ausus idem , 



238 Censura das Lusíadas 

diz Horácio na carta aos Pisoes , e em 
toda a parle o diz a boa razão. O can- 
to narrativo , e profético dos grandes 
homens que estavão por vir á índia , 
não tem preparação nenhuma , nem a 
Angélica Sirena canta por ordem , ou 
determinação de Thetis , canta porque 
tem vontade de cantar. Ella não he 
inspirada, porque as letras de sua mu- 
sica forão ensinadas por Protheo, e ellas 
vinhão de mão em mão, porque não 
erão da invenção de Protheo, tinha-as 
visto dentro de hum globo de vidro 
que Júpiter lhe tinha mostrado em so- 
nhos, e em huma conversação que te- 
ve com Angélica Sirena lhe contou es- 
tes sonhos que ella agora repete , e 
creio que a musica he de sua própria 
invenção. A Oit. 7. a he huma das mais 
juotaveis do Poema pela sua ociosidade 
e extravagante originalidade : 

3 , Com doce voz está sohindo ao Ceo 

j, Altos Baroens que estão por vir ao Mundo , 

í} Cujas claras idéas vio Protheo 

», N'num globo vão> diáfano, e rotundo, 

3 , Que Júpiter em dom lho concedeo , 

„ Em sonhos , e depois no Reino fundo 



Decimo Canto. 23tf 

j, Vaticinando o disse , e na memoria 

,, Recolheo logo a Nynfa a clara his f oria. t} 

O verbo — subir — não he rigorosa- 
mente activo . e por tanto não pode 
re£-er hum accusalivo. Erguer ou levan- 
tar altos Barões sim, subir Barões naõ. 

j, Cujas claras ídeas vio Protheo. ,, 

Cujas he sempre hum relativo que de- 
ve sempre conservar a referencia, ou 
sentido e a relação do genitivo — as 
idéas dos quaes Barões ; — eis-aqui o 
que parece vira Protheo , e ainda que 
se nos queira dar a entender que são 
os archetupos ou as imagens, he muito 
equivoca a palavra — idéas ; — o iugar 
em que sonhando as vio Protheo , pa- 
rece que quer dizer , que erão idéas 
engarrafadas. 

)y N'hum globo vão, diáfano, e rotundo. , 9 

Não sei para que Júpiter aqui as fe- 
chou , e não sei que haja globos qua- 
drados, ou triangulares, huma vez que 
se diz — globo — sabe-se muito bem 



240 Censura das Lusíadas 

que he redondo, porque se não fora 
redondo, não era globo. O mesmo epi- 
theto, repelido na mesma Oitava he 
hum grande defeito. As idéas sãs cla- 
ras,, a historia também he clara; mas 
ainda mais claramente se descobre a 
falta de facúndia em o Poeta. 

Não sei porque o Poeta attribue ao 
Cothurno, e não ao Soco o que a Nj ri- 
fa devia cantar, porque invocando Cal- 
liope:, como logo vai fazer, bem se via, 
que o quadro histórico, e profético dos 
Heroes Portuguezes que hia a traçar, 
não era matéria nem de Comedia, desi- 
gnada pelo Soco, nem de Tragedia, desi- 
gnada pelo Cothurno ; porqne a Trom- 
beta de Calliope não quer dizer senão 
a Epopéa , coiza muito diversa da Co- 
media , e da Tragedia. Esta he a se- 
gunda vez que o Poeta invoca o auxi- 
lio de Calliope ; esta Musa da Epopéa 
só lhe serve para os Episódios, deven- 
do servir para o Poema em geral , e 
para isto apparecer em seu principio, 
no qual se contentou , como se disse 
já na Censura do terceiro canto, com 
a invocação das mulheres de Lisboa ? 



Decimo Ca\yo 24i 

que isto se de;e entender , segundo- 
os seus Commentadores, pelo — E vós> 
Táqides minhas, — e he hum erro dei- 
xar para o accessorio o que devia ser 
para o principal. 

Na Oit. lo. a vem huma das costu- 
madas queixas com que o Poeta, (ainda 
que com razão ) fora de tempo se cos- 
tuma lastimar de seus infortúnios, e da 
pouca consideração em que o tiverão os 
Grandes, e os poderosos de seu tem- 
po, e eu nunca deixarei de culpar o 
orgulho de António Ferreira , que em 
suas Poesias não se lembrou deste 
grande homem , sendo ainda mais no- 
tável o esquecimento de EIRei D. Se- 
bastião , a quem elle tinha dedicado o 
seu Poema, quando levou comsigo pa- 
ra a Africa Luiz Pereira, devendo le- 
var Luiz de Camões ; porém console- 
se Luiz de Camões , que não he elle 
só quem soflre estes acintes da sorte, 
ou estas injustiças dos homens: peor, 
e muito peor pagou A Afonso II. Duque 
de Ferrara, ao Tasso, que não só o 
não remunerou por lhe dedicar a obra 
mais perfeita do engenho humano, que 
Tom. IL a 



242 Censura das Lusíadas 

he a Jerusalém, , mas abertamente o 
perseguio , metendo-o no Hospital dos 
doidos, e obrigando-o a peregrinar de 
Cidade em Cidade tão pobre, e tão 
miserável, que os Guardas-barreiras de 
Turim o não quizerão deixar entrar na 
Cidade, cuidando que era hum apés- 
tado , e hindo a pé , e coberto de tra- 
pos aSurrento sua Pátria, no Reino de 
Nápoles, mendigar humas sopas ahuma 
sua pobre irmã. Nunca o Mundo vio 
tanto mérito com tanta desventura! 
O canto de Sirena começa na Oi- 

s 

tava 12. a por Duarte Pacheco Pereira, 
depois enterrado em huma Taverna 
em Santarém. Não sei a razão porque 
não começa, como devia pelo primeiro 
Successor de Vasco da Gama, que em 
1500 se embarcou para a índia, levan- 
do huma Armada de treze velas. Deixa 
hum principio grande , e lança-se á 
época de Duarte Pacheco : 

„ E canta como lá se embarcaria 
„ Em Belém o remédio deste dano , 
„ Sem saber o que em si ao mar traria, 
,, O grão Pacheco, Achilles Lusitano." 

Muitos factos memoráveis, e muitas 



Decimo Canto. 243 

acções gloriosas , acontecerão , e tive- 
rao lugar antes de apparecer na índia 
Duarte Pacheco Pereira , que a ella 
passou Capitão de numa Náo da Es* 
quadra de Affonso de Albuquerque, e 
as maiores acções de Duarte Pacheco 
tiverão lugar no rnez de Abril de 1504 
desbaratando junto á Ilha Cambalão na 
foz do Rio de Cochim os pangaios do 
Samori , em que os nossos exagerados 
Historiadores fazem conduzir cincoenta 
mil homens contra cem Portuguezes. 
Cencedamos que forão grandes as proe- 
zas de Duarte Pacheco ; parece que 
devia a Sirena não deixar em silencio 
as outras, truncando o fio da Historia 
sem ao menos preparar o auditório pa^ 
ra o que hia contar : quiz cantar as- 
sim , e assim cantou. Andará acaso 
annexa á profissão da Musica a igno- 
rância da Grammatica? Assim parece. 
A quem se refere o — sentirão — des- 
te 5.° verso da Oitava? 

33 O pezo sentirão quando entraria. ,, 

Estes erros grammaticaes , como mil 
vezes tenho dito . deslustrão sobrema- 

a 2 



244 Censura das Lusíadas 

neira o Poeta , e ainda mais os contí- 
nuos erros de metro, porque ninguém 
se poderá accommodar com este verso 
da Oitava 13. a 



s> 



Desbaratará os Naires infernaes" 



O verbo — desbaratar — está aqui no 
futuro do indicativo, e não está no plus* 
quam perfeito , e sendo preciso hum 
accento agudo para designar o futuro, 
perde-se o metro , porque os accentos 
em taes e taes syllabas formão a har- 
monia, e no seu compasso, a certeza 
do verso. Não posso achar razão em 
chamar infernal ao homem que corre 
ern defensa da sua terra: — Os Naires 
infernaes ~ ; e tornão a vir os Naires 
na Oitava 14. a 

,, Fará que todo o Naire cm fira se mova , 
„ Que entre Calecut jaz" 

He insupportavel o verso da Oi- 
tava 18. a 

,, Mas com tudo , este só o fará confuso." 

Não he este só o errado, ou mal soan- 



Decimo Canto. 245 

te, logo na Oitava 21. a apparece este 
de que se arripiaráõ os ouvidos menos 
harmónicos. 

„ O grão poder de Dário estrúe , e rende." 

Até agora ainda não vi. nem encon- 
trei que o i de Dário não fosse longo , 
só em Luiz de Camões o achamos bre- 
ve, para lhe poupar a vergonha de 
hum verso errado. Nas Oitavas 23 , 
24 , e 25 deixarão passar os Consores 
antigos, e com elles os modernos, hu- 
ma atroz invectiva contra EIRei D. 
Manoel sem sabermos os motivos reaes, 
e verdadeiros porque Duarte Pacheco 
Pereira morreo pobre em Santarém , e 
foi enterrado em huma Taverna; eltum 
Monarca tão justo como EIRei D.Ma- 
noel não se devia criminar, e invecti- 
var sem huma causa manifesta , e uni- 
versalmente conhecida. 

,, Isto fazem os Reis cuja vontade , 

}> Manda mais qae a Justiça , e que a verdade." 

5 , Mas vingo-me, que os bens mal repartidos, 
„ Por quem só doces sombras apresenta , 
„ Se não os dão a Sábios cavalleiros. 



246 Censura das Lusíadas 

„ Dãoos logo a avarentos lisongeiros." 

Na Oitava 26.* não sei como se possa 
reduzir a harmonia métrica este verso: 

„ A Quiloa fértil áspero castigo." 

Parece que quanto mais o Poema em 
seu appendix vai chegando ao fim, me» 
nos cuidado tem o Poeta em o polir, 
emais frequentes são os descuidos; ve- 
ja-se na Oitava 37. a este verso de hum 
hiato prodigioso : 



a 



Qussi lhe roubará a famosa gloria' 



Huns cheios de hiatos , outros tão es- 
tirados, que não ha quem os siga com 
o ouvido para encontrar nelles aquella 
sustentada harmonia que he tão pró- 
pria do Poema E'pico, e nelle tão ne- 
cessária : 

5J De são Lourenço, e em tcdo o Sul se affamão." 

Assim termina a Oitava 39. a Porém o 
que mais me assombra em todo o Poe- 
ma, he o destempero da Oitava 40. a 



Decimo Caxto. 247 

He huma Serêa que canta, hum Nu* 
men do Paganismo em hum congresso 
de Nereidas presidido pela Deosa The- 
tis : mas a cantora , as companheiras , 
e a Presidente , todas a eito são feitas 
Catholicas Romanas por Luiz de Ca- 
mões, nas suas Lusíadas, pois em fim 
a Sirena cantando , e contando o mi- 
lagre visto (dizem os nossos Historia- 
dores) na tomada de Ormuz por Af- 
fonso de Albuquerque . que vem a ser 
as settas que despedião os Persas , e os 
Turcos , virarem-se no ar contra os 
mesmos que as atiravão , se desembes- 
ta com este edificante e enternecido 
Epifonema , como o Tantce molis erat : 

3i Contra quem as tirou, que Deos peleja 
,, Por quem estende a fé cia Medre Igreja." 

E isto na boca daquellas mesmas que 
se acabavão de prostituir aos marinhei- 
ros ! I ! Na o ofi ende isto as Leis da Poe- 
sia , diga esta quanto quizer , oíFende 
por certo a boa razão , que não pode 
tolerar estas incoherencias . ou não po- 
de deixar de escarnecer a inadvertência 
do Poeta , fazendo dizer as coizas a 



243 Censura das Lusíadas 

quem as não deve dizer, e a conserva- 
ção dos caracteres he o nrimeiro dever 
de hum Poeta Épico, e até d'hum Bu- 
cólico , porque hum Pastor não deve 
fallar como hum Doutor da Sorbona, 
ou como hum paralvilho de Café , ou f 
o que he mais ridiculo ainda , hum 
arquitector de alvitres , ou de planos. 

A necessidade da rima obriga e 
muito, mas não deve obrigar a tanto, 
que se chame a hum Reino inico , ain- 
da em cima de conquistado, porque se 
hade chamar rico o tributo que este Rei- 
no he obrigado a mandar ao conquista- 
dor, que talvez merecesse com muita 
justiça este titulo. Oitava 4!. a : 

,, Obrigação de dar o Reino inico, 
,,De pedras de Baharem tributo rico." 

O tratamento de Ulustrissimo e Illustris- 
sima hoje tão vulgar , e tão surrado , 
conviesse embora aos homens no tempo 
de Camões , ninguém o mereceo como 
ó grande Atíonso d' Albuquerque, e ago- 
ra seda com elle por injuriado qualquer 
Cavalheiro de Cima Douro, ou de Cima 
Côa, que a penas se contenta com hu- 



Decimo Canto. 249 

ma Excellencia para a Senhora sua mu- 
lher 3 mas o tratamento de lilustrissima 
para huma Ilha . . . he verdade que a Pra- 
gmática o não prohibe , mas só Luiz 
de Camões o áeo á de Goa na Oitava 
42 a : 

„ Toma a Ilha lilustrissima de Goa." 

L isto para lhe fazer corresponder o 
consoante boa em hum verso que o nào 
parece. 

. ,, A deixa, e a occasiáo espera boa." 

Vimos na Oitava 40. a feita Catholica 
Ramana huma das filhas do velho Né- 
reo , e ag-ora a admiraremos instruída 
na Folhinha de porta ou d'algibeira , 
sabendo muito bem que o dia 25 de 
Novembro he aquelie em que a Igreja 
reza da Virgem Martyr Santa Cathari- 
na. Ora as xXvnias do Oceano lidas , 
e instruídas no Martyrologio Romano í 
Isto so nas Lusíadas ! 






,, Xa luz qne sempre celebrada, e dina 
„ Será da Egypcia Santa Catharina ! ! " 



250 Censura das Lusíadas 

Não sei se isto seja abusar da paciên- 
cia dos leitores, se esquecer-se o Poeta 
da personagem que introduz a falJar na 
scena. Nada disto sei , mas o que vejo 
he. que existe isto na Oitava 44. a do 
Canto decimo das Lusíadas , ou no se- 
gundo Canto do seu additamento. Na 
Oitava 4ó. a vem Aífonso d'Albuque.ique 
com o seu tratamento de sobrescripto. 

j, Mais estancas cantara esta Sirena 

,, Em louvor do I ilustríssimo Albuquerque. 5 ' 

Porém depois de o louvar como mere- 
cia, ou não tanto como este politico , 
guerreiro , e extraordinário homem me- 
recia, o vai pôr de rastros sem com- 
paixão , publicando hum facto com que 
acinte deslustra a fama de tão grande 
Heroe. Assim o vemos na Oitava 46. a : 

j, Dar extremo suplicio pela culpa, 

}J Que a fraca humanidade, e amor desculpa." 

A ta! Sirena , e suas companheiras ad- 
vogâo a própria causa ; mas quem sé 
lembrar da alta dignidade de Afonso de 
Albuquerque . da sua natural severida- 
de , do seu poder como Governador da 






Decimo Ca::to. 251 

índia com o direito da vida , e da mor- 
te ; quem se lembrar que, dentro da mes- 
ma Náo em que mandava este grande 
homem , hum soldado ínfimo , natural 
de Alemquer (que não faz ao caso), se 
atrevera na mesma Camará do Gover- 
nador , e General, a corremper-ihe com 
violento estupro huma te ira donzella 
índia, que elle tinha salvado d' hum nau- 
frágio, e que muito estimava: talvez 
diira que foi muito bem enforcado o Pe- 
nhor Rui Dias , que assim se chama- 
va ; e a injuria feita á pessoa de Aflòn- 
so de Albuquerque, que acabava de 
conauistar Malaca, não se satisfazia em 
fazer cazar o soldado da guarnição da 
?>áo com a forçada índia. Se na Oitava 
4ff. a vem o exemplo de Alexandre, que 
cedeo Campaspe ao Pintor embasbaca- 
do , não he o mesmo o indolente Ale- 
xandre em algum accesso de embria- 
guez , e Aflònso de Albuquerque. Ale- 
xandre nâo era injuriado com a sensi- 
bilidade de Apelles , que não passou de 
pasmaceira, e a pessoa de AíTonso de 
Albuquerque era oífendida pelo atre- 
vimento do soldado. A pezar de pueril 



252 Censura das Lusíadas. 

ostentação de erudito, nem com o exem- 
plo da supposta clemência deCyro, que 
fez cazar Araspas com Panthéa que lhe 
dera a guardar, e do consentimento do 
pai deJudita furtada por Balduíno para 
cazar com ella, nada prova o Poeta con- 
tra Aííònso d' Albuquerque , que além 
de nâo ser para estas graças, estava 
em caso muito differente , e o desaforo 
do agressor merecia a ultima pena pe- 
lo lugar em que commetteo o delicto , 
e por isto não 

,,Póe na fama alva noda negra, e fea," 

como quer o Poeta , ou a Cantora mo- 
ralista. Continua a Sirena a cantar , e 
á louvar na Oitava 50. a Lopo Soares 
d' Albergaria, e Diogo Lopes de Sequei- 
ra; nisto não ha invenção Poética , mas 
a simples narração de factos quaes os 
conservão as Décadas de João de Bar- 
ros , com as costumadas incorrecções 
de estylo que tanto brádão per aquella 
lima de que nunca se deve enjoar hum 
bom Poeta, que lucra mais emendando, 
e polindo , que inventando ; e nestes 
factos onde não trabalha a imaginação 



Decimo Canto. 253 

em inventar , devia trabalhar a paciên- 
cia em corrigir. 

.,De seres de Candace, e Sabáninho" 

Oitava 52.\ e Oitava 53.*, 

j,Mais na Africa que cá terá provado." 

Este que cá prova que o Poeta compon- 
do isto na índia , se esquecia que fazia 
fallar liuma Nereida em huma Ilha no 
Oceano . e já muito remota do Indos- 
tão ; e quem diz cá parece que está 
naquelie lugar onde as coizas se execu- 
tao. Porque razão não tem advertido 
nisto os Commentadores ? Homens de 
tanto saber , e tanta erudição , porque 
o não forão também de alguma critica? 
Tudo atropeiía o espirito de partido, 
e de fanatismo ; assim como o mérito 
dos Homens se sustenta muitas vezes 
pela força de hum a facção, assim tam- 
bém se sustenta a fama. e a reputação 
dos Livros. Quem ler com a alma des-- 
empoeirada , e iivre de idéas antecipa- 
das , o peqoetuo commentario que fize- 
rão Beaumelle e Freron á Henriada de 
Voltaire , conhecerá que toda a Henria- 



254 Censura das Lusíadas 

da não he mais que hum a congerie de 
inepcias, erros, e incoherencias sem a 
mais ligeira cfiensa da verdade, e da 
justiça , e não poderá , por pouco que 
use do próprio raciocínio, attribuir a 
fama deste Poema senão á força de 
hum partido poderosíssimo. Delle nas- 
cem as multiplicadas e incessantes edi- 
ções, as estampas de Eisscn* ele. , as vi- 
nheías para todas as paginas mandadas 
executar pelos primeiros Abridores , ou 
Gravadores á custa de Frederico 2.% 
Rei da Prússia ; mas tudo isto nào im- 
pede o somno ao leitor imparcial, e a 
crença commum he obrigada entre tan- 
to a extasiar-se sem exame á vista des- 
ta supposta maravilha, e a subscrever 
aos ecos de tantos Pare^yristas , as in- 
venções de tantos Livreiros , e á teima, 
ou pertinácia de tantos Confrades do 
Filosofismo, que acinte querem immor- 
talisar o grande homem. À reposta que 
se deo a Peaumelle , e a Fréron , forão 
atrozes descomposturas, não se des- 
truio com razões o que elles escreverão, 
nào se respondeo ao que assizadamen- 
te criticarão , mas forão desenterrar 



Decimo Canto. 255 

seus antepassados, e como Fréron ti- 
nha sido Jesuíta , isto bastou para se 
provar com isto, que era hum ignoran- 
te , hum malévolo , hum sacrilego , que 
se attreveo a notar imperfeições no di- 
vino Voltaire. Só houve hum homem 
mais coberto de ignominias que Fréron; 
este homem sou eu , porque intentei 
emendar Camões : mas já que eu o não 
posso fazer, veja a Seita se pode emen- 
dar este verso da Oitava 54. a porque 
está errado : 

,, Governará ; e fará o ditoso Henrique.'* 

Vejão se podem livrar da baixeza este 
primeiro da Oitava 59.*: 

,,Mas com tudo, não nego que S. Paio ; *' 

ou de erro o sexto da mesma Oitava, 

j, No Malabar para que amedrontado." 

Grite quanto quizer, e vocifere a per- 
tinácia | amontoe sobre mim os vilipên- 
dios que quizer ; o verso sempre ficará 
errado. — Chegamos á Oitava 62. a , cu- 
jo primeiro e ultimo verso nada querem 
dizer : 



256 Censura das Lusíadas 

^Traz estes vem Noronha, cujo auspicio 
y> De Diu os Ilumes feros afugenta." 

Cujo auspicio , he o auspicio do qual ; 
como pôde o auspicio afugentar , sen- 
do , como he , o nominativo desta Ora- 
ção ? 

,, De medo o Koxo mar fará amarello." 

Que hum homem enfie de medo, e de 
pavor, pode ser; mas que huma coiza 
inanimada, que por accidente he roxa, 
au vermelha, como he pela natureza do 
seu fundo o Mar Eriíhrêo, se faca ama- 
relia de medo , que he huma aífeição 
moral , isto só o diz Luiz de Camões o 
Principe dos Poetas ! Vamos a outra in- 
coherencia ainda maior , e huma das 
maiores do Poema. Oitava 63. a : 

j, Das mãos do teu Estevão vem tomar 
5 , As rédeas hum, que já será illustrado 
„ No Brazil" 

O termo — teu Estevão — denota coiza 
familiar^, e conhecida do Gama, assim 
como ordinariamente se falia quando se 
trata de hum filho , de hum irmão , de 
hum cunhado , e até de hum creado. 
O teu Estevão? Que ídéa ha cie fazer 



Decimo Canto. 257 

Vasco da Gama deste teu Estevão, se 
ainda não existe na sua família em Sil- 
ves, donde era natural, D, Estevão da 
Gama , que ha de tantos, e tantos annos 
depois governar a índia ? O Brazil ain- 
da he peor , e mais incoherente , por 
mais que supponha a Sirena cantora 
com o dom de profecia. Que idéa bade 
fazer Vasco da Gama da palavra Brazil ? 
Depois, em 1500, he que foi tocada aquel- 
la porção do novo Mundo por Pedro Al- 
vares Cabral. Deo-lhe o nome de Ter- 
ra de Santa Cruz , e assim se ficou 
chamando muitos annos ; depois da in- 
venção, ou achado do páo Brazil, se 
começou a chamar deste nome. Disses- 
se-lho embora no tom proiectico , como 
coiza que devia acontecer, mas designai- 
lo como presente para ficarem os ou- 
vintes em jejum , só nas Lusíadas ! Se- 
ja embora agradável a variedade , haja 
versos nas Oitavas , e quasi sempre os 
ha , de terminação aeuda , mas versos 
exdruxulos , raras ve; es em no^sa Oita- 
va rima se virão. O verso espondaico de 
Virgilio zz Teucra agmina circumspexit 
he huma vez só ; mas 
Tom, II r 



2,5a Censura das Lusíadas 

ti A este o Rei Cambaico soberbissimo." 

não sei que metro tenha; e isto para 
que? para chamar dois forçados superla- 
tivos, porque n'outros não tinha rimas: 
— Poderosíssimo , esforçadíssimo. — Não 
sei como se diga em prosa o que se diz 
no primeiro verso da Oitava 65.*: 

„ Destruirá a Cidade ftepelim." 

Também não sei que verso seja o sex- 
to da Oitava 66. a : 

„ Baticalá que vira já BeadaH." 

Na Oitava 72 confessará a seita Camo- 
niana que este verso he da classe dos 
aleijados : 

,,Rei de Cambaia, e a vista lhe amedrenta." 

Acabou-se na Oitava 73.° o longo can- 
to da Sirena ? coiza bem imprópria ; 
porque ainda que seja huma manifesta 
imitação de Virgilio, que introduz na 
sala do banquete, que Dido preparou 
ao velhaco Eneas , o Soprano Iopas , não* 
repetio a canção, disse só qual tinha si- 
do a matéria do Canto : Lurueqm lavo- 



Decimo Canto 259 

re* , as fases da Lua : mas em fim as li* 
cenças nas Lusíadas sào mais que Poé- 
ticas. Acabada a merenda, e musica, trata 
a Deosa The tis de ensinar Astronomia, 
e Geografia a Vasco da Gama só, não 
se devendo privar desta instrucção os 
Pilotos da armada , a quem era mais ne- 
cessária em razão do seu officio. Isto 
era de noite , porque a sesta passou-se em 
prazeres, o resto da tarde no jantar, e 
musica, e á noite vai de passeio The- 
tis até ao cume de huma montanha don- 
de ha de mostrar ao Gama suspenso no 
ar hum globo de vidro illuminado que 
he o mundo inteiro. Oiçamos Thetis a 
fallar na Oitava 76. a : 

} , Faz-te mercê, Barão, a Sapiência 
„ Suprema de com os olhos corporaes 
,, Veres o que não pôde a vã Sciencia 
„ Dos errados, e míseros mortaes.* 1 

Este he o exórdio da grande lição, e 
nas primeiras palavras , vem a primei- 
ra , e não pequena mentira : 

,, Veres o que não pôde a vã Sciencia 
,,Dos errados, e míseros mortaes." 

Não lhe disse coiza que os homens não 
tivessem feito \ e não tivessem dito ; e 

R 2 



260 Censura das Lusíadas 

nenhuma coiza lhe mostrou , que até 
alli pelos princípios da Sciencia se não 
tivesse conhecido; porque era sabido, 
e bem sabido , o systema Astronómico 
de Ptolomeo, e nada põe na boca de 
Thetis o Príncipe dos Poetas que elle 
não tivesse lido talvez no Tratado da Es- 
fera composto por João de Sacrobosco, pu- 
blicado neste Reino, e muito bem ex- 
plicado por Martim de Bohemia ; as no- 
ticias Geográficas , erão tiradas de Plí- 
nio, e de Pomponio Mella, e se algu- 
ma coiza mais moderna apparece , tam- 
bém já tinhão apparecido as Décadas 
de João de Barros, que eu não admiro 
tanto como Historiador, mas como hum 
exacto, e excellente Cosmógrafo da Ásia. 
Logo os errados e rniseros mortaes sabião 
muito bem tudo quanto a Doutora The- 
tis hia mostrar, e ensinar a Vasco da 
Gama , tudo quanto Vasco da Gama hia 
ver fechado na redoma luminosa que se 
lhe mostrava suspensa no ar. Oitava 77. a :. 

„ De modo que o seu centro está evidente 
)3 Como a sua superfície claramente. 

Como se poderia dizer isto em prosa? 
De hum objecto fysico se não diz que 



Decimo Canto. 261 

está evidente \ por descoberto ; a evi- 
dencia he o resultado da demonstração , 
esta forma-se com os argumentos que 
não tem emprego senão moral. Deixe- 
mos estas subtilezas : diga , e ensine 
Thetis coizas novas , mas não as ensi- 
ne , ou as diga erradamente ; (que não 
está bem a hum a divindade , ) como o 
diz na Oitava 79. a : 

„ Qual em fim o Archetypo, que o creou." 

Em quanto á frase ha erro , e palmar , 
tão impróprio de tão grande Poeta ; e 
senão , desmintão-me os seus idólatras. 
Archetypo não heCreador, não hehum 
agente , Archetypo , he a idéa , o mo- 
dello , o exemplar que se propõe a si 
mesmo , o agente , ou ente creador pa- 
ra produzir alguma coiza; e attribuir a 
acção ao que he huma idéa da coiza exe- 
cutada, he hum erro. huma ignorância 
infantil de que ninguém absolverá o 
Principe dos Poetas. Sem que Thetis, 
e Luiz de Camões soubessem o que di- 
zião , affirmati vãmente fazem de Deos o 
iugar extrinseco do Mundo, e o con- 



262 Censura das Lusíadas 

fundem com o espaço , labyrinthò Meta* 
fysieo, que leva ao labyrinthò Espinosis- 
tico; Oitava 80. a : 

5 , Quem cerca em derredor este rotundo 

3 , Globo, e a sua superfície tão limada, 

,, He Deosj mas o que he Deos ninguém o entende" 

Aqui se vê elle confundido com o es- 
paço infinito, que he como dissemos o 
lugar extrínseco do Mundo, e como o 
espaço não he o vácuo absoluto , ou o 
nada, de que se não pode formar idéa, 
porque vem a ser a existência negativa, 
segue-se que temos aqui huma subs- 
tancia infinitamente extensa em conta- 
cto com a limada superfície do Mundo , 
e este he o erro de Espinosa , que não 
conhecia mais que huma substancia in- 
finitamente extensa, dotada de diversas 
modificações. Mas esta questão já não 
he para este século frívolo. 

Deixemos o atrevido epitheto de 
vil , que se dá na Oitava 81. a ao en- 
tendimento humano , pois nunca julguei 
que a medida de hum verso que se po- 
dia fazer de outra sorte o reduzisse a 
tanto vilipendio, 



Decimo Canto. 263 

3t Que a vista cega , e a mente vil também. " 

Antes do quadro do Apostolo S. Tho- 
mé , e do Estreito de Magalhães , já 
assim chamado do tempo do Gama \ 
chegamos ao maior despropósito das 
Lusiadas . que vem a ser a Oitava 82.* 
A Deosa Thetis falia do Empyreo , da 
gloria dos Bemaventurados , principal 
Dogma da Religião Catholica, e diz: 

,, Aqui só verdadeiros gloriosos 

f) Divos estão 3 porque eu, Saturno , e Jano t 

,, Júpiter , Juno , somos fabulosos , 

,, Fingidos de mortal, e cego engano. " 

Pois Thetis está não só fallando, mas 
ensinando Vasco da Gama . e discor- 
rendo na sua presença sobre matérias 
Metafysicas , e Theologicas , e diz , e 
affirma , que he hum Ente ideal ? fin- 
gido , fabuloso, não existente, parto 
apenas do erro , da ignorância . e da 
cegueira dos mortaes? Pois o que não 
existe \ pode fallar . pode discorrer . po- 
de tornar-se visível , e escutavel ? Ha 
destempero assim ? Poucas vezes uso 
do Dilemma . porém aqui he in dispensa- 



264 Censura das Lusíadas 

:vel , e cito a inteira Seita Camonia- 
na, trazendo cada hum dos Confrades 
na mão amais garrida edição - das Lu- 
siadas ; mandem-nas e-mbora estampar 
a Bodoni i e venhão cá ; escolhào hu- 
ma destas duas coizas : Ou Thetis he 
huma Deosa do Paganismo , e hum En- 
te creado pela Mythologia , ou he a 
Sabedoria Divina, como nos dizem al- 
guns dos Commentadores , e os moder- 
nos Apologistas ? Escoihâo. Se he hum 
Ente Mythologico . ella diz que não 
existe , e quem não existe não pode 
fallar. Se he a Sabedoria Divina , en- 
tão mente a Sabedoria Divina , pois es- 
tá dizendo que não existe , que he fa- 
bulosa , e que não he mais que huma 
ficção do cego entendimento dos ho- 
mens ! Isto não tem resposta , nem sei 
que sahida lhe darão os fanáticos per- 
tinacíssimos : o recurso das descompos- 
turas nunca foi huma resposta , por- 
que hum argumento não he hum ho- 
mem , he hum argumento , ainda que 
o homem se descomponha , o argumen- 
to fica de pé , se com outro se não 
combate. 



Decimo Canto. 265 

Torna Thetis a declarar que aimas 
bem aventuradas morão no Ceo Empy- 
reo; a estas almas chama ella inundas. 

„ Debaixo deste círculo onde as mundas 
„ Almas divinas gozão. " 

Oitava 85.*:. bem escusado era este La- 
tim , onde ha tantas palavras Por tu- 
guezas que exprimao a mesma idéa. 
Abaixo deste, está outro Ceo, 

„ Que não se enxerga, e he o Mobil primeiro. " 

E não será este ainda o ultimo verso 
aleijado. Na Oitava 87.* começão os 

— olhas que se repetem pelas se- 
guintes Oitavas até ao numero de 29 

— olhas, - — coiza no ultimo extremo no- 
jenta, e insupportavel. Na Oitava 88.* 
no quarto — olha — vem este verso ': 

„ Olha o Cysne morrendo , que suspira* " 

Trata-se aqui das Constellaçôes celes- 
tes ; então a que se chama Cysne , es- 
tá morrendo , ou he o Cysne que mor- 
re, e suspira? Na Oitava 91.* em dois 
versos ha quatro vezes a palavra — Va- 
ria 



266 Censura das Lusíadas 

„ Farias Naçóes que mandão vários Reis, 
. „ Vários costumes seus, e varias Leis. " 

Também o Gama via os costumes . e 
as Leis destes povos , que a Geógrafa 
The tis lhe mostrava no Globo de vi- 
dro 9 conforme a sua posição geográfi- 
ca ? Intoleráveis destemperos ! ! Na Oi- 
tava 93. a se acha hum verso . que creio 
lho não chamarão os apaixonados : 

,, Padecerá pela fé santa sua. " 

Não vai longe deste o da Oitava 96 : 

„ Ha de ser Dom Christovão o nome seu. " 

Esta continuada negligencia lie into- 
lerável : na Oitava 97. a se lê o seguin- 
te : 

,, Que divide a Ásia da Africa, e as melhores. 

Só as orelhas de Midas acharão nista 
harmonia métrica : além da falta de me- 
tro , não ha mais do que baixezas de 
expressões , e se ha estylo a que se 
deva chamar, não ténue, mas intimo, 
rasteiro , e plebeo , por certo he este r 
Oitava 97; 



Decimo Caxto. 26? 

_,, Povoações , que parte Aírrca tem , 
,, Maçuá são, Arquico, e Suanquem. " 

Que poesia , que metro se acha neste 
verso da Oitava 10 7? 

„ Para o Sul até ao Cibo Comori. " 

Chegámos ao fim com esie lons;o com- 
mentario, mas indispensável, e provo- 
cado por injúrias > e injus liças , que era 
preciso rebater de huma vez , levan- 
tando hum eterno troféo á verdade so- 
bre as ruínas da maledicência , e da 
ignorância , áqu elle lugar em que eu 
esperarei eternamente pela resposta. 
Eis-aqui paríe da Oitava 100 : 

,, Olha que de Narsinga o Senhorio 

„ Tem as relíquias santas , e benditas 

,, Do corpo de Thomé , Beirão sagrado , 

,, Que a Jesu Christo , teve a mão no lado. " 

A Deosa The tis , hum Numen Pagão, 
hum Ente Mythologico , fallando dos 
mysterios da Religião Christà , vista 
em os passos do Sagrado Evangelho , 
conhecedora da incredulidade , e dos po- 
derosos motivos da crença de S. Tho- 



268 Censura das Lusíadas 

mé ! Isto he impropriissimo , monstruo- 
so , e inverosimil ; e muito mais fazer 
annunciar por Thetis a vida, e mar- 
tyrio do Santo Apostolo. O que exce- 
de todos os apuros do ridiculo , he a 
enternecida apóstrofe que Thetis. Nu- 
men do Paganismo, faz ao Apostolo, 
depois de contar ao Gama como fora 
morto de huma lançada , na Oitava 
118; eu a devo transcrever por intei- 
ro: 

„, Chora ráô-te Tho mé o Gange , e o Indo^ 
,, Chorou- te toda a terra que pizaste, 
„ Mais te chorão as almas que vestindo, 
?y Se hião na Santa fé que lhe ensinaste : 
,, Mas os Anjos do Ceo cantando , e rindo , 
„ Te recebera na gloria , que ganhaste ; 
„ Pedimos-te que a Deos ajuda peças , 
- „ Com que os teus Lusitanos favoreças. " 

E poder-se-hia negar S. Thomé a tâo 
instante súpplica da Deosa Thetis ? Era 
justo que assim como a Deosa Thetis 
empenhava o seu valimento para com 
S. Thomé a favor dos Portuguezes , 
animada ( Thetis ) de hum verdadeiro 
zelo pela gloria , e dilatação do Evan^ 
gelho 9 reprehendesse a incúria , e pre- 



DecixMO Canto. 269 

guiça dos Missionários. Eu nato sei J á 
vista destes despropósitos, se me com- 
padeça , se me ria da inconsideração do 
Poeta. Esta Oitava 119 ainda he mais 
ridicula que a precedente , não pelo 
que em si contém , que he sacratissi- 
mo , mas pela Personagem que se in- 
troduz a fallar em scena. Falia com os 
Missionários : 

,, E vós outros , que os nomes usurpais 
,, De mandados de Deos como Thomé, 
>9 Dizei , se sois mandados, como estais, 
,,, Sem hirdes a pregar a Santa fé ? 
,, Olhai que se sois sal , e vos danais , 
>y Na Pátria onde Profeta ninguém he , 
}i Com que se salgarão em nossos dias, 
s , (Infiéis deixo) tantas heresias > '* 

Não sei se isto he Entremez , se he 
Epopéa ! A Deosa Thetis zelosa na 
extirpação das heresias ! He esta a lin- 
guagem de que deve usar Thetis fat- 
iando com seu terceiro marido , pois 
casou com Vasco da Gama depois de 
estar casada com o Oceano, e depois 
com Peleo de quem houve Achilles? 
Esta extravagante Thetis , tão Chris- 
tã , tão zelosa da dilatação da Fé , po- 



270 Censura das Lusíadas 

dia na verdade omittir na Oitava 122 
hum a indecente circunstancia na des- 
eripção que faz do Reino de Pegii : 

J} Aqní soante arame po instrumento 
,, Da geração costumão, o que usarão 
>, Por manha da Rainha, que inventando 
,, Tal uso, deitou fora o error nefando. " 

Tempo he já de Analisarmos tão lon- 
go , e áspero trabalho ; eu o devera 
emprehender com outra miudeza , as- 
sim o pedia a razão , mas a necessida- 
de mais imperiosa o abrevia , eu o re- 
mato com hum erro crasso do Principe 
dos Poetas , commettendo o mais pal- 
pável, ou o mais ridículo anacronismo, 
Falia a Deosa Thetis do Estreito de 
Magalhães na ultima ponta austral da 
America , ainda não descoberta em 1493 
em que ouvimos fallar a Deosa Thetis, 
e sabendo nós quando Fernando de 
Magalhães achou o estreito a que deo , 
e ainda conserva , o seu nome \ diz as- 
sim : Oitava 141. a : 

,, E mais avante o Estreito , que se arrêa 
,, Com o nome delle agora " (em 14<)8) 

A pervicacia 7 a indomável estupidez 



Decimo Canto. 271 

dos idolatras de Camões , não deixará 
de confessar que he isto hum erro , e 
se he . como evidentemente se mostra , 
hum erro , ha ao menos hum erro que 
emendar em Camões , e não he hum 
sacrilégio emendar . ou querer emen- 
dar Camões. Está provada , e demons- 
trada a menor do Syllogismo. 

Acaba-se o Poema , e o seu addi- 
tamento na Oitava 144. a com estes qua- 
tro versos : 

j, Entrarão pela fóz do Tejo ameno , 
3 , E á sua Pátria, e Rei temido, e am3do, 
,, O premio, e gloria dão, porque mandou, 
„ E com titules novos se illustrou. " 

As treze Oitavas que se seguem nada 
tem com o Poema , porque . ou inve- 
ctivâo os Grandes , ou se dirigem a 
El Rei D. Sebastião. Eu devo levantar 
a mao da taboa com este cartel de de- 
safio , que a minha honra deve fazer 
aos meus implacáveis inimigos : Com so- 
lidas razões ninguém me respondeiá. 



F I M. 



Censura 



ÍNDICE 

Do segundo Volume. 



do Canto VI. 


Pa2f. 3 


do Canto VIL 


61 


do Canto VIII. 


111 


do Canto IX. 


175 


do Canto X. 


232 



N. B. Como a Dissertação promet- 
tida a pag. 31 do I. Tomo desta Cen- 
sura , faria mui volumoso o segundo , 
sahirá impressa separadamente a seu 
tempo.